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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 13 · Lira dos Vinte Anos

Na minha terra

13 de 85 ≈ 4 min de leitura

Na minha terra

Laisse-toi donc aimer! Oh! l'amour c'est la vie!

C'est tout ce qu'on regrette et tout ce qu'on envie,

Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner!

..............................................

La beauté c'est le front, l'amour c'est la couronne:

Laisse-toi couronner!

V. HUGO

Amo o vento da noite sussurrante

A tremer nos pinheiros

E a cantiga do pobre caminhante

No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola

No tardio verão,

E a estrada que além se desenrola

No véu da escuridão;

A restinga d'areia onde rebenta

O oceano a bramir,

Onde a lua na praia macilenta

Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso

Do amanhecer na serra,

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio

E a névoa que desceu,

Como véu de donzela em branco seio,

As estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia

Que beija o mar do sul,

Onde eterno perfume a flor desmaia

E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam

Nas tardes de verão

E os suspiros nos lábios incendeiam

E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula

A fada dos amores,

Onde a mangueira ao vento que tremula

Sacode as brancas flores...

E é saudoso viver nessa dormência

Do lânguido sentir,

Nos enganos suaves da existência

Sentindo-se dormir...

Mais formosa não é, não doire embora

O verão tropical

Com seus rubores... a alvacenta aurora

Da montanha natal...

Nem tão doirada se levante a lua

Pela noite do céu,

Mas venha triste, pensativa e nua

Do prateado véu...

Que me importa? se as tardes purpurinas

E as auroras dali

Não deram luz às diáfanas cortinas

Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio

E perfuma-se a flor,

Que Deus abriu no peito do poeta,

Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,

Inda pálida a vida

Como o sono inocente da donzela

No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves

São da noite os amores,

Não tem mais fogo o cântico das aves

Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa

Pela encosta bravia

Na laranjeira em flor toda orvalhosa

De aroma se inebria...

No luar junto à sombra recendente

De um arvoredo em flor,

Que saudades e amor que influi na mente

Da montanha o frescor!

E quando, à noite no luar saudoso

Minha pálida amante

Ergue seus olhos úmidos de gozo

E o lábio palpitante...

Cheia da argêntea luz do firmamento,

Orando por seu Deus,

Então... eu curvo a fronte ao sentimento

Sobre os joelhos seus...

E quando sua voz entre harmonias

Sufoca-se de amor

E dobra a fronte bela de magias

Como pálida flor...

E a alma pura nos seus olhos brilha

Em desmaiado véu,

Como de um anjo na cheirosa trilha

Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma

Vem as folhas tremer,

E a floresta saudosa se perfuma

Da noite no morrer...

E eu amo as flores e o doce ar mimoso

Do amanhecer da serra

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu da minha terra!

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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