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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 29 · Lira dos Vinte Anos

Saudades

29 de 85 ≈ 3 min de leitura

Saudades

’Tis vain to struggle -- let me perish young!

Byron .

Foi por ti que n’um sonho de ventura

A flôr da mocidade consumi,

E ás primaveras disse adeus tão cedo

E na idade do amor envelheci!

Vinte annos! derramei-os gota a gota

N’um abismo de dor e esquecimento...

De fogosas visões nutri meu peito...

Vinte annos!... não vivi um só momento!

Comtudo, no passado uma esperança

Tanto amor e ventura promettia...

E uma virgem tão doce, tão divina

Nos sonhos junto a mim adormecia!...

·

Quando eu lia com ella -- e no romance

Suspirava melhor ardente nota,

E Jocelyn sonhava com Laurence

Ou Werther se morria por Carlota,

Eu sentia a tremer, a transluzir-lhe

Nos olhos negros a alma innocentinha,

E uma furtiva lagrima rolando

Da face della humedecer a minha!

E quantas vezes o luar tardio

Não viu nossos amores innocentes?

Não embalou-se da morena virgem

No suspirar, nos canticos ardentes?

E quantas vezes não dormi sonhando

Eterno amor, eternas as venturas,

E que o céu ia abrir-se, e entre os anjos

Eu ia me acordar em noites puras?

Foi esse o amor primeiro -- requeimou-me

As arterias febris de juventude,

Acordou-me dos sonhos da existencia

Na harmonia primeira do alaúde!

·

Meu Deus! e quantas eu amei!... Comtudo

Das noites voluptuosas da existencia

Só restão-me saudades dessas horas

Que illuminou tua alma d’innocencia!

Foram trez noites só... três noites bellas

De lua e de verão, no val saudoso...

Que eu pensava existir... sentindo o peito

Sobre teu coração morrer de gozo!

E por trez noites padeci trez annos,

Na vida cheia de saudade infinda...

Trez annos de esperança e de martyrio...

Trez annos de soffrer -- e espero ainda!

A ti se erguêrão meus doridos versos,

Reflexos sem calor de um sol intenso:

Votei-os á imagem dos amores

P’ra velal-a nos sonhos como incenso!

Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,

Tantas noites de febre e d’esperança!

Mas hoje o coração desbota, esfria,

E do meu peito no tumulo descansa!

Pallida sombra dos amores santos!

Passa, quando eu morrer, no meu jazigo,

Ajoelha ao luar e canta um pouco,

E lá na morte eu sonharei comtigo!

12 de septembro, 1851

Esta poesia foi feita em dia dos annos do autor, no anno antecedente ao da sua morte, como se póde vêr pela data.

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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