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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 14 · Lira dos Vinte Anos

Italia

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Italia

Ao meu amigo o Conde de Fé

Veder Napoli e poi morir.

Lá na terra da vida e dos amores

Eu podia viver inda um momento...

Adormecer ao sol da primavera

Sobre o colo das virgens de Sorrento !

Eu podia viver -- e porventura

Nos luares do amor amar a vida,

Dilatar-se minh'alma como o seio

Do pálido Romeu na despedida!

Eu podia na sombra dos amores

Tremer num beijo o coração sedento...

Nos seios da donzela delirante

Eu podia viver inda um momento!

Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos

Não mentia o reflexo da ventura,

E se Deus me fadou nesta existência

Um instante de enlevo e de ternura...

Lá entre os laranjais, entre os loureiros,

Lá onde a noite seu aroma espalha,

Nas longas praias onde o mar suspira

Minh'alma exalarei no céu da Itália!

Ver a Itália e morrer!... Entre meus sonhos

Eu vejo-a de volúpia adormecida...

Nas tardes vaporentas se perfuma

E dorme, à noite, na ilusão da vida!

E, se eu devo expirar nos meus amores,

Nuns olhos de mulher amor bebendo,

Seja aos pés da morena Italiana,

Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.

Lá na terra da vida e dos amores

Eu podia viver inda um momento,

Adormecer ao sol da primavera

Sobre o colo das virgens de Sorrento!

II

A Itália! sempre a Itália delirante!

E os ardentes saraus, e as noites belas!

A Itália do prazer, do amor insano,

Do sonho fervoroso das donzelas!

E a gôndola sombria resvalando

Cheia de amor, de cânticos e flores...

E a vaga que suspira à meia-noite

Embalando o mistério dos amores!

Ama-te o sol, ó terra da harmonia,

Do levante na brisa te perfumas:

Nas praias de ventura e primavera

Vai o mar estender seu véu d'escumas!

Vai a lua sedenta e vagabunda

O teu berço banhar na luz saudosa,

As tuas noites estrelar de sonhos

E beijar-te na fronte vaporosa!

Pátria do meu amor! terra das glórias

Que o gênio consagrou, que sonha o povo...

Agora que murcharam teus loureiros

Fora doce em teu seio amar de novo...

Amar tuas montanhas e as torrentes

E esse mar onde bóia alcion dormindo,

Onde as ilhas se azulam no ocidente,

Como nuvens à tarde se esvaindo...

Aonde à noite o pescador moreno

Pela baía no batel se escoa...

E murmurando, nas canções de Armida,

Treme aos fogos errantes da canoa...

Onde amou Rafael, onde sonhava

No seio ardente da mulher divina,

E talvez desmaiou no teu perfume

E suspirou com ele a Fornarina...

E juntos, ao luar, num beijo errante

Desfolhavam os sonhos da ventura

E bebiam

na lua e no silêncio

Os eflúvios de tua formosura!

Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos

A promessa do amor me não mentia,

Concede um pouco ao infeliz poeta

Uma hora da ilusão que o embebia!

Concede ao sonhador, que tão-somente

Entre delírios palpitou d'enleio,

Numa hora de paixão e de harmonia

Dessa Itália do amor morrer no seio!

Oh! na terra da vida e dos amores

Eu podia sonhar inda um momento,

Nos seios da donzela delirante

Apertar o meu peito macilento

Maio, 1851. -- S. Paulo

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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