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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 77 · Lira dos Vinte Anos

Sombra de D. Juan

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Sombra de D. Juan

A dream that was not at all a dream.

LORD BYRON , Darkness

Cerraste enfim as pálpebras sombrias!...

E a fronte esverdeou da morte à sombra,

Como lâmpada exausta!

E agora?... no silêncio do sepulcro

Sonhas o amor... os seios de alabastro

Das lânguidas amantes?

E Haidéia, a virgem, pela praia errando,

Aos murmúrios do mar que lhe suspira

Com incógnito desejo

Te sussurra delícias vaporosas...

E o formosoestrangeiro adormecido

Entrebeija tremendo?

Ou a pálida fronte libertina

Relembra a tez, o talhe voluptuoso

Da oriental seminua?

Ou o vento da noite em teus cabelos

Sussurra e lembra do passado as nódoas

No túmulo sem letras?

Ergue-te, libertino! eu não te acordo

Para que a orgia te avermelhe a face

Que a morte amarelou...

Nem para jogo e noites delirantes,

E do ouro a febre e da perdida os lábios

E a convulsão noturna!

Não, ó belo Espanhol! Venho sentar-me

À borda do teu leito, porque a febre

Minha insônia devora...

Porque não durmo quando o sonho passa

E do passado o manto profanado

Me roça pela face!

Quero na sombra conversar contigo,

Quero me digas tuas noites breves,

As febres e as donzelas

Que no fogo do viver murchaste ao peito!

Ergue-te um pouco da mortalha branca,

Acorda, Don Juan!

Contigo velarei: do teu sudário

Nas dobras negras deporei a fronte,

Como um colo de mãe...

E como leviano peregrino

Da vida as águas saudarei sorrindo

Na extrema do infinito!

E quando a ironia regelar-se

E a morte me azular os lábios frios

E o peito emudecer...

No vinho queimador, no golo extremo,

Num riso... à vida brindarei zombando

E dormirei contigo!

II

Mas não: não veio na mortalha envolto

Don Juan, seminu, com rir descrido,

Zombando do passado,

Só além... onde as folhas alvejavam

Ao luar que banhava o cemitério,

Vi um vulto na sombra.

Cantava: ao peito o bandolim saudoso

Apertava, qual nu e perfumado

A Madona seu filho;

E a voz do bandolim se repassava...

Mais languidez bebia ressoando

No cavernoso peito.

Do sombrero despiu a fronte pálida,

Ergueu à lua a palidez do rosto

Que lágrimas enchiam...

Cantava: eu o escutei... amei-lhe o canto,

Com ele suspirei, chorei com ele:

-- O vulto era Don Juan!

III

A CANÇÂO DE DON JUAN

"Ó faces morenas! ó lábios de flor!

Ouvi-me a guitarra que trina louçã,

Vos tragou meu peito, meus beijos de amor

Ó lábios de flor,

Eu sou Don Juan!

"Nas brisas da noite, no frouxo luar,

Nos beijos do vento, na fresca manhã

Dizei-me: não vistes, num sonho passar,

Ao frouxo luar,

Febril Don Juan?

"Acordem, acordem, ó minhas donzelas,

A brisa nas águas lateja de afã!

Meus lábios têm fogo e as noites são belas

Ó minhas donzelas,

Eu sou Don Juan!

"Ai! nunca sentistes o amor d'espanhol!

Nos lábios mimosos de flor de romã

Os beijos que queimam no fogo do sol!

Eu sou o espanhol:

Eu sou Don Juan!

"Que amor, que sonhos no febril passado!

Que tantas ilusões no amor ardente!

E que pálidas faces de donzela

Que por mim desmaiaram docemente!

"Eu era o vendaval que às flores puras

Do amor nas manhãs o lábio abria!

Se murchei-as depois... é que espedaça

As flores da montanha a ventania!

"E tão belas, meu Deus! as níveas pérolas

Mergulhei-as no lodo uma por uma,

De meus sonhos de amor nada me resta!

Em negras ondas só vermelha escuma!

"Anjos que desflorei! que desmaiados

Na torrente lancei do lupanar!

Crianças que dormiam no meu peito

E acordaram da mágoa ao soluçar!

"E não tremem as folhas no sussurro,

E as almas não palpitam-se de afã,

Quando entre a chuva rebuçado passa

Saciado de beijos Don Juan?"

IV

Como virgem que sente esmorecer

Num hálito de amor a vida bela,

Que desmaia, que treme...

Como virgem nas lentas agonias

Os seus olhos azuis aos céus erguendo

Co'as mãos níveas no seio...

Pressentindo que o sangue lhe resfria

E que nas faces pálidas a beija

O anjo da agonia...

Exala ainda o canto harmonioso...

Casuarina pendida onde sussurra

O anoitecer da vida...

Assim nos lábios e nas cordas meigas

Do palpitante bandolim a mágoa

Gemia como o vento...

Como o cisne que bóia, que se perde...

Na lagoa da morte geme ainda

O cântico saudoso!

Mas depois no silêncio uma risada

Convulsiva arquejou... rompeu as cordas

Das ternas assonias,

Rompeu-as e sem dó... e noutras fibras

Corria os dedos descuidoso e frio

Salpicando-as d'escárnio...

V

"Os homens semelham as modas de um dia,

E velha e passada

A roupa manchada...

Porém quem diria

Que é moda de um dia,

Que é velho Don Juan?!

"Os anos que passem nos negros cabelos

Branqueiem de neve

As c'roas que teve!

Dizei, anjos belos

De negros cabelos,

Se é velho Don Juan!

"E quando no seio das trêmulas belas

De noite suspira

E nuta e delira...

Que digam pois elas

As trêmulas belas

Se é velho Don Juan!

"Que o diga a sultana, a violenta espanhola,

A loira alemã

E grega louçã...

Que o diga a espanhola

Que a noite consola...

Se é velho Don Juan!

"...........................................................

............................................................."

VI

Era longa a canção... Cantou; e o vento

Nos ciprestes com ele esmorecia!

Pendeu a fronte, os lábios

Emudeceram... como cala o vento

Do trópico na podre calmaria...

Cismava Don Juan.

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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