Leia agora
Lira dos Vinte Anos

Universo da obra

Lira dos Vinte Anos

Capítulo 21 · Lira dos Vinte Anos

A harmonia

21 de 85 ≈ 4 min de leitura

A harmonia

Meu Deus! se às vezes, na passada vida,

Eu tive sensações que emudeciam

Essa descrença que me dói na vida

E, como orvalho que a manhã vapora,

Em seus raios de luz a Deus me erguiam

Foi quando às vezes a modinha doce

Ao sol de minha terra me embalava

E quando as árias de Bellini pálido

Em lábios de Italiana estremeciam!

Ó santa Malibran! fora tão doce

Pelas noites suaves do silêncio

Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,

Na agonia de um beijo, ouvir gemendo

Entre meus sonhos tua voz divina!

Ó Paganini! quando moribundo

Inda a rabeca ao peito comprimias,

Se o hálito de Deus, essa alma d'anjo

Que das fibras do peito cavernoso

Arquejava nas cordas entornando

Murmúrios d'esperança e de ventura,

Se a alma de teu viver roçou passando

Nalgum lábio sedento de poesia,

Numa alma de mulher adormecida,

Se algum seio tremeu ao concebê-lo...

Esse alento de vida e de futuro

-- Foi o teu seio, Malibran divina!

Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros,

Desdêmona sentida e moribunda,

Nunca pude beber no teu exílio...

Nos sonhos virginais senti ao menos

Tua pálida sombra vaporosa

Nesta fronte que a febre encandecera

Depor um beijo, suspirar passando!

Meu Deus! e, outrora, se um momento a vida

De poesia orvalhou meus pobres sonhos,

Foi nuns suspiros de mulher saudosa,

Foi abatida, a forma desmaiada,

Uma pobre infeliz que descorando

Fazia os prantos meus correr-me aos olhos!

Pobre! pobre mulher! esses mancebos

Que choravam por ti... quando gemias,

Quando sentias a tua alma ardente

No canto esvaecer, pálida e bela,

E teu lábio afogar entre harmonias

-- Almas que de tua alma se nutriam!

Que davam-te seus sonhos, e amorosas

Desfolhavam-te aos pés a flor da vida...

Ai quantas não sentiste palpitantes,

Nem ousando beijar teu véu d'esposa,

Nas longas noites nem sonhar contigo!

E hoje riem de ti! da criatura

Que insana profanou as asas brancas!...

Que num riso sem dó, uma por uma,

Na torrente fatal soltava rindo,

E as sentia boiando solitárias...

As flores da coroa, como Ofélia!...

Que iludida do amor vendeu a glória

E deu seu colo nu a beijo impuro...

Eles riem de ti!... mas eu, coitada,

Pranteio teu viver e te perdôo.

Fada branca de amor, que sina escura

Manchou no teu regaço as roupas santas?

Por que deixavas encostada ao seio

A cabeça febril do libertino?

Por que descias das regiões doiradas

E lançavas ao mar a rota lira

Para vibrar tua alma em lábios dele?

Por que foste gemer na orgia ardente

A santa inspiração de teus poetas...

Perder teu coração em vis amores?

Anjo branco de Deus, que sina escura

Manchou no teu regaço as roupas santas?

Pálida Italiana! hoje esquecida.

O escárnio do plebeu murchou teus louros!

Tua voz se cansou nos ditirambos...

E tu não voltas com as mãos na lira

Vibrar nos corações as cordas virgens

E ao gênio adormecido em nossas almas

Na fronte desfolhar tuas coroas!...

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978656919951924314433413
Lira dos Vinte Anos

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Lira dos Vinte Anos

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Lira dos Vinte Anos

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Lira dos Vinte Anos Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 21 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Lira dos Vinte Anos

Todos os capítulos 85 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir