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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 27 · Lira dos Vinte Anos

Tarde de outomno

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Tarde de outomno

Un souvenir heureux est peut-être sur terre

Plus vrai que le bonheur.

ALFRED DE MUSSET

Ó musa, por que vieste

E contigo me trouxeste

A vagar na solidão?

Tu não sabes que a lembrança

De meus anos de esperança

Aqui fala ao coração?

De um puro amor a lânguida saudade

É doce como a lágrima perdida,

Que banha no cismar um rosto virgem:

Volta o rosto ao passado e chora a vida.

O POETA

Não sabes o quanto dói

Uma lembrança que rói

A fibra que adormeceu?...

Foi neste vale que amei,

Que a primavera sonhei,

Aqui minh'alma viveu.

A SAUDADE

Pálidos sonhos do passado morto

É doce reviver mesmo chorando:

A alma refaz-se pura. Um vento aéreo

Parece que do amor nos vai roubando.

O POETA

Eu vejo ainda a janela

Onde, à tarde, junto dela

Eu lia versos de amor...

Como eu vivia d'enleio

No bater daquele seio,

Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,

Nos cabelos uma rosa,

De leve a janela abrir...

Tão bela, meu Deus, tão bela!

Por que amei tanto, donzela,

Se devias me trair?

A SAUDADE

A casa está deserta. A parasita

Nas paredes estampa negra cor,

Os aposentos o ervaçal povoa,

A porta é franca... Entremos, trovador!

O POETA

Derramai-vos, prantos meus!

Dai-me mais prantos, meu Deus!

Eu quero chorar aqui...

Em que sonhos de ebriedade

No arrebol da mocidade

Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?

Ventura, por que passaste

Degenerando em saudade?

Do estio secou-se a fonte,

Só ficou na minha fronte

A febre da mocidade.

A SAUDADE

Sonha, poeta, sonha! Ali sentado

No tosco assento da janela antiga,

Apóia sobre a mão a face pálida,

Sorrindo -- dos amores à cantiga.

O POETA

Minh'alma triste se enluta,

Quando a voz interna escuta

Que blasfema da esperança...

Aqui tudo se perdeu,

Minha pureza morreu

Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,

Delirante, suspiroso,

Eflúvios dela sorvi,

No seu colo eu me deitava...

E ela tão doce cantava!

De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo

Oh! quantas vezes a medo

Nossos lábios se tocaram!

E os seios, onde gemia

Uma voz que amor dizia,

Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,

Meu anjo belo de Deus,

Um instante do viver...

Tão doce, que em mim sentia

Que minh'alma se esvaía...

E eu pensava ali morrer!

A SAUDADE

É berço de mistério e d'harmonia

Seio mimoso de adorada amante:

A alma bebe nos sons que amor suspira

A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,

Os lábios convulsivos estremecem;

E a vida foge ao peito... apenas tinge

As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo

Nossos lábios atrai a um bem divino:

Da amante o beijo é puro como as flores

E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,

Almas ardentes que a paixão palpita,

Dizei essa emoção que o peito gela

E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!

E como a névoa de falaz ventura

Que se estende nos olhos do poeta

Doira a amante de nova formosura!

O POETA

Que gemer! não me enganava!

Era o anjo que velava

Minha casta solidão?

São minhas noites gozadas

E as venturas choradas

Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde:

Uma centelha não arde

Na cinza dos seios meus...

Por ela tanto chorei,

Que mancebo morrerei...

Adeus, amores, adeus!

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

Leia Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, grátis no Literunico. Livro de poesia clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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