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Lira dos Vinte Anos

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Lira dos Vinte Anos

Capítulo 33 · Lira dos Vinte Anos

II. Lagrimas de sangue

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II. Lagrimas de sangue

Taedet animam meam vitae meae.

JOB

Ao pé das aras, ao clarão dos círios,

Eu te devera consagrar meus dias...

Perdão, meu Deus! perdão...

Se neguei meu Senhor nos meus delírios

E um canto de enganosas melodias

Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito

Fartar de imenso amor e luz infinda

E uma saudade calma!

Ao sol de tua fé doirar meu leito

E de fulgores inundar ainda

A aurora na minh'alma.

Pela treva do espírito lancei-me,

P'ras esperanças suicidei-me rindo...

Sufocando-as sem dó...

No vale dos cadáveres sentei-me

E minhas flores semeei sorrindo

Dos túmulos no pó.

Indolente Vestal, deixei no templo

A pira se apagar! na noite escura

O meu gênio descreu...

Voltei-me para a vida... só contemplo

A cinza da ilusão que ali murmura:

Morre! -- tudo morreu!

Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias

À alma que se perdeu bradar de novo:

-- Ressurge-te ao amor!

Macilento, das minhas agonias

Eu deixaria as multidões do povo

Para amar o Senhor!

Do leito aonde o vício acalentou-me

O meu primeiro amor fugiu chorando...

Pobre virgem de Deus!

Um vendaval sem norte arrebatou-me,

Acordei-me na treva... profanando

Os puros sonhos meus!

Oh! se eu pudesse amar!... -- É impossível!

Mão fatal escreveu na minha vida...

A dor me envelheceu...

O desespero pálido, impassível,

Agoirou minha aurora entristecida,

De meu astro descreu...

Oh! se eu pudesse amar! Mas não: agora

Que a dor emurcheceu meus breves dias,

Quero na cruz sanguenta

Derramá-los na lágrima que implora,

Que mendiga perdão pela agonia

Da noite lutulenta!

Quero na solidão... nas ermas grutas

A tua sombra procurar chorando

Com meu olhar incerto...

As pálpebras doridas nunca enxutas

Queimarei... teus fantasmas invocando

No vento do deserto.

De meus dias a lâmpada se apaga,

Roeram meu viver mortais venenos,

Curvo-me ao vento forte:

Teu fúnebre clarão que a noite alaga,

Como a estrela oriental, me guie ao menos

' Té ao vale da morte!

No mar dos vivos o cadáver bóia,

A lua é descorada como um crânio,

Este sol não reluz...

Quando na morte a pálpebra se engóia,

O anjo desperta em nós e subitânio

Voa ao mundo da luz!

Do val de Josafá pelas gargantas

Uiva na treva o temporal sem norte

E os fantasmas murmuram...

Irei deitar-me nessas trevas santas,

Banhar-me na friez lustral da morte,

Onde as almas se apuram!

Mordendo as clinas do corcel da sombra,

Sufocado, arquejante passarei

Na noite do infinito...

Ouvirei essa voz que a treva assombra,

Dos lábios de minh'alma entornarei

O meu cântico aflito!

Flores cheias de aroma e de alegria,

Por que na primavera abrir cheirosas

E orvalhar-vos abrindo?

As torrentes da morte vêm sombrias,

Hão de amanhã nas águas tenebrosas

Vos arrastar bramindo.

Morrer! morrer! -- É voz das sepulturas!

Como a lua nas salas festivais

A morte em nós se estampa!

E os pobres sonhadores de venturas

Roxeiam amanhã nos funerais

E vão rolar na campa!

Que vale a glória, a saudação que enleva

Dos hinos triunfais na ardente nota

E as turbas devaneia?

Tudo isso é vão e cala-se na treva...

-- Tudo é vão, como em lábios de idiota

Cantiga sem idéia.

Que importa? quando a morte se descarna,

A esperança do céu flutua e brilha

Do túmulo no leito:

O sepulcro é o ventre onde se encarna

Um verbo divinal que Deus perfilha

E abisma no seu peito!

Não chorem! que essa lágrima profunda

Ao cadáver sem luz não dá conforto...

Não o acorda um momento!

Quando a treva medonha o peito inunda,

Derrama-se nas pálpebras do morto

Luar de esquecimento!

Caminha no deserto a caravana,

Numa noite sem lua arqueja e chora...

O termo... é um sigilo!

O meu peito cansou da vida insana,

Da cruz à sombra, junto aos meus, agora,

Eu dormirei tranqüilo!

Dorme ali muito amor... muitas amantes,

Donzelas puras que eu sonhei chorando

E vi adormecer...

Ouço da terra cânticos cânticos errantes

E as almas saudosas suspirando

Que falam em morrer...

Aqui dormem sagradas esperanças,

Almas sublimes que o amor erguia...

E gelaram tão cedo!

Meu pobre sonhador! aí descansas,

Coração que a existência consumia

E roeu em segredo!

Quando o trovão romper as sepulturas,

Os crânios confundidos acordando

No lodo tremerão...

No lodo pelas tênebras impuras

Os ossos estalados tiritando

Dos vales surgirão!

Como rugindo a chama encarcerada

Dos negros flancos do vulcão rebenta

Golfejando nos céus,

Entre nuvem ardente e trovejada

Minh'alma se erguerá, fria, sangrenta,

Ao trono de meu Deus...

Perdoa, meu Senhor! O errante crente

Nos desesperos em que a mente abrasas

Não o arrojes p'lo crime!

Se eu fui um anjo que descreu demente

E no oceano do mal rompeu as asas,

Perdão! arrependi-me!

Lira dos Vinte Anos

Sinopse

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