Universo da obra
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Clara Lins chegou à plataforma nove minutos antes da partida, com uma mala pequena, onze cartas presas por barbante vermelho e a sensação prática de que o avô escolhera morrer deixando trabalho. O trem para Serra Dourada soltava vapor baixo, antigo demais para os aplicativos de viagem e bonito demais para ser confiável. Na carta de instruções, escrita com a letra inclinada de Evaristo Lins, havia apenas uma ordem. Entregue cada envelope antes da última estação e não aceite ajuda de homem usando luvas marrons. Clara olhou ao redor. Havia três homens com chapéu, duas mulheres com sacolas, um menino dormindo sobre uma caixa de ferramentas e nenhum par de luvas marrons. Isso a acalmou por exatamente quatro segundos.
O vagão leito cheirava a madeira encerada, café requentado e roupa guardada por tempo demais, detalhe que Clara decidiu chamar de mau presságio em vez de charme ferroviário. Seu assento ficava perto da janela, diante de um homem com câmera antiga pendurada no pescoço. Ele lia um jornal de domingo na terça-feira e fingia não olhar para o pacote de cartas no colo dela. Clara tinha pouca paciência para fingimento ruim. Perguntou se ele queria ver melhor. O homem abaixou o jornal, mostrou olhos claros, barba curta e uma cicatriz discreta na sobrancelha. Disse que queria, porém educação de mãe ainda funcionava em ambientes fechados. Chamava-se Raul Ferraz, fotógrafo de paisagem, segundo ele. Mentiroso razoável, segundo Clara.
O trem partiu com um solavanco que espalhou malas, desculpas e uma laranja pelo corredor. Clara segurou as cartas contra o peito. O barbante vermelho apertou os envelopes em ordem numerada, de um a onze, cada um destinado a uma estação. O primeiro trazia o nome de Marieta Gusmão, bilheteira aposentada de Campo Baixo. Clara sabia pouco sobre Marieta, apenas que o avô a mencionava quando bebia vinho barato e ficava sentimental. Raul olhou para o selo no canto do envelope e perdeu a graça por um segundo. Era um desenho pequeno de andorinha sobre trilho. Ele perguntou onde ela conseguira aquilo. Clara respondeu que herdara junto com dívida emocional e passagem sem reembolso.
Na primeira parada, Campo Baixo apareceu entre plantações e postes tortos. A estação parecia abandonada, exceto por uma mulher idosa sentada em banco de madeira, usando vestido azul e luvas marrons. Clara sentiu o estômago fechar. Raul levantou junto com ela. Ela mandou que ele sentasse. Ele obedeceu por meio segundo, tempo insuficiente para convencer. Marieta Gusmão ergueu o rosto antes que Clara dissesse seu nome. Recebeu o envelope com dedos firmes, leu a primeira linha e chorou sem emitir som. Depois entregou a Clara uma chave pequena presa a uma fita preta. Disse que Evaristo demorara quarenta anos para pedir desculpa e que o trem chegaria à última estação com um passageiro a menos se ela confiasse no homem errado.
Clara voltou ao vagão com a chave escondida na manga. Raul estava no corredor, fingindo observar a paisagem escura. Ela perguntou se ele possuía luvas marrons. Ele mostrou as mãos vazias, depois abriu a bolsa da câmera sem ser solicitado. Dentro havia filmes, lentes, um lenço, uma fotografia antiga do mesmo trem e um envelope igual aos dela, sem número, com o selo da andorinha. Clara pegou a foto antes que ele impedisse. Nela, seu avô aparecia jovem ao lado de três pessoas. Uma delas era Marieta. Outra tinha o rosto de Raul, embora a imagem tivesse quarenta anos. O trem apitou. Da cabine seguinte veio um grito curto. Quando Clara virou, o menino da caixa de ferramentas tinha desaparecido.
Clara Lins embarca no trem noturno para Serra Dourada levando onze cartas herdadas do avô e uma instrução simples. Entregar cada envelope antes da última estação. No mesmo vagão está Raul Ferraz, fotógrafo de estrada que reconhece o selo das cartas e sabe que a rota esconde um roubo antigo, uma família desaparecida e um tesouro que talvez nunca tenha sido ouro.
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