Universo da obra
Universo da obra
Eva Alcântara aceitou o relógio porque devia aluguel, não porque acreditasse na história do cliente. A peça chegou à oficina pouco antes do fechamento, embalada em cobertor cinza, carregada por dois homens com cuidado de caixão caro. Era um relógio de parede alto, de madeira escura, mostrador rachado e pêndulo parado. Caetano Reis acompanhava tudo em silêncio, terno sem gravata, cabelo molhado pela chuva da rua e olhos de quem não dormia havia dias. Disse que o relógio precisava ser vendido em leilão dali a uma semana, mas havia um problema pequeno. Eva perguntou se pequeno significava cupim, dívida familiar ou maldição hereditária. Caetano respondeu que chovia dentro dele toda madrugada.
Ela quase recusou por princípio. Oficinas de restauração atraíam gente rica com culpa, viúvas com louça quebrada e netos tentando transformar herança em dinheiro rápido. Chuva interna era novidade, porém não garantia pagamento melhor. Caetano adiantou metade em dinheiro e colocou sobre a bancada uma chave fina, oxidada, que abria a portinhola inferior. Eva aceitou com a expressão neutra de profissional e a curiosidade indecente de quem vivia cercada por objetos mais honestos que pessoas. Quando os carregadores foram embora, a oficina ficou cheirando a madeira molhada. O relógio marcou duas e cinquenta e sete, embora seus ponteiros estivessem parados desde a chegada.
Às três em ponto, a primeira gota caiu dentro do mostrador. Depois outra. Em menos de um minuto, uma chuva miúda escorria atrás do vidro, molhando números romanos, engrenagens e uma fotografia antiga presa junto ao pêndulo. Eva não gritou. Pegou uma bacia, um pano e a lupa, porque susto não impedia água de estragar peça. Caetano, que deveria ter ido embora, ainda estava à porta da oficina. Pediu desculpa por não ter contado tudo. Ela respondeu que clientes raramente começavam pelo tudo, preferiam parcelar verdade sem juros. O comentário quase arrancou dele um sorriso. A chuva dentro do relógio aumentou, e no fundo da caixa uma carta apareceu, empurrada pela água, com o nome Eva escrito em tinta azul.
A carta não era antiga. O papel estava seco, apesar da chuva, e a letra parecia recém-feita. Eva abriu com cuidado. A mensagem dizia que ela não deveria deixar Caetano vender o relógio, porque a venda apagaria Elisa Reis da casa, dos registros e da memória de quem ainda podia procurá-la. Caetano empalideceu ao ouvir o nome. Elisa era sua tia-avó, desaparecida aos vinte e seis anos, oficialmente depois de fugir com um músico. A família repetia essa versão havia cinco décadas, sempre que alguém perguntava por que o retrato dela ficava virado no corredor principal. Eva olhou para o relógio chovendo diante deles e perguntou se a família Reis costumava perder mulheres dentro de móveis ou se aquele era caso isolado.
Caetano contou que herdara a casa da avó e encontrara o relógio trancado no quarto de Elisa. Desde então, toda madrugada, a peça chovia por dentro e soltava cartas impossíveis. Algumas eram assinadas por Elisa. Outras vinham sem nome, com endereços que não existiam mais. Ele queria vender porque o fenômeno piorava quando permanecia perto da família. Eva perguntou por que levara o relógio a ela. Caetano tirou do bolso uma carta amassada. Nela, Elisa mandava procurar a restauradora da Rua das Laranjeiras, filha de Teresa Alcântara. Eva ficou parada. Teresa era sua mãe, morta havia oito anos, e nunca mencionara Elisa Reis. O relógio bateu uma badalada baixa, atrasada, e a chuva cessou de uma vez.
Eva trabalha restaurando objetos antigos e recebe um relógio de parede que chove por dentro sempre às três da manhã. O dono, Caetano Reis, quer vender a peça antes que a família descubra que ela guarda cartas de uma mulher desaparecida. Entre engrenagens molhadas, chuva dentro de casa e um amor que nasce em horários impossíveis, Eva precisa decidir se conserta o relógio ou se deixa o passado finalmente atrasar.
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