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A Garota da Falésia Azul

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A Garota da Falésia Azul

Capítulo 1 · A Garota da Falésia Azul

Maré Baixa

Lara Fontes voltou a Pedra Clara no único ônibus da manhã, com uma mochila, um casaco leve e a fotografia da irmã guardada dentro do passaporte vencido. A vila costeira parecia menor do que a lembrança, talvez porque a infância sempre aumentasse ruas ruins, talvez porque o mar continuasse grande demais para qualquer comparação honesta. Dez anos antes, Marina desaparecera na Falésia Azul durante uma tempestade fora de época. O inquérito chamara aquilo de acidente. A mãe chamou de castigo por teimosia. Lara chamou de mentira desde o primeiro dia, embora não tivesse prova, testemunha útil ou coragem para voltar antes da morte do pai.

A pousada da família estava fechada, mas a chave continuava sob a pedra de concha na janela lateral. Por dentro, cheirava a madeira salgada, lençol guardado e café antigo. Lara abriu as janelas, levantou poeira e encontrou sobre o balcão uma caixa de papelão que não estava ali quando o advogado fizera o inventário. Dentro havia contas, mapas de trilha, um rádio quebrado e uma fita de cabelo azul que pertencera a Marina. O objeto não deveria estar seco, intacto e dobrado entre papéis do pai. Lara sentiu a raiva chegar antes do medo. Pegou a fita, guardou no bolso e desceu até o cais procurando o único nome que ainda aparecia nas margens do caso.

Miguel Arantes trabalhava como guia de barco e consertava redes perto do mercado de peixe. Aos trinta e dois anos, tinha o mesmo rosto fechado das fotografias do processo, agora com barba curta, ombros de quem carregava motor pesado e uma cicatriz nova no antebraço. Fora ele quem disse ter visto Marina entrar na trilha da falésia com outra pessoa. Depois recuou no depoimento, afirmou que a chuva confundira tudo e virou covarde oficial da vila. Lara parou diante dele sem saudade. Miguel reconheceu a fita azul na mão dela antes de reconhecer sua voz. Disse que ela não deveria ter voltado sozinha. Lara respondeu que gente culpada adorava começar conversa dando conselho.

Miguel não negou a culpa. Disse apenas que a fita não ficara com ele e que, se estava na pousada, alguém queria que Lara abrisse caminho errado. Contou que a maré daquele fim de tarde revelaria a entrada da Gruta dos Sinos, uma fenda sob a Falésia Azul onde pescadores deixavam oferendas e adolescentes escondiam garrafas. Marina falava da gruta nos últimos dias antes da tempestade. Lara perguntou por que isso nunca apareceu no inquérito. Miguel olhou para a delegacia pequena no alto da praça e disse que muita coisa não apareceu porque o pai dela pediu. A frase acertou Lara com precisão. O pai morrera deixando dívidas, chaves e agora a suspeita de ter enterrado parte da filha viva em papel timbrado.

Eles foram à gruta na maré baixa, num barco pequeno que cheirava a diesel e sardinha. Lara ficou na proa para evitar conversa. Miguel não forçou. A Falésia Azul crescia à frente, rocha escura coberta por líquen e aves brancas, bonita de um jeito indecente para lugar de desaparecimento. A entrada da gruta surgiu quando a água baixou, estreita, com sinos de metal presos por cordas velhas na pedra. O vento fazia todos tocarem ao mesmo tempo, som fino, irregular. Dentro, entre conchas e garrafas quebradas, havia uma mochila escolar presa numa fissura. Lara reconheceu o chaveiro de Marina. Antes que pudesse tocar, uma lancha apareceu fora da gruta, bloqueando a saída. No casco, pintado de branco, estava o nome da prefeitura.

A Garota da Falésia Azul

Sinopse

Lara volta à vila costeira onde a irmã desapareceu durante uma tempestade e encontra Miguel, guia local que foi acusado de mentir no inquérito. Quando uma mochila antiga surge numa gruta inacessível, os dois precisam cruzar maré, família e versões oficiais para descobrir quem empurrou a verdade da falésia.

A Garota da Falésia Azul

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