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O Quarto dos Espelhos Cobertos

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O Quarto dos Espelhos Cobertos

Capítulo 1 · O Quarto dos Espelhos Cobertos

A Casa de Dona Ismênia

Mara Lemos chegou à casa de dona Ismênia Salles com duas malas de catalogação, uma câmera, luvas de algodão e a convicção profissional de que famílias ricas chamavam bagunça de acervo quando queriam vender culpa com nota fiscal. A atriz morrera aos noventa e um anos, famosa por três novelas, dois casamentos escandalosos e uma entrevista final em que afirmou que nenhum espelho da casa dizia a verdade depois das seis. O inventário exigia pressa. Havia vestidos, cartas, prêmios, fotografias, roteiros anotados e uma coleção de objetos de cena que um museu pequeno aceitaria com gratidão fingida. O neto, Vicente Salles, esperava na porta, bonito de um jeito cansado, usando camisa preta e segurando um molho de chaves que tilintava sem parar em sua mão.

Vicente explicou as regras antes do café. Mara poderia fotografar tudo, abrir armários, numerar caixas e preparar laudo para leilão. Não deveria dormir no quarto da atriz, mexer no baú vermelho ou descobrir os espelhos depois do entardecer. Ela perguntou se as restrições vinham de testamento, superstição ou tentativa de valorizar lote. Ele respondeu que vinha de experiência. A casa parecia ouvir. Tinha corredores longos, cortinas pesadas, cheiro de pó facial e flores velhas. Cada espelho estava coberto por pano branco preso com alfinetes. Havia tantos que a sala principal lembrava um velório de objetos altos. Mara anotou a condição de conservação e ignorou o desconforto inicial, porque desconforto não pagava aluguel.

O primeiro espelho mexeu às cinco e quarenta e sete. Não o vidro, ainda coberto. O pano. Inflou para dentro, depois para fora, com uma respiração lenta vinda do outro lado. Mara estava sozinha na sala, fotografando troféus. Chamou Vicente. Ele veio rápido demais, o que indicava que esperava aquilo. Pediu que ela se afastasse até seis horas. Mara, por método e irritação, puxou um dos alfinetes. Vicente segurou seu pulso. O contato foi firme, quente, e durou o necessário para ela sentir raiva da própria atenção. Ele disse que a avó morreu olhando para aquele espelho. Mara respondeu que pessoas morriam olhando para muita coisa e nem por isso móveis ganhavam autoridade.

Às seis, a casa escureceu sem apagar as luzes. Era outro tipo de sombra, vindo dos cantos, dos quadros, da madeira. O pano do espelho caiu sozinho. No vidro, Mara não viu a sala. Viu um camarim antigo, com lâmpadas redondas, pincéis, batom aberto e dona Ismênia jovem, sentada diante do reflexo, chorando sem borrar a maquiagem. Atrás dela, um homem segurava uma câmera de filmagem. Vicente sussurrou que era o avô. Mara percebeu que a imagem seguia mesmo sem som. O homem entregava a Ismênia um papel. Ela rasgava. Ele ria. Depois a atriz olhava direto para fora do espelho, não para ele. Seus lábios formaram uma frase que Mara conseguiu ler. Quem catalogar a casa deve começar pelo baú vermelho.

O Quarto dos Espelhos Cobertos

Sinopse

Mara aceita catalogar o acervo de uma atriz morta e passa três noites numa casa onde todos os espelhos permanecem cobertos. O neto da atriz, Vicente, quer vender tudo rápido, mas cada tecido retirado mostra uma versão diferente da morte da dona da casa. Entre gravações antigas, maquiagem ressecada e reflexos que chegam atrasados, Mara descobre que a atriz talvez nunca tenha saído do último papel.

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