Universo da obra
Universo da obra
Assim como o primeiro impulso da profanação será dirigir-se ao que há de mais sagrado no santuário, a regressão vulgarizadora contra a qual vos previno começará por sacrificar o que há de mais delicado no espírito. De todos os elementos superiores da existência racional, o sentimento do belo, a visão clara da formosura das coisas, é o que a aridez da vida limitada à invariável descrição do círculo vulgar mais facilmente murcha, convertendo-o no atributo de uma minoria que o guarda, dentro de cada sociedade humana, como o depósito de um abandono precioso. A emoção da beleza está para o sentimento das idealidades como o esmalte está para o anel. O efeito do contato brutal começa fatalmente por ela, e é sobre ela que age de modo mais seguro. Assim, uma indiferença absoluta chega a ser o caráter normal diante daquilo que deveria ser amor universal das almas. Não é mais intensa a estupefação do homem selvagem diante dos instrumentos e das formas materiais da civilização do que a experimentada por número relativamente grande de homens cultos diante dos atos em que se revele o propósito e o hábito de conceder séria realidade à bela relação da vida.
O argumento do apóstolo traidor diante do vaso de nardo inutilmente derramado sobre a cabeça do Mestre ainda é uma das fórmulas do senso comum. A superfluidade da arte não vale, para a massa anônima, os trezentos denários. Se acaso a respeita, é como se respeita um culto esotérico. E, no entanto, entre todos os elementos de educação humana capazes de contribuir para formar um conceito amplo e nobre da vida, nenhum justificaria, mais que a arte, um interesse universal, porque nenhum encerra, segundo a tese desenvolvida por Schiller em páginas eloquentes, a virtualidade de uma cultura mais extensa e completa, no sentido de prestar-se a um estímulo acordado de todas as faculdades da alma.
Ainda que o amor e a admiração da beleza não respondessem a uma nobre espontaneidade do ser racional, e não tivessem nisso valor suficiente para ser cultivados por si mesmos, haveria um motivo superior de moralidade que autorizaria a propor a cultura dos sentimentos estéticos como alto interesse de todos. Se a ninguém é dado renunciar à educação do sentimento moral, esse dever traz implícito o de dispor a alma para a visão clara da beleza. Considerai o sentido educado do belo o colaborador mais eficaz na formação de um delicado instinto de justiça. A dignificação, o enobrecimento interior, nunca terão artífice mais adequado. Nunca a criatura humana aderirá de modo mais seguro ao cumprimento do dever do que quando, além de senti-lo como imposição, o sentir esteticamente como harmonia. Nunca será ela mais plenamente boa do que quando souber, nas formas pelas quais se manifeste ativamente sua virtude, respeitar nos outros o sentimento do belo.
É certo que a santidade do bem purifica e exalta todas as aparências grosseiras. Pode ele, sem dúvida, realizar sua obra sem lhe dar o prestígio exterior da formosura. Pode o amor caritativo chegar à sublimidade por meios toscos, ásperos e vulgares. Mas não é apenas mais bela, é maior a caridade que deseja transmitir-se nas formas do delicado e do seleto, porque acrescenta a seus dons um benefício a mais, uma doce e inefável carícia que nada substitui e que realça o bem concedido como um toque de luz.
Dar a sentir o belo é obra de misericórdia. Aqueles que exigiriam que o bem e a verdade se manifestassem invariavelmente em formas austeras e severas sempre me pareceram amigos traidores do bem e da verdade. A virtude é também um gênero de arte, uma arte divina. Ela sorri maternalmente às Graças. O ensino que se proponha fixar nos espíritos a ideia do dever como a mais séria realidade deve tender a fazê-la conceber, ao mesmo tempo, como a mais alta poesia. Guyau, que é rei nas belas comparações, vale-se de uma insubstituível para exprimir esse duplo objeto da cultura moral. Recorda o pensador os encostos esculpidos do coro de uma igreja gótica, nos quais a madeira talhada sob a inspiração da fé apresenta, numa face, cenas da vida de um santo, e na outra, círculos ornamentais de flores. Assim, a cada gesto do santo, significativo de sua piedade ou de seu martírio, a cada traço de sua fisionomia ou de sua atitude, corresponde, no lado oposto, uma corola ou uma pétala. Para acompanhar a representação simbólica do bem, brota ora um lírio, ora uma rosa. Guyau pensa que nossa alma deve ser esculpida da mesma forma. E ele próprio, o doce mestre, não é, pela beleza evangélica de seu gênio de apóstolo, exemplo dessa viva harmonia?
Creio indubitável que aquele que aprendeu a distinguir o delicado do vulgar, o feio do belo, já fez metade da jornada para distinguir o mau do bom. Não é, por certo, o bom gosto, como desejaria certo leve diletantismo moral, o único critério para apreciar a legitimidade das ações humanas. Menos ainda deve ser considerado, pelo critério de um ascetismo estreito, uma tentação do erro e um banco de areia enganoso. Não o indicaremos como a própria senda do bem, e sim como caminho paralelo e próximo, que mantém muito aproximados dela o passo e o olhar do viajante. À medida que a humanidade avance, conceberá com mais clareza a lei moral como uma estética da conduta. Fugir-se-á do mal e do erro como de uma dissonância. Buscar-se-á o bom como o prazer de uma harmonia. Quando a severidade estoica de Kant inspira, simbolizando o espírito de sua ética, as palavras austeras: "Dormia e sonhei que a vida era beleza; despertei e adverti que ela é dever", desconhece que, se o dever é a realidade suprema, nele pode achar realidade o objeto de seu sonho, porque a consciência do dever lhe dará, com a visão clara do bom, a complacência do belo.
Na alma do redentor, do missionário, do filantropo, deve exigir-se também entendimento de beleza. É necessário que colaborem certos elementos do gênio do artista. É imensa a parte que corresponde ao dom de descobrir e revelar a beleza íntima das ideias na eficácia das grandes revoluções morais. Falando da mais alta de todas, Renan pôde dizer profundamente que "a poesia do preceito, que o faz amar, significa mais que o próprio preceito tomado como verdade abstrata". A originalidade da obra de Jesus não está, efetivamente, na acepção literal de sua doutrina, pois ela pode ser reconstituída inteira sem sair da moral da Sinagoga, procurando-a do Deuteronômio ao Talmude. Está em ter tornado sensível, com sua pregação, a poesia do preceito, isto é, sua beleza íntima.
Pálida glória será a das épocas e comunhões que desprezam essa relação estética de sua vida ou de sua propaganda. O ascetismo cristão, que não soube encarar senão uma só face do ideal, excluiu de seu conceito de perfeição tudo o que torna a vida amável, delicada e bela. Seu espírito estreito serviu para que o instinto indomável da liberdade, voltando em uma dessas reações arrebatadas do espírito humano, engendrasse, na Itália do Renascimento, um tipo de civilização que considerou vaidade o bem moral e só acreditou na virtude da aparência forte e graciosa. O puritanismo, que perseguiu toda beleza e toda seleção intelectual, que velou indignado a casta nudez das estátuas, que professou a afetação da feiura nas maneiras, no traje, nos discursos, essa seita triste que, impondo seu espírito a partir do Parlamento inglês, mandou extinguir as festas que manifestassem alegria e cortar as árvores que dessem flores, estendeu junto da virtude, ao divorciá-la do sentimento do belo, uma sombra de morte que a Inglaterra ainda não conjurou inteiramente e que dura nas manifestações menos amáveis de sua religiosidade e de seus costumes. Macaulay declara preferir a grosseira "caixa de chumbo" em que os puritanos guardaram o tesouro da liberdade ao primoroso cofre esculpido em que a corte de Carlos II acumulou seus refinamentos. Mas, como nem a liberdade nem a virtude precisam ser guardadas em caixa de chumbo, muito mais que todas as severidades de ascetas ou puritanos valerão sempre, para a educação da humanidade, a graça do ideal antigo, a moral harmoniosa de Platão, o movimento limpo e elegante com que a mão de Atenas tomou, para levá-la aos lábios, a taça da vida.
A perfeição da moralidade humana consistiria em infiltrar o espírito da caridade nos moldes da elegância grega. E essa suave harmonia teve no mundo uma realização passageira. Quando a palavra do cristianismo nascente chegava, com São Paulo, ao seio das colônias gregas da Macedônia, a Tessalônica e Filipos, e o Evangelho, ainda puro, se difundia na alma daquelas sociedades finas e espirituais, nas quais o selo da cultura helênica mantinha uma encantadora espontaneidade de distinção, pôde-se crer que os dois ideais mais altos da história iam enlaçar-se para sempre. No estilo epistolar de São Paulo fica a marca daquele momento em que a caridade se heleniza. Esse doce consórcio durou pouco. A harmonia e a serenidade da concepção pagã da vida se afastaram cada vez mais da nova ideia que marchava então à conquista do mundo. Mas, para conceber a maneira pela qual se poderia assinalar ao aperfeiçoamento moral da humanidade um passo adiante, seria necessário sonhar que o ideal cristão se reconcilia de novo com a serena e luminosa alegria da Antiguidade, imaginar que o Evangelho se propaga outra vez em Tessalônica e Filipos.
Cultivar o bom gosto não significa apenas aperfeiçoar uma forma exterior da cultura, desenvolver uma atitude artística, cuidar, com requinte supérfluo, de uma elegância da civilização. O bom gosto é "uma rédea firme do critério". Martha pôde atribuir-lhe exatamente a significação de uma segunda consciência que nos orienta e nos devolve à luz quando a primeira se obscurece e vacila. O sentido delicado da beleza é, para Bagehot, aliado do tato seguro da vida e da dignidade dos costumes. "A educação do bom gosto", acrescenta o sábio pensador, "dirige-se a favorecer o exercício do bom senso, que é nosso principal ponto de apoio na complexidade da vida civilizada". Se algumas vezes vedes essa educação unida, no espírito dos indivíduos e das sociedades, ao extravio do sentimento ou da moralidade, é porque, nesses casos, foi cultivada como força isolada e exclusiva, impossibilitando-se desse modo o efeito de aperfeiçoamento moral que ela pode exercer dentro de uma ordem de cultura em que nenhuma faculdade do espírito seja desenvolvida prescindindo de sua relação com as outras. Na alma que tenha sido objeto de estímulo harmônico e perfeito, a graça íntima e a delicadeza do sentimento do belo serão uma só coisa com a força e a retidão da razão. Não de outro modo observa Taine que, nas grandes obras da arquitetura antiga, a beleza é manifestação sensível da solidez, a elegância se identifica com a aparência da força: "as mesmas linhas do Partenon que agradam ao olhar com proporções harmoniosas contentam a inteligência com promessas de eternidade".
Há uma relação orgânica, uma simpatia natural e estreita, que vincula as subversões do sentimento e da vontade às falsidades e violências do mau gosto. Se nos fosse dado penetrar no misterioso laboratório das almas e se reconstruísse a história íntima das do passado para encontrar a fórmula de seus caracteres morais definitivos, seria interessante objeto de estudo determinar a parte que corresponde, entre os fatores da refinada perversidade de Nero, ao germe do histrionismo monstruoso depositado na alma daquele cômico sangrento pela retórica afetada de Sêneca. Quando se evoca a oratória da Convenção, e o hábito de uma abominável perversão retórica aparece por toda parte como a pele felina do jacobinismo, é impossível deixar de relacionar, como raios que partem de um mesmo centro, como acidentes de uma mesma insanidade, o extravio do gosto, a vertigem do sentido moral e a limitação fanática da razão.
Indubitavelmente, nenhum resultado da estética é mais seguro que aquele que nos ensina a distinguir, na esfera do relativo, o bom e o verdadeiro do belo, e a aceitar a possibilidade de uma beleza do mal e do erro. Mas não é preciso desconhecer essa verdade, definitivamente verdadeira, para crer no encadeamento simpático de todos aqueles altos fins da alma, e considerar cada um deles como ponto de partida, não único, mas sim mais seguro, de onde seja possível dirigir-se ao encontro dos outros.
A ideia de um acordo superior entre o bom gosto e o sentido moral é, pois, exata, tanto no espírito dos indivíduos quanto no espírito das sociedades. No que se refere a estas últimas, essa relação poderia ter seu símbolo naquela que Rosenkranz afirmava existir entre a liberdade e a ordem moral, por uma parte, e, por outra, a beleza das formas humanas como resultado do desenvolvimento das raças no tempo. Essa beleza típica reflete, para o pensador hegeliano, o efeito enobrecedor da liberdade. A escravidão enfeia ao mesmo tempo que envilece. A consciência de seu desenvolvimento harmonioso imprime às raças livres o selo exterior da formosura.
No caráter dos povos, os dons derivados de um gosto fino, o domínio das formas graciosas, a delicada aptidão de interessar, a virtude de tornar amáveis as ideias, identificam-se, além disso, com o gênio da propaganda, isto é, com o dom poderoso da universalidade. É bem sabido que, em grande parte, à posse desses atributos escolhidos deve referir-se a significação humana que o espírito francês sabe comunicar a quanto escolhe e consagra. As ideias adquirem asas potentes e velozes não no seio gelado da abstração, e sim no ambiente luminoso e cálido da forma. Sua superioridade de difusão, sua prevalência às vezes, dependem de as Graças as terem banhado com sua luz. Assim, nas evoluções da vida, essas encantadoras exterioridades da natureza, que parecem representar exclusivamente a dádiva de uma superfluidade caprichosa, a música, a plumagem pintada das aves, e, como chamado ao inseto propagador do pólen fecundo, o matiz das flores, seu perfume, desempenharam, entre os elementos da concorrência vital, uma função muito real, pois, significando uma superioridade de motivos, uma razão de preferência para as atrações do amor, fizeram prevalecer, dentro de cada espécie, os seres mais bem dotados de formosura sobre os menos vantajosamente dotados.
Para um espírito em que exista o amor instintivo do belo, há, sem dúvida, certo gênero de mortificação em resignar-se a defendê-lo por meio de uma série de argumentos fundados em outra razão, em outro princípio, que não seja o próprio amor irresponsável e desinteressado da beleza, no qual encontra satisfação um dos impulsos fundamentais da existência racional. Infelizmente, esse motivo superior perde seu império sobre um imenso número de homens, aos quais é necessário ensinar o respeito devido a esse amor de que não participam, revelando-lhes quais são as relações que o vinculam a outros gêneros de interesses humanos. Para isso, será preciso lutar muitas vezes com o conceito vulgar dessas relações. Com efeito, tudo o que tende a suavizar os contornos do caráter social e dos costumes, a aguçar o sentido da beleza, a fazer do gosto uma delicada impressionabilidade do espírito e da graça uma forma universal da atividade, equivale, para o critério de muitos devotos do severo ou do útil, a diminuir, por um lado, o temperamento viril e heroico das sociedades, e, por outro, sua capacidade utilitária e positiva. Li em Os Trabalhadores do Mar que, quando um navio a vapor sulcou pela primeira vez as ondas do Canal da Mancha, os camponeses de Jersey o anatematizavam em nome de uma tradição popular que considerava elementos inconciliáveis, fatalmente destinados à discórdia, a água e o fogo. O critério comum abunda na crença de inimizades semelhantes. Se vos propondes vulgarizar o respeito pelo belo, começai por fazer compreender a possibilidade de um concerto harmônico de todas as legítimas atividades humanas. Essa será tarefa mais fácil que converter diretamente o amor da formosura, por ela mesma, em atributo da multidão. Para que a maioria dos homens não se sinta inclinada a expulsar as andorinhas de casa, seguindo o conselho de Pitágoras, é necessário argumentar com ela não pela graça monástica da ave nem por sua lenda de virtude, e sim mostrando que a permanência de seus ninhos não é de modo algum inconciliável com a segurança dos telhados.
Ensaio clássico de José Enrique Rodó sobre juventude, cultura, democracia, idealismo e o destino espiritual da América Latina. Esta edição em português brasileiro integra o fluxo de obras em domínio público do Literunico, com tradução preparada a partir do texto espanhol público.
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