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Capítulo 4 · Ariel

Ariel: Democracia, Seleção e Espírito

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À concepção da vida racional que se funda no desenvolvimento livre e harmonioso de nossa natureza, e inclui, entre seus fins essenciais, aquele que se satisfaz com a contemplação sentida do belo, opõe-se, como norma da conduta humana, a concepção utilitária, pela qual nossa atividade inteira se orienta em relação à finalidade imediata do interesse.

A acusação contra o utilitarismo estreito, que costuma ser dirigida ao espírito de nosso século em nome do ideal e com rigores de anátema, funda-se em parte no desconhecimento de que seus esforços titânicos pela subordinação das forças da natureza à vontade humana e pela extensão do bem-estar material constituem trabalho necessário, que preparará, como o laborioso enriquecimento de uma terra esgotada, o florescimento de idealismos futuros. A predominância transitória dessa função de utilidade, que absorveu da vida agitada e febril destes cem anos suas energias mais potentes, explica, ainda que não justifique, muitas nostalgias dolorosas, muitos descontentamentos e agravos da inteligência, traduzidos ora por uma melancólica e exaltada idealização do passado, ora por uma desesperança cruel do porvir. Há por isso pensamento fecundíssimo e bem-aventurado no propósito de certo grupo de pensadores das últimas gerações, entre os quais quero citar uma vez mais a nobre figura de Guyau, que tentaram selar a reconciliação definitiva das conquistas do século com a renovação de muitas velhas devoções humanas, e que investiram nessa obra bendita tantos tesouros de amor quanto de gênio.

Com frequência tereis ouvido atribuir a duas causas fundamentais o transbordamento do espírito de utilidade que dá sua nota à fisionomia moral do século presente, com prejuízo da consideração estética e desinteressada da vida. As revelações da ciência da natureza, que, segundo intérpretes ora adversos, ora favoráveis a ela, convergiriam para destruir toda idealidade por sua base, são uma dessas causas. A difusão universal e o triunfo das ideias democráticas são a outra. Proponho-me falar-vos exclusivamente desta última, porque confio que vossa primeira iniciação nas revelações da ciência tenha sido dirigida de modo a preservar-vos do perigo de uma interpretação vulgar. Sobre a democracia pesa a acusação de guiar a humanidade, tornando-a medíocre, a um Sacro Império do utilitarismo. A acusação reflete-se com vibrante intensidade nas páginas, para mim sempre cheias de sugestivo encanto, do mais amável entre os mestres do espírito moderno: nas páginas sedutoras de Renan, a cuja autoridade já me ouvistes referir várias vezes e de quem penso voltar a falar-vos com frequência. Lede Renan, aqueles de vós que ainda o ignorem, e haveis de amá-lo como eu. Ninguém, entre os modernos, me parece tão senhor dessa arte de "ensinar com graça" que Anatole France considera divina. Ninguém soube como ele irmanar a ironia à piedade. Mesmo no rigor da análise, sabe pôr a unção do sacerdote. Mesmo quando ensina a duvidar, sua suavidade requintada estende uma onda balsâmica sobre a dúvida. Seus pensamentos costumam dilatar-se dentro de nossa alma com ecos tão inefáveis e vagos que fazem pensar numa música religiosa de ideias. Por sua infinita compreensibilidade ideal, as classificações da crítica costumam personificar nele o alegre ceticismo dos diletantes que convertem em traje de máscara a capa do filósofo. Mas, se alguma vez entrardes intimamente em seu espírito, vereis que a tolerância vulgar dos céticos se distingue da sua tolerância como a hospitalidade galante de um salão se distingue do verdadeiro sentimento da caridade.

Pensa, pois, o mestre que uma alta preocupação com os interesses ideais da espécie se opõe por completo ao espírito da democracia. Pensa que a concepção da vida, numa sociedade onde esse espírito domine, ajustar-se-á progressivamente à perseguição exclusiva do bem-estar material como benefício propagável ao maior número de pessoas. Segundo ele, sendo a democracia a entronização de Calibã, Ariel não pode deixar de ser o vencido desse triunfo. Abundam afirmações semelhantes às de Renan na palavra de muitos dos mais caracterizados representantes que os interesses da cultura estética e da seleção do espírito têm no pensamento contemporâneo. Bourget, por exemplo, inclina-se a crer que o triunfo universal das instituições democráticas fará a civilização perder em profundidade o que ganha em extensão. Vê seu termo forçoso no império de um individualismo medíocre. "Quem diz democracia", acrescenta o sagaz autor de André Cornelis, "diz desenvolvimento progressivo das tendências individuais e diminuição da cultura". Há na questão colocada por esses juízos severos um interesse vivíssimo para os que amamos, ao mesmo tempo, por convicção, a obra da Revolução, que em nossa América se liga ainda às glórias de sua gênese, e por instinto, a possibilidade de uma vida espiritual nobre e seleta que em nenhum caso tenha de ver sacrificada sua serenidade augusta aos caprichos da multidão. Para enfrentar o problema, é necessário começar reconhecendo que, quando a democracia não eleva seu espírito pela influência de uma forte preocupação ideal que compartilhe seu império com a preocupação dos interesses materiais, ela conduz fatalmente à privança da mediocridade e carece, mais que qualquer outro regime, de barreiras eficazes com as quais assegurar, dentro de ambiente adequado, a inviolabilidade da alta cultura. Abandonada a si mesma, sem a retificação constante de uma autoridade moral ativa que a depure e encaminhe suas tendências no sentido da dignificação da vida, a democracia extinguirá gradualmente toda ideia de superioridade que não se traduza em maior e mais ousada aptidão para as lutas do interesse, que são então a forma mais ignóbil das brutalidades da força. A seleção espiritual, a elevação da vida pela presença de estímulos desinteressados, o gosto, a arte, a suavidade dos costumes, o sentimento de admiração por todo propósito ideal perseverante e de acatamento a toda nobre supremacia serão fraquezas indefesas onde a igualdade social, que destruiu as hierarquias imperativas e infundadas, não as substitua por outras, cujo único modo de domínio esteja na influência moral e cujo princípio esteja numa classificação racional.

Toda igualdade de condições é, na ordem das sociedades, como toda homogeneidade na ordem da natureza, um equilíbrio instável. Desde o momento em que tenha realizado sua obra de negação pelo nivelamento das superioridades injustas, a igualdade conquistada não pode significar para a democracia senão um ponto de partida. Resta a afirmação. E o afirmativo da democracia e sua glória consistirão em suscitar, por estímulos eficazes, em seu próprio seio, a revelação e o domínio das verdadeiras superioridades humanas.

Em relação às condições da vida da América, essa necessidade de precisar o verdadeiro conceito de nosso regime social adquire duplo império. O crescimento apressado de nossas democracias pela agregação incessante de uma enorme multidão cosmopolita, pela influência imigratória que se incorpora a um núcleo ainda fraco para verificar ativo trabalho de assimilação e encaminhar o torrente humano com os meios oferecidos pela solidez secular da estrutura social, pela ordem política segura e pelos elementos de uma cultura intimamente enraizada, expõe-nos, no porvir, aos perigos da degeneração democrática, que afoga sob a força cega do núcleo toda noção de qualidade, desvanece na consciência das sociedades todo justo sentimento de ordem e, entregando sua ordenação hierárquica à torpeza do acaso, conduz forçosamente ao triunfo das supremacias mais injustificadas e ignóbeis.

É indubitável que nosso interesse egoísta deveria levar-nos, na falta de virtude, a ser hospitaleiros. Há muito tempo, a suprema necessidade de encher o vazio moral do deserto levou um publicista ilustre a dizer que, na América, governar é povoar. Mas essa fórmula famosa encerra uma verdade contra cuja interpretação estreita é necessário prevenir-se, porque ela conduziria a atribuir eficácia civilizadora incondicional ao valor quantitativo da multidão. Governar é povoar, assimilando em primeiro lugar, educando e selecionando depois. Se o aparecimento e o florescimento, na sociedade, das atividades humanas mais elevadas, aquelas que determinam a alta cultura, requerem como condição indispensável a existência de população numerosa e densa, é precisamente porque essa importância quantitativa da população, dando lugar à divisão mais completa do trabalho, possibilita a formação de fortes elementos dirigentes que tornem efetivo o domínio da qualidade sobre o número. A multidão, a massa anônima, nada é por si mesma. A multidão será instrumento de barbárie ou de civilização conforme careça ou não do coeficiente de uma alta direção moral. Há uma verdade profunda no fundo do paradoxo de Emerson, que exige que cada país do globo seja julgado segundo a minoria e não segundo a maioria de seus habitantes. A civilização de um povo adquire seu caráter não das manifestações de sua prosperidade ou de sua grandeza material, e sim das maneiras superiores de pensar e sentir que, dentro delas, se tornam possíveis. Comte já observava, para mostrar como em questões de intelectualidade, moralidade e sentimento seria insensato pretender que a qualidade pudesse ser substituída em algum caso pelo número, que nem da acumulação de muitos espíritos vulgares se obterá jamais o equivalente de um cérebro de gênio, nem da acumulação de muitas virtudes medíocres o equivalente de um rasgo de abnegação ou heroísmo. Ao instituir a universalidade e a igualdade de direitos, nossa democracia sancionaria, pois, o predomínio ignóbil do número, se não cuidasse de manter muito alta a noção das legítimas superioridades humanas, e de fazer da autoridade vinculada ao voto popular não a expressão do sofisma da igualdade absoluta, mas, segundo palavras que recordo de um jovem publicista francês, "a consagração da hierarquia emanando da liberdade".

A oposição entre o regime da democracia e a alta vida do espírito é realidade fatal quando esse regime significa o desconhecimento das desigualdades legítimas e a substituição da fé no heroísmo, no sentido de Carlyle, por uma concepção mecânica de governo. Tudo o que na civilização é algo mais que elemento de superioridade material e prosperidade econômica constitui relevo que não tarda a ser aplainado quando a autoridade moral pertence ao espírito da mediania. Na ausência da barbárie irruptora, que solta suas hordas sobre os faróis luminosos da civilização, com heroica e às vezes regeneradora grandeza, a alta cultura das sociedades deve precaver-se contra a obra mansa e dissolvente dessas outras hordas pacíficas, talvez polidas: as hordas inevitáveis da vulgaridade, cujo Átila poderia personificar-se em Monsieur Homais, cujo heroísmo é a astúcia posta a serviço de uma repugnância instintiva pelo grande, cujo atributo é o nivelador. Sendo a indiferença inconmovível e a superioridade quantitativa as manifestações normais de sua força, nem por isso são incapazes de chegar à ira épica e ceder aos impulsos da acometividade. Charles Morice as chama então de "falanges de Prudhommes ferozes que têm por lema a palavra Mediocridade e marcham animadas pelo ódio ao extraordinário".

Elevados ao alto, esses Prudhommes farão de sua vontade triunfante uma caçada organizada contra tudo que manifeste a aptidão e a ousadia do voo. Sua fórmula social será uma democracia que conduza à consagração do pontífice "Qualquer um", à coroação do monarca "Um de tantos". Odiarão no mérito uma rebeldia. Em seus domínios, toda nobre superioridade se achará nas condições da estátua de mármore colocada à beira de um caminho lamacento, de onde lhe envia um açoite de lodo o carro que passa. Eles chamarão sabedoria ao dogmatismo do sentido vulgar; gravidade, à mesquinha aridez do coração; critério são, à adaptação perfeita ao medíocre; e despreocupação viril, ao mau gosto. Sua concepção da justiça os levaria a substituir, na história, a imortalidade do grande homem, ora pela identidade de todos no esquecimento comum, ora pela memória igualitária de Mitrídates, de quem se conta que conservava na lembrança os nomes de todos os seus soldados. Sua forma de republicanismo se satisfaria dando autoridade decisiva ao procedimento probatório de Fox, que costumava experimentar seus projetos no critério do deputado que lhe parecia a mais perfeita personificação do country gentleman, pela limitação de suas faculdades e pela rudeza de seus gostos. Com eles se estará nas fronteiras da zoocracia, de que Baudelaire falou certa vez. A Titânia de Shakespeare, pondo um beijo na cabeça asinina, poderia ser o emblema da Liberdade que concede seu amor aos medíocres. Jamais, por meio de uma conquista mais fecunda, se poderá chegar a resultado mais fatal.

Embriagai o repetidor das irreverências da mediania que vedes passar ao vosso lado. Tentai fazê-lo representar o herói. Convertei sua apacibilidade burocrática em vocação de redentor, e tereis então a hostilidade rancorosa e implacável contra tudo o que é belo, contra tudo o que é digno, contra tudo o que é delicado no espírito humano. Essa hostilidade repugna ainda mais que o bárbaro derramamento de sangue na tirania jacobina, que diante de seu tribunal converte em culpas a sabedoria de Lavoisier, o gênio de Chénier, a dignidade de Malesherbes, que faz ouvir, entre os gritos habituais da Convenção, as palavras: "Desconfiai desse homem, que fez um livro!", e que, referindo o ideal da simplicidade democrática ao primitivo estado de natureza de Rousseau, poderia escolher o símbolo da discórdia que estabelece entre democracia e cultura na vinheta com que aquele sofista genial fez acompanhar a primeira edição de sua famosa diatribe contra as artes e as ciências em nome da moralidade dos costumes: um sátiro imprudente que, pretendendo abraçar, ávido de luz, a tocha que Prometeu leva na mão, ouve do titã filantropo que seu fogo é mortal para quem o toca.

A ferocidade igualitária não manifestou suas violências no desenvolvimento democrático de nosso século, nem se opôs em formas brutais à serenidade e à independência da cultura intelectual. Mas, à maneira de uma fera em cuja posteridade domesticada a acometividade se tivesse trocado em mansidão ardilosa e ignóbil, o igualitarismo, na forma mansa da tendência ao utilitário e ao vulgar, pode ser objeto real de acusação contra a democracia do século XIX. Nenhum espírito delicado e sagaz se deteve diante dela sem que alguns de seus resultados, no aspecto social e no político, o fizessem pensar angustiosamente. Expulsando com energia indignada do espírito humano aquela falsa concepção da igualdade que sugeriu os delírios da Revolução, o alto pensamento contemporâneo manteve ao mesmo tempo, sobre a realidade e sobre a teoria da democracia, uma inspeção severa que vos permite, a vós que colaborareis na obra do futuro, fixar vosso ponto de partida, certamente não para destruir, e sim para educar o espírito do regime que encontrais de pé.

Desde que nosso século assumiu personalidade e independência na evolução das ideias, enquanto o idealismo alemão retificava a utopia igualitária da filosofia do século XVIII e sublimava, embora com viciosa tendência cesarista, o papel reservado na história à superioridade individual, o positivismo de Comte, desconhecendo na igualdade democrática outro caráter que não o de "um dissolvente transitório das desigualdades antigas" e negando com igual convicção a eficácia definitiva da soberania popular, buscava nos princípios das classificações naturais o fundamento da classificação social que haveria de substituir as hierarquias recentemente destruídas. A crítica da realidade democrática assume formas severas na geração de Taine e Renan. Sabeis que a esse delicado e bondoso ateniense só agradava a igualdade daquele regime social quando era, como em Atenas, "uma igualdade de semideuses". Quanto a Taine, é quem escreveu as Origens da França Contemporânea. Se, por uma parte, sua concepção da sociedade como organismo o conduz logicamente a rejeitar toda ideia de uniformidade que se oponha ao princípio das dependências e subordinações orgânicas, por outra seu finíssimo instinto de seleção intelectual o leva a abominar a invasão das cúpulas pela multidão. A grande voz de Carlyle já havia pregado, contra toda irreverência niveladora, a veneração do heroísmo, entendendo por tal o culto de qualquer nobre superioridade. Emerson reflete essa voz no seio da mais positivista das democracias. A ciência nova fala de seleção como de uma necessidade de todo progresso. Dentro da arte, que é onde o sentido do seleto tem sua adaptação mais natural, vibram com profunda ressonância as notas que acusam o sentimento, que poderíamos chamar de estranheza, do espírito em meio às modernas condições da vida. Para escutá-las, não é necessário aproximar-se do parnasianismo de estirpe delicada e enferma, a quem um aristocrático desdém pelo presente levou à reclusão no passado. Entre as inspirações constantes de Flaubert, de quem se costuma derivar diretamente a mais democratizada das escolas literárias, nenhuma é mais intensa que o ódio da mediocridade encorajada pelo nivelamento e da tirania irresponsável do número. Dentro dessa contemporânea literatura do Norte, na qual a preocupação com as altas questões sociais é tão viva, surge com frequência a expressão da mesma ideia, do mesmo sentimento. Ibsen desenvolve a altiva arenga de seu Stockmann em torno da afirmação de que "as maiorias compactas são o perigo mais perigoso da liberdade e da verdade". E o formidável Nietzsche opõe ao ideal de uma humanidade mediana a apoteose das almas que se erguem sobre o nível da humanidade como uma maré viva. O anseio vivíssimo por uma retificação do espírito social que assegure à vida da heroicidade e do pensamento um ambiente mais puro de dignidade e justiça vibra hoje por toda parte, e dir-se-ia que constitui um dos acordes fundamentais que este ocaso de século propõe para as harmonias a serem compostas pelo século vindouro.

E, no entanto, o espírito da democracia é, essencialmente, para nossa civilização, um princípio de vida contra o qual seria inútil rebelar-se. Os descontentamentos sugeridos pelas imperfeições de sua forma histórica atual levaram muitas vezes à injustiça contra o que esse regime tem de definitivo e fecundo. Assim, o aristocratismo sábio de Renan formula a mais explícita condenação do princípio fundamental da democracia: a igualdade de direitos. Crê esse princípio irremediavelmente divorciado de todo possível domínio da superioridade intelectual, e chega a assinalar nele, com imagem enérgica, "os antípodas dos caminhos de Deus, pois Deus não quis que todos vivessem no mesmo grau a vida do espírito". Esses paradoxos injustos do mestre, complementados por seu famoso ideal de uma oligarquia onipotente de homens sábios, são comparáveis à reprodução exagerada e deformada, no sonho, de um pensamento real e fecundo que nos preocupou na vigília. Desconhecer a obra da democracia no essencial porque, ainda inacabada, não chegou a conciliar definitivamente sua empresa de igualdade com uma forte garantia social de seleção equivale a desconhecer a obra paralela e concorde da ciência porque, interpretada pelo critério estreito de uma escola, pôde alguma vez ferir o espírito de religiosidade ou o espírito de poesia. A democracia e a ciência são, com efeito, os dois suportes insubstituíveis sobre os quais nossa civilização repousa, ou, para exprimi-lo com uma frase de Bourget, as duas obreiras de nossos destinos futuros. "Nelas somos, vivemos, nos movemos". Sendo, pois, insensato pensar, como Renan, em obter uma consagração mais positiva de todas as superioridades morais, a realidade de uma hierarquia racional, o domínio eficiente dos altos dons da inteligência e da vontade, pela destruição da igualdade democrática, só cabe pensar na educação da democracia e em sua reforma. Cabe pensar que progressivamente se encarnem, nos sentimentos do povo e em seus costumes, a ideia das subordinações necessárias, a noção das superioridades verdadeiras, o culto consciente e espontâneo de tudo o que multiplica, aos olhos da razão, a cifra do valor humano.

A educação popular adquire, considerada em relação a tal obra, como sempre que a miramos com o pensamento do porvir, interesse supremo. É na escola, por cujas mãos procuramos fazer passar a dura argila das multidões, que está a primeira e mais generosa manifestação da equidade social, que consagra para todos a acessibilidade do saber e dos meios mais eficazes de superioridade. Ela deve complementar tão nobre incumbência fazendo do sentido da ordem, da ideia e da vontade de justiça, do sentimento das legítimas autoridades morais, objetos de uma educação preferente e cuidadosa.

Nenhuma distinção é mais fácil de confundir-se e anular-se no espírito do povo que a que ensina que a igualdade democrática pode significar igual possibilidade, nunca igual realidade de influência e prestígio entre os membros de uma sociedade organizada. Em todos eles há direito idêntico de aspirar às superioridades morais que devem dar razão e fundamento às superioridades efetivas. Mas somente aos que alcançaram realmente a posse das primeiras deve ser concedido o prêmio das últimas. O verdadeiro, o digno conceito da igualdade repousa sobre o pensamento de que todos os seres racionais são dotados por natureza de faculdades capazes de desenvolvimento nobre. O dever do Estado consiste em colocar todos os membros da sociedade em condições diversas de tender a seu aperfeiçoamento. O dever do Estado consiste em predispor os meios próprios para provocar, uniformemente, a revelação das superioridades humanas onde quer que existam. Dessa maneira, além dessa igualdade inicial, toda desigualdade estará justificada, porque será a sanção das misteriosas escolhas da natureza ou do esforço meritório da vontade. Quando concebida desse modo, a igualdade democrática, longe de opor-se à seleção dos costumes e das ideias, é o mais eficaz instrumento de seleção espiritual, é o ambiente providencial da cultura. Favorecê-la-á tudo o que favorecer o predomínio da energia inteligente. Em sentido não diverso Tocqueville pôde afirmar que a poesia, a eloquência, as graças do espírito, os fulgores da imaginação, a profundidade do pensamento, "todos esses dons da alma, repartidos pelo céu ao acaso", foram colaboradores na obra da democracia e a serviram mesmo quando se encontraram do lado de seus adversários, porque todos convergiram para pôr em relevo a grandeza natural, não herdada, de que nosso espírito é capaz. A emulação, que é o estímulo mais poderoso entre quantos podem sobreexcitar tanto a vivacidade do pensamento quanto a das demais atividades humanas, necessita ao mesmo tempo da igualdade no ponto de partida para produzir-se e da desigualdade que avantajará os mais aptos e melhores como objeto final. Só um regime democrático pode conciliar em seu seio essas duas condições da emulação, quando não degenera em igualitarismo nivelador e se limita a considerar como belo ideal de perfectibilidade uma futura equivalência dos homens por sua ascensão ao mesmo grau de cultura.

Racionalmente concebida, a democracia admite sempre um elemento aristocrático imprescritível, que consiste em estabelecer a superioridade dos melhores, assegurando-a sobre o consentimento livre dos associados. Ela consagra, como as aristocracias, a distinção de qualidade. Mas a resolve em favor das qualidades realmente superiores, as da virtude, do caráter, do espírito, e, sem pretender imobilizá-las em classes constituídas à parte das outras, que mantenham em seu favor o privilégio execrável da casta, renova sem cessar sua aristocracia dirigente nas fontes vivas do povo e a faz aceitar pela justiça e pelo amor. Reconhecendo, dessa maneira, na seleção e na predominância dos mais bem dotados uma necessidade de todo progresso, exclui dessa lei universal da vida, ao sancioná-la na ordem da sociedade, o efeito de humilhação e dor que é, nas concorrências da natureza e nas de outras organizações sociais, a dura sorte do vencido. "A grande lei da seleção natural", disse luminosamente Fouillée, "continuará realizando-se no seio das sociedades humanas, apenas se realizará cada vez mais pela via da liberdade". O caráter odioso das aristocracias tradicionais originava-se de serem injustas por seu fundamento e opressoras porque sua autoridade era imposição. Hoje sabemos que não existe outro limite legítimo para a igualdade humana senão aquele que consiste no domínio da inteligência e da virtude, consentido pela liberdade de todos. Mas sabemos também que é necessário que esse limite exista na realidade. Por outra parte, nossa concepção cristã da vida nos ensina que as superioridades morais, que são motivo de direitos, são principalmente motivo de deveres, e que todo espírito superior se deve aos demais na mesma proporção em que os excede na capacidade de realizar o bem. O anti-igualitarismo de Nietzsche, que marca sulco tão profundo no que poderíamos chamar nossa moderna literatura de ideias, levou a sua poderosa reivindicação dos direitos que considera implícitos nas superioridades humanas um espírito abominável, reacionário, pois, negando toda fraternidade, toda piedade, põe no coração do super-homem que endeusa um desprezo satânico pelos deserdados e pelos fracos, legitima nos privilegiados da vontade e da força o ministério do carrasco e, com lógica resolução, chega por fim a afirmar que "a sociedade não existe para si, mas para seus eleitos". Não é certamente essa concepção monstruosa que pode opor-se, como lábaro, ao falso igualitarismo que aspira ao nivelamento de todos pela comum vulgaridade. Por fortuna, enquanto existir no mundo a possibilidade de dispor dois pedaços de madeira em forma de cruz, isto é, sempre, a humanidade continuará crendo que o amor é o fundamento de toda ordem estável e que a superioridade hierárquica na ordem não deve ser senão uma capacidade superior de amar.

Fonte de inspirações morais inesgotáveis, a ciência nova nos sugere, ao esclarecer as leis da vida, como o princípio democrático pode conciliar-se, na organização das coletividades humanas, com uma aristarquia da moralidade e da cultura. Por uma parte, como notou mais uma vez Henri Bérenger em livro simpático, as afirmações da ciência contribuem para sancionar e fortalecer na sociedade o espírito da democracia, revelando quanto vale naturalmente o esforço coletivo, qual é a grandeza da obra dos pequenos, quão imensa é a parte de ação reservada ao colaborador anônimo e obscuro em qualquer manifestação do desenvolvimento universal. Essa nova revelação realça, não menos que a revelação cristã, a dignidade dos humildes. Ela atribui, na natureza, à obra dos infinitamente pequenos, ao trabalho do numulito e do briozoário no fundo obscuro do abismo, a construção dos alicerces geológicos. Faz surgir da vibração da célula informe e primitiva todo o impulso ascendente das formas orgânicas. Manifesta o papel poderoso que, em nossa vida psíquica, é necessário atribuir aos fenômenos mais inaparentes e mais vagos, até mesmo às percepções fugazes de que não temos consciência. E, chegando à sociologia e à história, restitui ao heroísmo, muitas vezes abnegado, das multidões, a parte que lhe negava o silêncio na glória do herói individual, e torna patente a lenta acumulação das investigações que, através dos séculos, na sombra, na oficina ou no laboratório de trabalhadores esquecidos, preparam os achados do gênio.

Ao mesmo tempo em que manifesta a eficácia imortal do esforço coletivo e dignifica a participação dos colaboradores ignorados na obra universal, a ciência mostra como, na imensa sociedade das coisas e dos seres, é condição necessária de todo progresso a ordem hierárquica. Mostra que são princípio da vida as relações de dependência e subordinação entre os componentes individuais daquela sociedade e entre os elementos da organização do indivíduo. Mostra, por fim, que é necessidade inerente à lei universal de imitação, quando relacionada ao aperfeiçoamento das sociedades humanas, a presença, nelas, de modelos vivos e influentes, que as elevem pela progressiva generalização de sua superioridade.

Para mostrar agora como ambas as lições universais da ciência podem traduzir-se em fatos, conciliando-se na organização e no espírito da sociedade, basta insistir na concepção de uma democracia nobre, justa, de uma democracia dirigida pela noção e pelo sentimento das verdadeiras superioridades humanas, de uma democracia na qual a supremacia da inteligência e da virtude, únicos limites para a equivalência meritória dos homens, receba sua autoridade e seu prestígio da liberdade, e desça sobre as multidões na efusão benfeitora do amor.

Ao mesmo tempo em que conciliará aqueles dois grandes resultados da observação da ordem natural, realizar-se-á dentro de sociedade semelhante, segundo observa Bérenger no mesmo livro de que vos falava, a harmonia dos dois impulsos históricos que comunicaram a nossa civilização seus caracteres essenciais, os princípios reguladores de sua vida. Do espírito do cristianismo nasce, efetivamente, o sentimento de igualdade, viciado por certo desprezo ascético da seleção espiritual e da cultura. Da herança das civilizações clássicas nascem o sentido da ordem, da hierarquia e o respeito religioso pelo gênio, viciados por certo desdém aristocrático pelos humildes e pelos fracos. O porvir sintetizará ambas as sugestões do passado numa fórmula imortal. A democracia então terá triunfado definitivamente. E ela, que, quando ameaça com a indignidade do nivelador, justifica os protestos irados e as amargas melancolias dos que acreditaram sacrificados por seu triunfo toda distinção intelectual, todo sonho de arte, toda delicadeza da vida, terá, ainda mais que as velhas aristocracias, seguros invioláveis para o cultivo das flores da alma, que murcham e perecem no ambiente da vulgaridade e entre as impiedades do tumulto.

Ariel

Sinopse

Ensaio clássico de José Enrique Rodó sobre juventude, cultura, democracia, idealismo e o destino espiritual da América Latina. Esta edição em português brasileiro integra o fluxo de obras em domínio público do Literunico, com tradução preparada a partir do texto espanhol público.

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