Leia agora
Ariel

Universo da obra

Ariel

Capítulo 6 · Ariel

Ariel: A Esperança da Nossa América

6 de 6 ≈ 20 min de leitura

Diante da posteridade, diante da história, todo grande povo deve aparecer como uma vegetação cujo desenvolvimento tendeu harmoniosamente a produzir um fruto no qual sua seiva depurada oferece ao porvir a idealidade de sua fragrância e a fecundidade de sua semente. Sem esse resultado duradouro, humano, erguido acima da finalidade transitória do útil, o poder e a grandeza dos impérios não passam de uma noite de sonho na existência da humanidade, porque, como as visões pessoais do sonho, não merecem contar-se no encadeamento dos fatos que formam a trama ativa da vida.

Grande civilização, grande povo, na acepção que tem valor para a história, são aqueles que, ao desaparecer materialmente no tempo, deixam vibrante para sempre a melodia surgida de seu espírito e fazem persistir na posteridade seu legado imperecível, como disse Carlyle da alma de seus heróis: como uma nova e divina porção da soma das coisas. Assim, no poema de Goethe, quando Helena, evocada do reino da noite, volta a descer ao Orco sombrio, deixa a Fausto sua túnica e seu véu. Essas vestiduras não são a própria divindade, mas, por terem sido levadas por ela, participam de sua altura divina e têm a virtude de elevar quem as possui acima das coisas vulgares.

Uma sociedade definitivamente organizada que limite sua ideia de civilização a acumular abundantes elementos de prosperidade e sua ideia de justiça a distribuí-los equitativamente entre os associados não fará das cidades onde habite nada que seja distinto, por essência, do formigueiro ou da colmeia. Cidades populosas, opulentas, magníficas, não bastam para provar a constância e a intensidade de uma civilização. A grande cidade é, sem dúvida, organismo necessário da alta cultura. É o ambiente natural das mais altas manifestações do espírito. Não sem razão Quinet disse que "a alma que acorre para beber forças e energias na íntima comunicação com a linhagem humana, essa alma que constitui o grande homem, não pode formar-se e dilatar-se em meio aos pequenos partidos de uma cidade pequena". Mas tanto a grandeza quantitativa da população quanto a grandeza material de seus instrumentos, de suas armas, de suas habitações, são apenas meios do gênio civilizador, nunca resultados nos quais ele possa deter-se. Das pedras que compuseram Cartago, não dura partícula alguma transfigurada em espírito e luz. A imensidade de Babilônia e de Nínive não representa, na memória da humanidade, o vazio de uma mão se comparada ao espaço que vai da Acrópole ao Pireu. Há uma perspectiva ideal em que a cidade não aparece grande apenas porque prometa ocupar a área imensa edificada em torno da torre de Nemrod. Nem aparece forte apenas porque seja capaz de levantar outra vez diante de si os muros babilônicos sobre os quais era possível fazer passar seis carros lado a lado. Nem aparece bela apenas porque, como Babilônia, luz nos paramentos de seus palácios lajes de alabastro e se enguirlande com os jardins de Semíramis.

Grande é, nessa perspectiva, a cidade quando os arrabaldes de seu espírito alcançam além das cúpulas e dos mares, e quando, ao pronunciar seu nome, deve iluminar-se para a posteridade toda uma jornada da história humana, todo um horizonte do tempo. A cidade é forte e bela quando seus dias são algo mais que a repetição invariável de um mesmo eco, refletindo-se indefinidamente de um a outro círculo de uma espiral eterna; quando há nela algo que flutua acima da multidão; quando, entre as luzes que se acendem durante suas noites, está a lâmpada que acompanha a solidão da vigília, inquietada pelo pensamento, e na qual se incuba a ideia que surgirá ao sol do outro dia convertida no grito que congrega e na força que conduz as almas.

Então, somente então, a extensão e a grandeza material da cidade podem dar a medida para calcular a intensidade de sua civilização. Cidades régias, soberbas aglomerações de casas, são para o pensamento leito mais inadequado que a solidão absoluta do deserto, quando o pensamento não é o senhor que as domina. Lendo o Maud, de Tennyson, encontrei uma página que poderia ser símbolo desse tormento do espírito ali onde a sociedade humana é para ele uma espécie de solidão. Preso de angustioso delírio, o herói do poema sonha-se morto e sepultado a poucos pés dentro da terra, sob o pavimento de uma rua de Londres. Apesar da morte, sua consciência permanece aderida aos frios despojos do corpo. O clamor confuso da rua, propagando-se em surda vibração até a estreita cavidade da tumba, impede nela todo sonho de paz. O peso da multidão indiferente gravita a toda hora sobre a triste prisão daquele espírito, e os cascos dos cavalos que passam parecem empenhar-se em estampar sobre ele um selo de opróbrio. Os dias se sucedem com lentidão inexorável. A aspiração de Maud consistiria em afundar mais, muito mais dentro da terra. O ruído ininteligente do tumulto só serve para manter em sua consciência desperta o pensamento de seu cativeiro.

Já existem, em nossa América latina, cidades cuja grandeza material e cuja soma de civilização aparente as aproximam com passo acelerado de participar do primeiro rango no mundo. É necessário temer que o pensamento sereno, ao aproximar-se para bater sobre as exterioridades faustosas, como sobre um vaso fechado de bronze, sinta o ruído desconsolador do vazio. É necessário temer, por exemplo, que cidades cujo nome foi glorioso símbolo na América; que tiveram Moreno, Rivadavia, Sarmiento; que levaram a iniciativa de uma Revolução imortal; cidades que fizeram dilatar-se por toda a extensão de um continente, como no harmonioso desenvolvimento das ondas concêntricas que o golpe da pedra levanta sobre a água adormecida, a glória de seus heróis e a palavra de seus tribunos, possam terminar em Sídon, em Tiro, em Cartago.

A vossa geração cabe impedi-lo; à juventude que se levanta, sangue, músculo e nervo do porvir. Quero considerá-la personificada em vós. Falo-vos agora imaginando que sois os destinados a guiar os demais nos combates pela causa do espírito. A perseverança de vosso esforço deve identificar-se, em vossa intimidade, com a certeza do triunfo. Não desmaieis em pregar o Evangelho da delicadeza aos citas, o Evangelho da inteligência aos beócios, o Evangelho do desinteresse aos fenícios.

Basta que o pensamento insista em ser, em demonstrar que existe, com a demonstração que Diógenes dava do movimento, para que sua dilatação seja inelutável e para que seu triunfo seja seguro.

O pensamento conquistará palmo a palmo, por sua própria espontaneidade, todo o espaço de que necessite para afirmar e consolidar seu reino entre as demais manifestações da vida. Na organização individual, ele levanta e engrandece, com sua atividade contínua, a abóbada do crânio que o contém. As raças pensadoras revelam, na capacidade crescente de seus crânios, esse impulso do operário interior. Na organização social, ele também saberá engrandecer a capacidade de seu cenário sem necessidade de que, para isso, intervenha qualquer força alheia a ele mesmo. Mas tal persuasão, que deve defender-vos de um desalento cuja única utilidade consistiria em eliminar da luta os medíocres e os pequenos, deve preservar-vos também das impaciências que exigem em vão do tempo a alteração de seu ritmo imperioso.

Todo aquele que se consagre a propagar e defender, na América contemporânea, um ideal desinteressado do espírito, arte, ciência, moral, sinceridade religiosa, política de ideias, deve educar sua vontade no culto perseverante do porvir. O passado pertenceu inteiro ao braço que combate. O presente pertence, quase por completo também, ao braço tosco que nivela e constrói. O porvir, um porvir tanto mais próximo quanto mais enérgicos sejam a vontade e o pensamento dos que o anseiam, oferecerá, para o desenvolvimento de faculdades superiores da alma, a estabilidade, o cenário e o ambiente.

Não vereis vós a América que sonhamos? Hospitaleira para as coisas do espírito, e não apenas para as multidões que se amparem nela; pensadora, sem prejuízo de sua aptidão para a ação; serena e firme apesar de seus entusiasmos generosos; resplandecente com o encanto de uma seriedade precoce e suave, como a que realça a expressão de um rosto infantil quando nele se revela, através da graça intacta que fulgura, o pensamento inquieto que desperta? Pensai nela ao menos. A honra de vossa história futura depende de terdes constantemente diante dos olhos da alma a visão dessa América regenerada, pairando do alto sobre as realidades do presente, como na nave gótica o vasto rosáceo que arde em luz sobre a austeridade dos muros sombrios. Talvez não sejais seus fundadores. Sereis os precursores que imediatamente a precedam. Nas sanções glorificadoras do futuro há também palmas para a lembrança dos precursores. Edgar Quinet, que penetrou tão profundamente nas harmonias da história e da natureza, observa que, para preparar o advento de um novo tipo humano, de uma nova unidade social, de uma nova personificação da civilização, costuma precedê-los de longe um grupo disperso e prematuro, cujo papel é análogo, na vida das sociedades, ao das espécies proféticas de que fala Heer a propósito da evolução biológica. O tipo novo começa por significar apenas diferenças individuais e isoladas. Os individualismos se organizam mais tarde em variedade, e por fim a variedade encontra, para propagar-se, um meio que a favorece, e então talvez ascenda ao rango específico. Então, digamo-lo com as palavras de Quinet, o grupo se faz multidão, e reina.

Eis por que vossa filosofia moral no trabalho e no combate deve ser o reverso do carpe diem horaciano: uma filosofia que não se prenda ao presente senão como ao degrau onde firmar o pé ou como à brecha por onde entrar nos muros inimigos. Não aspirareis, no imediato, à consagração da vitória definitiva, e sim a obter melhores condições de luta. Vossa energia viril terá com isso estímulo mais poderoso, pois há a virtualidade de um interesse dramático maior no desempenho desse papel, essencialmente ativo, de renovação e conquista, próprio para depurar as forças de uma geração heroicamente dotada, do que na atitude serena e olímpica que as idades de ouro do espírito costumam impor aos oficiantes solenes de sua glória. "Não é a posse dos bens", disse profundamente Taine, falando das alegrias do Renascimento; "não é a posse dos bens, mas sua aquisição, que dá aos homens o prazer e o sentimento de sua força".

Talvez seja esperança atrevida e cândida crer num aceleramento tão contínuo e feliz da evolução, numa eficácia tal de vosso esforço, que baste o tempo concedido à duração de uma geração humana para levar, na América, as condições da vida intelectual, da incipiência em que as temos agora, à categoria de um verdadeiro interesse social e a um cume que de fato domine. Mas onde não cabe a transformação total, cabe o progresso. E, mesmo que soubésseis que as primícias do solo penosamente trabalhado nunca seriam servidas à vossa mesa, isso seria, se sois generosos, se sois fortes, novo estímulo na intimidade de vossa consciência. A melhor obra é a que se realiza sem as impaciências do êxito imediato. O esforço mais glorioso é aquele que põe a esperança além do horizonte visível. A abnegação mais pura é a que nega a si mesma, no presente, não apenas a compensação do louro e da honra ruidosa, mas até a voluptuosidade moral que se deleita na contemplação da obra consumada e do termo seguro.

Houve na Antiguidade altares para os deuses ignorados. Consagrai uma parte de vossa alma ao porvir desconhecido. À medida que as sociedades avançam, o pensamento do porvir entra em maior parte como um dos fatores de sua evolução e uma das inspirações de suas obras. Da obscura imprevidência do selvagem, que só divisa do futuro o que falta para terminar cada período de sol e não concebe como os dias que virão podem ser governados em parte desde o presente, até nossa preocupação solícita e previsora com a posteridade, medeia espaço imenso, que talvez pareça breve e miserável algum dia. Só somos capazes de progresso enquanto somos capazes de adaptar nossos atos a condições cada vez mais distantes de nós, no espaço e no tempo. A segurança de nossa intervenção numa obra que há de sobreviver-nos, frutificando nos benefícios do futuro, realça nossa dignidade humana, fazendo-nos triunfar das limitações de nossa natureza. Se, por desgraça, a humanidade tivesse de desesperar definitivamente da imortalidade da consciência individual, o sentimento mais religioso com que poderia substituí-la seria o que nasce de pensar que, ainda depois de dissolvida nossa alma no seio das coisas, persistiria, na herança transmitida pelas gerações humanas, o melhor do que ela sentiu e sonhou, sua essência mais íntima e mais pura, como o raio luminoso da estrela extinta persiste no infinito e desce a acariciar-nos com sua luz melancólica.

O porvir é, na vida das sociedades humanas, o pensamento idealizador por excelência. Da veneração piedosa do passado, do culto da tradição, por uma parte, e, por outra, do impulso audaz para o vindouro, compõe-se a nobre força que, levantando o espírito coletivo acima das limitações do presente, comunica às agitações e aos sentimentos sociais um sentido ideal. Os homens e os povos trabalham, no sentir de Fouillée, sob a inspiração das ideias, como os irracionais sob a inspiração dos instintos. E a sociedade que luta e se esforça, às vezes sem sabê-lo, para impor uma ideia à realidade, imita, segundo o mesmo pensador, a obra instintiva da ave que, ao construir o ninho sob o império de uma imagem interna que a obceca, obedece ao mesmo tempo a uma lembrança inconsciente do passado e a um misterioso pressentimento do porvir.

Eliminando das almas a sugestão do interesse egoísta, o pensamento inspirado na preocupação por destinos posteriores a nossa vida tudo purifica e serena, tudo enobrece. E é alta honra de nosso século que a força obrigatória dessa preocupação com o futuro, o sentimento dessa elevada imposição da dignidade do ser racional, tenham-se manifestado tão claramente nele que, mesmo no seio do mais absoluto pessimismo, mesmo no seio da amarga filosofia que trouxe à civilização ocidental, dentro do lótus do Oriente, o amor da dissolução e do nada, a voz de Hartmann tenha pregado, com aparência de lógica, o austero dever de continuar a obra do aperfeiçoamento, de trabalhar em benefício do porvir, para que, acelerada a evolução pelo esforço dos homens, chegue ela com impulso mais rápido a seu termo final, que será o termo de toda dor e de toda vida.

Mas não é, como Hartmann, em nome da morte, e sim em nome da própria vida e da esperança, que vos peço uma parte de vossa alma para a obra do futuro. Para pedi-lo, quis inspirar-me na imagem doce e serena de meu Ariel. O gênio bondoso em quem Shakespeare soube infundir, talvez com a divina inconsciência frequente nas adivinhações geniais, tão alto simbolismo, manifesta claramente na estátua sua significação ideal, admiravelmente traduzida pela arte em linhas e contornos. Ariel é a razão e o sentimento superior. Ariel é esse sublime instinto de perfectibilidade por cuja virtude se magnifica e se converte em centro das coisas a argila humana à qual sua luz vive vinculada, a miserável argila de que os gênios de Arimanes falavam a Manfredo. Ariel é, para a natureza, o excelso coroamento de sua obra, que faz terminar o processo de ascensão das formas organizadas com a labareda do espírito. Ariel triunfante significa idealidade e ordem na vida, nobre inspiração no pensamento, desinteresse na moral, bom gosto na arte, heroísmo na ação, delicadeza nos costumes. Ele é o herói epônimo na epopeia da espécie. Ele é o protagonista imortal. Desde que, com sua presença, inspirou os débeis esforços de racionalidade do homem pré-histórico, quando pela primeira vez inclinou a fronte obscura para lavrar o sílex ou desenhar uma imagem grosseira nos ossos de rena; desde que, com suas asas, avivou a fogueira sagrada que o ariano primitivo, progenitor dos povos civilizadores, amigo da luz, acendia no mistério das selvas do Ganges para forjar com seu fogo divino o cetro da majestade humana, até que, já dentro das raças superiores, paira deslumbrante sobre as almas que ultrapassaram os cimos naturais da humanidade, tanto sobre os heróis do pensamento e do sonho quanto sobre os da ação e do sacrifício, tanto sobre Platão no promontório de Súnio quanto sobre São Francisco de Assis na solidão do monte Alverne. Sua força incontestável tem por impulso todo o movimento ascendente da vida. Vencido mil vezes pela rebelião indomável de Calibã, proscrito pela barbárie vencedora, asfixiado na fumaça das batalhas, as asas transparentes manchadas ao roçar o "eterno monturo de Jó", Ariel ressurge imortalmente. Ariel recobra sua juventude e sua formosura e acode ágil, como ao mandato de Próspero, ao chamado de todos os que o amam e invocam na realidade. Seu império benéfico alcança às vezes até os que o negam e desconhecem. Ele dirige com frequência as forças cegas do mal e da barbárie para que concorram, como as outras, à obra do bem. Ele cruzará a história humana entoando, como no drama de Shakespeare, sua canção melodiosa, para animar os que trabalham e os que lutam, até que o cumprimento do plano ignorado a que obedece lhe permita, como se liberta no drama do serviço de Próspero, romper seus laços materiais e voltar para sempre ao centro de sua luz divina.

Ainda mais que para minha palavra, exijo de vós uma lembrança doce e indelével para minha estátua de Ariel. Quero que a imagem leve e graciosa deste bronze se imprima, desde agora, na intimidade mais segura de vosso espírito. Recordo que certa vez, observando o medalheiro de um museu, chamou minha atenção, na legenda de uma moeda antiga, a palavra Esperança, meio apagada sobre a palidez decrépita do ouro. Considerando a inscrição desvanecida, meditava eu sobre a possível realidade de sua influência. Quem sabe que parte ativa e nobre seria justo atribuir, na formação do caráter e na vida de algumas gerações humanas, a esse lema simples atuando sobre os ânimos como uma sugestão insistente? Quem sabe quantas alegrias vacilantes persistiram, quantas empresas generosas amadureceram, quantos propósitos fatais se dissiparam ao chocar-se o olhar com a palavra alentadora, impressa como grito gráfico sobre o disco metálico que circulou de mão em mão? Possa a imagem deste bronze, cunhados vossos corações com ela, desempenhar em vossa vida o mesmo papel inaparente e decisivo. Possa ela, nas horas sem luz do desalento, reanimar em vossa consciência o entusiasmo pelo ideal vacilante, devolver a vosso coração o calor da esperança perdida. Afirmado primeiro no baluarte de vossa vida interior, Ariel se lançará dali à conquista das almas. Vejo-o no porvir, sorrindo-vos com gratidão, do alto, ao mergulhar vosso espírito na sombra. Creio em vossa vontade, em vosso esforço, e mais ainda nos daqueles a quem dareis a vida e transmitireis vossa obra. Costumo embriagar-me com o sonho do dia em que as coisas reais farão pensar que a Cordilheira que se ergue sobre o solo da América foi talhada para ser o pedestal definitivo desta estátua, para ser a ara imutável de sua veneração.

Assim falou Próspero. Os jovens discípulos se separaram do mestre depois de apertar-lhe a mão com afeto filial. De sua palavra suave, ia com eles a vibração persistente em que se prolonga o lamento do cristal ferido num ambiente sereno. Era a última hora da tarde. Um raio do sol moribundo atravessava a sala, em discreta penumbra, e, tocando a fronte de bronze da estátua, parecia animar nos olhos altivos de Ariel a centelha inquieta da vida. Prolongando-se depois, o raio fazia pensar numa longa mirada que o gênio, prisioneiro no bronze, enviasse sobre o grupo juvenil que se afastava. Por longo espaço marchou o grupo em silêncio. Ao amparo de um recolhimento unânime, verificava-se no espírito de todos esse fino destilar da meditação, absorta em coisas graves, que uma alma santa comparou primorosamente à queda lenta e tranquila do orvalho sobre o velo de um cordeiro. Quando o áspero contato da multidão os devolveu à realidade circundante, já era noite. Uma cálida e serena noite de verão. A graça e a quietude que ela derramava de sua urna de ébano sobre a terra triunfavam da prosa flutuante sobre as coisas dispostas por mãos humanas. Só a presença da multidão estorvava o êxtase. Um sopro morno fazia estremecer o ambiente com lânguido e delicioso abandono, como a taça trêmula na mão de uma bacante. As sombras, sem enegrecer o céu puríssimo, limitavam-se a dar a seu azul o tom escuro em que parece exprimir-se uma serenidade pensadora. Esmaltando-as, os grandes astros cintilavam em meio de um cortejo infinito: Aldebarã, que cinge uma púrpura de luz; Sírio, como a cavidade de um cálice de prata niquelada voltado sobre o mundo; o Cruzeiro, cujos braços abertos se estendem sobre o solo da América como para defender uma última esperança.

E foi então, após o prolongado silêncio, que o mais jovem do grupo, a quem chamavam Enjolras por seu ensimesmamento reflexivo, disse, assinalando sucessivamente a ondulação preguiçosa do rebanho humano e a radiante formosura da noite:

Enquanto a multidão passa, observo que, embora ela não olhe para o céu, o céu olha para ela. Sobre sua massa indiferente e obscura, como terra do sulco, algo desce do alto. A vibração das estrelas se parece com o movimento de mãos de semeador.

Ariel

Sinopse

Ensaio clássico de José Enrique Rodó sobre juventude, cultura, democracia, idealismo e o destino espiritual da América Latina. Esta edição em português brasileiro integra o fluxo de obras em domínio público do Literunico, com tradução preparada a partir do texto espanhol público.

Ariel

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ariel

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Ariel

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Ariel: Tradução Literunico Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 6 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir