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Capítulo 5 · Ariel

Ariel: O Utilitarismo e a América

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A concepção utilitária, como ideia do destino humano, e a igualdade no medíocre, como norma da proporção social, compõem, intimamente relacionadas, a fórmula do que se costuma chamar na Europa de espírito de americanismo. É impossível meditar sobre ambas as inspirações da conduta e da sociabilidade, e compará-las com as que lhes são opostas, sem que a associação traga com insistência à mente a imagem dessa democracia formidável e fecunda que, lá no Norte, ostenta as manifestações de sua prosperidade e de seu poder como prova deslumbrante em favor da eficácia de suas instituições e da direção de suas ideias. Se foi possível dizer do utilitarismo que ele é o verbo do espírito inglês, os Estados Unidos podem ser considerados a encarnação do verbo utilitário. E o evangelho desse verbo difunde-se por toda parte graças aos milagres materiais do triunfo. A América Hispânica já não é inteiramente qualificável, em relação a ele, como terra de gentios. A poderosa federação vai realizando entre nós uma espécie de conquista moral. A admiração por sua grandeza e por sua força é sentimento que avança a grandes passos no espírito de nossos homens dirigentes, e talvez ainda mais no das multidões, fascináveis pela impressão da vitória. E de admirá-la se passa, por transição facílima, a imitá-la. A admiração e a crença já são, para o psicólogo, modos passivos de imitação. "A tendência imitativa de nossa natureza moral", dizia Bagehot, "tem sua sede naquela parte da alma em que reside a credulidade". O sentido e a experiência vulgares bastariam, por si sós, para estabelecer essa relação simples. Imita-se aquele em cuja superioridade ou prestígio se crê. É assim que a visão de uma América deslatinizada por vontade própria, sem a extorsão da conquista, e regenerada depois à imagem e semelhança do arquétipo do Norte, já flutua sobre os sonhos de muitos sinceramente interessados por nosso porvir, inspira a fruição com que eles formulam a cada passo os paralelos mais sugestivos e se manifesta por constantes propósitos de inovação e reforma. Temos nossa nordomania. É necessário opor-lhe os limites que a razão e o sentimento assinalam de comum acordo.

Não dou a tais limites o sentido de uma negação absoluta. Compreendo bem que se adquiram inspirações, luzes e ensinamentos no exemplo dos fortes. Não desconheço que uma atenção inteligente, fixada no exterior para refletir de todos os lados a imagem do benéfico e do útil, é singularmente fecunda quando se trata de povos que ainda formam e modelam sua entidade nacional. Compreendo bem que se aspire a retificar, pela educação perseverante, aqueles traços do caráter de uma sociedade humana que precisam concordar com novas exigências da civilização e novas oportunidades da vida, equilibrando assim, por meio de uma influência inovadora, as forças da herança e do costume. Mas não vejo glória no propósito de desnaturar o caráter dos povos, seu gênio pessoal, para impor-lhes a identificação com modelo estranho ao qual sacrifiquem a originalidade insubstituível de seu espírito. Nem vejo glória na crença ingênua de que isso possa obter-se algum dia por procedimentos artificiais e improvisados de imitação. Essa transferência irrefletida daquilo que é natural e espontâneo numa sociedade para o seio de outra, onde não tenha raízes nem na natureza nem na história, equivalia, para Michelet, à tentativa de incorporar, por simples agregação, uma coisa morta a um organismo vivo. Em sociabilidade, como em literatura e em arte, a imitação inconsulta nunca fará senão deformar as linhas do modelo. O engano dos que pensam haver reproduzido, no essencial, o caráter de uma coletividade humana, as forças vivas de seu espírito e, com elas, o segredo de seus triunfos e de sua prosperidade, por reproduzirem exatamente o mecanismo de suas instituições e as formas exteriores de seus costumes, faz pensar na ilusão dos principiantes cândidos que imaginam ter-se apoderado do gênio do mestre quando copiaram as formas de seu estilo ou seus procedimentos de composição.

Há, além disso, nesse esforço vão, não sei que coisa de indigno. Espécie de esnobismo político poderia chamar-se o afanoso arremedo de tudo quanto fazem os preponderantes e os fortes, os vencedores e os afortunados. Espécie de abdicação servil, como aquela que, em alguns dos esnobes acorrentados para sempre à tortura da sátira pelo livro de Thackeray, faz consumir tristemente as energias dos ânimos não ajudados pela natureza ou pela fortuna na imitação impotente dos caprichos e das volubilidades dos elevados da sociedade. O cuidado da independência interior, a da personalidade e a do critério, é uma forma principalíssima do respeito próprio. Costuma-se comentar, nos tratados de ética, um preceito moral de Cícero segundo o qual faz parte dos deveres humanos que cada um de nós cuide e mantenha ciosamente a originalidade de seu caráter pessoal, aquilo que há nele que o diferencia e determina, respeitando, em tudo quanto não seja inadequado ao bem, o impulso primário da natureza, que fundou na variada distribuição de seus dons a ordem e o concerto do mundo. E ainda maior me pareceria o império do preceito se aplicado, coletivamente, ao caráter das sociedades humanas. Talvez ouvireis dizer que não há, na organização atual de nossos povos, selo próprio e definido por cuja permanência, por cuja integridade, se deva lutar. Falta talvez, em nosso caráter coletivo, o contorno seguro da personalidade. Mas, na ausência dessa índole perfeitamente diferenciada e autônoma, temos, nós, os americanos latinos, uma herança de raça, uma grande tradição étnica a manter, um vínculo sagrado que nos une a páginas imortais da história, confiando a nossa honra sua continuação no futuro. O cosmopolitismo que temos de enfrentar como necessidade irresistível de nossa formação não exclui esse sentimento de fidelidade ao passado, nem a força diretora e plasmadora com que o gênio da raça deve impor-se na refundição dos elementos que constituirão o americano definitivo do porvir.

Observou-se mais de uma vez que as grandes evoluções da história, as grandes épocas, os períodos mais luminosos e fecundos no desenvolvimento da humanidade, são quase sempre a resultante de duas forças distintas e coatuais, que mantêm, pelos impulsos concertados de sua oposição, o interesse e o estímulo da vida, os quais desapareceriam, esgotados, na quietude de uma unidade absoluta. Assim, sobre os dois polos de Atenas e Lacedemônia apoia-se o eixo ao redor do qual gira o caráter da mais genial e civilizadora das raças. A América precisa manter no presente a dualidade original de sua constituição, que converte em realidade de sua história o mito clássico das duas águias soltas simultaneamente de um e outro polo do mundo, para que chegassem ao mesmo tempo ao limite de seus domínios. Essa diferença genial e emuladora não exclui, antes tolera e até favorece em muitíssimos aspectos, a concórdia da solidariedade. E, se uma concórdia superior pudesse ser vislumbrada desde nossos dias como fórmula de um porvir distante, ela não seria devida à imitação unilateral, como diria Tarde, de uma raça por outra, e sim à reciprocidade de suas influências e ao concerto acertado dos atributos em que se funda a glória de ambas.

Por outro lado, no estudo desapaixonado dessa civilização que alguns nos oferecem como modelo único e absoluto, há razões não menos poderosas que as fundadas na indignidade e na inconveniência de renunciar a todo propósito de originalidade para temperar os entusiasmos dos que nos exigem sua consagração idolátrica. Chego agora à relação que o comentário desse espírito de imitação tem diretamente com o sentido geral desta minha conversa.

Todo juízo severo que se formule sobre os americanos do Norte deve começar por render-lhes, como se faria com altos adversários, a formalidade cavalheiresca de uma saudação. Sinto meu espírito facilmente disposto a cumpri-la. Desconhecer seus defeitos não me pareceria tão insensato quanto negar suas qualidades. Nascidos, para empregar o paradoxo usado por Baudelaire em outro sentido, com a experiência inata da liberdade, eles se mantiveram fiéis à lei de sua origem e desenvolveram, com a precisão e a segurança de uma progressão matemática, os princípios fundamentais de sua organização, dando a sua história uma unidade consequente que, se excluiu a aquisição de aptidões e méritos distintos, tem a beleza intelectual da lógica. A marca de seus passos jamais se apagará dos anais do direito humano, porque foram eles os primeiros a fazer surgir nosso moderno conceito de liberdade das inseguranças do ensaio e das imaginações da utopia, para convertê-lo em bronze imperecível e realidade viva. Demonstraram com seu exemplo a possibilidade de estender a um imenso organismo nacional a autoridade inconmovível de uma república. Com sua organização federativa, revelaram, segundo a feliz expressão de Tocqueville, a maneira de conciliar, com o brilho e o poder dos grandes Estados, a felicidade e a paz dos pequenos. Deles são alguns dos traços mais audazes com que se há de destacar, na perspectiva do tempo, a obra deste século. Deles é a glória de ter revelado plenamente, acentuando a mais firme nota de beleza moral de nossa civilização, a grandeza e o poder do trabalho, essa força bendita que a Antiguidade abandonava à abjeção da escravidão e que hoje identificamos com a mais alta expressão da dignidade humana, fundada na consciência e na atividade do próprio mérito. Fortes, tenazes, tendo a inação por opróbrio, puseram nas mãos do mecânico de suas oficinas e do agricultor de seus campos a clava hercúlea do mito, e deram ao gênio humano uma beleza nova e inesperada, cingindo-lhe o avental de couro do forjador. Cada um deles avança para conquistar a vida como os primitivos puritanos avançavam para conquistar o deserto. Devotos perseverantes desse culto da energia individual que faz de cada homem o artífice de seu destino, modelaram sua sociabilidade como um conjunto imaginário de exemplares de Robinson, que, depois de haver fortalecido duramente sua personalidade na prática da ajuda própria, entram a compor os filamentos de uma trama firmíssima. Sem sacrificar essa concepção soberana do indivíduo, souberam fazer ao mesmo tempo, do espírito de associação, o instrumento mais admirável de sua grandeza e de seu império. Obtiveram da soma das forças humanas, subordinada aos propósitos da investigação, da filantropia e da indústria, resultados tanto mais maravilhosos porque conseguidos com a mais absoluta integridade da autonomia pessoal. Há neles um instinto de curiosidade desperta e insaciável, uma impaciente avidez de toda luz. Professando o amor pela instrução do povo com a obsessão de uma monomania gloriosa e fecunda, fizeram da escola o eixo mais seguro de sua prosperidade, e da alma da criança a mais cuidada entre as coisas leves e preciosas. Sua cultura, longe de ser refinada ou espiritual, tem eficácia admirável sempre que se dirige praticamente à realização de finalidade imediata.

Não incorporaram às aquisições da ciência uma só lei geral, um só princípio. Mas fizeram dela maga pelas maravilhas de suas aplicações, engrandeceram-na nos domínios da utilidade e deram ao mundo, na caldeira a vapor e no dínamo elétrico, bilhões de escravos invisíveis que centuplicam, para servir o Aladim humano, o poder da lâmpada maravilhosa. O crescimento de sua grandeza e de sua força será objeto de assombros duradouros para o porvir. Inventaram, com sua prodigiosa aptidão de improvisação, um aguilhão para o tempo. E, ao conjuro de sua vontade poderosa, surge em um dia, do seio da solidão absoluta, a soma de cultura acumulável para a obra dos séculos. A liberdade puritana, que lhes envia sua luz do passado, uniu a essa luz o calor de uma piedade que ainda dura. Junto da fábrica e da escola, suas mãos fortes levantaram também os templos de onde evaporam suas preces muitos milhões de consciências livres. Souberam salvar, no naufrágio de todas as idealidades, a idealidade mais alta, guardando viva a tradição de um sentimento religioso que, se não ergue seus voos nas asas de um espiritualismo delicado e profundo, sustém em parte, entre as asperezas do tumulto utilitário, a rédea firme do sentido moral. Souberam também guardar, em meio aos refinamentos da vida civilizada, o selo de certa primitividad robusta. Têm o culto pagão da saúde, da destreza, da força. Temperam e afinam no músculo o instrumento precioso da vontade. E, obrigados por sua aspiração insaciável de domínio a cultivar a energia de todas as atividades humanas, modelam o torso do atleta para o coração do homem livre. Do concerto de sua civilização, do movimento acordado de sua cultura, surge uma nota dominante de otimismo, confiança e fé, que dilata os corações impulsionando-os ao porvir sob a sugestão de uma esperança teimosa e arrogante: a nota do Excelsior e do Salmo da Vida, com que seus poetas assinalaram o bálsamo infalível contra toda amargura na filosofia do esforço e da ação.

Sua grandeza titânica impõe-se assim até aos mais prevenidos pelas enormes desproporções de seu caráter ou pelas violências recentes de sua história. E, de minha parte, vedes que, embora não os ame, eu os admiro. Admiro-os, em primeiro lugar, por sua formidável capacidade de querer, e inclino-me diante da escola de vontade e de trabalho que, como disse Philarète-Chasles de seus progenitores nacionais, eles instituíram.

No princípio era a ação. Com essas célebres palavras do Fausto poderia começar um futuro historiador da poderosa república o Gênesis, ainda não concluído, de sua existência nacional. Seu gênio poderia definir-se, como o universo dos dinamistas, como força em movimento. Tem, antes de tudo e acima de tudo, a capacidade, o entusiasmo, a feliz vocação da ação. A vontade é o cinzel que esculpiu esse povo em pedra dura. Seus relevos característicos são duas manifestações do poder da vontade: a originalidade e a audácia. Sua história é, toda ela, o arrebatamento de uma atividade viril. Seu personagem representativo chama-se "eu quero", como o super-homem de Nietzsche. Se alguma coisa o salva coletivamente da vulgaridade, é essa extraordinária ostentação de energia que leva a toda parte e com a qual imprime certo caráter de grandeza épica até às lutas do interesse e da vida material. Assim, dos especuladores de Chicago e Minneapolis, Paul Bourget disse que são à maneira de combatentes heroicos, nos quais a aptidão para o ataque e a defesa é comparável à de um veterano do grande Imperador. E essa energia suprema, com a qual o gênio norte-americano parece obter, hipnotizador audaz, o adormecimento e a sugestão dos fados, costuma encontrar-se até nas particularidades que se nos apresentam como excepcionais e divergentes daquela civilização. Ninguém negará que Edgar Poe seja individualidade anômala e rebelde dentro de seu povo. Sua alma escolhida representa uma partícula inassimilável da alma nacional, que não em vão se agitou entre as outras com a sensação de uma solidão infinita. E, no entanto, a nota fundamental, que Baudelaire assinalou profundamente no caráter dos heróis de Poe, ainda é o têmpera sobre-humana, a resistência indômita da vontade. Quando imaginou Ligeia, a mais misteriosa e adorável de suas criaturas, Poe simbolizou na luz inextinguível de seus olhos o hino de triunfo da Vontade sobre a Morte.

Adquirido, pelo reconhecimento sincero de quanto há de luminoso e grande no gênio da poderosa nação, o direito de completar, a seu respeito, a fórmula da justiça, uma questão cheia de interesse pede expressão. Realiza aquela sociedade, ou tende pelo menos a realizar, a ideia da conduta racional que satisfaz as legítimas exigências do espírito, a dignidade intelectual e moral de nossa civilização? É nela que devemos assinalar a imagem mais aproximada de nossa cidade perfeita? Essa inquietação febril, que parece centuplicar em seu seio o movimento e a intensidade da vida, tem objeto capaz de merecê-la e estímulo bastante para justificá-la?

Herbert Spencer, formulando com nobre sinceridade sua saudação à democracia da América num banquete em Nova York, assinalava o traço fundamental da vida dos norte-americanos nessa mesma inquietação transbordante que se manifesta pela paixão infinita do trabalho e pela porfia da expansão material em todas as suas formas. Observava depois que, nesse predomínio exclusivo da atividade subordinada aos propósitos imediatos da utilidade, revelava-se uma concepção da existência tolerável sem dúvida como caráter provisório de uma civilização, como tarefa preliminar de uma cultura, mas que urgia retificar, pois tendia a converter o trabalho utilitário em fim e objeto supremo da vida, quando ele em nenhum caso pode significar racionalmente senão a acumulação dos elementos próprios para tornar possível o desenvolvimento total e harmonioso de nosso ser. Spencer acrescentava que era necessário pregar aos norte-americanos o evangelho do descanso ou do recreio. E, identificando nós a significação mais nobre dessas palavras com a do ócio, tal como o dignificavam os moralistas antigos, classificaremos dentro do evangelho em que devem ser iniciados aqueles trabalhadores sem repouso toda preocupação ideal, todo emprego desinteressado das horas, todo objeto de meditação erguido acima da finalidade imediata da utilidade.

A vida norte-americana descreve efetivamente esse círculo vicioso que Pascal assinalava na ansiosa perseguição do bem-estar quando ele não tem seu fim fora de si mesmo. Sua prosperidade é tão grande quanto sua impossibilidade de satisfazer a uma concepção mediana do destino humano. Obra titânica, pela enorme tensão de vontade que representa e por seus triunfos inauditos em todas as esferas do engrandecimento material, é indubitável que aquela civilização produz, em seu conjunto, singular impressão de insuficiência e vazio. Se, com o direito dado pela história de trinta séculos de evolução presididos pela dignidade do espírito clássico e do espírito cristão, se pergunta qual é nela o princípio diretor, qual seu substrato ideal, qual o propósito ulterior à imediata preocupação dos interesses positivos que estremecem aquela massa formidável, só se encontrará, como fórmula do ideal definitivo, a mesma preocupação absoluta do triunfo material. Órfão de tradições muito profundas que o orientem, esse povo não soube substituir a idealidade inspiradora do passado por uma alta e desinteressada concepção do porvir. Vive para a realidade imediata do presente, e por isso subordina toda a sua atividade ao egoísmo do bem-estar pessoal e coletivo. Da soma dos elementos de sua riqueza e de seu poder, poderia dizer-se o que o autor de Mensonges diz da inteligência do marquês de Norbert em um de seus livros: é um monte de lenha ao qual não se encontrou modo de atear fogo. Falta a faísca eficaz que faça erguer-se a chama de um ideal vivificante e inquieto sobre o copioso combustível. Nem mesmo o egoísmo nacional, à falta de impulsos mais altos, nem mesmo o exclusivismo e o orgulho de raça, que transfiguram e engrandecem, na Antiguidade, a prosaica dureza da vida de Roma, podem ter lampejos de idealidade e formosura num povo onde a confusão cosmopolita e o atomismo de uma democracia mal compreendida impedem a formação de uma verdadeira consciência nacional.

Dir-se-ia que o positivismo genial da metrópole sofreu, ao transmitir-se a seus filhos emancipados da América, uma destilação que o priva de todos os elementos de idealidade que o temperavam, reduzindo-o, na realidade, à crueza que, nas exagerações da paixão ou da sátira, pôde ser atribuída ao positivismo da Inglaterra. O espírito inglês, sob a áspera casca do utilitarismo, sob a indiferença mercantil, sob a severidade puritana, esconde, sem dúvida, uma virtualidade poética escolhida e um profundo veio de sensibilidade, o qual revela, no sentir de Taine, que o fundo primitivo, o fundo germânico daquela raça, depois modificada pela pressão da conquista e pelo hábito da atividade comercial, foi extraordinária exaltação do sentimento. O espírito americano não recebeu em herança esse instinto poético ancestral, que brota como nascente límpida do seio da rocha britânica quando é o Moisés de uma arte delicada quem a toca. O povo inglês tem, na instituição de sua aristocracia, por anacrônica e injusta que ela seja sob o aspecto do direito político, um alto e inexpugnável baluarte a opor ao mercantilismo ambiente e à prosa invasora. Tão alto e inexpugnável baluarte que o próprio Taine assegura que, desde os tempos das cidades gregas, a história não apresentava exemplo de condição de vida mais própria para formar e elevar o sentimento da nobreza humana. No ambiente da democracia da América, o espírito de vulgaridade não encontra diante de si relevos inacessíveis a sua força de ascensão, e se estende e propaga como sobre a planície de uma pampa infinita.

Sensibilidade, inteligência, costumes: tudo se caracteriza, no enorme povo, por uma radical inaptidão de seleção, que mantém, junto da ordem mecânica de sua atividade material e de sua vida política, uma profunda desordem em tudo o que pertence ao domínio das faculdades ideais. São fáceis de seguir as manifestações dessa inaptidão, partindo das mais exteriores e aparentes para chegar depois a outras mais essenciais e íntimas. Pródigo de suas riquezas, porque em sua cobiça não entra, como acertadamente se disse, nenhuma parte de Harpagão, o norte-americano conseguiu adquirir plenamente com elas a satisfação e a vaidade da magnificência suntuária, mas não conseguiu adquirir a nota escolhida do bom gosto. A arte verdadeira só pôde existir, em tal ambiente, a título de rebelião individual. Emerson e Poe são ali como exemplares de uma fauna expulsa de seu verdadeiro meio pelo rigor de uma catástrofe geológica. Bourget fala, em Outre-mer, do acento concentrado e solene com que a palavra arte vibra nos lábios dos norte-americanos favorecidos pela fortuna, desses rijos e acrisolados heróis do self-help que aspiram coroar, com a assimilação de todos os refinamentos humanos, a obra de sua disputada ascensão. Mas nunca lhes foi dado conceber essa atividade divina que nomeiam com ênfase senão como novo motivo para satisfazer sua inquietação invasora e como troféu de sua vaidade. Ignoram-na no que ela tem de desinteressado e escolhido. Ignoram-na apesar da munificência com que a fortuna individual costuma empregar-se em estimular a formação de um sentido delicado de beleza, apesar da esplendidez dos museus e das exposições de que se orgulham suas cidades, apesar das montanhas de mármore e bronze que esculpiram para as estátuas de suas praças públicas. E, se alguma vez seu nome houvesse de caracterizar um gosto de arte, ele não poderia ser outro senão o que envolve a negação da própria arte: a brutalidade do efeito rebuscado, o desconhecimento de todo tom suave e de toda maneira requintada, o culto de uma falsa grandeza, o sensacionismo que exclui a nobre serenidade inconciliável com o apressamento de uma vida febril.

A idealidade do belo não apaixona o descendente dos austeros puritanos. Tampouco o apaixona a idealidade do verdadeiro. Despreza todo exercício do pensamento que prescinda de finalidade imediata, como vão e infecundo. Não o leva à ciência um anseio desinteressado de verdade, nem se manifestou caso algum capaz de amá-la por si mesma. A investigação não é para ele senão antecedente da aplicação utilitária. Seus gloriosos esforços por difundir os benefícios da educação popular são inspirados pelo nobre propósito de comunicar os elementos fundamentais do saber ao maior número. Mas não revelam que, ao mesmo tempo em que se preocupa com esse acréscimo extensivo da educação, preocupe-se em selecioná-la e elevá-la, para auxiliar o esforço das superioridades que ambicionem erguer-se acima da mediocridade geral. Assim, o resultado de sua obstinada guerra contra a ignorância foi a semicultura universal e uma profunda languidez da alta cultura. Na mesma proporção em que diminui a ignorância radical, diminuem no ambiente dessa gigantesca democracia a sabedoria superior e o gênio. Eis por que a história de sua atividade pensadora é uma progressão decrescente de brilho e originalidade. Enquanto no período da independência e da organização surgem, para representar tanto o pensamento quanto a vontade daquele povo, muitos nomes ilustres, meio século mais tarde Tocqueville pode observar, a respeito deles, que os deuses se vão. Quando Tocqueville escreveu sua obra-prima, ainda irradiava de Boston, a cidadela puritana, a cidade das doutas tradições, uma gloriosa plêiade que tem na história intelectual deste século a magnitude da universalidade. Quem recolheu depois a herança de Channing, de Emerson, de Poe? A nivelação mesocrática, apressando sua obra desoladora, tende a desvanecer o pouco caráter que restava àquela precária intelectualidade. As asas de seus livros há muito não chegam à altura em que seria universalmente possível divisá-los. E hoje a representação mais genuína do gosto norte-americano, em matéria de letras, está nas telas cinzentas de um diarismo que não faz pensar naquele que um dia forneceu os materiais de O Federalista.

Com relação aos sentimentos morais, o impulso mecânico do utilitarismo encontrou o freio moderador de uma forte tradição religiosa. Mas nem por isso se deve crer que tenha cedido a direção da conduta a um verdadeiro princípio de desinteresse. A religiosidade dos americanos, como derivação extremada da inglesa, não é mais que uma força auxiliar da legislação penal, que evacuaria seu posto no dia em que fosse possível dar à moral utilitária a autoridade religiosa que Stuart Mill ambicionava dar-lhe. O cume mais elevado de sua moral é a moral de Franklin. Uma filosofia da conduta que encontra seu termo no medíocre da honestidade, na utilidade da prudência, de cujo seio jamais surgirão nem santidade nem heroísmo, e que só é apta para prestar à consciência, nos caminhos normais da vida, o apoio do bastão de macieira com que caminhava habitualmente seu propagador, não passa de lenho frágil quando se trata de subir altas encostas. Tal é a cúpula suprema. Mas é nos vales que se deve buscar a realidade. Ainda que o critério moral não tivesse de descer abaixo do utilitarismo probo e medido de Franklin, o termo forçoso, já assinalado pela sagaz observação de Tocqueville, de uma sociedade educada em semelhante limitação do dever, seria não uma dessas decadências soberbas e magníficas que dão a medida da beleza satânica do mal na dissolução dos impérios, e sim uma espécie de materialismo pálido e medíocre, e, em último resultado, o sono de uma enervação sem brilho, pela silenciosa decomposição de todos os recursos da vida moral. Ali onde o preceito tende a pôr as altas manifestações da abnegação e da virtude fora do domínio do obrigatório, a realidade fará retroceder indefinidamente o limite da obrigação. Mas a escola da prosperidade material, que será sempre rude prova para a austeridade das repúblicas, levou mais longe a planura da concepção da conduta racional que hoje conquista os espíritos. Ao código de Franklin sucederam outros de tendências mais francas como expressão da sabedoria nacional. E, há menos de cinco anos, o voto público consagrava em todas as cidades norte-americanas, com as manifestações mais equívocas da popularidade e da crítica, a nova lei moral pela qual, desde a puritana Boston, o autor de certo livro douto intitulado Pushing to the Front anunciava solenemente que o êxito devia ser considerado a finalidade suprema da vida. A revelação teve eco até no seio das comunhões cristãs, e citou-se uma vez, a propósito do livro afortunado, a Imitação, de Kempis, como termo de comparação.

A vida pública não se subtrai, por certo, às consequências do crescimento do mesmo germe de desorganização que aquela sociedade leva nas entranhas. Qualquer observador mediano de seus costumes políticos vos falará de como a obsessão do interesse utilitário tende progressivamente a enervar e apequenar nos corações o sentimento do direito. O valor cívico, a velha virtude dos Hamilton, é uma lâmina de aço que se oxida, cada dia mais esquecida, entre as teias de aranha das tradições. A venalidade, que começa no voto público, propaga-se a todos os mecanismos institucionais. O governo da mediocridade torna vã a emulação que realça os caracteres e as inteligências e os tonifica com a perspectiva da efetividade de seu domínio. A democracia, à qual não souberam dar o regulador de uma alta e educadora noção das superioridades humanas, sempre tendeu entre eles à brutalidade abominável do número, que diminui os melhores benefícios morais da liberdade e anula, na opinião, o respeito à dignidade alheia. Hoje, além disso, ergue-se uma força formidável para contrastar da pior maneira possível o absolutismo do número. A influência política de uma plutocracia representada pelos todo-poderosos aliados dos trustes, monopolizadores da produção e donos da vida econômica, é sem dúvida um dos traços mais merecedores de interesse na atual fisionomia do grande povo. A formação dessa plutocracia fez recordar, com provável oportunidade, o advento da classe enriquecida e soberba que, nos últimos tempos da república romana, é um dos antecedentes visíveis da ruína da liberdade e da tirania dos Césares. E o exclusivo cuidado com o engrandecimento material, nume daquela civilização, impõe assim a lógica de seus resultados na vida política, como em todas as ordens da atividade, dando o primeiro lugar ao struggle for life ousado e astuto, convertido pela brutal eficácia de seu esforço na suprema personificação da energia nacional, no postulante a sua representação emersoniana, no personagem reinante de Taine.

Ao impulso que precipita aceleradamente a vida do espírito no sentido da desorientação ideal e do egoísmo utilitário corresponde, fisicamente, aquele outro impulso que, na expansão do assombroso crescimento daquele povo, leva suas multidões e suas iniciativas em direção à imensa zona ocidental que, nos tempos da independência, era o mistério velado pelas selvas do Mississippi. Com efeito, é nesse Oeste improvisado, que cresce formidável diante dos velhos Estados do Atlântico e reclama para um porvir próximo a hegemonia, que está a representação mais fiel da vida norte-americana no instante atual de sua evolução. É ali que os resultados definitivos, os frutos lógicos e naturais do espírito que guiou a poderosa democracia desde suas origens, mostram-se em relevo ao olhar do observador e lhe fornecem ponto de partida para imaginar a face do futuro imediato do grande povo. Ao virginiano e ao ianque sucedeu, como tipo representativo, esse dominador das pradarias ontem desertas, a respeito do qual Michel Chevalier dizia, há meio século, que "os últimos seriam um dia os primeiros". O utilitarismo vazio de todo conteúdo ideal, a vagueza cosmopolita e a nivelação da democracia bastarda alcançarão com ele seu último triunfo. Todo elemento nobre daquela civilização, tudo o que a vincula a recordações generosas e fundamenta sua dignidade histórica, o legado dos tripulantes do Mayflower, a memória dos patrícios da Virgínia e dos cavalheiros da Nova Inglaterra, o espírito dos cidadãos e legisladores da emancipação, ficará dentro dos velhos Estados onde Boston e Filadélfia ainda mantêm, segundo expressivamente se disse, o paládio da tradição washingtoniana. Chicago se levanta para reinar. E sua confiança na superioridade que leva sobre o litoral iniciador do Atlântico funda-se em considerá-lo demasiadamente reacionário, demasiadamente europeu, demasiadamente tradicionalista. A história não dá títulos quando o procedimento de eleição é a arrematação da púrpura.

À medida que o utilitarismo genial daquela civilização assume caracteres mais definidos, mais francos, mais estreitos, aumentam, com a embriaguez da prosperidade material, as impaciências de seus filhos por propagá-la e atribuir-lhe a predestinação de um magistério romano. Hoje eles aspiram manifestamente ao primado da cultura universal, à direção das ideias, e consideram a si mesmos os forjadores de um tipo de civilização que prevalecerá. Aquele discurso semi-irônico que Laboulaye põe na boca de um escolar de sua Paris americanizada, para significar a preponderância que sempre concederam, no propósito educativo, a tudo quanto favoreça o orgulho do sentimento nacional, teria toda a seriedade da crença mais sincera nos lábios de qualquer americano viril de nossos dias. No fundo de seu declarado espírito de rivalidade com a Europa há um desprezo ingênuo e a profunda convicção de que estão destinados a obscurecer em breve sua superioridade espiritual e sua glória, cumprindo-se uma vez mais, nas evoluções da civilização humana, a dura lei dos mistérios antigos, em que o iniciado dava morte ao iniciador. Inútil seria tentar convencê-los de que, embora a contribuição que levaram aos progressos da liberdade e da utilidade tenha sido, indubitavelmente, grande, e embora se devesse atribuir-lhe em justiça a significação de obra universal, de obra humana, ela é insuficiente para fazer deslocar-se, em direção ao novo Capitólio, o eixo do mundo. Inútil seria tentar convencê-los de que a obra realizada pela perseverante genialidade do ariano europeu desde que, há três mil anos, as margens do Mediterrâneo civilizador e glorioso cingiram jubilosamente a guirlanda das cidades helênicas; a obra que ainda continua realizando-se e de cujas tradições e ensinamentos vivemos, é uma soma com a qual não pode formar equação a fórmula Washington mais Edison. Eles aspirariam a revisar o Gênesis para ocupar essa primeira página. Mas, além da relativa insuficiência da parte que lhes é dado reivindicar na educação da humanidade, seu próprio caráter lhes nega a possibilidade da hegemonia. A natureza não lhes concedeu o gênio da propaganda nem a vocação apostólica. Carecem desse dom superior de amabilidade, em alto sentido, desse extraordinário poder de simpatia com que as raças dotadas de uma missão providencial de educação sabem fazer de sua cultura algo parecido com a beleza da Helena clássica, na qual todos acreditavam reconhecer um traço próprio. Aquela civilização pode abundar, e abunda sem dúvida, em sugestões e exemplos fecundos. Pode inspirar admiração, assombro, respeito. Mas é difícil que, quando o estrangeiro divisa do alto-mar seu gigantesco símbolo, a liberdade de Bartholdi, erguendo triunfalmente sua tocha sobre o porto de Nova York, desperte em seu ânimo a emoção profunda e religiosa com que o viajante antigo devia ver surgir, nas noites diáfanas da Ática, o toque luminoso que a lança de ouro da Atena da Acrópole deixava notar à distância na pureza do ambiente sereno.

E adverti que, quando, em nome dos direitos do espírito, nego ao utilitarismo norte-americano esse caráter típico com que quer impor-se a nós como soma e modelo de civilização, não tenho o propósito de afirmar que a obra realizada por ele deva ser inteiramente perdida em relação aos que poderíamos chamar interesses da alma. Sem o braço que nivela e constrói, não teria paz aquele que serve de apoio à nobre fronte que pensa. Sem a conquista de certo bem-estar material, é impossível, nas sociedades humanas, o reino do espírito. Assim o reconhece o próprio idealismo aristocrático de Renan, quando realça, do ponto de vista dos interesses morais da espécie e de sua seleção espiritual no futuro, a significação da obra utilitária deste século. "Elevar-se sobre a necessidade", acrescenta o mestre, "é redimir-se". No remoto do passado, os efeitos da atividade prosaica e interessada do mercador que pela primeira vez põe um povo em relação com outros têm alcance idealizador incalculável, pois contribuem eficazmente para multiplicar os instrumentos da inteligência, polir e suavizar os costumes e tornar possíveis, talvez, os preceitos de uma moral mais avançada. A mesma força positiva aparece propiciando as maiores idealidades da civilização. O ouro acumulado pelo mercantilismo das repúblicas italianas pagou, segundo Saint-Victor, os gastos do Renascimento. As naves que voltavam dos países das Mil e Uma Noites, carregadas de especiarias e marfim, tornaram possível que Lourenço de Médici renovasse, nas lojas dos mercadores florentinos, os banquetes platônicos. A história mostra, em definitivo, uma indução recíproca entre os progressos da atividade utilitária e da ideal. E assim como a utilidade costuma converter-se em forte escudo para as idealidades, elas provocam com frequência, desde que não o proponham diretamente, os resultados do útil. Bagehot observa, por exemplo, como os imensos benefícios positivos da navegação talvez não existissem para a humanidade se, nas idades primitivas, não houvesse sonhadores e ociosos, certamente mal compreendidos por seus contemporâneos, interessados na contemplação do que ocorria nas esferas do céu. Essa lei de harmonia nos ensina a respeitar o braço que lavra o duro torrão da prosa. A obra do positivismo norte-americano servirá à causa de Ariel, em último termo. O que aquele povo de ciclopes conquistou diretamente para o bem-estar material, com seu sentido do útil e sua admirável aptidão para a invenção mecânica, outros povos, ou ele próprio no futuro, converterão em eficazes elementos de seleção. Assim, a mais preciosa e fundamental das aquisições do espírito, o alfabeto, que dá asas de imortalidade à palavra, nasce no seio das feitorias cananeias e é o achado de uma civilização mercantil, que, ao utilizá-lo com fins exclusivamente mercenários, ignorava que o gênio de raças superiores o transfiguraria, convertendo-o no meio de propagar sua essência mais pura e luminosa. A relação entre os bens positivos e os bens intelectuais e morais é, pois, segundo a comparação adequada de Fouillée, novo aspecto da questão da equivalência das forças, que, assim como permite transformar o movimento em calor, permite também obter das vantagens materiais elementos de superioridade espiritual.

Mas a vida norte-americana ainda não nos oferece novo exemplo dessa relação indubitável, nem o anuncia como glória de uma posteridade visível. Nossa confiança e nossos votos devem inclinar-se a que, num porvir mais inacessível à inferência, esteja reservado àquela civilização um destino superior. Por mais que, sob o aguilhão de sua atividade vivíssima, o breve tempo que a separa de sua aurora tenha sido bastante para satisfazer o gasto de vida requerido por evolução imensa, seu passado e sua atualidade não podem ser senão introito em relação ao futuro. Tudo demonstra que ela ainda está muito distante de sua fórmula definitiva. A energia assimiladora que lhe permitiu conservar certa uniformidade e certo têmpera genial, apesar das enormes invasões de elementos étnicos opostos aos que até hoje deram o tom a seu caráter, terá de travar batalhas cada dia mais difíceis, e no utilitarismo proscritor de toda idealidade não encontrará inspiração bastante poderosa para manter a atração do sentimento solidário. Um pensador ilustre, que comparava o escravo das sociedades antigas a uma partícula não digerida pelo organismo social, poderia talvez ter comparação semelhante para caracterizar a situação desse forte colono de procedência germânica que, estabelecido nos Estados do centro e do Far West, conserva intacta, em sua natureza, em sua sociabilidade, em seus costumes, a impressão do gênio alemão, que em muitas de suas condições características mais profundas e enérgicas deve ser considerado verdadeira antítese do gênio americano. Por outro lado, uma civilização destinada a viver e dilatar-se no mundo, uma civilização que não tenha perdido, mumificando-se à maneira dos impérios asiáticos, a aptidão da variabilidade, não pode prolongar indefinidamente a direção de suas energias e de suas ideias num único e exclusivo sentido. Esperemos que o espírito daquele titânico organismo social, que até hoje foi somente vontade e utilidade, seja também algum dia inteligência, sentimento, idealidade. Esperemos que da enorme forja surja, no último resultado, o exemplar humano, generoso, harmônico, seleto, que Spencer, em discurso já citado, acreditava poder augurar como termo do custoso processo de refundição. Mas não o procuremos nem na realidade presente daquele povo nem na perspectiva de suas evoluções imediatas. Renunciemos a ver o tipo de uma civilização exemplar onde existe apenas um esboço tosco e enorme, que ainda passará necessariamente por muitas retificações sucessivas antes de adquirir a atitude serena e firme com que os povos que alcançaram perfeito desenvolvimento de seu gênio presidem ao glorioso coroamento de sua obra, como no sonho do condor que Leconte de Lisle descreveu com soberba majestade, terminando em olímpico sossego a ascensão poderosa acima do cume da cordilheira.

Ariel

Sinopse

Ensaio clássico de José Enrique Rodó sobre juventude, cultura, democracia, idealismo e o destino espiritual da América Latina. Esta edição em português brasileiro integra o fluxo de obras em domínio público do Literunico, com tradução preparada a partir do texto espanhol público.

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