Universo da obra
Universo da obra
Houvera uma longa e severa fome na terra onde Anansi vivia. Ele não conseguira obter alimento para sua pobre esposa e sua família. Certo dia, fitando desesperadamente o mar, viu erguer-se, do meio da água, uma ilhazinha com uma alta palmeira sobre ela. Decidiu alcançar essa árvore — se algum meio se mostrasse possível — e subir nela, na esperança de encontrar alguns cocos que o recompensassem. A dificuldade era como chegar lá.
Isso, porém, resolveu-se sozinho quando ele chegou à praia, pois ali estava, ao alcance de sua mão, o meio de transporte, na forma de um velho barco quebrado. Certamente não parecia muito resistente, mas Anansi decidiu tentar.
Suas seis primeiras tentativas foram malsucedidas — uma grande onda o arremessava de volta à praia cada vez que tentava partir. Ele, porém, era perseverante, e na sétima tentativa conseguiu se afastar. Conduziu o velho barco avariado da melhor maneira que pôde e, por fim, chegou à palmeira desejada. Depois de [ 40 ] amarrar o barco ao tronco da árvore — que crescia quase diretamente da água — subiu em direção aos cocos. Arrancando todos os que conseguia alcançar, deixou-os cair, um a um, no barco. Para seu desespero, todos erraram o barco e caíram, em vez disso, na água, até restar apenas o último. Mirou este ainda com mais cuidado que os outros, mas ele também caiu na água e desapareceu de seus olhos famintos. Não havia provado sequer um, e agora todos tinham desaparecido.
Ele não suportava a ideia de voltar para casa de mãos vazias, por isso, em seu desespero, atirou-se também na água. Para sua completa surpresa, em vez de se afogar, viu-se de pé no fundo do mar, diante de uma bonita casinha. Dela saiu um velho, que perguntou a Anansi o que ele queria com tanta urgência que viera à casa do Trovão para procurar. Anansi contou sua história de desgraça, e o Trovão mostrou-se muito solidário.
Ele entrou na casinha e trouxe um belo pote de cozinhar, que deu a Anansi, dizendo-lhe que nunca mais precisaria passar fome. O pote sempre forneceria comida suficiente para ele e [ 41 ] sua família. Anansi ficou muito grato e despediu-se do Trovão com muitos agradecimentos.
Ansioso para testar o pote de uma vez, Anansi apenas esperou até estar novamente sentado no velho barco para dizer: “Pote, pote, o que você costumava fazer por seu senhor, faça agora por mim.” Imediatamente apareceram bons alimentos de todos os tipos. Anansi comeu uma refeição farta, da qual gostou muito.
Ao chegar de novo à terra, seu primeiro pensamento foi correr para casa e dar a toda a família uma boa refeição saída de seu pote maravilhoso. Um medo egoísta e ganancioso o impediu. “E se eu gastar toda a magia do pote com eles e não restar mais nada para mim? Melhor manter o pote em segredo — assim poderei saborear uma refeição quando quiser.” Então, com a mente cheia desse pensamento, escondeu o pote.
Chegou em casa fingindo estar completamente esgotado de cansaço e fome. Não havia um grão de comida em lugar nenhum. Sua esposa e os pobres filhos estavam fracos pela falta dela, mas o egoísta Anansi não deu atenção a isso. Parabenizou a si mesmo ao pensar em seu pote mágico, agora seguramente escondido em seu quarto. Para lá se retirava de tempos em tempos, quando sentia fome, e desfrutava de uma boa refeição. Sua [ 42 ] família ficava cada vez mais magra, mas ele ficava cada vez mais rechonchudo. Começaram a suspeitar de algum segredo e decidiram descobri-lo. Seu filho mais velho, Kweku Tsin, tinha o poder de se transformar em qualquer forma que escolhesse; por isso tomou a forma de uma mosquinha e acompanhou o pai por toda parte. Por fim, Anansi, sentindo fome, entrou no quarto e fechou a porta. Depois pegou o pote e fez uma bela refeição. Tendo recolocado o pote em seu esconderijo, saiu, sob o pretexto de procurar comida.
Assim que ele estava seguramente fora de vista, Kweku Tsin tirou o pote de onde estava e chamou toda a família faminta para vir imediatamente. Eles tiveram uma refeição tão boa quanto a que o pai tivera. Quando terminaram, a Sra. Anansi — para punir o marido — disse que levaria o pote até a aldeia e daria uma refeição a todos. Assim fez — mas, ai! Ao trabalhar para preparar tanta comida de uma só vez, o pote ficou quente demais e derreteu. O que fazer agora? Anansi ficaria tão furioso! Sua esposa proibiu todos de mencionar o pote.
Anansi voltou, pronto para sua ceia, e, como de costume, entrou em seu quarto, fechando cuidadosamente a porta. Foi ao esconderijo — estava vazio! [ 43 ] Olhou ao redor, consternado. Não se via pote nenhum em parte alguma. Alguém devia tê-lo descoberto. Sua família devia ser culpada; ele encontraria um meio de puni-la.
Sem dizer nada a ninguém sobre o assunto, esperou até a manhã. Assim que clareou, partiu em direção à praia, onde estava o velho barco. Ao entrar no barco, ele começou a se mover por conta própria e deslizou velozmente sobre a água — direto para a palmeira. Chegando lá, Anansi prendeu o barco como antes e subiu na árvore. Desta vez, ao contrário da primeira, os cocos quase caíam em suas mãos. Quando os mirava em direção ao barco, caíam facilmente dentro dele — nem um só, como antes, caía na água. Ele os pegou deliberadamente e os atirou para fora do barco, saltando imediatamente atrás deles. Como antes, viu-se diante da casinha do Trovão, com o Trovão à espera para ouvir sua história. Ele a contou, e o velho demonstrou a mesma solidariedade que havia demonstrado antes.
Desta vez, porém, deu a Anansi uma bela vara e despediu-se dele. Anansi mal podia esperar até entrar no barco — tão ansioso estava para experimentar as propriedades mágicas de seu novo presente. [ 44 ] “Vara, vara”, disse ele, “o que você costumava fazer por seu senhor, faça também por mim.” A vara começou a espancá-lo com tanta força que, em poucos minutos, ele foi obrigado a saltar na água e nadar até a praia, deixando o barco e a vara à deriva, para irem aonde quisessem. Então voltou tristemente para casa, lamentando seus muitos hematomas e desejando ter agido com mais sabedoria desde o começo.
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Seleção de contos de Ananse/Anansi da tradição akan, a figura astuta da aranha narradora, em edição brasileira do Literunico para a Copa do Mundo.
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