Universo da obra
Universo da obra
Perto da miserável cabaninha de Anansi havia um belo palácio onde vivia um homem muito rico chamado Nada. Nada e Anansi propuseram, certo dia, ir à cidade vizinha para arranjar esposas. Assim, partiram juntos.
Nada, por ser homem rico, usava um pano de veludo muito fino, enquanto Anansi usava um de algodão esfarrapado. Enquanto estavam a caminho, Anansi convenceu Nada a trocar de roupa por um tempinho, prometendo devolver o belo veludo antes que chegassem à cidade. Ele foi adiando isso, porém, primeiro com um pretexto, depois com outro — até que chegaram ao destino.
Anansi, vestido com uma roupa tão bela, não teve dificuldade em conseguir tantas esposas quantas quisesse. Pobre Nada, com seu pano esfarrapado e miserável, foi tratado com grande desprezo. A princípio, não conseguiu sequer uma esposa. Por fim, porém, uma mulher teve pena dele e lhe deu sua filha. A pobre moça foi ridicularizada com muitas gargalhadas pelas [ 36 ] esposas de Anansi, por escolher um mendigo como Nada parecia ser. Ela, sabiamente, não deu atenção ao desprezo delas.
O grupo partiu para casa. Quando chegaram à encruzilhada que levava às suas respectivas moradas, as mulheres ficaram espantadas. A estrada que levava à casa de Anansi estava apenas meio aberta. A que levava ao palácio de Nada, naturalmente, era larga e bem-feita. Não só isso: seus criados a tinham coberto com belas peles e tapetes, em preparação para seu retorno. Havia criados ali, esperando por ele, com roupas finas para ele e sua esposa. Ninguém esperava por Anansi.
A esposa de Nada era rainha de todo o distrito e tinha tudo o que seu coração podia desejar. As esposas de Anansi não conseguiam sequer comida adequada; tinham de viver de bananas verdes com pimentas. A esposa de Nada soube do estado miserável de suas amigas e convidou-as para um grande banquete em seu palácio. Elas vieram e ficaram tão encantadas com tudo o que viram que concordaram em permanecer ali. Assim, recusaram-se a voltar para a cabana de Anansi.
Ele ficou muito zangado e tentou de muitas maneiras matar Nada, mas sem sucesso. Por fim, porém, convenceu alguns amigos ratos a cavar um túnel profundo [ 37 ] diante da porta de Nada. Quando o buraco ficou pronto, Anansi forrou-o com facas e garrafas quebradas. Depois untou os degraus do palácio com quiabo para torná-los muito escorregadios e retirou-se para uma pequena distância.
Quando achou que toda a casa de Nada já estava em segurança na cama e adormecida, chamou Nada para sair ao pátio e ver uma coisa. A esposa de Nada, porém, o dissuadiu de ir. Anansi tentou uma e outra vez, e a cada vez ela dizia ao marido que não desse ouvidos. Por fim, Nada decidiu ir ver aquilo. Assim que pôs o pé no primeiro degrau, é claro que escorregou, e caiu dentro do buraco. O barulho alarmou a casa. Trouxeram luzes, e Nada foi encontrado na vala, tão ferido pelas facas que logo morreu. Sua esposa ficou terrivelmente aflita com sua morte prematura. Cozinhou muitos inhames, amassou-os e levou uma grande travessa deles por todo o distrito. A cada criança que encontrava, dava um pouco, para que a criança a ajudasse a chorar por seu marido. É por isso que, se você encontrar uma criança chorando e perguntar o motivo, muitas vezes lhe dirão que ela está “chorando por nada”.
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Seleção de contos de Ananse/Anansi da tradição akan, a figura astuta da aranha narradora, em edição brasileira do Literunico para a Copa do Mundo.
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