Universo da obra
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Kweku Anansi e Kweku Tsin — seu filho — eram ambos lavradores muito habilidosos. Em geral, conseguiam belas colheitas em cada uma de suas roças. Num certo ano, porém, tiveram muita má sorte. Haviam semeado como de costume, mas nenhuma chuva caiu por mais de um mês depois disso, e parecia que as sementes não conseguiriam brotar.
Certo dia, Kweku Tsin caminhava tristemente pelos seus campos, olhando para o chão nu e seco, e pensando no que ele e sua família fariam para comer, se não conseguissem nenhuma colheita. Para sua surpresa, viu um anãozinho sentado à beira do caminho. O pequeno corcunda perguntou a razão de sua tristeza, e Kweku Tsin lhe contou. O anão prometeu ajudá-lo, trazendo chuva para a roça. Mandou Kweku buscar duas pequenas varas e bater de leve em sua corcunda, enquanto ele cantava:
“Ó água, sobe, ó água, sobe,
E deixa a chuva cair, e deixa a chuva cair.”
Para grande alegria de Kweku, a chuva começou imediatamente a cair, e continuou até que a terra ficasse completamente encharcada. Nos dias seguintes, as sementes germinaram, e as plantações começaram a prometer boa safra.
Anansi logo soube como as plantações de Kweku estavam crescendo bem — enquanto as suas próprias ainda estavam nuas e duras. Foi diretamente até o filho e exigiu saber o motivo. Kweku Tsin, sendo um sujeito honesto, contou-lhe imediatamente o que havia acontecido.
Anansi decidiu depressa que faria sua roça ser regada do mesmo modo, e então partiu em direção a ela. Enquanto seguia, cortou duas varas grandes e fortes, pensando: “Meu filho fez o anão trabalhar com varinhas pequenas. Eu o farei trabalhar o dobro com estas grandes.” Contudo, escondeu cuidadosamente as varas grandes quando viu o anão vindo em sua direção. Como antes, o corcunda perguntou qual era o problema, e Anansi lhe contou. “Pegue duas pequenas varas e bata de leve em minha corcunda”, disse o anão. “Eu conseguirei chuva para você.”
Mas Anansi pegou suas varas grandes e bateu com tanta força que o anão caiu morto. O sujeito ganancioso ficou então tomado de medo, pois sabia que o anão era o bobo da corte do rei do país, e também um dos seus grandes favoritos. Começou a imaginar como poderia lançar a culpa sobre outra pessoa. Pegou o corpo morto do anão e o carregou até uma árvore de cola. Ali o colocou sobre um dos galhos mais altos e sentou-se sob a árvore para vigiar.
Depois de algum tempo, Kweku Tsin apareceu para ver se seu pai havia conseguido chuva para as plantações. “O senhor não viu o anão, pai?”, perguntou ele, ao ver o velho sentado sozinho. “Oh, sim!”, respondeu Anansi; “mas ele subiu nesta árvore para colher cola. Agora estou esperando por ele.” “Eu subirei para buscá-lo”, disse o rapaz — e imediatamente começou a subir. Assim que sua cabeça tocou o corpo, este, é claro, caiu ao chão. “Oh! O que você fez, seu malvado?”, gritou o pai. “Você matou o bobo da corte do rei!” “Está tudo bem”, respondeu calmamente o filho — que percebeu que aquilo era uma das trapaças de Anansi. “O rei está muito zangado com ele, e prometeu uma bolsa de dinheiro a quem o matasse. Agora irei receber a recompensa.” “Não! Não! Não!”, gritou Anansi. “A recompensa é minha. Eu o matei com duas varas grandes. Eu o levarei ao rei.” “Muito bem!”, respondeu o filho. “Já que foi o senhor que o matou, pode levá-lo.”
Lá se foi Anansi, muito contente com a perspectiva de receber uma recompensa. Chegou à corte do rei, apenas para encontrar o rei muito irado com a morte de seu favorito. O corpo do bobo foi encerrado numa grande caixa, e Anansi foi condenado — como castigo — a carregá-la sobre a cabeça para sempre. O rei encantou a caixa de modo que ela nunca pudesse ser colocada no chão. A única maneira pela qual Anansi algum dia poderia se livrar dela seria fazendo outro homem colocá-la sobre a própria cabeça. Naturalmente, ninguém estava disposto a fazer isso.
Por fim, certo dia, quando Anansi já estava quase exausto com seu pesado fardo, encontrou a Formiga. “Você poderia segurar esta caixa para mim enquanto vou ao mercado comprar algumas coisas de que preciso muito?”, disse Anansi ao Sr. Formiga. “Eu conheço suas trapaças, Anansi”, respondeu a Formiga. “Você quer se livrar dela.” “Oh, não, de modo algum, Sr. Formiga”, protestou Anansi. “De fato voltarei para buscá-la, eu prometo.”
O Sr. Formiga, que era um sujeito honesto e sempre cumpria suas próprias promessas, acreditou nele. Pegou a caixa sobre a cabeça, e Anansi saiu apressado. Desnecessário dizer que o astuto sujeito não tinha a menor intenção de cumprir sua palavra. O Sr. Formiga esperou em vão por sua volta — e foi obrigado a vagar pelo resto da vida com a caixa sobre a cabeça. É por isso que tão frequentemente vemos formigas carregando grandes fardos enquanto seguem apressadas.
Seleção de contos de Ananse/Anansi da tradição akan, a figura astuta da aranha narradora, em edição brasileira do Literunico para a Copa do Mundo.
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