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Histórias de Ananse

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Histórias de Ananse

Capítulo 6 · Histórias de Ananse

Olho por olho

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Havia muitos meses que uma grande fome assolava a terra. A carne se tornara tão rara que apenas os chefes ricos tinham dinheiro suficiente para comprá-la. O povo pobre estava morrendo de fome. Anansi e sua família estavam em situação miserável.

Um dia, o filho mais velho de Anansi — Kweku Tsin — descobriu, para sua grande alegria, um lugar na floresta onde ainda havia muitos animais. Conhecendo os modos perversos do pai, Kweku nada lhe contou sobre o assunto. Anansi, porém, logo descobriu que Kweku voltava carregado, dia após dia, para a aldeia. Ali conseguia vender a carne por bom preço aos aldeões famintos. Anansi imediatamente quis saber o segredo — mas seu filho, sabiamente, recusou-se a contar. O velho decidiu descobrir por meio de um truque.

Entrando de mansinho no quarto do filho certa noite, quando ele dormia profundamente, cortou um furinho no canto da sacola que Kweku sempre levava para a floresta. Anansi então pôs uma quantidade de cinzas na sacola e a recolocou onde a havia encontrado.

“POSSO LHE DAR UM POUCO DESTA CARNE?”

Na manhã seguinte, quando Kweku partiu para a floresta, jogou a sacola, como de costume, sobre o ombro. Sem que soubesse, a cada passo as cinzas eram espalhadas pelo chão. Consequentemente, quando Anansi saiu uma hora depois, pôde seguir facilmente o filho pela trilha de cinzas. Ele também chegou à morada dos animais na floresta e encontrou Kweku ali antes dele. Imediatamente expulsou o filho, dizendo que, pela lei da terra, o lugar pertencia a ele. Kweku percebeu como havia sido enganado e decidiu recuperar a carne.

Assim, voltou para casa, fez uma pequena imagem e pendurou sininhos ao redor de seu pescoço. Depois amarrou um longo fio à cabeça dela e retornou em direção ao lugar de caça.

Quando estava mais ou menos no meio do caminho, pendurou a imagem num galho de árvore junto à trilha e escondeu-se nos arbustos próximos, segurando a outra ponta do fio na mão.

Enquanto isso, o pai ganancioso havia matado tantos animais quantos pôde encontrar, decidido a enriquecer o mais depressa possível. Depois esfolou-os e preparou a carne, para levá-la às aldeias vizinhas e vendê-la. Pegando a primeira carga, pôs-se a caminho de sua própria aldeia. No meio do caminho, chegou ao lugar onde a imagem pendia na trilha. Pensando que fosse um dos deuses, parou. Ao se aproximar, a imagem começou a balançar vigorosamente a cabeça para ele. Sentiu que isso significava que os deuses estavam zangados. Para agradá-los, disse à imagem: “Posso lhe dar um pouco desta carne?” Novamente a imagem balançou a cabeça. “Posso lhe dar metade desta carne?”, perguntou então. A cabeça balançou mais uma vez. “Você quer toda esta carne?”, gritou ele ferozmente. Desta vez a cabeça assentiu, como se a imagem estivesse muito satisfeita. “Não lhe darei toda a minha carne”, gritou Anansi. Com isso, a imagem tremeu em todos os membros, como se estivesse tomada por uma terrível fúria. Anansi ficou tão assustado que jogou toda a carga no chão e saiu correndo. Enquanto corria, gritou para trás: “Amanhã irei a Ekubon — você não conseguirá tirar minha carne de mim lá, seu ladrão.”

Mas Kweku ouvira para onde o pai pretendia ir no dia seguinte — e colocou a imagem em seu caminho como antes. Mais uma vez, Anansi foi obrigado a deixar toda a sua carga — e novamente gritou o nome do lugar aonde iria no dia seguinte.

A mesma coisa aconteceu dia após dia, até que todos os animais da mata foram mortos. A essa altura, Kweku Tsin se tornara muito rico — mas seu pai, Anansi, ainda era muito pobre. Era obrigado a ir todos os dias à casa de Kweku em busca de comida.

Quando a fome terminou, Kweku deu um grande banquete e convidou toda a aldeia. Enquanto todos estavam reunidos, Kweku contou a história da astúcia de seu pai e de como ela fora vencida. Isso causou grande divertimento entre os aldeões. Anansi ficou tão envergonhado que prontamente prometeu a Kweku abster-se de seus truques malignos no futuro. Essa promessa, porém, ele não manteve por muito tempo.

Histórias de Ananse

Sinopse

Seleção de contos de Ananse/Anansi da tradição akan, a figura astuta da aranha narradora, em edição brasileira do Literunico para a Copa do Mundo.

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