Universo da obra
Universo da obra
Certa vez veio sobre a terra uma fome tão terrível que um grão de milho valia muito mais do que seu peso em ouro. Uma aranha faminta vagava pela floresta procurando comida. Para sua grande alegria, encontrou um antílope morto.
Sabendo que não lhe permitiriam chegar em segurança em casa com ele, embrulhou-o com muito cuidado numa longa esteira e amarrou-o firmemente.
Colocando-o sobre a cabeça, começou a voltar para casa. Enquanto seguia, chorava amargamente, dizendo a todos que aquele era o corpo de seu avô morto. Todos que encontrava se compadeciam sinceramente dele.
No caminho encontrou o lobo e o leopardo. Esses dois animais sábios suspeitaram que aquilo fosse um dos truques da Aranha. Sabiam que não se podia confiar nela. Caminhando mais um pouco, discutiram o que poderiam fazer para descobrir o que havia no embrulho.
Concordaram em tomar um atalho pelo campo até uma árvore pela qual sabiam que a prima Aranha teria de passar. Quando chegaram a essa árvore, esconderam-se com muito cuidado atrás dela e ficaram esperando.
Quando ela passou pelo lugar, eles sacudiram a árvore e soltaram ruídos assustadores. Isso apavorou tanto o senhor Aranha que ele deixou cair sua carga e fugiu.
Os dois cavalheiros abriram o embrulho e, para sua grande alegria, descobriram dentro dele a carne do antílope. Levaram-na para sua própria casa e começaram a preparar o jantar.
Quando o senhor Aranha se recuperou do susto, começou a se perguntar quem poderia estar na árvore fazendo os ruídos. Decidiu que seus inimigos só podiam ser o Lobo e o Leopardo. Resolveu que recuperaria sua carne deles.
Pegou um pequeno lagarto e lixou seus dentes até ficarem finos e pontiagudos. Depois o enviou para espionar o lobo e o leopardo — pedindo-lhes fogo emprestado. Ele deveria pegar o fogo e apagá-lo assim que deixasse a cabana deles. Então poderia voltar e pedir uma segunda vez. Se lhe fizessem perguntas, deveria sorrir e mostrar os dentes.
O lagarto fez como lhe foi dito, e tudo aconteceu exatamente como a Aranha esperava. O Lobo e o Leopardo perguntaram avidamente ao lagarto onde ele havia mandado lixar os dentes tão belamente. Ele respondeu que “Aranha Lixadora” fizera aquilo para ele.
O Lobo e o Leopardo discutiram o assunto e decidiram mandar lixar os dentes da mesma maneira. Assim poderiam quebrar facilmente os ossos de sua comida.
Por isso, foram à casa da aranha disfarçada e pediram que ela deixasse os dentes deles como os do Lagarto. A Aranha concordou, mas disse que, para fazer o trabalho corretamente, primeiro teria de pendurá-los numa árvore. Eles não fizeram objeção.
Quando os teve pendurados com segurança, a Aranha e sua família vieram e zombaram deles. Depois a Aranha foi até a cabana deles e trouxe de volta o corpo do antílope. Toda a aldeia foi convidada para o banquete, que foi realizado diante dos dois pobres animais na árvore. Durante essa festa, todos caçoaram do lobo e do leopardo.
Na manhã seguinte, Cupim e seus filhos passaram pelo lugar a caminho da casa de alguns amigos. O senhor Leopardo implorou que eles libertassem a ele e a seu amigo. Cupim e sua família puseram-se a trabalhar, destruíram a árvore e os libertaram. O Leopardo e o Lobo prometeram aos cupins que, quando voltassem, preparariam um banquete para eles.
Infelizmente, a Aranha ouviu o convite e decidiu tirar proveito dele. No terceiro dia, que era exatamente o dia marcado pelo lobo e pelo leopardo, a Aranha vestiu seus filhos como os cupins. Eles partiram cantando o coro dos cupins, a fim de enganar o Leopardo.
O Lobo e o Leopardo os receberam calorosamente e prepararam para eles um esplêndido banquete, que as aranhas desfrutaram plenamente.
Pouco depois da partida deles, chegaram os verdadeiros cupins. Os dois anfitriões, pensando que aqueles deviam ser a Aranha e sua família, derramaram água fervente sobre eles e mataram todos, exceto o pai.
Ao chegar de volta em casa, tomado de grande raiva, Cupim jurou que nunca mais ajudaria ninguém. Aproveitaria todas as oportunidades para prejudicar os bens alheios. Daquele dia até hoje, os cupins têm sido uma verdadeira praga para o homem.
Seleção de contos de Ananse/Anansi da tradição akan, a figura astuta da aranha narradora, em edição brasileira do Literunico para a Copa do Mundo.
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