Universo da obra
Universo da obra
Às duas e treze da manhã, Nara aprovou a retirada de uma geladeira sem porta, três sacos de azulejo quebrado e um colchão com manchas de chuva. Reprovou, por hábito, a foto de um homem sentado no ponto de ônibus.
A denúncia vinha da Rua Turiassu.
DESCRIÇÃO DO USUÁRIO: “Tá aí faz dias. Atrapalha a entrada do mercado. Retirar.”
A câmera pegara o homem de lado: magro, paletó maior que o corpo, sacola de supermercado entre os pés. Ele mantinha a coluna reta demais para quem dormia. Parecia esperar uma condução que já tinha desistido daquela linha. No banco de concreto, ao lado dele, havia uma mancha antiga de refrigerante e um anúncio rasgado de curso técnico. O aplicativo marcara tudo dentro do mesmo retângulo amarelo.
Nara clicou em NÃO COLETÁVEL. O sistema piscou.
VOLUME IRREGULAR. REVISAR.
— Vai dormir, desgraça — ela disse para a tela.
No cubículo ao lado, Teo mastigava gelo de um copo plástico. Fazia isso desde que largara o cigarro, ou desde que dizia ter largado; no estacionamento, às vezes, Nara ainda via a brasa rápida entre os dedos dele.
— Falando com cliente ou com a vida?
— Com a vida. Cliente pelo menos tem protocolo.
Ele inclinou a cadeira e olhou por cima da divisória.
— Pessoa de novo?
Nara assentiu. Desde que a prefeitura colara o selo da SUMA nos postes, as denúncias tinham desaprendido diferença: sofá, pneu, morador de rua, cachorro velho, carro parado, vizinha cantando, criança jogando bola. Tudo vinha pela mesma boca.
Na parede da central, um cartaz novo mostrava uma calçada limpa, sem gente, sem poste torto, sem raiz de árvore levantando piso. A frase embaixo dizia: CIDADE LIVRE COMEÇA NO SEU CHAMADO. Alguém desenhara um bigode no prefeito com caneta azul. Lúcio mandara trocar o cartaz duas vezes. Na terceira, desistiu.
— Manda para o Lúcio — disse Teo.
— Para ele aprovar?
— Para ele assinar.
Ela rejeitou outra vez. O chamado voltou sozinho, agora com categoria alterada:
MATERIAL HUMANO SEM VÍNCULO APARENTE.
O couro da cadeira grudou atrás das coxas de Nara. Ela abriu o histórico do chamado. Havia dezessete denúncias contra o mesmo homem nos últimos cinco dias. Algumas reclamavam do cheiro. Uma dizia “olhar agressivo”. Outra dizia apenas “de novo”.
— Dezessete — disse ela.
Teo veio para trás da cadeira dela. Tinha cheiro de gelo mastigado e desodorante barato.
— Mesma pessoa?
— Mesmo ponto.
— O sistema está somando.
— Somando o quê?
Ele ficou calado tempo demais. Depois apontou para uma linha minúscula no rodapé, quase da cor do fundo.
PERSISTÊNCIA DE OBSTRUÇÃO: 94%.
Nara passou o mouse sobre o número. A caixa de ajuda abriu com três palavras: Índice de tolerância.
— Teo.
Ele parou de mastigar.
Na transmissão ao vivo do caminhão 44, a Rua Turiassu apareceu azulada, lavada por lâmpadas frias. Dois coletores desceram, de macacões cinza e luvas grossas. Caminharam até o ponto.
O homem levantou a cabeça.
A câmera perdeu foco por um segundo. Quando voltou, havia apenas a sacola entre os pés do banco.
O coletor colou nela uma etiqueta amarela.
RETIRADO COM SUCESSO.
Nara esperou que o sistema abrisse alguma tela de erro. O painel passou para o próximo chamado: uma poltrona de couro numa calçada de Moema, com cupim aparente e “risco de tropeço”.
Teo se levantou sem ruído.
— Você viu?
— Vi.
— Então não fui só eu.
Ela queria responder alguma coisa que colocasse o acontecido dentro de uma frase normal. A central, porém, continuava trabalhando ao redor deles. Teclados. Café. Uma risada curta. Um ar-condicionado pingando dentro de um balde azul, três baias adiante.
Na baia da frente, Patrícia aprovou a retirada de duas portas de guarda-roupa e reclamou que o filho tinha esquecido o agasalho na escola. Na televisão sem som perto da copa, uma apresentadora sorria diante de um mapa de trânsito. A cidade inteira seguia fingindo que ainda era feita de ruas.
Teo voltou para o lugar dele e digitou alguma coisa fora do sistema. Nara conhecia aquele jeito de ombros fechados. Ele só fazia aquilo quando entrava nos relatórios que não deviam existir.
— Vai se ferrar — disse ela.
— Já estou.
— Teo.
— Eu tenho uma cópia local dos logs desde março.
— Para quê?
— Porque minha filha estuda numa escola onde tudo vira aplicativo. Presença, lanche, xixi, comportamento. Um dia chegou notificação dizendo “choro recorrente na entrada”. Eu quis saber quem escreve esse tipo de frase.
Nara olhou de novo para a tela. A sacola continuava lá no banco, sozinha, marcada como objeto finalizado.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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