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Capítulo 5 · Volume Irregular

Miriam Não Cabe

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A mãe de Nara limpava o Hospital Municipal Santa Célia havia vinte e dois anos. Miriam dizia que hospital ensinava duas coisas: sangue sai de quase tudo, e médico nunca sabe onde fica pano de chão.

Nara a encontrou no refeitório, comendo pão francês com margarina. Miriam tinha guardado metade do pão num guardanapo para depois, hábito de quem nunca confiou em turno longo.

O refeitório tinha seis mesas de fórmica, uma televisão presa num suporte torto e cheiro de feijão requentado. Àquela hora, só havia copeiras, dois residentes com jaleco aberto e um maqueiro dormindo com a testa encostada numa garrafa de refrigerante.

Miriam empurrou uma cadeira com o pé.

— Senta antes que desmaie em cima da minha comida.

Nara sentou. Percebeu que estava com a etiqueta do homem da boca de lobo dobrada dentro da manga. A cola grudara nos pelos do braço.

— Você está com cara de quem viu documento — disse Miriam.

— Vi pior.

Nara contou o bastante: o chamado, o caminhão, o pacote tremendo perto da boca de lobo. Guardou para si o som do corpo dobrando. Miriam ouviu sem interromper, mastigando devagar.

— Esse povo sempre quis isso — disse por fim. — Antes chamava polícia, síndico, padre, genro. Agora tem botão.

— Mãe, apareceu seu nome num alerta.

Miriam limpou os dedos no guardanapo.

— Meu nome aparece em escala atrasada, reclamação de médico, pedido de luva. Qual alerta?

Nara mostrou o celular.

Miriam Cordeiro — material insistente. Solicitações acumuladas: 9.

A mãe leu duas vezes. Deu uma risada curta.

— Insistente eu sou mesmo.

— Não acha graça.

— Acho, sim. Se eu parar de achar graça, eles ganham duas vezes.

— Quem são eles?

Miriam apontou com o queixo para o teto, para as câmeras, para o corredor, para todo mundo e ninguém.

— O povo que acha que chão limpo aparece sozinho. O povo que pisa molhado e pergunta quem deixou molhar. O povo que quer velho quieto, criança sem febre, pobre educado, mulher baixa. Escolhe um.

— Quem pediu?

— Todo mundo pede um pouco, filha. Um médico que acha ruim eu falar alto. Uma enfermeira que quer eu fique depois do meu horário. Uma paciente que reclama do balde no corredor. Você também já pediu.

Nara fechou a mão no celular.

— Eu nunca pedi para você sumir.

— Pediu para eu parar.

Nara soube o dia. Domingo de Natal, dois anos antes, Miriam discutira com a gerente do mercado porque a moça empurrava uma embaladora recém-contratada. Nara estava cansada, com sacola pesada, vergonha da fila olhando. Tinha dito: mãe, para, pelo amor de Deus.

Miriam tinha parado. Pagara as compras. No caminho para casa, não falou até a padaria.

— Aquilo era diferente — disse Nara.

— Para quem ouve, nem sempre é.

O quarto 18 interrompeu a conversa. Uma paciente gritava que a velha da cama ao lado respirava alto. Miriam levantou.

— Vou lá antes que transformem ronco em entulho.

Nara segurou sua mão.

— Mãe.

— Brincar é o que sobra quando não deixam a gente mandar.

No corredor, um cartaz novo da SUMA dividia espaço com a campanha de vacinação:

AMBIENTE LIVRE AJUDA NA RECUPERAÇÃO<br>denuncie obstruções afetivas, sonoras ou circulatórias

Miriam parou diante dele e soltou um estalo com a língua.

— Afetiva agora tem coleta seletiva.

— Desde quando isso está aí?

— Desde ontem. O diretor mandou colar perto dos elevadores. Disse que reduz conflito.

Foram juntas. A cama ao lado da paciente estava vazia. O lençol, dobrado num quadrado muito limpo, guardava o formato de um corpo que acabara de perder o volume. Sobre o travesseiro havia uma etiqueta.

A paciente olhava para a parede, satisfeita e apavorada.

— Eu pedi silêncio — ela disse. — Desse jeito, não.

Miriam pegou a etiqueta e amassou. No corredor, os alto-falantes do hospital chiaram. Uma voz feminina, doce como propaganda de farmácia, anunciou:

— Colabore com ambientes sem obstrução afetiva.

Uma auxiliar de enfermagem apareceu na porta com uma bandeja de remédios.

— Cadê a Dona Jandira?

A paciente começou a chorar.

— Eu não falei o nome dela.

Nara pegou o prontuário no pé da cama. Jandira Lopes, oitenta e seis anos, pneumonia, filha em Osasco, alergia a dipirona. Na aba de observações, alguém escrevera a lápis: pergunta pela filha a cada quinze minutos.

Miriam abriu o armário da paciente. Lá estavam os chinelos, uma bolsa de crochê e um pacote de bolacha água e sal fechado com pregador.

— Ela não foi embora — disse Miriam. — Gente que vai embora leva chinelo errado, leva sacola, leva vergonha. Isso aqui é sumiço arrumado por terceiros.

Miriam apertou a mão da filha.

— Nara, se eu sumir, você não aceita substituto.

— Para de falar assim.

— Promete.

Nara prometeu. O anúncio repetiu a frase no alto-falante, agora com o sobrenome das duas no fim, como se o hospital tivesse ouvido.

No celular de Miriam, uma notificação surgiu antes que ela tocasse na tela.

Avalie a convivência com Miriam Cordeiro.

Abaixo, cinco estrelas vazias.

Miriam olhou para a filha.

— Viu? Querem que eu vire serviço.

Nara apertou o botão de desligar. O aparelho continuou aceso.

— Vamos sair daqui.

— Meu turno acaba às sete.

— Mãe.

— Tem um corredor inteiro sem limpar e uma velha que acabou de virar travesseiro. Eu saio quando achar a Dona Jandira ou quando me carregarem.

Nara abraçou a mãe no meio do corredor. Miriam ficou dura no primeiro segundo, depois bateu duas vezes nas costas da filha, do jeito antigo: pronto, já deu, respira.

Volume Irregular

Sinopse

Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.

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