Universo da obra
Universo da obra
Teo tinha um Gol prata com banco de trás cheio de panfletos, uma cadeirinha infantil e uma lanterna de obra. Às quatro da manhã, estacionou meia quadra atrás do caminhão 44.
— Isso aqui é demissão com tempero de processo — ele disse.
— Melhor que ficar carimbando gente.
A rua passava por baixo de um viaduto. Havia barracas de lona, carrinhos, cobertores encharcados. Naquele trecho, a cidade parecia ter varrido tudo para baixo do tapete e depois construído pista por cima.
O limpador do Gol arrastava água suja no vidro. Teo desligou o motor para o barulho não chamar atenção. O pingar da marquise furada, uma tosse dentro de uma barraca e o farol traseiro do caminhão ficaram perto demais.
— A Clara tem uma lanterna igual — disse ele, olhando para a ferramenta no banco. — Comprou numa feira de ciências. Disse que era para quando o mundo acabasse e faltasse tomada.
— Ela tem sete anos e já está mais preparada que a gente.
Teo tentou rir, mas a boca não acompanhou.
No tablet preso ao painel do caminhão, Nara viu uma lista mudar sozinha. As linhas passavam rápidas, cada uma com rua, categoria e porcentagem. Algumas eram simples: sofá, saco de entulho, geladeira. Outras carregavam palavras que nenhum depósito deveria aceitar.
idoso em vaga de espera<br>usuário sem consumo<br>moradora insistente<br>presença hostil à fachada
Dois coletores desceram do caminhão. As viseiras dos capacetes refletiam a luz dos postes, lisas, sem rosto. Um deles consultou o tablet.
— Alvo? — perguntou Teo.
— Fala baixo.
O coletor parou diante de um homem enrolado num cobertor verde. O homem acordou antes do toque. Sentou-se, ergueu as mãos.
— Hoje não, irmão. Choveu tudo dentro de mim.
A frase saiu rouca, com uma tosse no fim. Ele usava duas meias diferentes nas mãos. Ao lado do cobertor havia uma garrafa de água cortada ao meio, uma Bíblia inchada pela umidade e um pote de margarina cheio de moedas escuras.
— Procedimento quarenta e quatro — disse um coletor.
— Eu vou para outro lugar — respondeu o homem. — De manhã eu vou.
— Reclamação recorrente.
— Quem reclamou?
O coletor não respondeu. Virou o tablet para o outro, como se confirmasse uma entrega de armário.
O coletor retirou uma fita amarela do cinto e a estendeu no chão, formando um retângulo ao redor dele.
Nara abriu a porta do Gol.
— Ei!
Teo puxou sua manga.
— Espera.
O segundo coletor apontou um aparelho para o homem. Houve um clique duro. O corpo dele perdeu profundidade: achatou nas bordas, dobrou no meio, cedeu com um som de lona molhada. A boca ainda se mexia quando virou pacote.
O cobertor ficou por fora, preso na transformação, como embalagem improvisada. Uma das mãos apareceu achatada na lateral, com as unhas arranhando o plástico que ainda não existia. O pote de moedas tombou e rolou até a sarjeta.
Nara ouviu o próprio sapato bater no asfalto antes de decidir correr.
Nara desceu correndo.
— Vocês não podem fazer isso!
Os dois viraram juntos. Uma etiqueta saiu da impressora portátil, quente, perfeita.
Objeto: ocupante reincidente<br>Origem: boca de lobo 17B<br>Peso: variável<br>Observação: reclama ao toque
O pacote no chão tremia.
Teo vomitou perto do pneu.
A viseira de um coletor acendeu por dentro. Nara viu apenas o próprio reflexo, pequeno e torto.
— Senhora — disse uma voz gravada —, mantenha a calçada livre.
— Ele tem nome — disse Nara.
A voz repetiu, com a mesma paciência de elevador:
— Mantenha a calçada livre.
Nara procurou o nome na etiqueta e encontrou só campos. Origem. Peso. Observação. Nenhuma linha reservada para pessoa.
Ela avançou mesmo assim. Um dos coletores levantou a mão. O homem-pacote fez um som por dentro da lona, um gemido curto, quase palavra. Nara agarrou a etiqueta antes que a cola esfriasse e puxou com força. A pele do papel rasgou. O pacote se abriu um palmo.
Um olho apareceu no vão.
— Água — disse o homem.
O pedido atingiu Nara mais do que um grito atingiria. Era pequeno demais para caber na cena. Ela olhou para a garrafa cortada, a dois metros, vazia, deitada de lado.
— Teo, a água.
— O quê?
— A garrafa.
Teo ainda cuspia no meio-fio. Mesmo assim, cambaleou até a barraca, pegou uma garrafinha fechada dentro de uma sacola e jogou para Nara. A mão dela errou a primeira tentativa. A garrafa quicou no asfalto e parou perto do pacote.
O coletor pisou nela.
O coletor se aproximou. Teo saiu do transe, pegou a lanterna de obra e bateu no capacete dele. O impacto fez um barulho de panela vazia. A viseira rachou de lado a lado. Por trás dela, uma tela escura exibia uma barrinha de progresso.
COLETA EM ANDAMENTO: 68%.
Na rachadura, não havia rosto. Havia cabos, espuma cinza e uma pequena câmera que se ajustou para Nara. A câmera tirou uma foto. O flash branco estourou na chuva.
No tablet do caminhão, uma nova linha abriu:
interferência cidadã - classificar
Nara correu para o Gol com a etiqueta rasgada na mão. Teo veio atrás, engasgando.
— Eu acertei uma coisa sem cabeça.
— Entra.
— Minha psicóloga vai adorar.
O caminhão respondeu antes do motor do Gol. A porta traseira abriu com um suspiro hidráulico. Dentro, fileiras de pacotes amarelos estavam presas por cintas. Alguns tinham sapatos. Um usava aliança. Outro tremia no ritmo de soluço.
Teo tentou engatar a ré. O câmbio arranhou.
— Vai, vai.
— Eu sei dirigir quando ninguém está dobrando gente no retrovisor.
O coletor com a viseira quebrada ficou parado no meio da rua. O outro recolheu a etiqueta rasgada do chão, leu o pedaço que sobrara e colou no próprio antebraço. A impressora portátil emitiu uma segunda via.
O caminhão 44 ligou o motor. Na tela do painel do Gol, onde deveria estar o relógio, apareceu a frase:
ROTA DE DEVOLUÇÃO INDISPONÍVEL.
O GPS acendeu sozinho e traçou um caminho que não passava pela escola de Clara, nem pela casa de Nara, nem por rua conhecida. O destino aparecia como uma palavra só:
depósito
Teo arrancou o aparelho do painel e jogou pela janela. O mapa continuou aceso no plástico quebrado, boiando numa poça.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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