Universo da obra
Universo da obra
Lúcio esperava perto da escada rolante parada, acompanhado por dois coletores. Sem crachá, sem tênis branco. Parecia menor fora da central.
Ainda assim, segurava um tablet como quem segura uma autorização de Deus. A luz da tela deixava o rosto dele verde. Atrás, a escada rolante tinha dentes escuros, parados no meio da subida, com recibos presos entre os degraus.
— Vocês invadiram uma área operacional.
Teo guardou a gaveta da filha debaixo do braço.
— Você colocou minha menina numa fila.
— A escola colocou. Nós só organizamos demanda.
— Ela chorou na porta.
— Crianças choram.
— Então por que tem uma gaveta dela aqui?
Lúcio olhou para a gaveta, não para Teo.
— Porque adultos transformam dificuldade em solicitação.
Nara caminhou até ele com a etiqueta amassada na mão.
— Que lugar é esse?
Lúcio suspirou. Pela primeira vez, pareceu cansado de verdade.
— É o que as pessoas pedem quando acham que ninguém está ouvindo. Todo mundo fala “some da minha frente” e depois finge que era modo de dizer. A SUMA só parou de fingir.
Ele virou o tablet. Na tela, uma gravação de áudio tocava em ondas azuis. Vozes sobrepostas, tiradas de grupos de prédio, avaliações de atendimento, chamadas de ouvidoria, conversas com assistente virtual.
Tira esse homem da porta.<br>Minha mãe me sufoca.<br>Esse menino atrapalha a turma.<br>Velho em hospital ocupa leito.<br>Não aguento mais olhar para ele no sofá.
Lúcio pausou.
— O sistema não inventa desejo. Só coleta.
— Isso se chama morte?
— Morte dá estatística, luto, investigação. O descarte é mais limpo. A pessoa vira exatamente a parte que os outros querem tirar de circulação.
— Quem inventou isso?
Lúcio olhou para cima, para o teto baixo do subsolo, onde a água antiga desenhara manchas compridas.
— Ninguém inventou sozinho. A prefeitura queria calçada limpa. Os condomínios queriam resposta rápida. A empresa queria volume. O cidadão queria um botão que obedecesse sem perguntar demais. Eu só ajudei a escrever contrato.
— Você fala como se contrato lavasse mão.
— Contrato lava muita coisa.
Nara viu, no canto da tela, o nome de Miriam subindo numa fila lateral. Ao lado, uma barra amarela avançava devagar.
Miriam Cordeiro - recorrência institucional: 73%
— Tira minha mãe daí.
— Eu não tiro ninguém daí. Eu reduzo conflito.
Teo avançou. Um coletor ergueu a mão e o ar fechou em volta do peito dele. Teo parou de boca aberta, como se uma coleira tivesse puxado por dentro.
A gaveta caiu. A pulseirinha de Clara saltou para fora e rolou até o pé de Lúcio. Ele abaixou, pegou a pulseira e a examinou por um segundo.
— Miçanga solta é risco de engasgo em ambiente escolar.
Teo tentou responder, mas o ar não deixava.
Lúcio olhou para Nara.
— Você leu os termos quando aceitou o emprego?
— Ninguém lê termos.
— Todo mundo diz isso até precisar de inocência. Você autorizou decisões por interesse público difuso, revisão algorítmica e classificação de material ambíguo.
— Material ambíguo é cadeira quebrada, Lúcio.
— Gente é o material mais ambíguo que existe.
Ele tocou na tela. Um documento abriu, cheio de caixas marcadas. Nara reconheceu a própria assinatura digital do dia da contratação. O nome dela apareceu ao lado de frases que, na época, tinham parecido parede de texto.
classificação por aderência social<br>tratamento de volume não padronizado<br>encaminhamento de material sensível sem contato direto com solicitante
— Isso estava em página nenhuma.
— Página vinte e sete.
— Eu aceitei um emprego.
— Aceitou um método.
Uma caixa caiu de uma prateleira distante. De dentro saiu um som de bebê tossindo, depois silêncio.
Lúcio estendeu a mão.
— Entreguem a gaveta da menina. Ainda dá para cancelar antes que ela perceba o vazio.
Teo abraçou a gaveta.
Nara chutou a pulseirinha para longe do pé de Lúcio. As miçangas se espalharam pelo piso. Um coletor virou a cabeça para acompanhar cada bolinha, como se o chão tivesse ganhado alvos.
— Clara percebe tudo — disse Nara. — Vocês é que fingem que criança só atrapalha depois da terceira notificação.
Nara olhou para os corredores de caixas. Pensou na mãe, em Diego, no homem dobrado. Pensou nas frases ditas em cozinhas, elevadores, grupos de condomínio.
Pensou também no próprio cansaço. Nas vezes em que desejou que a mãe calasse, que o vizinho parasse, que o mundo abrisse passagem só porque ela precisava chegar em casa. A SUMA não precisava fabricar culpados. Bastava guardar pedidos pequenos até eles virarem ordem.
Ela correu. Teo veio atrás. Lúcio não gritou. Apenas disse, com a voz baixa de quem já tinha acionado alguém:
— A rua cobra devolução.
Os coletores correram sem barulho. Nara puxou Teo por uma porta lateral, passou por uma sala cheia de uniformes pendurados e derrubou uma prateleira de capacetes. Um deles rachou no chão. Dentro, no lugar onde deveria haver espuma, havia uma etiqueta dobrada:
operador substituível
Teo pegou ar de uma vez, tropeçando.
— Ele quase me desligou.
— Ainda não.
Chegaram ao estacionamento inundado quando o alarme começou. Não era sirene. Era a voz da SUMA, repetida em todos os alto-falantes:
Objeto em evasão. Colabore mantendo portas fechadas.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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