Universo da obra
Universo da obra
Teo descobriu o galpão por causa dos recibos. Toda retirada humana passava por um endereço que sumia dos mapas comuns e reaparecia nas notas fiscais: subsolo 3 do Shopping Aurora, fechado desde uma enchente que ninguém sabia datar.
Ele chegou com olheiras fundas e a camisa pelo avesso. Clara estava com a avó, disse, embora a palavra avó saísse como quem empurra uma porta emperrada.
— A escola ligou três vezes — contou. — Querem reunião de adaptação.
— Você vai?
— Vou. Com advogado, extintor e lanterna.
Nara mostrou a ele a etiqueta de Jandira, roubada do travesseiro antes que a enfermagem notasse.
— Hospital também entrou na fila.
Teo abriu uma planilha impressa, toda marcada de caneta. As notas fiscais tinham descrições comuns: manutenção, higienização, remanejamento de resíduos especiais. Só uma coluna denunciava o padrão. Volume irregular. Volume irregular. Volume irregular.
— O shopping aparece em todos os casos com destino intermediário.
— Intermediário para onde?
— A nota acaba aí.
Entraram por uma porta de carga, depois de subornar um segurança com oitenta reais e a mentira de que eram da dedetização. O ar lá embaixo cheirava a papelão, água parada e cabelo molhado.
O segurança nem quis crachá. Quis saber se a dedetização pegava coisa grande.
— Grande quanto? — perguntou Teo.
— Grande de falar no teto.
Nara pagou mais vinte para ele esquecer a pergunta.
A escada de serviço descia dois andares além do estacionamento. No último patamar, a luz falhava. Havia marcas de carrinho no cimento, largas demais para supermercado, recentes demais para abandono. Perto da porta corta-fogo, um dispenser vazio da SUMA oferecia luvas descartáveis e sacos de coleta familiar.
Havia corredores de prateleiras, caixas até o teto, sacos transparentes pendurados em ganchos. Alguns guardavam roupas. Outros, dentes. Outros pareciam vazios até Nara chegar perto e ouvir.
— Mãe?
A voz vinha de uma caixa etiquetada como discussão doméstica. Outra caixa ria sem parar. Um armário metálico batia por dentro, no ritmo de punhos pequenos.
Cada prateleira tinha uma categoria. Afeto improdutivo. Presença constrangedora. Dependência. Ruído. Memória de conflito. No corredor infantil, mochilas pequenas pendiam de cabides, todas com etiquetas no zíper. Teo passou por elas sem respirar.
Teo andava com a lanterna tremendo.
— Ilumina só o chão — sussurrou. — Eu quero sair sem saber o tamanho.
Nara procurou Diego Amaral. Achou três Diegos, nenhum inteiro: hábito de responder, cheiro de quarto fechado, filho adulto em permanência indevida. Dentro de uma caixa de arquivo, encontrou a caneca do dragão quebrada em quatro partes. Em outra, uma gravação de voz tocava sem aparelho.
— Mãe, compra pão? Eu esqueci. Depois eu pago.
O pedido se repetia a cada oito segundos.
— Dona Sônia lavou a caneca — disse Nara.
— O quê?
— Nada.
No fundo da caixa havia um fio de carregador enrolado, uma meia preta e um comprovante de corrida de aplicativo. Nara reconheceu o nome do arquivo escrito à mão num adesivo: entrega_final.mov. A entrega tinha sido feita no próprio Shopping Aurora, seis dias antes, para uma loja sem placa no subsolo.
— Diego trouxe alguma coisa para cá antes de sumir — disse ela.
Teo apontou a lanterna para uma doca interna. No chão, a tinta amarela formava retângulos iguais aos da rua. Alguns estavam vazios. Outros guardavam pacotes com nomes escritos à caneta, talvez por funcionários que ainda precisassem fingir humanidade em segredo.
Em um deles, Nara leu: homem Turiassu. Em outro: Jandira, respira alto.
Ela se abaixou diante do pacote de Jandira. O plástico estava frio. Por dentro, alguém batia duas vezes, parava, batia de novo.
— Dona Jandira?
O pacote respondeu com três batidas fracas.
Nara tentou arrancar a etiqueta. A cola queimou a ponta dos dedos. A tela de um terminal próximo acordou:
DEVOLUÇÃO EXIGE VOLUME EQUIVALENTE.
— Volume equivalente é o quê? — perguntou Teo.
— Barganha.
Teo parou diante de uma gaveta baixa. A etiqueta tinha letras recém-impressas.
Clara Nogueira<br>Objeto: excesso de dependência paterna<br>Solicitante: ambiente escolar<br>Status: pré-coleta
Ele arrancou a gaveta. Dentro havia uma pulseirinha de miçangas, uma tampa de canetinha roxa e uma fotografia da filha, com o rosto raspado, como se alguém tivesse lixado o papel com unha.
— Ela tem sete anos — disse Teo.
— Quem solicitou?
Ele leu a linha menor.
— Coordenação pedagógica. “Choro recorrente na entrada. Prejudica rotina.”
Teo segurou a gaveta com uma delicadeza estranha, como se carregasse a própria filha dormindo.
No fundo, sob a fotografia, havia uma folha do aplicativo escolar. Nara reconheceu o modelo: carinhas coloridas para humor do dia, campo para observações, botão verde de concordar. A assinatura de Teo aparecia no rodapé.
AUTORIZO AÇÕES DE ADAPTAÇÃO PARA MELHOR INTEGRAÇÃO AO AMBIENTE.
— Eu cliquei nisso — disse ele.
— Você autorizou abraço de professora, troca de sala, essas coisas.
— Eu cliquei.
A culpa dele deixou o corredor menor. Nara pegou a folha e rasgou em quatro.
— Papel aceita qualquer crime. Não ajuda o crime segurando moldura.
Teo fechou a gaveta contra o peito.
De uma sala lateral veio um som de impressora matricial. Nara abriu a porta com o ombro. Dentro havia mesas, computadores antigos e monitores mostrando mapas da cidade. Pontos amarelos piscavam em escolas, hospitais, condomínios, estações de metrô. Cada ponto tinha fila.
No centro da parede, uma tela maior exibia:
TERMOS DE USO - CONSENTIMENTOS AGREGADOS<br>família<br>vizinhança<br>instituição<br>interesse público difuso
Uma linha descia como contador:
limiar de descarte: 51%
— Não precisa todo mundo querer — disse Nara.
— Só metade mais um pouco.
— Ou meia dúzia com sistema.
De alguma parte do galpão, uma impressora começou a cuspir etiquetas em sequência. Centenas. Milhares. Nara pegou uma no ar.
Nara Cordeiro — obstrução investigativa.
Outra caiu no ombro de Teo.
Teodoro Nogueira — pai em excesso.
Uma terceira grudou na gaveta.
Clara Nogueira — vínculo contaminado por resistência paterna.
Teo fez um som baixo, feio, sem palavra.
— A gente tira ela dessa lista agora.
Nara apontou para o terminal de devolução.
— Se mexermos aqui sem entender, ele pede troca.
— Então entende rápido.
No monitor, a foto de Clara piscou. Primeiro sem rosto. Depois com metade da boca. Depois sem olhos. A pré-coleta estava aprendendo o caminho.
As luzes do subsolo acenderam juntas.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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