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Capítulo 9 · Volume Irregular

Reclamação Coletiva

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Nara entrou na central usando o crachá de Lúcio, roubado durante a fuga. À noite, o prédio parecia abandonado por dentro; as telas, porém, continuavam acesas. As cadeiras giravam de leve, empurradas pelo ar-condicionado.

O carpete ainda tinha a mancha do café que ela derrubara no turno anterior. Alguém cobrira com uma placa de piso molhado. A televisão da copa mostrava a campanha da SUMA em teste: famílias sorrindo em calçadas largas, um cachorro pequeno usando coleira amarela, idosos sentados só em bancos autorizados.

Teo ficou na porta.

— Você sabe fazer isso?

— Vou descobrir apertando o que parecer mais caro.

— Plano honesto.

Ela abriu o painel de campanhas. A pergunta da SUMA estava programada para ir ao ar às seis da manhã, junto com anúncios em pontos de ônibus, elevadores, aplicativos bancários e telas de farmácia.

O que você gostaria que deixasse de ocupar espaço?

Nara alterou o texto. Digitou rápido, errando acentos, apagando, digitando de novo.

O que você realmente gostaria que sumisse?

Antes de enviar, anexou os arquivos que juntara durante o dia. Não como prova, porque ninguém lia prova em campanha pública. Colocou como exemplos automáticos. Quando a pessoa começasse a digitar, o sistema sugeriria frases reais.

minha mãe falando alto<br>meu filho adulto no sofá<br>a velha que respira na cama ao lado<br>a criança que chora na porta<br>o homem que parece sujar a fachada

— Isso piora — disse Teo.

— Antes piorar na cara deles.

— A cidade sabe.

— Sabe escondido.

Teo olhou para a porta da central.

— E a Clara?

— Você já deixou ela com quem?

— Minha irmã.

— Então fica. Se eu sumir, você conta direito.

— Não fala isso.

— Conta direito, Teo. Sem me deixar corajosa demais.

Às seis, a campanha foi enviada.

No primeiro minuto, chegaram trinta mil respostas. No segundo, duzentas mil. Nara viu as palavras subindo na tela em nuvem preta: chefe, dívida, ex, filho, velho, pobre, barulho, fila, corpo, segunda-feira, lembrança, aluguel, vizinho, fome, vidro, eu.

A palavra eu cresceu depressa.

No terceiro minuto, as respostas passaram a vir com foto. Gente mandava a própria pia cheia, o pai dormindo no sofá, a criança com uniforme amassado, a fila do posto, a barriga no espelho, o boleto aberto em cima da mesa. O sistema aceitava tudo com o mesmo som delicado.

Chamado recebido.<br>Chamado recebido.<br>Chamado recebido.

Uma mulher escreveu: quero que suma minha vontade de pedir isso.

O sistema classificou:

contradição operacional

E aceitou.

As impressoras da central começaram a trabalhar. Todas ao mesmo tempo. Etiquetas jorravam das máquinas, cobriam o carpete, grudavam nas rodas das cadeiras. Teo tentou arrancar o cabo de energia. Levou choque e caiu rindo de nervoso.

Nara tentou cancelar a campanha. O botão cinza girou, girou e respondeu:

consulta em andamento com solicitante coletivo

Pela janela, Nara viu a avenida parar. Motoristas desciam dos carros e olhavam as próprias mãos como quem confere uma mercadoria recebida por engano. Um prédio em frente apagou andar por andar.

No térreo, um entregador largou a mochila térmica e correu atrás dela quando a mochila começou a andar sozinha, puxada por recibos amarelos. Uma mulher tirou o sapato no meio da faixa e perguntou a ninguém se ainda precisava chegar. O painel do ponto de ônibus trocou previsão por porcentagem.

LINHA 875A - OBSTRUÇÃO HUMANA: 62%

O celular dela tocou. Era Miriam.

— Filha — disse a mãe, calma demais. — Tem um caminhão parado na porta do hospital.

— Sai daí.

— Tem gente que não anda, Nara.

— Mãe, por favor.

— Eu estou com a Dona Jandira no elevador de serviço. Se eu correr, ela fica.

Ao fundo, Nara ouviu o barulho de rodinhas de maca e uma voz automática pedindo “colaboração com corredores livres”.

— Você achou ela?

— Achei metade. A parte mandona. Serve.

— Mãe, não tenta carregar.

— Eu limpo hospital há vinte e dois anos. Sei carregar coisa que ninguém quer ver.

— Mãe.

— Você prometeu.

A ligação caiu.

Nara discou de volta. A chamada completou, mas quem atendeu foi uma voz automática:

Miriam Cordeiro encontra-se em procedimento de redistribuição. Para avaliar o atendimento, permaneça na linha.

Teo levantou do chão com a mão queimada.

— Desliga isso.

Nara não desligou. Ouviu até o fim, esperando uma respiração, uma batida, qualquer coisa que fosse dela.

Na tela, uma resposta fixou no topo.

Solicitante: cidade inteira.<br>Objeto: excesso de gente.

Logo abaixo, outra linha apareceu, menor:

volume equivalente sugerido: responsável pela campanha

Volume Irregular

Sinopse

Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.

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