Universo da obra
Universo da obra
Fugiram pelo estacionamento inundado. A água batia no tornozelo, cheia de comprovantes boiando como peixes mortos. Teo carregava a gaveta. Nara levava um saco de etiquetas arrancadas no escuro.
Atrás deles, os coletores pararam no limite da luz, como se a água fora do subsolo exigisse outro protocolo. Um deles levantou o tablet. Nara sentiu o celular vibrar no bolso.
Infração registrada:<br>remoção indevida de material classificado
Do lado de fora, a manhã começava cinza. A cidade seguia: padaria abrindo, ônibus cuspindo fumaça, gente desviando de poça. Ninguém olhava para o shopping fechado.
Foram devolver os nomes.
Primeiro, Dona Sônia. Nara entregou as etiquetas de Diego. A velha espalhou tudo na mesa da cozinha: filho adulto, cheiro de quarto, resposta atravessada, marca afundada no sofá, pedido de pão não cumprido.
A mesa era pequena para tanto pedaço. Dona Sônia tirou o saleiro, a toalha plástica, um vaso de flor artificial. Mesmo assim, uma etiqueta caiu no chão.
desperdício de talento
Ela pegou essa mais devagar.
— Fui eu que falei.
— Quando?
— Todo dia um pouco.
— Cadê o resto?
— Talvez isso seja o que sobrou.
Dona Sônia tocou cada papel.
— Eu quero ele de volta, tirando essa parte aqui — disse, separando resposta atravessada. — Essa pode ficar lá.
A raiva subiu em Nara com gosto de café velho.
— A senhora pediu um filho ou pediu a casa calada?
Dona Sônia recolheu a mão. Depois pegou a etiqueta que separara e colocou junto das outras.
— Ele respondia atravessado desde pequeno — disse. — Uma vez, com oito anos, me chamou de porteira da vida dele. Eu ri escondido. Depois briguei.
A caneca do dragão, remontada com fita, ficou no centro da mesa. Nada aconteceu por quase um minuto. Então a cozinha cheirou a xampu barato. Dona Sônia fechou os olhos.
— Diego?
Do ralo da pia veio uma voz baixa:
— Compra pão?
Dona Sônia caiu de joelhos diante da pia. Abriu a torneira, fechou, abriu de novo. A água saiu normal, transparente, sem filho nenhum.
— Diego, eu compro. Eu compro agora.
O ralo respondeu com uma tosse de encanamento. Depois, a voz voltou menor:
— Integral não.
A velha riu e chorou com a mesma cara. Nara deixou sobre a mesa o comprovante de corrida de Diego. Não sabia se aquilo ajudava ou feria. Àquela altura, quase tudo fazia as duas coisas.
Nara saiu antes que a velha começasse a negociar com o ralo.
Teo deixou a gaveta na escola de Clara antes da aula. A menina apareceu no portão, mochila de unicórnio, olhos vermelhos.
— Pai, ontem eu esqueci como era sentir saudade de você — ela disse. — Foi bom e horrível.
Ele ajoelhou sem saber onde pôr as mãos. A coordenadora observava da porta, com um copo térmico e um sorriso pronto para reunião.
Clara tocou o próprio rosto.
— Eu acordei e minha boca estava longe.
Teo fechou os olhos.
— Agora está aqui?
— Está. Mas a professora falou que saudade atrapalha fila.
A coordenadora deu dois passos.
— Senhor Teodoro, podemos conversar?
— Hoje não.
— É sobre adaptação.
— A adaptação de quem?
— Da Clara ao ambiente.
Teo levantou com a filha no colo.
— Hoje o ambiente que se adapte.
Ele abraçou a filha.
— Hoje ela fica inadequada comigo.
A pulseirinha de miçangas, remontada com um nó feio, estava no pulso de Clara. Faltavam três cores. Mesmo assim, ela mexia o braço para ouvir as contas batendo.
No hospital, Miriam ainda estava inteira. Dormia sentada no vestiário, com o rodo apoiado no ombro. Ao lado dela, três etiquetas novas.
material insistente<br>mãe em excesso<br>funcionária que questiona
Miriam abriu um olho.
— Achou o inferno?
— Achei estoque.
A mãe pegou as etiquetas e rasgou com os dentes.
— Então fecha.
— Tem uma Dona Jandira no depósito.
Miriam ficou quieta. A etiqueta rasgada grudou no canto da boca.
— Eu sabia.
— Ela respondeu batendo.
— Jandira bate três vezes quando quer café. Duas quando quer filha. Uma quando quer que todo mundo pare de perguntar.
Miriam levantou com dificuldade. O joelho estalou.
— A gente busca.
— Não agora.
— Você veio me dizer que ela está numa sacola e quer que eu espere?
Nara segurou o braço da mãe.
— Se entrarmos sem troca, o sistema pega outra pessoa.
— Sistema nenhum sabe o preço de Jandira.
Nara sabia por onde começar: o pedido vinha antes do caminhão. A SUMA organizava. A cidade fornecia.
Ela passou o resto do dia juntando provas que pareciam lixo: print de grupo de condomínio, áudio de ouvidoria, termo escolar, etiqueta de hospital, recibo do shopping, cópia local dos logs de Teo. Cada prova tinha uma voz conhecida atrás. A vizinha cansada. A mãe irritada. A professora com frase pronta. O médico atrasado. Ninguém falava como assassino. Esse era o problema.
No celular, o aplicativo vibrou.
Nova campanha pública:<br>O que você gostaria que deixasse de ocupar espaço?
A pergunta veio com confete animado na tela.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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