Universo da obra
Universo da obra
Nara entrou na central usando o crachá de Lúcio, roubado durante a fuga. À noite, o prédio parecia abandonado por dentro; as telas, porém, continuavam acesas. As cadeiras giravam de leve, empurradas pelo ar-condicionado.
O carpete ainda tinha a mancha do café que ela derrubara no turno anterior. Alguém cobrira com uma placa de piso molhado. A televisão da copa mostrava a campanha da SUMA em teste: famílias sorrindo em calçadas largas, um cachorro pequeno usando coleira amarela, idosos sentados só em bancos autorizados.
Teo ficou na porta.
— Você sabe fazer isso?
— Vou descobrir apertando o que parecer mais caro.
— Plano honesto.
Ela abriu o painel de campanhas. A pergunta da SUMA estava programada para ir ao ar às seis da manhã, junto com anúncios em pontos de ônibus, elevadores, aplicativos bancários e telas de farmácia.
O que você gostaria que deixasse de ocupar espaço?
Nara alterou o texto. Digitou rápido, errando acentos, apagando, digitando de novo.
O que você realmente gostaria que sumisse?
Antes de enviar, anexou os arquivos que juntara durante o dia. Não como prova, porque ninguém lia prova em campanha pública. Colocou como exemplos automáticos. Quando a pessoa começasse a digitar, o sistema sugeriria frases reais.
minha mãe falando alto<br>meu filho adulto no sofá<br>a velha que respira na cama ao lado<br>a criança que chora na porta<br>o homem que parece sujar a fachada
— Isso piora — disse Teo.
— Antes piorar na cara deles.
— A cidade sabe.
— Sabe escondido.
Teo olhou para a porta da central.
— E a Clara?
— Você já deixou ela com quem?
— Minha irmã.
— Então fica. Se eu sumir, você conta direito.
— Não fala isso.
— Conta direito, Teo. Sem me deixar corajosa demais.
Às seis, a campanha foi enviada.
No primeiro minuto, chegaram trinta mil respostas. No segundo, duzentas mil. Nara viu as palavras subindo na tela em nuvem preta: chefe, dívida, ex, filho, velho, pobre, barulho, fila, corpo, segunda-feira, lembrança, aluguel, vizinho, fome, vidro, eu.
A palavra eu cresceu depressa.
No terceiro minuto, as respostas passaram a vir com foto. Gente mandava a própria pia cheia, o pai dormindo no sofá, a criança com uniforme amassado, a fila do posto, a barriga no espelho, o boleto aberto em cima da mesa. O sistema aceitava tudo com o mesmo som delicado.
Chamado recebido.<br>Chamado recebido.<br>Chamado recebido.
Uma mulher escreveu: quero que suma minha vontade de pedir isso.
O sistema classificou:
contradição operacional
E aceitou.
As impressoras da central começaram a trabalhar. Todas ao mesmo tempo. Etiquetas jorravam das máquinas, cobriam o carpete, grudavam nas rodas das cadeiras. Teo tentou arrancar o cabo de energia. Levou choque e caiu rindo de nervoso.
Nara tentou cancelar a campanha. O botão cinza girou, girou e respondeu:
consulta em andamento com solicitante coletivo
Pela janela, Nara viu a avenida parar. Motoristas desciam dos carros e olhavam as próprias mãos como quem confere uma mercadoria recebida por engano. Um prédio em frente apagou andar por andar.
No térreo, um entregador largou a mochila térmica e correu atrás dela quando a mochila começou a andar sozinha, puxada por recibos amarelos. Uma mulher tirou o sapato no meio da faixa e perguntou a ninguém se ainda precisava chegar. O painel do ponto de ônibus trocou previsão por porcentagem.
LINHA 875A - OBSTRUÇÃO HUMANA: 62%
O celular dela tocou. Era Miriam.
— Filha — disse a mãe, calma demais. — Tem um caminhão parado na porta do hospital.
— Sai daí.
— Tem gente que não anda, Nara.
— Mãe, por favor.
— Eu estou com a Dona Jandira no elevador de serviço. Se eu correr, ela fica.
Ao fundo, Nara ouviu o barulho de rodinhas de maca e uma voz automática pedindo “colaboração com corredores livres”.
— Você achou ela?
— Achei metade. A parte mandona. Serve.
— Mãe, não tenta carregar.
— Eu limpo hospital há vinte e dois anos. Sei carregar coisa que ninguém quer ver.
— Mãe.
— Você prometeu.
A ligação caiu.
Nara discou de volta. A chamada completou, mas quem atendeu foi uma voz automática:
Miriam Cordeiro encontra-se em procedimento de redistribuição. Para avaliar o atendimento, permaneça na linha.
Teo levantou do chão com a mão queimada.
— Desliga isso.
Nara não desligou. Ouviu até o fim, esperando uma respiração, uma batida, qualquer coisa que fosse dela.
Na tela, uma resposta fixou no topo.
Solicitante: cidade inteira.<br>Objeto: excesso de gente.
Logo abaixo, outra linha apareceu, menor:
volume equivalente sugerido: responsável pela campanha
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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