Universo da obra
Universo da obra
Ao meio-dia, São Paulo ficou sem buzina, sem pregão, sem briga de casal atravessando janela. Só semáforos funcionando para carros vazios e sacolas plásticas dançando na sarjeta.
Os aplicativos de trânsito celebravam. Tempo médio de deslocamento reduzido em 89%. As farmácias mandavam cupom de desinfetante. Nos elevadores, a campanha da SUMA agradecia pela participação cidadã.
Nara caminhou até o hospital. Passou por roupas dobradas em pontos de ônibus, capacetes deixados no asfalto, um carrinho de bebê com etiqueta no cobertor. Em frente a uma farmácia, um homem pela metade tentava segurar a própria sombra, já dobrada para coleta.
No caminho, encontrou uma senhora sentada no meio-fio, abraçada a um telefone fixo arrancado da parede.
— Meu marido atendeu e virou toque — disse ela.
O aparelho tocou uma vez dentro dos braços dela.
Nara não soube ajudar. Seguiu com o saco de etiquetas preso ao peito, pesado de papel e de nomes.
O Hospital Santa Célia tinha portas abertas e corredores encerados. No vestiário, Nara achou o rodo da mãe, o marmitex fechado e uma etiqueta colada no armário.
Miriam Cordeiro<br>Objeto: resistência materna<br>Destino: redistribuição simbólica<br>Observação: deixou instruções
Dentro do armário havia um bilhete em papel de receituário.
“Não aceita substituto. E come alguma coisa.”
No fundo do armário, Miriam deixara também uma bolacha água e sal do pacote de Dona Jandira. Estava quebrada no meio, guardada num papel toalha como prova pequena demais para processo.
Nara sentou no chão. O choro veio pequeno, quase administrativo, como se também pudesse entrar em formulário.
O aplicativo abriu sozinho no celular.
Sua região apresenta excelente índice de desobstrução. Deseja solicitar devolução?
Ela apertou SIM.
Descreva o item.
Nara escreveu: “Minha mãe. Diego. O homem do ponto. Clara inteira. Todo mundo.”
O sistema pensou por três segundos.
Descrição ampla demais. Informe o volume equivalente para troca.
Abaixo, havia sugestões:
um familiar direto<br>um operador responsável<br>um solicitante original<br>um corpo disponível
Nara riu. Depois parou. A tela preta mostrava seu rosto sujo, o crachá torto, os olhos de quem ainda ocupava lugar.
Teo ligou. Ela deixou chamar até cair. Ligou de novo. Na terceira, atendeu.
— Não faz isso sozinha — disse ele.
— Você está com Clara?
— Estou.
— Ela está inteira?
— Está desenhando você. Muito brava.
Nara encostou a cabeça no armário da mãe.
— Diz para ela desenhar o chão também. Para eu saber onde pisar.
— Nara.
— Conta direito, lembra?
Do outro lado, Teo respirou como se tivesse mordido uma palavra.
Digitou: “Nara Cordeiro.”
O celular aqueceu na mão.
Volume aceito. Obrigado por colaborar.
A coleta não veio como caminhão. Veio como falta. Primeiro, Nara esqueceu o número do apartamento. Depois, o cheiro do cabelo da mãe. Depois, a senha da central. O corpo continuava ali, sentado no vestiário, mas as coisas que seguravam Nara por dentro começaram a soltar.
Ela pegou a bolacha quebrada e mordeu uma metade antes que sumisse. Tinha gosto de armário, sal e mão limpa.
No dia seguinte, os caminhões devolveram a cidade em pequenas porções. Um riso dentro de uma marmita. Um joelho no banco do metrô. Um pedido de pão saindo de ralos diferentes. Clara desenhando o rosto do pai com tanta força que furava o papel. Dona Sônia sentada diante do sofá vermelho, respondendo “já vai” para a pia.
No Hospital Santa Célia, uma paciente na cama 18 bateu três vezes na grade e pediu café. Nenhuma enfermeira encontrou Dona Jandira na lista, mas Miriam teria reconhecido a impaciência.
Na escola, Clara se recusou a entrar na fila. Teo recebeu uma notificação, leu em voz alta, apagou o aplicativo e deixou a filha pular a faixa amarela pintada no chão.
No vidro da farmácia, Nara viu Miriam por um segundo. A mãe vestia o uniforme azul, segurava o rodo com uma mão e a sacola de pão com a outra. Fez que não com o dedo, como quem repreende filha teimosa. Quando Nara tocou o vidro, encontrou apenas o próprio reflexo e uma etiqueta colada por dentro.
Objeto devolvido: aviso.<br>Estado: legível.<br>Solicitante: você.
Em cada casa, ao lado da porta, apareceu um exemplar fino deste livro. Algumas pessoas recolheram. Outras abriram chamado para retirada.
A SUMA aceitou todos.
Nara Cordeiro trabalha de madrugada na triagem da SUMA, um aplicativo de coleta urbana que promete retirar entulho, móveis quebrados e qualquer coisa que atrapalhe a circulação. Quando a cidade aprende a descartar pessoas, cada reclamação vira ordem de serviço.
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