Universo da obra
Universo da obra
A manhã de 6 de janeiro não esteve em consonância com o luto e a amargura do coração de Eduardo.
Esse coração necessitava de um céu enegrecido, de um horizonte caliginoso e de uma atmosfera funesta; e, por desgraça sua, às cinco da manhã já se viam distintamente os extensos bananais abrilhantados pelo orvalho; os arvoredos que pareciam responder, com seu frescor, aos sorrisos do céu azul; os esquilos que saltavam; os pássaros que, em rica variedade, cantavam, assobiavam e gorjeavam por toda parte; os homens e mulheres que entravam e saíam atarefados pela porta de trancas de dom Pedro de Mendoza, preparando viandas e bebidas para a boda.
Essa manhã esplêndida parecia anunciar antes um triunfo que um sacrifício.
Um relógio de pêndulo acabava de dar nove badaladas quando uma cavalgada de seis cavaleiros, presididos por dom Pedro de Mendoza, partiu em direção ao casario principal, levando em seu centro uma mulher cujo véu verde impedia que se lhe distinguissem as feições. O grupo entrou na praça chamando a atenção pública e deteve-se no corredor de uma casa de telhas: ali ajudaram a desmontar a jovem do véu verde, que entrou na sala e passou sem deter-se ao quarto do toucador.
Às onze, a praça estava coberta de gente repartida em diversos grupos. À voz de “a noiva vai sair”, esses grupos se condensaram e se apinharam, aproximando-se todos da casa em que havia entrado a jovem de véu verde.
Pouco depois houve um movimento uniforme de admiração, pois se apresentou algo que parecia uma visão beatífica: era Rosaura com as vestes nupciais. Ao tocar o umbral, levantou o véu como se este a incomodasse, e ficou publicamente exposto um rosto que já não era o da virgem tímida e modesta que antes se vira raras vezes e com grande dificuldade. Rosaura mostrava naquele instante não sei quê da estranha audácia que se revela nos retratos de Lord Byron.
Podia-se dizer que sua alma já era de pólvora e que muito em breve faria uma explosão.
Enquanto os numerosos espectadores desafogavam suas emoções com as vozes de: “Que linda! Que formosa!”, um jovem disse ao ouvido da noiva:
— Estamos armados e vimos da parte de Eduardo para pôr-nos às ordens da senhora.
— Obrigada! — respondeu Rosaura, e encaminhou-se ao templo em meio ao gentio.
No convento ou casa do cura estava, entre outros homens, um camponês rubicundo, de cerca de quarenta anos, de tez um tanto encardida, mas com aquela suavidade de feições própria dos linfáticos.
Sua barba era negra e espessa; o perfil do rosto se aproximava mais do círculo que do oval, salvo pelas protuberâncias de um nariz bastante largo, de uma queixada levemente arrebitada e de lábios não muito grossos, mas muito vermelhos; seus olhos pardos tinham a vã pretensão de mostrar-se vivazes, mas, na verdade, eram sossegados: o que mais o caracterizava parecia ser uma fronte larga, redonda, de pele suada, sua garganta hiperbólica e o vestuário: compunha-se este de um fraque verde de talhe alto, calça branca de royal, gravata baia, isto é, da mesma cor dos sapatos, colete grande de veludo azul e chapéu preto clarinado.
Seu sorriso era essencialmente selvático. Com esse sorriso e com uma voz entre rouca, estúpida e sibilante, por causa do defeito da garganta, disse esse pobre sujeito:
— Vocês hão de pensar que estou morto de contente, seus tolos! Não sabem que tenho um medo tão feroz: parece-me que vão me fuzilar.
— Mas, se a noiva é linda, que mais quer meu dom Anselmo? — replicou outro.
— Meu pai costumava me dizer que as lindas costumam ser mais ariscas e ressabiadas que potros de serrania; por isso tenho um susto tão feroz.
Nisto se apresentou um sacristão vestido de roquete e disse em voz alta:
— A noiva está esperando desde as onze.
— Vamos, pois; que Deus o ajude, meu dom Anselmo! — disseram todos.
— Amém — respondeu este, persignando-se, e partiu.
Meia hora depois estavam à porta da igreja, de pé e colocados em fileira, dom Pedro, dom Anselmo, Rosaura, uma matrona obesa que fazia de madrinha e uma moça com uma bacia de prata que continha treze dobrões, um anel e uma grossa corrente de ouro.
Diante deles estava o cura, revestido conforme o ritual; este, entreabrindo um livro que tinha na mão, aproximou-se de Rosaura e, com voz fanhosa e afetada gravidade, disse-lhe:
— Senhora dona Rosaura de Mendoza, recebe por seu legítimo esposo o senhor dom Anselmo de Aguirre y Zúñiga, que está aqui presente?
— Não, não, não — disseram muitas vozes, como para animar Rosaura; esse ruído impediu que se escutasse o que ela havia respondido.
— Silêncio! — gritaram o cura e o tenente. Em seguida, o cura tornou a perguntar:
— Senhora, recebe por esposo o senhor dom Anselmo de Aguirre?
Rosaura, com voz firme e sonora, respondeu:
— Sim, senhor, recebo-o por esposo.
— Que é isto!! — exclamaram muitas vozes, e o assombro se pintou nos semblantes. O cura e dom Pedro trocaram um olhar que queria dizer: triunfamos.
A gente ia se dispersando para não presenciar o fim da cerimônia.
Quando o pároco, com grande satisfação, havia lançado a bênção nupcial, e o cortejo se encaminhava para o altar, Rosaura voltou o rosto, desceu o vestíbulo e se dirigiu resolutamente à casa de onde havia saído para ir ao templo. Ao adverti-lo, seu pai saiu e lhe disse, sobressaltado:
— Rosaura, aonde vais?
— Entendo, senhor, que já não lhe cabe tomar-me contas do que eu faça.
— Como é isso?
— Eu tinha de obedecer ao senhor até o ato de casar-me, porque a Lei a isso me obriga: casei-me, fiquei emancipada, sou mulher livre; agora que dom Anselmo siga por seu caminho, pois eu vou pelo meu.
— Malditas leis! Treme, infeliz, pois amaldiçoarei tua mãe!
— Eu já havia previsto essa ameaça; mas ela não me causa nenhum cuidado: Deus é justo. Ele está premiando as virtudes de minha mãe, e castigará aquele que se atrever a amaldiçoar-lhe a memória. Faça o senhor o que quiser.
Dom Pedro voltou ao templo, pálido e trêmulo. Um rumor surdo se propagou entre os concorrentes de ambos os sexos. O noivo e a madrinha já se haviam ajoelhado no degrau do presbitério e ali permaneceram como estátuas; o cura cantou sua missa com um desacerto que movia à compaixão, e se perturbava a cada passo nas cerimônias.
À uma da tarde, a praça era uma confusa voceria: moviam-se os homens como abelhas; todos expunham suas opiniões em voz alta. De repente, sobressaiu um grito que dizia:
— Rapazes! Foram buscar a noiva presa, por ordem do cura e do tenente. Se a trouxerem, vamos defendê-la.
— Sim, sim, defendê-la.
— Não a hão de trazer, porque já lhe deram pistolas carregadas e ela estava muito resoluta.
— Lá vem ela, rapazes; vamos defendê-la.
— Ao convento, ao convento.
Rosaura chegou em seu alazão até o vestíbulo do convento, precedida por quatro homens a cavalo e seguida pela multidão. Estava encantadora: sobre o vestido branco de bodas lançara uma capinha grená; sua cabeleira espessa, em duas madeixas, flutuava sobre a capa; seu chapeuzinho de jipijapa, preso por duas fitas brancas, assentava perfeitamente naquele rosto ruborizado pelo calor e animado pela emoção.
— Que entre — gritou uma voz.
— Que saiam os que querem falar-me — respondeu Rosaura.
— Que entre, mandam o cura e o tenente.
— Que saiam, digo, e, se tardarem, vou-me embora.
— Que saiam, sim, que saiam — gritou por sua vez a multidão.
Saiu um velhote de poncho vermelho e colarinho engomado, ostentando as borlas de seu bastão de guaiuro. Disse ele, com voz que tinha pretensões de terrível:
— A senhora não sabe que a fêmea casada deve seguir seu marido porque assim manda a Lei?
— Quando meu esposo quiser que eu o siga, poderá ir adiante de mim.
— Quer a senhora fazer-se desgraçada, causando pesares a seu pai?
— Meu pai sentirá pesar por eu me haver sacrificado para obedecer-lhe?
— Esta moça está muito insolente — disse o cura. — É preciso, senhor juiz, que o senhor a mande rezar alguns dias na cadeia, até que cesse sua altivez.
Rosaura armou uma pistola de dois tiros e disse com voz de amazona:
— Senhor cura, aqui há duas balas que irão velozes até o tutano do atrevido que me insultar; quer descobrir o que pode fazer o braço de uma fêmea como eu, resolvida a arrostar tudo. Uma palavra mais e voarão os miolos de meus verdugos; quis perdoá-los em nome de minha mãe, mas já vejo que se empenham em que eu descarregue sobre eles minha vingança: quereis isso? Pois mandai-me para a cadeia.
O cura e o tenente político recuaram assustados, e Rosaura partiu sem que ninguém se atrevesse a detê-la.
O cortejo do convento ficou falando contra os livros maus, contra a educação do dia, contra o religioso fundador das escolas lancasterianas, e concluiu por declarar que o povo estava excomungado por não haver posto a língua para fora diante dessa moça...
O povo tomou a seu cargo o assunto, dividindo-se em bandos encarniçados: uns viam em Rosaura uma heroína e aplaudiam com entusiasmo a lucidez de seu plano e a graça e mestria com que acabava de executá-lo.
Outros se limitavam a desculpá-la, dizendo que sua vida se dividira em duas seções: uma de educação sob as inspirações de uma mãe civilizada, e outra de prova sob a ação de um pai que não tinha nem remota ideia do que se passa na alma de uma jovem em quem os nobres sentimentos nasceram, o instinto da delicadeza se poliu, a consciência da dignidade humana despertou e um amor sem mancha apresentou a perspectiva de uma modesta felicidade.
Segundo estes, a prova havia sido violenta demais, superior às débeis forças de uma virgem, e ela não pudera senão sucumbir.
O bando mais numeroso era o dos tradicionalistas ou partidários das providências fortes: estes diziam, como o pai de Rosaura, que o homem fora criado para a glória de Deus e a mulher para glória e comodidade do homem; e que, por conseguinte, um devia educar-se no temor de Deus, obedecendo cegamente aos sacerdotes e aos juízes, e a outra no temor do homem, obedecendo cegamente ao pai e depois ao esposo; e que o crime de Rosaura devia ser severamente castigado, para vindita da sociedade e exemplo vivo de todas as filhas.
Estes acabavam sempre por lamentar os bons tempos do Rei e por amaldiçoar a Independência americana e o nome de Bolívar.
A Emancipada, publicada em 1863, costuma ser lembrada como a primeira novela equatoriana publicada. Na história de Rosaura, Miguel Riofrío transforma o drama de uma jovem submetida ao casamento imposto em crítica social: a narrativa expõe a autoridade patriarcal, o controle moral exercido pela religião, a fragilidade da justiça local e a ausência de liberdade real para a mulher.
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