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A Emancipada

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A Emancipada

Capítulo 7 · A Emancipada

Capítulo 7

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Capítulo 7

Em um dos primeiros dias do mês de outubro, quando os estudantes, depois da feira, voltam preguiçosamente às temidas tarefas do colégio, um dos cursantes de Óptica e Acústica recebeu de seu catedrático, que era médico, o estojo cirúrgico e a ordem de segui-lo para fazer o estudo prático dos órgãos da voz, do ouvido e da vista. A casa aonde chegaram ficava a poucos metros do colégio.

Ao entrarem, viram no quarto do zaguão um grupo compacto de homens e mulheres: vários jovens dos que compunham o grupo haviam empalidecido, e a assistência em geral se mostrava comovida, sem que faltasse alguma velha que dissesse entre dentes: “castigo de Deus!”, nem algum rapazote que soltasse em voz baixa suas chufas maliciosas; pois em toda parte se encontram gralhas que estão sempre de mau agouro e truões que parecem ter nascido para estar sempre de chacota.

Alguns momentos depois, entraram o alcaide, o escrivão, quatro peões e uma guarda do depósito de inválidos.

O comandante dessa guarda mandou desocupar a peça do zaguão; ao se retirarem os presentes, deixou-se ver, deitado no chão sobre uma manta velha e com uma luz à cabeceira, o cadáver de uma mulher. O rosto conservava ainda a graça dos perfis, mas estava enegrecido; as duas madeixas de sua cabeleira espessa mostravam-se desgrenhadas e sem lustro; se o pavoroso eflúvio da morte não o impedisse, poder-se-ia dizer que o queixo, a garganta, o peito e os braços nus dessa mulher conservavam ainda sua formosura póstuma.

Rosaura ia sofrer as expiações de além-túmulo.

Os quatro peões, sem emoção de nenhum gênero, levantaram o cadáver, tiraram-no do quarto, colocaram-no sobre uma fileira de adobes no meio do pátio e o despiram até a cintura.

O médico abriu o estojo, preparou os instrumentos, devolveu o resto ao estudante que estava ao seu lado e começou a operação.

Ao ver correr cruelmente as lâminas e descobrirem-se as repugnantes interioridades escondidas no peito de Rosaura, daquela que pouco antes havia sido uma beleza, um suor frio correu pela fronte do estudante. Ele não pôde continuar olhando a profanação sarcástica do corpo de uma mulher, pois havia acreditado até então, obscura e vagamente, que a constituição fisiológica desse sexo devia ser, durante a vida, um incógnito mistério, radiante de graças e encantos, e que, ao morrer, esses segredos que têm tanto de divino para as almas juvenis não podiam ir afundar-se no sepulcro sem que antes os sinos tocassem seus clamores fúnebres, se acendessem os brandões ao redor de um féretro, se entoassem cânticos sagrados e se acompanhasse, com lágrimas e soluços, aquela que vai em fúnebre procissão despedir-se para sempre.

Afastou a vista desse espetáculo, que ia dando morte a todas as suas ilusões, e retirou-se, dominado por uma espécie de cru desengano do gênero humano, sem que o epíteto de covarde que lhe davam, nem a voz imperiosa de seu mestre, fossem bastantes para detê-lo presenciando tantas misérias.

Mas não lhe foi dado encaminhar-se ao colégio, porque o sentinela o fez voltar. Então o estudante disse consigo mesmo: “Há de ter tantos inimigos e tantos aparatos este ser que a lâmina acaba de me mostrar como imundo e quebradiço? Se a mulher, que é a beleza, acaba de me repelir com sua repugnante deformidade, com razão o sentinela, que é a força, me parece mais disforme que o cadáver.”

O estudante pôde, naquele dia, afirmar por experiência própria o profundo ensinamento que dá a máxima de Pascal, dizendo: “É arriscado mostrar demais ao homem quanto ele se assemelha aos animais, sem tornar patente sua grandeza. É ainda mais arriscado fazê-lo ver demais sua grandeza sem sua baixeza, e mais ainda deixá-lo ignorar ambas as coisas.”

Sendo a ordem do sentinela que ninguém entrasse nem saísse até que a longa operação da autópsia houvesse terminado, o estudante teve de entrar no quarto de onde a defunta acabava de sair, pois era o único asilo que lhe restava.

Ali estavam a manta e a tocha funerária, e, perto desta, falavam um comerciante e um advogado de Cuenca sobre a injustiça com que se atribuía a seu conterrâneo, o senhor M..., a morte dessa mulher. Para comprová-lo, haviam relatado alguns antecedentes que já referimos e leram em seguida as cartas e os rascunhos que se haviam encontrado no costureiro da defunta. Esses documentos iam ser apresentados caso se declarasse haver lugar à formação de causa. Diziam assim:

Nº 1 — Quito, 1º de setembro de 1841.

Rosaura, minha antiga amiga:

Se houve um tempo em que te falei a linguagem do amor profano, sobreveio outro tempo em que as coisas mudaram, e é necessário que também mudem as palavras.

Quando pronunciaste o fatal sim no templo de nosso vale, eu me pus a caminho para receber o sacramento da ordem sacerdotal.

Ao amor precoce que me inspiraste devo os estímulos que dirigiram meus estudos e minha conduta por bom caminho; depois, encaminhaste-me por estranha senda aos altares do Pai que nos manda perdoar, e tudo perdoei.

Hoje teu antigo amigo chegou a saber que tiveste a desgraça de entrar no número das ovelhas desgarradas, e daqui se prostra para fazer-te a súplica de que voltes ao aprisco.

Pensas que te estás vingando daqueles que te tiranizaram. Infeliz! Olha o que fazes.

Reflete que nenhum mal recebeste das jovens inocentes que poderiam perverter-se com teu exemplo, e que, nesse gênero de desagravo que adotaste por sistema, a pena não retrocede até os autores do mal, que foram nossos maiores, mas vai diretamente às novas gerações, que não tiveram nem vontade nem ocasião de ofender-nos.

Houve um tempo em que, pelo delito de um pai, impunha-se aos filhos e demais descendentes a pena da infâmia e da perda de todos os bens. Parece-te isso justo e racional? Não, isso é monstruoso, responder-me-ás; pois isso, e muito mais, é o que fazemos quando um despeito cego gera em nós a vingança contra uma sociedade que julgamos viciada ou criminosa.

Se teu pai, teu cura, teu juiz e a maioria de teus conterrâneos te empurraram violentamente para os abismos, foi porque eles também vinham empurrados por outras forças anteriores, às quais não haviam podido resistir.

Uma ignorância deplorável, mais que criminosa, havia dado o primeiro impulso aos defeitos sociais de que és vítima: tu te entregaste ao vício para viciar ainda mais a sociedade, zombar dela, desprezá-la a teu bel-prazer e vingar-te desse modo; isto é, cedeste ao mesmo impulso que empurrou teus maiores, e então deves ser, a teus próprios olhos, tão odiosa quanto um mau sacerdote, um mau juiz e uma má sociedade. Algo mais ainda: o mau pai, o mau sacerdote, o mau juiz e a má sociedade procederam por ignorância e estultícia, e isso é mais digno de lástima que de punição; tu recebeste os dons de uma inteligência clara, de uma educação doce, sob as inspirações maternais, e um amor puro e leal deu voo e consistência aos sentimentos generosos.

Com esses elementos se formam as almas fortes, e nas almas fortes é crime imperdoável cair nas mesmas misérias que formam a triste herança dos imbecis.

O que fazes é, além disso, contra ti mesma: estás destruindo tua reputação e tua formosura. Tu não crês que te divertes, por mais que o procures, porque sempre te assalta a lembrança do que era a inocência.

Rosaura! Meu antigo amor era egoísta: queria que fosses minha; queria minha felicidade. Agora quero a tua, ou que tua desgraça seja menos grave. Volta ao campo, pensa, reflete, e ali ouvirás a voz de Deus nas reminiscências dos conselhos de tua mãe.

Eduardo.

Seguia-se um rascunho com letra de Rosaura, que dizia:

Nº 2. Eduardo. Eu me comprazia em meus triunfos, e tu me fazes envergonhar-me. És a única criatura diante de quem sinto a necessidade de justificar-me; mas sem ocultar que tuas palavras são novas tiranias que vêm perseguir-me no campo aonde a fatalidade me conduziu.

Se minha mãe não me houvesse inspirado religião, e se tu não me tivesses feito entrever o sublime do amor puro, eu contaria, como meus verdugos e meus amantes, com o desenfreio da ignorância, e os remorsos não viriam perfurar-me as entranhas.

Mais dano me fizeram meus benfeitores que meus tiranos: para estes me basta o ódio; para destruir a obra dos outros, necessito das vertigens, do ofuscamento, do bulício aturdido. Concede-me a graça de guardar silêncio, ou cruzarei lanças contigo. Não posso viver senão de emoções; as emoções são um sonho, e não quero que ninguém me desperte.

Tu sabes alguma coisa de minha primeira educação, mas não sabes tudo. Minha mãe me ensinou a conhecer Deus levando-me às colinas de nosso povoado e dizendo-me com acento carinhoso: “Olha a formosura destes campos; escuta o canto dos passarinhos; observa esse condor que se perde entre as nuvens; fixa os olhos no azul do firmamento; olha esse sol que nasce tão brilhante.

Sabes quem fez tudo isto e nos pôs aqui porque nos quer?” “Isto é muito grande e muito bonito”, respondia-lhe eu; “aposto que foi algum daqueles reis que papai nomeia tirando o chapéu.”

“Não, filha; esses reis eram homens como todos. Quem fez isto é um Espírito que não se pode ver, mas que te ama tanto como ninguém pode amar-te, porque é tão bom que tu não hás de compreender sua bondade senão quando fores um pouco maior. É amigo dos pobres, das crianças e de todos os que são bons; ele se zanga com os soberbos, com os raivosos e com aqueles que maltratam o próximo.” Desse modo iam penetrando as ideias de minha mãe em minha inteligência infantil.

Aprendi a adorar Deus porque era Pai, porque era bom e porque havia feito coisas tão grandes e tão formosas.

Meu pai, em vez de me fazer amar as coisas santas, impunha-me a tarefa de rezar como uma vintena de padre-nossos e ave-marias às centenas todas as noites, de modo que a extensão da faina e a dureza com que me obrigava a cumpri-la tornaram a devoção temível para mim.

Cheguei a abrigar o erro de que havia duas religiões: uma pura, simpática e divina, que minha mãe me inspirava, e outra pesada e odiosa, que meu pai me fazia praticar sem me inspirar nem ensinar coisas grandes.

Quando via o cura de nosso povoado mandar açoitar os indígenas e prender as viúvas que não podiam pagar os direitos funerais de seus maridos defuntos, eu dizia sem vacilar: a religião do cura não é a religião de minha mãe; e, dia após dia, ia sucedendo não sei o quê dentro de mim que me foi empurrando até o ponto a que cheguei.

Tu me escreveste em uma linguagem que me faz muito mal; faz-me sentir alguma coisa semelhante à religião de minha mãe; mas já é tarde demais para isso. Tenho visto a meus pés batinas e tonsuras, e tive o capricho de inflamar os galãs da ordem sacerdotal, para depois repeli-los com desprezo. Eles se vingaram subindo ao púlpito para retratar-me com grosseiras cores, sem prejuízo de voltarem a pedir perdão de joelhos.

Eu me julgava superior a todos os que se prostravam diante de mim; mas, quando tu me dizes que te ajoelhas, sinto-me humilhada e confusa: aqui se rendem a meus pés para pedir-me que me envileça, para dizer-me que seja deles; e tu me diriges uma súplica pedindo-me que me emende, que me enobreça, que seja de Deus.

Isto me diz o que pude ser e o que sou. Por que me dás uma ferida tão mortal? Despertaste os remorsos que eu calava com meus triunfos e me puseste em tal desesperação que eu quisera amaldiçoar-te; mas vejo que isso seria injusto, e não amaldiçoo ninguém senão a mim mesma.

Eduardo, não voltes a escrever-me: não temas que eu me destrua, porque, quando isso acontecer, darei uma nova badalada. Todos os caminhos estão obstruídos para mim, exceto o que vou seguindo. Oh, se eu pudesse voltar aos instantes de nossa última entrevista!... Mas isso é impossível. Não posso voltar a ser solteira, assim como tu não podes apagar o caráter do sacramento que recebeste.

Por compaixão, não voltes a escrever-me.

Nº 3. Quito, 20 de setembro de 1841.

Rosaura: Intentas romper comigo; pedes que eu te deixe em paz, mas em teu coração não há paz, e é esta que quero dar-te em nome do Senhor.

Graças às tochas que iluminaram tua infância, ainda sentes remorso e te pesa não poder agir melhor, crendo que os caminhos da virtude estão obstruídos; mas não, minha filha, ainda podes voltar tua conduta para o caminho que tua mãe te traçara.

Levantar uma pistola, fazer tremer os imbecis, resolver morrer lutando, andar sozinha pelos caminhos desafiando os perigos, mostram em ti a triste excitação de uma coragem desesperada; isso não é a coragem racional, não é a coragem da alma grande.

Os triunfos da verdadeira coragem são os que se obtêm rejeitando o sedutor para não fazer mais que o justo. Tudo quanto fizeste até aqui mostra a coragem do vapor que se expande ao evaporar-se. Quando levantaste a pistola, venceste o cura e o tenente depois de haveres sido vencida por um ímpeto de furor que não pudeste reprimir, isto é, que não pudeste vencer. A verdadeira vitória alcançarias ao deixar o lodaçal dos prazeres frenéticos para seguir os decentes e racionais.

Para chegar a esse triunfo, bastará refletires que as fontes do prazer não tardarão em esgotar-se, e ficarão as fezes, que são amargas e pungentes: que farás então, minha filha? Sentir o coração estrangulado pelas serpentes do arrependimento já estéril.

Quanto mais se sorvem os prazeres, mais depressa a alma se debilita; na alma debilitada vão-se aninhando as paixões baixas, e vêm depois destas o cansaço e o tédio, que são a viva imagem dos infernos.

Agora ainda tens forças, e o melhor emprego que podes dar-lhes é lutar contigo mesma.

Em nome do Pai celestial que adoravas com tua mãe, peço-te, não um sacrifício, mas teu descanso, teu sossego por poucos meses. Retira-te da vida escandalosa: vive oculta até a próxima quaresma, quando irei eu, invocarei a graça divina, e tenho fé em que serão dissipadas as trevas que hoje ofuscam teu coração, e sentirás reanimada tua coragem.

Cederás facilmente às súplicas que te faz teu antigo amigo quando meditares na fealdade da libertinagem que fomentas com tua formosura.

Teus galãs creem enganar-te, e tu crês também que os enganas; na realidade, eles e tu só enganam a si mesmos, porque se arruínam, se depravam e vão perdendo de hora em hora sua excelsa qualidade de racionais. Crê-me, minha filha, que os caminhos da virtude estão sempre abertos para todos.

Eduardo.

Nº 4. Eduardo: As desgraças que me anuncias como futuras já estão dentro de mim.

Sabes o que é uma feira nesta cidade? Oh, se tivesses visto quão formosa e concorrida esteve a deste ano! Que fisionomias, que modas, que acentos tão variados!

Olha o que escrevi para me divertir e que hoje rasgo desesperada.

“9 de setembro. Confesso que têm muito bom gosto os que pintam ou escrevem quadros de costumes: eu também queria uma pena e um pincel para o quadro de ontem à noite, com seu grupo de dois hirsutos de Cuenca, um teimoso puruguayo — riobambenho —, um frade de todas as partes, dois crespos da costa, três lindos de não sei onde, um gracioso de província e um comandante sem domicílio, que formaram meu cortejo.

O gracioso caiu em desgraça diante de todos porque me fazia rir; o comandante foi qualificado de covarde porque me falava de suas façanhas; tratei melhor o frade porque desejava que seus companheiros o aborrecessem, e não tardei em conseguir que os hirsutos de Cuenca lhe dessem seu par de sopapos, embora não tenham tardado em ajoelhar-se para pedir-lhe absolvição, julgando-se excomungados. Aos lindos tratei como a senhoritas, e creio que ficaram satisfeitos.

Ao teimoso custou muito trabalho afetar denguice; mas esta esteve de sobra da parte dos provincianos, que reduziam suas galanterias a dizer-me que eram vis vermezinhos da terra e que eu era uma divindade: isso não diverte. Os costeños me diziam candidamente: que venha a música, a diversão, que é isso o que se quer! E me parecia boa essa franqueza.”

“Dia 10. Houve uma competição entre morlacos e costeños que não pude compreender, porque eu rebentava de rir ao ouvir o linguajar confuso que se formava ao se alternarem o acento esdruxulário dos primeiros e o pontiagudo dos segundos. O senhôoorzinho de Cuenca e a senhoriiita da costa fazem um contraste graciosíssimo, pois cada um alonga tanto mais seu respectivo acento quanto mais insinuante quer mostrar-se.

Mas deixemos estas frivolidades de um livro de memórias do qual não hão de restar nem as cinzas. Basta dizer-te que, de um lado, estava o portal dos jogos de azar, e de outro, o dos grandes comerciantes; aqui os revendedores com seus acatamentos, ali algum dito gracioso, mais perto uma fina galanteria: música, festins, serenatas, obséquios; nada me faltava. Podia-se crer que se havia chegado a satisfazer a amplitude de minhas aspirações; mas eu tinha dentro de mim alguma coisa que me excitava a chorar.

Depois, a cidade voltou a seu silêncio natural, e minha alma se transformou em um areal deserto, tostado pelo sol do arrependimento e revolvido pelos ventos do desengano; nesse vasto areal, a imagem do passado se ergue como um espectro.

Tenho vergonha de mim mesma, aborreço-me de morte e não sei como hei de vingar-me. Antes de nove meses, percorri um século de perdição.

Medi minhas forças e sinto-me incapaz de prostrar-me para ser ouvida em penitência pelos mesmos a quem repeli com desprezo. Somente diante de ti me ajoelharia; mas então os soluços não me dariam lugar para acusar-me e eu não poderia deixar de acender-me em um amor já impossível, em um amor desesperado.

Causei muitos danos que não teria conhecido sem tuas cartas: é preciso que o escândalo termine juntamente com a vida, antes que venhas aniquilar-me.

Adeus, Eduardo.

Sem nenhum sinal de compaixão e caminhando diretamente para seu objetivo, o advogado continuou dizendo:

— A estas cartas, que dão indícios veementes de suicídio, soma-se o que dizem unanimemente os declarantes, isto é, que esta senhora, estando com febre e outras enfermidades, convidou para um passeio umas vinte pessoas, quase todas da plebe; comeu como desesperada frutas e iguarias que lhe fizeram mal; sorveu licores pela primeira vez, porque antes, embora fosse alegre, não bebia; e, quase empanturrada, embriagada e quase delirante pela febre, entrou para banhar-se às seis da tarde na água gelada do Zamora.

Às onze da noite, o apoplético a mandou para a eternidade.

Como essa relação era mais terrível que a presença do cadáver, o estudante saiu em busca de um ar mais respirável que o daquele quarto, e se encontrou com o espetáculo dos peões que recolhiam no caixão pedaços de carne humana gangrenada. Ali estava exangue e despedaçado o coração que fizera palpitar tantos corações.

À tarde, quatro indígenas pisoteavam uma sepultura, e os curiais davam por encerrado o sumário por não haver lugar à formação de causa. Eis aqui o fim daquela que foi Rosaura.

A Emancipada

Sinopse

A Emancipada, publicada em 1863, costuma ser lembrada como a primeira novela equatoriana publicada. Na história de Rosaura, Miguel Riofrío transforma o drama de uma jovem submetida ao casamento imposto em crítica social: a narrativa expõe a autoridade patriarcal, o controle moral exercido pela religião, a fragilidade da justiça local e a ausência de liberdade real para a mulher.

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