Universo da obra
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O segredo das tempestades atmosféricas está, até certo ponto, descoberto e explicado, porque sempre foram invariáveis as leis da matéria; mas há outras tempestades misteriosas, com instintos e arbítrio, que, se uma vez chegam a estourar, não se pode saber qual será o limite de seus estragos: essa tempestade é a do coração de uma mulher formosa, de sentimentos nobres e generosos, a quem o desespero chegou a pôr em mau caminho.
Ela caminhará em linha reta para os abismos, porque assenta seu orgulho em jamais retroceder e em devolver à sociedade burla por burla, desprezo por desprezo, injustiça por injustiça e vítima por vítima; mas com maior ou menor decência, segundo os graus de educação a que chegou, pois até o vício tem sua dignidade nas almas educadas.
Em Rosaura, as cordas com que seu pai a havia atado ao estúpido cativeiro foram estreitadas até se romperem. Um mau ministro do altar a atou com o vínculo matrimonial, que, também por tirânico e injusto, teve de romper-se e se rompeu. Um ministro da justiça tentou castigar na vítima os delitos dos verdugos, e ela teve de detestar os juízes de sua terra.
Entre a corrupção que tiraniza e a corrupção que adula, não é duvidosa a escolha para uma criatura inexperiente e de alma ardente como Rosaura. Os déspotas e os fanáticos são os que empurram a sociedade para a região da libertinagem.
É isto que se deve dizer, em vez de descobrir os festins, as orgias e os excessos que, na casa de Rosaura, iam ficando sob a jurisdição das trevas. Basta saber que, nos primeiros dias de setembro, destinados à afamada feira do Cisne, via-se essa infeliz mulher nos antros de jogo, deixando-se obsequiar até pelos bêbados das tavernas.
Passados esses dias de grande bulício, a casa de Rosaura estava sempre fechada e as noites em silêncio. Alguma mudança substancial havia ocorrido.
A Emancipada, publicada em 1863, costuma ser lembrada como a primeira novela equatoriana publicada. Na história de Rosaura, Miguel Riofrío transforma o drama de uma jovem submetida ao casamento imposto em crítica social: a narrativa expõe a autoridade patriarcal, o controle moral exercido pela religião, a fragilidade da justiça local e a ausência de liberdade real para a mulher.
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