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A Emancipada

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A Emancipada

Capítulo 5 · A Emancipada

Capítulo 5

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Capítulo 5

Ao norte da cidade de Loja, na confluência dos rios Malacatos e Zamora, ficam o templo e o casario principal das cinco parcialidades de aborígenes que compõem a paróquia de San Juan del Valle.

No dia 24 de junho, dia do Santo Padroeiro, celebravam-se ali umas festas em que sempre cabia aos índios a pior parte, pois seus gostos se reduziam a trabalhar para que os brancos da cidade se divertissem. Havia missa solene, procissão, corrida de galos e, depois desta, satisfazia-se a paixão taurina de nossa raça.

Preparadas de antemão as ramadas nos terrenos e os palanques rústicos em torno da praça, a gente aguardava com avidez a hora do espetáculo dos galos, que era desta forma: erguia-se na praça uma espécie de forca; da ponta superior de um dos dois paus pendia um cordel, que passava por uma roldana posta na cabeça do outro pau e se prolongava para ser manejado à maneira de balanço de equilibrista; pendurado no cordel, no meio dos paus, estava um galo vivo, atado frouxamente pelas patas, a uma altura que dificilmente pudesse ser alcançada por um homem a cavalo.

Os cavaleiros que entravam na liça colocavam-se a vinte metros dessa forca ou balanço, onde o galo subia e descia conforme esticavam ou afrouxavam o cordel os que estavam ao lado da roldana. Dado o sinal, os cavaleiros iam partindo um a um e, ao passar a galope por baixo do galo, procuravam arrancá-lo das leves ataduras que o prendiam ao cordel; quem o conseguia desferia golpes com o galo em quantos alcançasse, até que lhe tirassem, em boa guerra, o mísero animal, ou este acabasse de se despedaçar com os golpes que, com seu corpo, eram descarregados sobre as costas, a cabeça ou as costelas dos cavaleiros.

Três galos deviam ser mártires dessa barbárie antes que saísse o primeiro touro a substituir uma barbárie lugareja por outra barbárie mais clássica e pomposa.

Em junho de 1841, a festa e a procissão haviam terminado à uma e meia da tarde.

Às duas, os palanques estavam cheios, e os olhares fixos nos cavaleiros da liça: vários deles se mostravam acabrunhados e outros dissimulavam, com gracejos ou cantigas de mau gosto, a vergonha que padeciam por haver passado sob a forca sem conseguir arrancar o galo; pois entre as frivolidades sociais figura a de que a destreza em arrancar galos no dia de São João seja ainda assunto de gravíssima importância, sobretudo se os olhares femininos estão dominando o espetáculo.

Depois de todos os cavaleiros terem passado sob a forca sem que a nenhum coubesse a alta honra de desferir golpes com o galo em seus próximos e merecer por isso o aplauso das formosas, ia começar de novo a corrida, quando se apresentou entre eles uma competidora que deixou a concorrência absorta.

Em um brioso corcel branco entrou, fresca e corada, com longo vestido azul e chapeuzinho de palha, a mesma amazona que seis meses antes havia partido de outro vale intimidando seus tiranos.

Sua presença naquela praça produziu uma surpresa animadora; mas a emoção geral subiu de ponto quando se viu partir essa beldade desconhecida, passar sob a forca, arrancar um galo e não o descarregar sobre os cavaleiros que a galanteavam oferecendo-lhe as costas para receber de suas mãos a ventura de um golpe com o galo, mas oferecê-lo a uma índia velha e andrajosa, dizendo:

— Esta foi a dona do animal, e o tiraram dela à força, segundo a pena com que o estava contemplando.

— É verdade, minha senhora, Deus lhe pague — disse a índia.

Colocado o segundo galo, Rosaura foi pela segunda vez facilmente vencedora, porque os índios que seguravam a corda, seduzidos por sua formosura e agradecidos pelo ato de piedade dessa amazona, afrouxaram-na de modo que o galo ficasse muito acessível.

— Reclamo o costume — disse um moço grosseiro, e arrebatou o galo das mãos da jovem, causando-lhe uma leve ferida com a espora e rasgando-lhe parte do vestido.

Os índios, que com seu instinto fino conhecem quem os favorece e o defendem com tenacidade selvagem, correram a pé atrás do homem a cavalo que havia ferido sua benfeitora; alcançaram-no, agarraram-se às rédeas e, nessa ação, sofreram golpes de rédea e golpes com o galo desferidos pelo cavaleiro e pelos que acorreram em sua defesa, até que chegou a jovem e disse a seus vingadores em língua quíchua:

— Amigos meus! Credes que estas gotas de sangue mereçam ser vingadas? Não, filhos, este é um desgraçado como vós e como eu: ele reclamou o costume; no costume está o mal, e este vem de muito longe.

— Ele te faltou ao respeito e havemos de castigá-lo — disse um cacique.

— Ele não sabe o que é digno de respeito; para ele, só o costume é respeitável, e, como bom ignorante, cumpriu seu dever.

— Nós lhe ensinaremos a respeitar as senhoras como nós as respeitamos.

— Nossa voz é muito fraca, amigos, para ensinar, e nossa situação muito triste para aprender. Deixai em paz esse homem, a quem o costume fez ignorante e a ignorância fez grosseiro.

— A letra com sangue entra.

— Por Deus! Não pronuncieis essa palavra.

Os índios se retiraram; a jovem foi conduzida ao convento; enfaixaram-lhe a ferida e fizeram dela protagonista de uma ruidosa pândega. Circulou o rumor, entre as beatas, de que uma herege estrangeira havia aparecido no vale por arte de Satanás e fizera coisas diabólicas.

Depois da festa, viam-na passear sozinha em seu alazão pelos arredores da cidade. Em determinados dias da semana chegava às alturas de San Cayetano e permanecia longo tempo contemplando a alfombra de púrpura e ouro que formam as dumarídes e as calêndulas silvestres.

Assegura-se que ali cantava a canção colombiana La Pola e algum sentido yaraví, acompanhando-se com o canto dos pardais, dos suípes, dos lapos e de outras aves; e que, ao voltar à cidade, cuidava de apear-se à margem do Zamora, enxugava os olhos com um lenço e banhava o rosto nessas águas frescas e cristalinas.

Habitava uma casinha na rua de San Agustín, que era a mais pitoresca da cidade: tinha a poucos metros a grande acequia que passa a mover o moinho dos Dominicanos. A porta, sempre aberta, mostrava em exposição permanente uma pequena plantação de espargos, rosas, jasmins e cravos entre figueiras, pessegueiros e tomateiros, que faziam do pátio um bosque e um jardim.

Ao entrar a amazona, saía um criado para encarregar-se do cavalo; outro estava na cozinha: estes dois, e nada mais, eram sua criadagem. Ela subia um degrau de madeira, chegava a seu quarto de toucador, trocava a roupa de montar por outra de tecido simples, descansava por uma ou duas horas embalando-se em sua rede e lendo alguma coisa; também tinha seus momentos de escrever.

Depois arranjava melhor a vestimenta e o penteado e saía à sala de visitas: esta era espaçosa, mas um pouco desmantelada, pois antes fora sala de bilhar, de modo que a palavra bilhar chegou a ter uma acepção convencional e maliciosa que envilecia o nome da dama e a fazia derramar lágrimas secretas de amargura, que ela procurava afogar nos prazeres.

É quanto se pode narrar acerca de sua vida privada, embora certamente a mulher a quem alguma fatalidade lançou na corrente das aventuras não tenha vida privada; pois até os mínimos incidentes de sua casa vão passando de roda em roda, com acréscimos e comentários.

A Emancipada

Sinopse

A Emancipada, publicada em 1863, costuma ser lembrada como a primeira novela equatoriana publicada. Na história de Rosaura, Miguel Riofrío transforma o drama de uma jovem submetida ao casamento imposto em crítica social: a narrativa expõe a autoridade patriarcal, o controle moral exercido pela religião, a fragilidade da justiça local e a ausência de liberdade real para a mulher.

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