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Capítulo 2 · Facundo

Revolução de 1810 e infância de Facundo

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CAPÍTULO IV

REVOLUÇÃO DE 1810

Quando a batalha começa, o tártaro
solta um grito terrível, chega, fere,
desaparece e volta como o
raio.

Victor Hugo.

Precisei percorrer todo o caminho que deixo atrás de mim para chegar ao ponto em que começa o nosso drama. É inútil deter-se no caráter, no objeto e no fim da revolução da independência. Em toda a América foram os mesmos, nascidos da mesma origem, a saber: o movimento das ideias europeias. A América agia assim porque assim agem todos os povos. Os livros, os acontecimentos, tudo levava a América a associar-se ao impulso que à França haviam dado a América do Norte e seus próprios escritores; à Espanha, a França e seus livros. Mas o que preciso notar para meu propósito é que a revolução, exceto em seu símbolo exterior, independência do Rei, era interessante e inteligível apenas para as cidades argentinas, estranha e sem prestígio para as campanhas. Nas cidades havia livros, ideias, espírito municipal, juízos, direito, leis, educação, todos os pontos de contato e de comunhão que temos com os europeus; havia uma base de organização, incompleta, atrasada, se se quiser; mas precisamente porque era incompleta, porque não estava à altura daquilo que já se sabia que poderia atingir, adotava-se a revolução com entusiasmo. Para as campanhas, a revolução era um problema; subtrair-se à autoridade do Rei era agradável, porquanto era subtrair-se à autoridade. A campanha pastoril não podia encarar a questão sob outro aspecto. Liberdade, responsabilidade do poder, todas as questões que a revolução se propunha resolver eram estranhas à sua maneira de viver, às suas necessidades. Mas a revolução lhe era útil neste sentido: ia dar objeto e ocupação a esse excesso de vida que indicamos, e ia acrescentar um novo centro de reunião, maior que aquele circunscrito ao qual acorriam diariamente os homens em toda a extensão das campanhas.

Aquelas constituições espartanas; aquelas forças físicas tão desenvolvidas; aquelas disposições guerreiras que se desperdiçavam em punhaladas e golpes entre uns e outros; aquela desocupação romana a que só faltava um Campo de Marte para pôr-se em exercício ativo; aquela antipatia à autoridade, com a qual viviam em contínua luta — tudo encontrava, enfim, caminho por onde abrir passagem e sair à luz, ostentar-se e desenvolver-se.

Começaram, pois, em Buenos Aires os movimentos revolucionários, e todas as cidades do interior responderam com decisão ao chamado. As campanhas pastoris se agitaram e aderiram ao impulso. Em Buenos Aires começaram a formar-se exércitos, razoavelmente disciplinados, para acudir ao Alto Peru e a Montevidéu, onde se achavam as forças espanholas comandadas pelo general Vigodet. O general Rondeau pôs cerco a Montevidéu com um exército disciplinado. Concorria ao cerco Artigas, caudilho célebre, com alguns milhares de gaúchos. Artigas fora contrabandista temível até 1804, quando as autoridades civis de Buenos Aires puderam ganhá-lo e fazê-lo servir, na qualidade de comandante de campanha, em apoio dessas mesmas autoridades a quem fizera guerra até então. Se o leitor não se esqueceu do baqueano e das qualidades gerais que constituem o candidato ao comando de campanha, compreenderá facilmente o caráter e os instintos de Artigas.

Um dia, Artigas, com seus gaúchos, separou-se do general Rondeau e começou a fazer-lhe guerra. A oposição deste era a mesma que hoje tem Oribe, sitiando Montevidéu e fazendo frente, à retaguarda, a outro inimigo. A única diferença consistia em que Artigas era inimigo dos patriotas e dos realistas ao mesmo tempo. Não quero entrar na averiguação das causas ou pretextos que motivaram esse rompimento, nem tampouco quero dar-lhe nenhum dos nomes consagrados na linguagem da política, porque nenhum lhe convém. Quando um povo entra em revolução, dois interesses opostos lutam no princípio: o revolucionário e o conservador; entre nós, os partidos que os sustentavam foram denominados patriotas e realistas. Natural é que, depois do triunfo, o partido vencedor se subdivida em frações de moderados e exaltados: uns que querem levar a revolução a todas as suas consequências; outros que querem mantê-la dentro de certos limites. Também é próprio do caráter das revoluções que o partido primeiramente vencido volte a reorganizar-se e triunfe à mercê da divisão dos vencedores. Mas quando, numa revolução, uma das forças chamadas em seu auxílio se desprende imediatamente, forma uma terceira entidade, mostra-se indiferentemente hostil a uns e outros combatentes, a realistas e patriotas; essa força que se separa é heterogênea; a sociedade que a encerra não conhecera até então sua existência, e a revolução serviu apenas para que ela se mostrasse e se desenvolvesse.

Era esse o elemento que o célebre Artigas punha em movimento: instrumento cego, mas cheio de vida, de instintos hostis à civilização europeia e a toda organização regular; adverso à monarquia como à república, porque ambas vinham da cidade e traziam consigo uma ordem e a consagração da autoridade. Desse instrumento se serviram os diversos partidos das cidades cultas, e principalmente o menos revolucionário, até que, com o correr do tempo, os mesmos que o chamaram em seu auxílio sucumbiram, e com eles a cidade, suas ideias, sua literatura, seus colégios, seus tribunais, sua civilização.

Esse movimento espontâneo das campanhas pastoris foi tão ingênuo em suas manifestações primitivas, tão genial e tão expressivo de seu espírito e de suas tendências, que espanta hoje a candura dos partidos das cidades que o assimilaram à sua causa e o batizaram com os nomes políticos que os dividiam. A força que sustentava Artigas em Entre Ríos era a mesma que, em Santa Fé, sustentava López; em Santiago, Ibarra; nos Llanos, Facundo. O individualismo constituía sua essência; o cavalo, sua arma exclusiva; a pampa imensa, seu teatro. As hordas beduínas que hoje importunam, com seus alaridos e depredações, as fronteiras da Argélia, dão uma ideia exata da montonera argentina, da qual se serviram homens sagazes ou malvados insignes. A mesma luta entre civilização e barbárie, entre a cidade e o deserto, existe hoje na África; os mesmos personagens, o mesmo espírito, a mesma estratégia indisciplinada entre a horda e a montonera. Massas imensas de cavaleiros vagando pelo deserto, oferecendo combate às forças disciplinadas das cidades se se sentem superiores em força, dissipando-se como nuvens de cossacos em todas as direções, se o combate é sequer igual, para reunir-se de novo, cair de improviso sobre os que dormem, arrebatar-lhes os cavalos, matar os retardatários e as partidas avançadas; sempre presentes, intangíveis por sua falta de coesão, fracas no combate, mas fortes e invencíveis numa longa campanha, em que, afinal, a força organizada, o exército, sucumbe dizimado pelos encontros parciais, pelas surpresas, pela fadiga, pela extenuação.

A montonera, tal como apareceu nos primeiros dias da República sob as ordens de Artigas, já apresentava esse caráter de ferocidade brutal e esse espírito terrorista que estava reservado ao imortal bandido, ao estancieiro de Buenos Aires, converter em sistema de legislação aplicado à sociedade culta, e apresentá-lo, em nome da América envergonhada, à contemplação da Europa. Rosas não inventou nada; seu talento consistiu apenas em plagiar seus antecessores e fazer dos instintos brutais das massas ignorantes um sistema meditado e coordenado friamente. A correia de couro tirada do coronel Maciel, da qual Rosas fez uma peia que mostra aos agentes estrangeiros, tem seus antecedentes em Artigas e nos demais caudilhos bárbaros, tártaros. A montonera de Artigas enchalecava seus inimigos; isto é, cosia-os dentro de um invólucro de couro fresco e os deixava assim abandonados nos campos. O leitor suprirá todos os horrores dessa morte lenta. No ano 36, esse horrível castigo repetiu-se com um coronel do exército. Executar com a faca, degolando e não fuzilando, é um instinto de carniceiro que Rosas soube aproveitar para dar ainda à morte formas gaúchas e ao assassino prazeres horríveis; sobretudo, para trocar as formas legais e admitidas nas sociedades cultas por outras que ele chama americanas e em nome das quais convida a América a sair em sua defesa, quando os sofrimentos do Brasil, do Paraguai, do Uruguai invocam a aliança dos poderes europeus a fim de que os ajudem a livrar-se desse canibal que já os invade com suas hordas sanguinárias. Não é possível manter a tranquilidade de espírito necessária para investigar a verdade histórica quando se tropeça a cada passo com a ideia de que se pôde enganar a América e a Europa por tanto tempo com um sistema de assassinatos e crueldades toleráveis apenas em Axânti ou Daomé, no interior da África!

Tal é o caráter que a montonera apresenta desde sua aparição: gênero singular de guerra e julgamento que só tem antecedentes nos povos asiáticos que habitam as planícies e que jamais deveria ter sido confundido com os hábitos, ideias e costumes das cidades argentinas, que eram, como todas as cidades americanas, uma continuação da Europa e da Espanha. A montonera só pode explicar-se examinando a organização íntima da sociedade de onde procede. Artigas, baqueano, contrabandista — isto é, fazendo guerra à sociedade civil, à cidade —, comandante de campanha por transação, caudilho das massas a cavalo, é o mesmo tipo que, com leves variantes, continua reproduzindo-se em cada comandante de campanha que chegou a fazer-se caudilho. Como todas as guerras civis em que profundas dessemelhanças de educação, crenças e objetivos dividem os partidos, a guerra interior da República Argentina foi longa, obstinada, até que um dos elementos venceu. A guerra da revolução argentina foi dupla: 1.º, guerra das cidades, iniciadas na cultura europeia, contra os espanhóis, a fim de dar maior amplitude a essa cultura; e 2.º, guerra dos caudilhos contra as cidades, a fim de livrar-se de toda sujeição civil e desenvolver seu caráter e seu ódio contra a civilização. As cidades triunfam dos espanhóis, e as campanhas, das cidades. Eis explicado o enigma da revolução argentina, cujo primeiro tiro foi disparado em 1810 e cujo último ainda não soou.

Não entrarei em todos os detalhes que este assunto exigiria; a luta é mais ou menos longa; algumas cidades sucumbem primeiro, outras depois. A vida de Facundo Quiroga nos dará ocasião de mostrá-las em toda a sua nudez. O que por ora preciso fazer notar é que, com o triunfo desses caudilhos, toda forma civil, mesmo no estado em que a usavam os espanhóis, desapareceu totalmente em algumas partes; em outras, de modo parcial, mas caminhando visivelmente para sua destruição. Os povos em massa não são capazes de comparar distintamente umas épocas com outras; o momento presente é, para eles, o único sobre o qual estendem os olhos; é assim que ninguém observou até agora a destruição das cidades e sua decadência, do mesmo modo que não preveem a barbárie total para a qual marcham visivelmente os povos do interior. Buenos Aires é tão poderosa em elementos de civilização europeia, que acabará enfim por educar Rosas e conter seus instintos sanguinários e bárbaros. O alto posto que ocupa, as relações com os governos europeus, a necessidade em que se viu de respeitar os estrangeiros, a de mentir pela imprensa e negar as atrocidades que cometeu, a fim de salvar-se da reprovação universal que o persegue — tudo, enfim, contribuirá para conter seus desmandos, como já se está sentindo; sem que isso impeça Buenos Aires de vir a ser, como Havana, o povo mais rico da América, mas também o mais subjugado e mais degradado.

Quatro são as cidades já aniquiladas pelo domínio dos caudilhos que hoje sustentam Rosas, a saber: Santa Fé, Santiago del Estero, San Luis e La Rioja. Santa Fé, situada na confluência do Paraná e outro rio navegável que desemboca em suas imediações, é um dos pontos mais favorecidos da América, e, no entanto, não conta hoje com duas mil almas; San Luis, capital de uma província de cinquenta mil habitantes, e onde não há mais cidade que a capital, não tem mil e quinhentas.

Para tornar sensível a ruína e a decadência da civilização e os rápidos progressos que a barbárie faz no interior, preciso tomar duas cidades: uma já aniquilada, outra caminhando, sem senti-lo, para a barbárie: La Rioja e San Juan. La Rioja não foi outrora uma cidade de primeira ordem; mas, comparada com seu estado presente, nem seus próprios filhos a reconheceriam. Quando começou a revolução de 1810, contava com crescido número de capitalistas e personagens notáveis que figuraram de modo distinto nas armas, no foro, na tribuna, no púlpito. De La Rioja saiu o doutor Castro Barros, deputado ao Congresso de Tucumán e canonista célebre; o general Dávila, que libertou Copiapó do poder dos espanhóis em 1817; o general Ocampo, presidente de Charcas; o doutor dom Gabriel Ocampo, um dos advogados mais célebres do foro argentino; e um número considerável de advogados dos sobrenomes Ocampo, Dávila e García, que existem hoje espalhados pelo território chileno, assim como vários sacerdotes de luzes, entre eles o doutor Gordillo, residente no Huasco.

Para que uma província tenha podido produzir, em dada época, tantos homens eminentes e ilustrados, é necessário que as luzes tenham estado difundidas sobre um número maior de indivíduos e tenham sido respeitadas e solicitadas com afinco. Se nos primeiros dias da revolução acontecia isso, qual não deveria ser o acréscimo de luzes, riqueza e população que hoje se deveria notar, se um espantoso retrocesso à barbárie não tivesse impelido aquele pobre povo a interromper seu desenvolvimento? Qual é a cidade chilena, por insignificante que seja, que não possa enumerar os progressos que fez em dez anos, em ilustração, aumento de riqueza e ornato, sem excluir sequer desse número as que foram destruídas pelos terremotos?

Pois bem; vejamos o estado de La Rioja, segundo as respostas dadas a um dos muitos interrogatórios que dirigi para conhecer a fundo os fatos sobre os quais fundo minhas teorias. Aqui é uma pessoa respeitável quem fala, ignorando até o objeto com que interrogo suas lembranças recentes, pois faz apenas quatro meses que deixou La Rioja[23].

P.— A que número ascenderá aproximadamente a população atual da cidade de La Rioja?

R.— Mal chega a mil e quinhentas almas. Diz-se que há apenas quinze homens residentes na cidade.

P.— Quantos cidadãos notáveis residem nela?

R.— Na cidade serão seis ou oito.

P.— Quantos advogados têm escritório aberto?

R.— Nenhum.

P.— Quantos médicos assistem aos enfermos?

R.— Nenhum.

P.— Que juízes letrados há?

R.— Nenhum.

P.— Quantos homens vestem fraque?

R.— Nenhum.

P.— Quantos jovens riojanos estão estudando em Córdoba ou Buenos Aires?

R.— Só sei de um.

P.— Quantas escolas há e quantas crianças frequentam?

R.— Nenhuma.

P.— Há algum estabelecimento público de caridade?

R.— Nenhum, nem escola de primeiras letras. O único religioso franciscano que há naquele convento tem algumas crianças.

P.— Quantos templos arruinados há?

R.— Cinco; só a Matriz serve para alguma coisa.

P.— Constroem-se casas novas?

R.— Nenhuma, nem se reparam as caídas.

P.— Arruínam-se as existentes?

R.— Quase todas, porque são tantas as enxurradas das ruas.

P.— Quantos sacerdotes foram ordenados?

R.— Na cidade, apenas dois mocinhos: um é clérigo cura, outro é religioso de Catamarca. Na província, mais quatro.

P.— Há grandes fortunas de cinquenta mil pesos? Quantas de vinte mil?

R.— Nenhuma; todos pobríssimos.

P.— A população aumentou ou diminuiu?

R.— Diminuiu mais da metade.

P.— Predomina no povo algum sentimento de terror?

R.— Máximo. Teme-se até falar o inocente.

P.— A moeda que se cunha é de boa lei?

R.— A provincial é adulterada.

Aqui os fatos falam com toda a sua horrível e espantosa severidade. Só a história da conquista dos maometanos sobre a Grécia apresenta exemplos de uma barbarização, de uma destruição tão rápida. E isso acontece na América, no século XIX! É obra de apenas vinte anos, apesar de tudo! O que convém a La Rioja é exatamente aplicável a Santa Fé, a San Luis, a Santiago del Estero, esqueletos de cidades, vilarejos decrépitos e devastados. Em San Luis faz dez anos que há apenas um sacerdote, e que não há escola nem uma pessoa que use fraque. Mas vamos julgar em San Juan a sorte das cidades que escaparam à destruição, mas que vão barbarizando-se insensivelmente.

San Juan é uma província exclusivamente agrícola e comerciante; o fato de não ter campanha a livrou por longo tempo do domínio dos caudilhos. Qualquer que fosse o partido dominante, governador e empregados eram tomados da parte educada da população, até o ano de 1833, quando Facundo Quiroga colocou um homem vulgar no governo. Este, não podendo subtrair-se à influência dos costumes civilizados que prevaleciam a despeito do poder, entregou-se à direção da parte culta, até que foi vencido por Brizuela, chefe dos riojanos, sucedendo-lhe o general Benavides, que conserva o mando há nove anos, não já como uma magistratura periódica, mas como propriedade sua. San Juan cresceu em população por causa dos progressos da agricultura e da emigração de La Rioja e San Luis, que foge da fome e da miséria. Seus edifícios aumentaram sensivelmente; o que prova toda a riqueza daqueles países e quanto poderiam progredir se o governo cuidasse de fomentar a instrução e a cultura, únicos meios de elevar um povo.

O despotismo de Benavides é brando e pacífico, o que mantém a quietude e a calma nos espíritos. É o único caudilho de Rosas que não se fartou de sangue; mas a influência barbarizadora do sistema atual não se faz sentir menos por isso.

Numa população de quarenta mil habitantes reunidos numa cidade, não há hoje um só advogado filho do país nem das outras províncias.

Todos os tribunais são desempenhados por homens que não têm o mais leve conhecimento do direito e que são, além disso, homens estúpidos em toda a extensão da palavra. Não há estabelecimento algum de educação pública. Um colégio de senhoras foi fechado em 1840; três de homens foram abertos e fechados sucessivamente de 40 a 43, pela indiferença e mesmo hostilidade do governo.

Só três jovens estão se educando fora da província.

Só há um médico sanjuanino.

Não há três jovens que saibam inglês, nem quatro que falem francês.

Só um há que cursou matemática.

Há apenas um jovem que possui uma instrução digna de um povo culto, o senhor Rawson, já distinto por seus talentos extraordinários. Seu pai é norte-americano, e a isso deve ter recebido educação.

Não há dez cidadãos que saibam mais do que ler e escrever.

Não há um militar que tenha servido nos exércitos de linha fora da República.

Crer-se-á que tanta mediocridade seja natural a uma cidade do interior? Não! Aí está a tradição para provar o contrário. Vinte anos atrás, San Juan era um dos povos mais cultos do interior, e qual não deve ser a decadência e a prostração de uma cidade americana para ir buscar suas épocas brilhantes vinte anos antes do momento presente?

No ano de 1831 emigraram para o Chile duzentos cidadãos chefes de família, jovens, literatos, advogados, militares etc. Copiapó, Coquimbo, Valparaíso e o resto da República ainda estão cheios desses nobres proscritos: alguns capitalistas, outros mineiros inteligentes, muitos comerciantes e fazendeiros, vários advogados, médicos. Como na dispersão da Babilônia, todos esses não voltaram a ver a terra prometida. Outra emigração saiu, para não voltar, em 1840!

San Juan fora até então suficientemente rico em homens civilizados para dar ao célebre Congresso de Tucumán um presidente da capacidade e altura do doutor Laprida, que morreu mais tarde assassinado pelos Aldao; um prior à Recoleta Dominicana do Chile no distinto, sábio e patriota Oro, depois bispo de San Juan; um ilustre patriota, dom Ignacio de la Roza, que preparou com San Martín a expedição ao Chile e derramou em seu país as sementes da igualdade de classes prometida pela revolução; um ministro ao governo de Rivadavia; um ministro à legação argentina em dom Domingo de Oro, cujos talentos diplomáticos ainda não são devidamente apreciados; um deputado ao Congresso de 1826 no ilustrado sacerdote Vera; um deputado à convenção de Santa Fé no presbítero Oro, orador de nota; outro à de Córdoba em dom Rudecindo Rojo, tão eminente por seus talentos e gênio industrial como por sua grande instrução; um militar ao exército, entre outros, no coronel Rojo, que salvou duas províncias sufocando motins apenas com sua serena audácia, e de quem o general Paz, juiz competente na matéria, dizia que seria um dos primeiros generais da República. San Juan possuía então um teatro e companhia permanente de atores.

Existem ainda os restos de seis ou sete bibliotecas particulares em que estavam reunidas as principais obras do século XVIII e as traduções das melhores obras gregas e latinas. Não tive outra instrução até o ano 36 senão a que essas ricas, ainda que truncadas, bibliotecas puderam proporcionar-me. Era San Juan tão rico em homens de luzes no ano de 1825, que a sala de representantes contava com seis oradores de nota. Os miseráveis aldeões que hoje, 1845, desonram a sala de representantes de San Juan, em cujo recinto se ouviram orações tão eloquentes e pensamentos tão elevados, que sacudam o pó das atas daqueles tempos e fujam envergonhados de estar profanando com suas diatribes aquele augusto santuário.

Os juízos, o ministério, eram servidos por letrados, e ficava número suficiente para a defesa dos interesses das partes.

A cultura dos modos, o refinamento dos costumes, o cultivo das letras, as grandes empresas comerciais, o espírito público de que estavam animados os habitantes, tudo anunciava ao estrangeiro a existência de uma sociedade culta, que caminhava rapidamente para elevar-se a uma posição distinta, o que dava ocasião para que as prensas de Londres divulgassem pela América e pela Europa este conceito honroso: “...manifestam as melhores disposições para fazer progresso na civilização; hoje se considera este povo como aquele que segue Buenos Aires mais de perto na marcha da reforma social; ali foram adotadas várias das instituições recentemente estabelecidas em Buenos Aires, em proporção relativa; e na reforma eclesiástica fizeram os sanjuaninos progressos extraordinários, incorporando todos os regulares ao clero secular e extinguindo os conventos que aqueles tinham.”

Mas o que dará uma ideia mais completa da cultura de então é o estado do ensino primário. Nenhum povo da República Argentina se distinguiu mais que San Juan em sua solicitude por difundi-lo, nem há outro que tenha obtido resultados mais completos. Não satisfeito o governo com a capacidade dos homens da província para desempenhar cargo tão importante, mandou trazer de Buenos Aires, no ano de 1815, um sujeito que reunisse, a uma instrução competente, muita moralidade. Vieram uns senhores Rodríguez, três irmãos dignos de circular entre as primeiras famílias do país, e nas quais se enlaçaram, tal era seu mérito e a distinção que se lhes prodigalizava. Eu, que hoje faço profissão do ensino primário, que estudei a matéria, posso dizer que, se alguma vez se realizou na América algo parecido com as famosas escolas holandesas descritas por M. Cousin, foi na de San Juan. A educação moral e religiosa era talvez superior à instrução elementar que ali se dava; e não atribuo a outra causa o fato de em San Juan se terem cometido tão poucos crimes, nem a conduta moderada do próprio Benavides, senão a que a maior parte dos sanjuaninos, ele incluído, foram educados nessa famosa escola, em que os preceitos da moral eram inculcados aos alunos com especial solicitude. Se estas páginas chegarem às mãos de dom Ignacio e de dom Roque Rodríguez, que recebam esta frágil homenagem que creio devida aos serviços eminentes prestados por eles, em associação com seu finado irmão dom José, à cultura e moralidade de um povo inteiro[24].

Esta é a história das cidades argentinas. Todas elas têm glórias, civilização e notabilidades passadas a reivindicar. Agora, o nível barbarizador pesa sobre todas elas. A barbárie do interior chegou a penetrar até as ruas de Buenos Aires. De 1810 a 1840, as províncias que encerravam em suas cidades tanta civilização foram demasiado bárbaras, entretanto, para destruir com seu impulso a obra colossal da revolução da independência. Agora que nada lhes resta daquilo que tinham em homens, luzes e instituições, que será delas? A ignorância e a pobreza, que é sua consequência, estão como aves mortiças, esperando que as cidades do interior deem o último suspiro para devorar sua presa, para fazê-las campo, estância. Buenos Aires pode voltar a ser o que foi, porque a civilização europeia é ali tão forte que, a despeito das brutalidades do governo, há de sustentar-se. Mas nas províncias, em que se apoiará? Dois séculos não bastarão para reconduzi-las ao caminho que abandonaram, desde que a geração presente educa seus filhos na barbárie que a alcançou. Perguntam-nos agora: por que combatemos? Combatemos? Combatemos para devolver às cidades sua vida própria.

PARTE SEGUNDA

CAPÍTULO PRIMEIRO

INFÂNCIA E JUVENTUDE DE JUAN FACUNDO QUIROGA

Além disso, esses traços pertencem
ao caráter originário do gênero
humano. O homem da natureza,
que ainda não aprendeu a conter
ou disfarçar suas paixões, mostra-as
em toda a sua energia e se
entrega a toda a sua impetuosidade.

Alix, História do Império Otomano

Medeia entre as cidades de San Luis e San Juan um dilatado deserto que, por sua completa falta de água, recebe o nome de travessia. O aspecto daquelas solidões é, em geral, triste e desamparado, e o viajante que vem do oriente não passa pela última represa ou cisterna de campo sem prover seus chifres com quantidade suficiente de água. Nessa travessia teve lugar certa vez a estranha cena que segue. As facadas, tão frequentes entre nossos gaúchos, haviam forçado um deles a abandonar precipitadamente a cidade de San Luis e ganhar a travessia a pé, com a sela ao ombro, a fim de escapar às perseguições da justiça. Dois companheiros deveriam alcançá-lo tão logo pudessem roubar cavalos para os três.

Não eram então apenas a fome ou a sede os perigos que o aguardavam naquele deserto, pois um tigre cevado andava havia um ano seguindo os rastros dos viajantes, e já passavam de oito os que haviam sido vítimas de sua predileção pela carne humana. Costuma ocorrer, às vezes, naqueles países em que a fera e o homem disputam o domínio da natureza, que este caia sob a garra sangrenta daquela; então o tigre começa a gostar de preferência de sua carne e chama-se cevado quando se entregou a esse novo gênero de caça, a caça de homens. O juiz da campanha imediata ao teatro de suas devastações convoca os homens hábeis para a batida, e sob sua autoridade e direção se faz a perseguição ao tigre cevado, que raramente escapa à sentença que o põe fora da lei.

Quando nosso prófugo havia caminhado coisa de seis léguas, julgou ouvir o tigre bramir ao longe, e suas fibras estremeceram. O bramido do tigre é um grunhido como o do porco, mas áspero, prolongado, estridente, e que, mesmo sem motivo de temor, causa um abalo involuntário nos nervos, como se a carne se agitasse sozinha ao anúncio da morte.

Alguns minutos depois, o bramido se ouviu mais distinto e mais próximo; o tigre vinha já sobre o rastro, e só a grande distância divisava-se um pequeno algarrobo. Era preciso apertar o passo, correr, enfim, porque os bramidos se sucediam com mais frequência, e o último era mais distinto, mais vibrante que o precedente.

Por fim, atirando a sela a um lado do caminho, dirigiu-se o gaúcho à árvore que divisara e, não obstante a fraqueza de seu tronco, felizmente bastante alto, pôde trepar à sua copa e manter-se em contínua oscilação, meio oculto entre a ramagem. Dali pôde observar a cena que se passava no caminho: o tigre marchava a passo precipitado, farejando o chão e bramindo com mais frequência à medida que sentia a proximidade da presa. Passa adiante do ponto em que aquele se separara do caminho e perde o rastro; o tigre se enfurece, remoinha, até que divisa a sela, que rasga de uma patada, espalhando no ar seus apetrechos. Mais irritado ainda com esse engano, volta a buscar o rastro, encontra por fim a direção em que vai e, erguendo a vista, divisa sua presa fazendo, com o peso, balançar o pequeno algarrobo como a frágil cana quando as aves pousam em suas pontas.

Desde então o tigre já não bramiu; aproximava-se aos saltos e, num abrir e fechar de olhos, suas poderosas patas estavam apoiadas a duas varas do chão sobre o delgado tronco, ao qual comunicavam um tremor convulsivo que ia atuar sobre os nervos do gaúcho mal seguro. A fera tentou um salto impotente; deu voltas em torno da árvore medindo-lhe a altura com os olhos avermelhados pela sede de sangue e, por fim, bramindo de cólera, deitou-se no chão, batendo sem cessar a cauda, os olhos fixos em sua presa, a boca entreaberta e ressequida. Essa cena horrível durava já duas horas mortais; a postura violenta do gaúcho e a fascinação aterradora que sobre ele exercia o olhar sanguinário, imóvel, do tigre, do qual por uma força invencível de atração não podia apartar os olhos, haviam começado a enfraquecer-lhe as forças, e ele já via próximo o momento em que seu corpo extenuado cairia naquela boca larga, quando o rumor longínquo do galope de cavalos lhe deu esperança de salvação.

Com efeito, seus amigos haviam visto o rastro do tigre e corriam sem esperança de salvá-lo. O espalhamento da sela revelou-lhes o lugar da cena, e voar até ele, desenrolar seus laços, lançá-los sobre o tigre, encurralado e cego de furor, foi obra de um segundo. A fera, estirada por dois laços, não pôde escapar às repetidas punhaladas com que, em vingança de sua prolongada agonia, a traspassou aquele que ia ser sua vítima. “Então soube o que era ter medo”, dizia o general dom Juan Facundo Quiroga, contando a um grupo de oficiais esse acontecimento.

Também a ele chamaram Tigre dos Llanos, e essa denominação, por fé, não lhe assentava mal. A frenologia ou a anatomia comparada demonstraram, com efeito, as relações que existem nas formas exteriores e nas disposições morais entre a fisionomia do homem e a de alguns animais a que ele se assemelha em seu caráter. Facundo, pois assim o chamaram por muito tempo os povos do interior — o general dom Facundo Quiroga, o excelentíssimo brigadeiro-general dom Juan Facundo Quiroga, tudo isso veio depois, quando a sociedade o recebeu em seu seio e a vitória o coroou de louros —, Facundo, pois, era de baixa estatura e fornido; suas largas espáduas sustentavam, sobre um pescoço curto, uma cabeça bem formada, coberta de cabelo espessíssimo, negro e encaracolado. Seu rosto pouco ovalado estava afundado no meio de uma floresta de pelos, à qual correspondia uma barba igualmente espessa, igualmente crespa e negra, que subia até as maçãs do rosto, bastante pronunciadas para revelar uma vontade firme e tenaz.

Seus olhos negros, cheios de fogo e sombreados por sobrancelhas cerradas, causavam uma sensação involuntária de terror naqueles sobre os quais alguma vez chegavam a fixar-se, porque Facundo nunca olhava de frente e, por hábito, por arte, por desejo de fazer-se sempre temível, tinha ordinariamente a cabeça inclinada e olhava por entre as sobrancelhas, como o Ali-Paxá de Montvoisin. O Caim que representa a famosa Companhia Ravel desperta-me a imagem de Quiroga, retiradas as posições artísticas da estatuária que não lhe convêm. De resto, sua fisionomia era regular, e o pálido moreno de sua tez assentava bem às sombras espessas em que ficava encerrada.

A estrutura de sua cabeça revelava, no entanto, sob essa cobertura selvática, a organização privilegiada dos homens nascidos para mandar. Quiroga possuía essas qualidades naturais que fizeram do estudante de Brienne o gênio da França e do mameluco obscuro que se batia com os franceses nas Pirâmides o vice-rei do Egito. A sociedade em que nascem dá a esses caracteres a maneira especial de manifestar-se; sublimes, clássicos, por assim dizer, vão à frente da humanidade civilizada em algumas partes; terríveis, sanguinários e malvados, são em outras sua mancha, seu opróbrio.

Facundo Quiroga foi filho de um sanjuanino de humilde condição, mas que, estabelecido nos Llanos de La Rioja, adquirira no pastoreio uma fortuna regular. No ano de 1799, Facundo foi enviado à pátria de seu pai para receber a educação limitada que se podia adquirir nas escolas: ler e escrever. Quando um homem chega a ocupar as cem trombetas da fama com o ruído de seus feitos, a curiosidade ou o espírito de investigação vão até rastrear a insignificante vida da criança, para atá-la à biografia do herói, e não poucas vezes, entre fábulas inventadas pela adulação, já se encontram nela, em germe, os traços característicos do personagem histórico.

Conta-se de Alcibíades que, brincando na rua, estendia-se ao longo do pavimento para contrariar um cocheiro que o advertia a sair do caminho a fim de não atropelá-lo; de Napoleão, que dominava seus condiscípulos e se entrincheirava em seu quarto de estudante para resistir a uma afronta. De Facundo referem-se hoje várias anedotas, muitas das quais o revelam por inteiro.

Na casa de seus hóspedes jamais se conseguiu sentá-lo à mesa comum; na escola era altivo, arisco e solitário; não se misturava com as demais crianças senão para encabeçar atos de rebelião e para enchê-las de pancadas. O magister, cansado de lutar com esse caráter indomável, provê-se certa vez de um chicote novo e duro e, mostrando-o às crianças aterradas, “este é”, diz-lhes, “para estreá-lo em Facundo”. Facundo, com onze anos de idade, ouve essa ameaça e no dia seguinte a põe à prova. Não sabe a lição, mas pede ao mestre que a tome pessoalmente, porque o bedel lhe quer mal. O mestre condescende; Facundo comete um erro, comete dois, três, quatro; então o mestre faz uso do chicote, e Facundo, que tudo calculou, até a fragilidade da cadeira em que seu mestre está sentado, dá-lhe uma bofetada, derruba-o de costas e, em meio ao alvoroço que essa cena suscita, toma a rua e vai esconder-se em certos parreirais de uma vinha, de onde só o tiram depois de três dias. Não é já o caudilho que mais tarde desafiará a sociedade inteira?

Quando chega à puberdade, seu caráter toma um matiz mais pronunciado. Cada vez mais sombrio, mais imperioso, mais selvático, a paixão do jogo, a paixão das almas rudes que necessitam de fortes abalos para sair do torpor que as adormecera, domina-o irresistivelmente aos quinze anos de idade. Por ela faz uma reputação na cidade; por ela se torna intolerável na casa em que é hospedado; por ela, enfim, derrama, com um tiro dado em um Jorge Peña, o primeiro regato de sangue que devia entrar na larga torrente que deixou marcado seu caminho pela terra.

Desde que chega à idade adulta, o fio de sua vida se perde num intrincado labirinto de idas e vindas pelos diversos povos vizinhos; oculto às vezes, perseguido sempre, jogando, trabalhando como peão, dominando tudo que dele se aproxima e distribuindo punhaladas. Em San Juan mostram-se hoje, na esquina dos Godoyes, paredes de taipa pisadas por Quiroga. Em La Rioja, há-as de sua mão em Fiambalá. Ele mostrava outras em Mendoza, no mesmo lugar em que certa tarde fazia trazer de suas casas vinte e seis oficiais dos que capitularam em Chacón para mandá-los fuzilar, em expiação dos manes de Villafañe; na campanha de Buenos Aires também mostrava alguns momentos de sua vida de peão errante. Que causas fazem esse homem, criado numa casa decente, filho de um homem acomodado e virtuoso, descer à condição de ganhão e nela escolher o trabalho mais estúpido, mais brutal, em que só entram a força física e a tenacidade? Será que o taipeiro ganha soldo dobrado e se apressa a juntar algum dinheiro?

O mais ordenado que pude recolher dessa vida obscura e errante é o seguinte: por volta do ano de 1806, veio ao Chile com um carregamento de cochonilha por conta de seus pais. Jogou-o com a tropa e os tropeiros, que eram escravos de sua casa. Costumava levar a San Juan e Mendoza rebanhos de gado da estância paterna, que tinham sempre a mesma sorte; porque em Facundo o jogo era uma paixão feroz, ardente, que lhe ressecava as entranhas. Essas aquisições e perdas sucessivas devem ter cansado as larguezas paternas, pois afinal interrompeu toda relação amigável com sua família. Quando já era o terror da República, perguntou-lhe um de seus cortesãos: “Qual é, general, a maior parada que fez em sua vida?” “Sessenta pesos”, respondeu Quiroga com indiferença; acabara de ganhar, no entanto, uma de duzentas onças. Era, como explicou depois, que em sua juventude, não tendo senão sessenta pesos, os perdera todos juntos numa sota.

Mas esse fato tem sua história característica. Trabalhava como peão em Mendoza na fazenda de uma senhora, situada no Plumerillo. Facundo fazia-se notar havia um ano por sua pontualidade em sair ao trabalho e pela influência e predomínio que exercia sobre os demais peões. Quando estes queriam faltar para dedicar o dia a uma bebedeira, entendiam-se com Facundo, que avisava a senhora, prometendo responder pela assistência de todos no dia seguinte, a qual era sempre pontual. Por essa intercessão, os peões o chamavam de o pai.

Facundo, ao fim de um ano de trabalho assíduo, pediu seu salário, que ascendia a sessenta pesos; montou em seu cavalo sem saber para onde ia, viu gente numa venda, apeou-se e, alongando a mão sobre o grupo que rodeava o banqueiro, pôs seus sessenta pesos numa carta; perdeu-os e montou de novo, marchando sem direção fixa, até que, pouco depois, um juiz Toledo, que por acaso passava então, deteve-o para pedir-lhe sua papeleta de conchavo.

Facundo aproximou o cavalo em gesto de entregá-la, fingiu procurar algo no bolso e deixou o juiz estendido com uma punhalada. Vingava-se no juiz da recente perda? Queria apenas saciar o rancor de gaúcho mau contra a autoridade civil e acrescentar esse novo feito ao brilho de sua nascente fama? Uma coisa e outra. Essas vinganças sobre o primeiro objeto que se apresentava são frequentes em sua vida. Quando já se intitulava general e tinha coronéis sob suas ordens, fazia dar em sua casa, em San Juan, duzentos açoites em um deles por lhe ter ganhado mal, dizia; em um jovem, duzentos açoites, por se ter permitido uma pilhéria em momentos em que ele não estava para pilhérias; em uma mulher em Mendoza, que lhe dissera à passagem “adeus, meu general”, quando ele ia enfurecido porque não conseguira intimidar um vizinho tão pacífico, tão sensato quanto valente e gaúcho, duzentos açoites.

Facundo reaparece depois em Buenos Aires, onde em 1810 é alistado como recruta no regimento de Arribeños, comandado pelo general Ocampo, seu conterrâneo, depois presidente de Charcas. A carreira gloriosa das armas abria-se para ele com os primeiros raios do sol de Maio; e não há dúvida de que, com a têmpera de alma de que era dotado, com seus instintos de destruição e carnificina, Facundo, moralizado pela disciplina e enobrecido pela sublimidade do objeto da luta, teria voltado um dia do Peru, do Chile ou da Bolívia como um dos generais da República Argentina, como tantos outros valentes gaúchos que principiaram sua carreira no humilde posto de soldado. Mas a alma rebelde de Quiroga não podia sofrer o jugo da disciplina, a ordem do quartel, nem a demora das promoções. Sentia-se chamado a mandar, a surgir de um golpe, a criar ele só, a despeito da sociedade civilizada, em hostilidade com ela, uma carreira à sua maneira, associando valor e crime, governo e desorganização. Mais tarde foi recrutado para o Exército dos Andes e alistado nos Granadeiros a cavalo; um tenente García tomou-o por assistente, e bem depressa a deserção deixou um vazio naquelas gloriosas fileiras. Depois, Quiroga, como Rosas, como todas essas víboras que medraram à sombra dos louros da pátria, fez-se notar por seu ódio aos militares da independência, entre os quais um e outro fizeram horrível matança.

Facundo, desertando de Buenos Aires, encaminha-se às províncias com três companheiros. Uma partida o alcança; ele faz frente, trava uma verdadeira batalha, que permanece indecisa por algum tempo, até que, dando morte a quatro ou cinco, pode continuar seu caminho, abrindo passagem ainda a punhaladas entre outras partidas que até San Luis lhe saem ao encontro. Mais tarde deveria percorrer esse mesmo caminho com um punhado de homens, dissolver exércitos em vez de partidas e ir até a famosa Cidadela de Tucumán apagar os últimos restos da República e da ordem civil.

Facundo reaparece nos Llanos, na casa paterna. A essa época se refere um acontecimento muito acreditado e de que ninguém duvida. No entanto, em um dos manuscritos que consulto, interrogado seu autor sobre esse mesmo fato, responde: “Que não sabe que Quiroga tenha tentado jamais arrancar dinheiro de seus pais pela força”; e contra a tradição constante, contra o assentimento geral, quero ater-me a esse dado contraditório. O contrário é horrível! Conta-se que, tendo seu pai se negado a dar-lhe uma soma de dinheiro que pedia, ele espreitou o momento em que pai e mãe dormiam a sesta para pôr ferrolho na peça onde estavam e atear fogo ao teto de palha com que são geralmente cobertas as habitações dos Llanos[25].

Mas o que está averiguado é que seu pai pediu certa vez ao Governo de La Rioja que o prendessem para conter seus desmandos, e que Facundo, antes de fugir dos Llanos, foi à cidade de La Rioja, onde então se encontrava aquele, e caindo de improviso sobre ele, deu-lhe uma bofetada, dizendo: “O senhor mandou me prender? Tome, mande me prender agora!”, com o que montou em seu cavalo e partiu a galope para o campo. Passado um ano, apresenta-se de novo na casa paterna, lança-se aos pés do ancião ultrajado, ambos confundem seus soluços, e entre os protestos de emenda do filho e as recriminações do pai, a paz fica restabelecida, ainda que sobre base tão frágil e efêmera.

Mas seu caráter e seus hábitos desordenados não mudam, e as corridas, o jogo, as correrias do campo são o teatro de novas violências, de novas punhaladas e agressões, até chegar, enfim, a tornar-se intolerável para todos e insegura sua posição. Então um grande pensamento vem apoderar-se de seu espírito, e ele o anuncia sem pejo. O desertor dos Arribeños, o soldado dos Granadeiros a cavalo, que não quis imortalizar-se em Chacabuco e em Maipú, resolve ir reunir-se à montonera de Ramírez, rebento da de Artigas, e cuja celebridade em crimes e em ódio às cidades a que faz guerra chegou até os Llanos e tem cheios de espanto os governos. Facundo parte para associar-se àqueles flibusteiros da Pampa, e talvez a consciência que deixa de seu caráter e instintos, e da importância do reforço que vai dar àqueles destruidores, alarme seus conterrâneos, que instruem as autoridades de San Luis, por onde deveria passar, sobre o desígnio infernal que o guia. Dupuy, governador então, 1818, manda prendê-lo, e por algum tempo ele permanece confundido entre os criminosos vulgares que as prisões encerram. Essa prisão de San Luis, contudo, devia ser o primeiro degrau que haveria de conduzi-lo à altura a que mais tarde chegou. San Martín fizera conduzir a San Luis um grande número de oficiais espanhóis de todas as graduações, dos que haviam sido feitos prisioneiros no Chile. Seja hostigados por humilhações e sofrimentos, seja porque previssem a possibilidade de reunir-se de novo aos exércitos espanhóis, o depósito de prisioneiros sublevou-se um dia e abriu a porta dos calabouços aos réus ordinários, a fim de que lhe prestassem ajuda para a evasão comum. Facundo era um desses réus; mal se viu desembaraçado das prisões, quando, erguendo o macho dos grilhões, abre o crânio ao próprio espanhol que lhos havia retirado, fende o grupo dos amotinados e deixa uma larga rua semeada de cadáveres no espaço que quis percorrer. Diz-se que a arma de que usou foi uma baioneta e que os mortos não passaram de três; Quiroga, contudo, falava sempre do macho dos grilhões e de catorze mortos.

Talvez seja esta uma dessas idealizações com que a imaginação poética do povo embeleza os tipos da força brutal que tanto admira; talvez a história dos grilhões seja uma tradução argentina da queixada de Sansão, o Hércules hebreu; mas Facundo a aceitava como um título de glória, segundo seu belo ideal, e, macho de grilhões ou baioneta, ele, associando-se a outros soldados e presos a quem seu exemplo animou, conseguiu sufocar o levante e reconciliar-se por esse ato de valor com a sociedade e pôr-se sob a proteção da pátria, conseguindo que seu nome voasse por toda parte enobrecido e lavado, ainda que com sangue, das manchas que o desfiguravam. Facundo, coberto de glória, merecendo bem da pátria e com uma credencial que atesta sua conduta, volta a La Rioja e ostenta nos Llanos, entre os gaúchos, os novos títulos que justificam o terror que já começa a inspirar seu nome, porque há algo de imponente, algo que subjuga e domina no assassino premiado de catorze homens de uma só vez.

Aqui termina a vida privada de Quiroga, da qual omiti uma longa série de fatos que apenas pintam o mau caráter, a má educação e os instintos ferozes e sanguinários de que era dotado. Fiz uso apenas daqueles que explicam o caráter da luta, daqueles que entram, em proporções distintas, mas formados de elementos análogos, no tipo dos caudilhos das campanhas que conseguiram, enfim, sufocar a civilização das cidades, e que ultimamente vieram completar-se em Rosas, o legislador dessa civilização tártara, que ostentou toda a sua antipatia à civilização europeia em torpezas e atrocidades ainda sem nome na história.

Mas ainda me resta algo a notar no caráter e espírito desta coluna da Federação. Um homem letrado, companheiro de infância e juventude de Quiroga, que me forneceu muitos dos fatos que deixo referidos, inclui em seu manuscrito, falando dos primeiros anos de Quiroga, estes dados curiosos: “que não era ladrão antes de figurar como homem público; que nunca roubou, mesmo em suas maiores necessidades; que não só gostava de brigar, mas pagava para fazê-lo e para insultar o mais valente; que tinha muita aversão aos homens decentes; que não costumava tomar licor nunca; que, jovem, era muito reservado, e não apenas queria infundir medo, mas aterrorizar, para o que fazia entender a homens de sua confiança que tinha agoureiros ou era adivinho; que, com os que tinha relação, tratava-os como escravos; que jamais se confessou, rezou ou ouviu missa; que quando esteve como general o viu certa vez na missa; que ele próprio lhe dizia que não acreditava em nada”. A candura com que essas palavras estão escritas revela sua verdade.

Toda a vida pública de Quiroga me parece resumida nesses dados. Vejo neles o grande homem, o homem de gênio a seu pesar, sem sabê-lo, o César, o Tamerlão, o Maomé. Nasceu assim, e não é culpa sua; rebaixar-se-á nas escalas sociais para mandar, para dominar, para combater o poder da cidade, a partida da polícia. Se lhe oferecem uma praça nos exércitos, a desdenhará, porque não tem paciência para aguardar as promoções, porque há muita sujeição, muitos entraves postos à independência individual, há generais que pesam sobre ele, há uma casaca que oprime o corpo e uma tática que regula os passos; tudo isso é insuportável! A vida a cavalo, a vida de perigos e emoções fortes, acerou seu espírito e endureceu seu coração; tem ódio invencível, instintivo, contra as leis que o perseguiram, contra os juízes que o condenaram, contra toda essa sociedade e essa organização de que se subtraiu desde a infância e que o olha com prevenção e menosprezo. Aqui se encadeia insensivelmente o lema deste capítulo: “É o homem da natureza que ainda não aprendeu a conter ou a disfarçar suas paixões, que as mostra em toda a sua energia, entregando-se a toda a sua impetuosidade.” Esse é o caráter do gênero humano, e assim se mostra nas campanhas pastoris da República Argentina. Facundo é um tipo da barbárie primitiva; não conheceu sujeição de nenhum gênero; sua cólera era a das feras; a juba de seus cabelos enegrecidos e encaracolados caía sobre sua fronte e seus olhos em guedelhas, como as serpentes da cabeça de Medusa; sua voz enrouquecia e seus olhares se convertiam em punhaladas.

Dominado pela cólera, matava a pontapés, fazendo rebentar os miolos de N por uma disputa de jogo; arrancava ambas as orelhas de sua querida porque ela lhe pedira uma vez 30 pesos para celebrar um casamento consentido por ele; abria a cabeça de seu filho Juan com um golpe de machado porque não havia meio de fazê-lo calar; dava bofetadas, em Tucumán, numa linda senhorita que nem seduzir nem forçar podia. Em todos os seus atos mostrava-se ainda o homem fera, sem por isso ser estúpido e sem carecer de elevação de vistas. Incapaz de fazer-se admirar ou estimar, gostava de ser temido; mas esse gosto era exclusivo, dominante, a ponto de ajustar todas as ações de sua vida para produzir terror em torno de si, sobre os povos como sobre os soldados, sobre a vítima que ia ser executada como sobre sua mulher e seus filhos. Na incapacidade de manejar as molas do governo civil, punha o terror como expediente para suprir o patriotismo e a abnegação; ignorante, rodeando-se de mistérios e fazendo-se impenetrável, valendo-se de uma sagacidade natural, de uma capacidade de observação incomum e da credulidade do vulgo, fingia uma presciência dos acontecimentos que lhe dava prestígio e reputação entre as gentes vulgares.

É inesgotável o repertório de anedotas de que está cheia a memória dos povos a respeito de Quiroga; seus ditos, seus expedientes, têm um selo de originalidade que lhe dava certos visos orientais, certa tintura de sabedoria salomônica no conceito da plebe. Que diferença há, com efeito, entre aquele famoso expediente de mandar partir em dois a criança disputada, a fim de descobrir a verdadeira mãe, e este outro para encontrar um ladrão? Entre os indivíduos que formavam uma companhia, havia-se roubado um objeto, e todas as diligências praticadas para descobrir o raptor haviam sido infrutíferas. Quiroga forma a tropa, manda cortar tantas varetas de igual tamanho quantos soldados havia, faz em seguida que sejam distribuídas a cada um e depois, com voz segura, diz: “Aquele cuja vareta amanhecer amanhã maior que as demais, esse é o ladrão.” No dia seguinte, forma-se de novo a tropa, e Quiroga procede à verificação e comparação das varetas. Há, contudo, um soldado cuja vara aparece mais curta que as outras. “Miserável!”, grita-lhe Facundo com voz aterradora, “tu és!...” E, com efeito, ele era; sua perturbação o deixava conhecer demasiado. O expediente é simples: o crédulo gaúcho, temendo que, efetivamente, sua vareta crescesse, cortara-lhe um pedaço. Mas é necessária certa superioridade e certo conhecimento da natureza humana para valer-se desses meios.

Haviam sido roubadas algumas peças da sela de um soldado, e todas as pesquisas haviam sido inúteis para descobrir o raptor. Facundo manda formar a tropa e fazê-la desfilar diante dele, que está de braços cruzados, o olhar fixo, perscrutador, terrível. Antes dissera: “Eu sei quem é”, com uma segurança que nada desmente. Começam a desfilar, desfilam muitos, e Quiroga permanece imóvel; é a estátua de Júpiter Tonante, é a imagem do Deus do Juízo Final. De repente, precipita-se sobre um, agarra-o pelo braço e lhe diz com voz breve e seca: “Onde está a sela?” “Ali, senhor”, responde, apontando para um bosquezinho. “Quatro atiradores!”, grita então Quiroga. Que revelação era essa? A do terror e a do crime feita diante de um homem sagaz. Estava outra vez um gaúcho respondendo às acusações que lhe faziam por um roubo; Facundo o interrompe dizendo: “Este patife já está mentindo; vamos... cem açoites!” Quando o réu saiu, Quiroga disse a alguém que se achava presente: “Veja, patrão; quando um gaúcho, ao falar, estiver fazendo marcas com o pé, é sinal de que está mentindo.” Com os açoites, o gaúcho contou a história como devia ser, isto é, que roubara uma junta de bois.

Precisava outra vez e havia pedido um homem resoluto, audaz, para confiar-lhe uma missão perigosa. Quiroga escrevia quando lhe trouxeram o homem; levanta o rosto depois de lho anunciarem várias vezes, olha-o e diz, continuando a escrever: “Ora!... Esse é um miserável! Pedi um homem valente e arrojado!” Averiguou-se, com efeito, que era um paspalho.

Desses fatos há às centenas na vida de Facundo, e, ao mesmo tempo que descobrem um homem superior, serviram eficazmente para lavrar-lhe uma reputação misteriosa entre homens grosseiros, que chegavam a atribuir-lhe poderes sobrenaturais.

CAPÍTULO II

LA RIOJA.—O COMANDANTE DE CAMPANHA

Os flancos das montanhas se alargam
e assumem um aspecto ao mesmo
tempo mais grandioso e mais árido.
Pouco a pouco, a vegetação escassa
languesce e morre; e os musgos
desaparecem, e sucede-lhes um
tom vermelho ardente.

Roussel. Palestina.

Num documento tão antigo quanto o ano de 1560, vi consignado o nome de Mendoza com este aditamento: Mendoza, do vale de La Rioja. Mas a La Rioja atual é uma província argentina que fica ao norte de San Juan, da qual a separam várias travessias, ainda que interrompidas por vales povoados. Dos Andes desprendem-se ramificações que cortam a parte ocidental em linhas paralelas, em cujos vales estão Los Pueblos e Chilecito, assim chamado pelos mineiros chilenos que acorreram à fama das ricas minas de Famatina. Mais para o oriente estende-se uma planície arenosa, deserta e ressequida pelos ardores do sol, em cuja extremidade norte, e nas imediações de uma montanha coberta até o cume de vegetação viçosa e alta, jaz o esqueleto de La Rioja, cidade solitária, sem arrabaldes e murcha como Jerusalém ao pé do Monte das Oliveiras. Ao sul e a longa distância, limitam essa planície arenosa os Colorados, montes de greda petrificada, cujos cortes regulares assumem as formas mais pitorescas e fantásticas; às vezes é uma muralha lisa com bastiões avançados, às vezes crê-se ver torreões e castelos ameados em ruínas. Por fim, ao sudeste e rodeados de extensas travessias, estão os Llanos, país quebrado e montanhoso, a despeito de seu nome, oásis de vegetação pastosa que alimentou outrora milhares de rebanhos.

O aspecto do país é, em geral, desolado; o clima, abrasador; a terra, seca e sem águas correntes. O camponês faz represas para recolher a água das chuvas e dar de beber a seus gados. Tive sempre a impressão de que o aspecto da Palestina se parece com o de La Rioja, até na cor avermelhada ou ocre da terra, na secura de algumas partes e em suas cisternas; até em suas laranjeiras, videiras e figueiras, de frutos requintados e volumosos, que se criam onde corre algum lodoso e limitado Jordão; há uma estranha combinação de montanhas e planícies, de fertilidade e aridez, de montes adustos e eriçados e colinas verde-negras atapetadas de vegetação tão colossal como os cedros do Líbano. O que mais me traz à imaginação essas reminiscências orientais é o aspecto verdadeiramente patriarcal dos camponeses de La Rioja. Hoje, graças aos caprichos da moda, não causa novidade ver homens com a barba inteira, à maneira imemorial dos povos do Oriente; mas ainda assim não deixaria de surpreender a vista de um povo que fala espanhol e usa, e sempre usou, a barba completa, muitas vezes caindo até o peito; um povo de aspecto triste, taciturno, grave e dissimulado, árabe, que cavalga em burros e veste às vezes couros de cabra, como o eremita de Enggady. Há lugares em que a população se alimenta exclusivamente de mel silvestre e de algarroba, como de gafanhotos São João no deserto. O llanista é o único que ignora ser o ente mais desgraçado, mais miserável e mais bárbaro, e graças a isso vive contente e feliz quando a fome não o acossa.

Disse no princípio que havia montanhas avermelhadas que tinham, ao longe, o aspecto de torreões e castelos feudais arruinados; pois, para que as lembranças da Idade Média venham misturar-se àqueles matizes orientais, La Rioja apresentou por mais de um século a luta de duas famílias hostis, senhoriais, ilustres, nem mais nem menos que nos feudos italianos em que figuram os Ursinos, os Colonnas e os Médicis. As querelas dos Ocampos e Dávilas formam toda a história culta de La Rioja. Ambas as famílias, antigas, ricas, tituladas, disputam o poder por longo tempo, dividem a população em bandos, como os guelfos e gibelinos, muito antes ainda da revolução da independência. Dessas duas famílias saiu uma multidão de homens notáveis nas armas, no foro e na indústria, porque Dávilas e Ocampos trataram sempre de sobrepor-se por todos os meios de valor que a civilização consagrou. Apagar esses rancores hereditários entrou não poucas vezes na política dos patriotas de Buenos Aires. A Loja Lautaro levou as duas famílias a enlaçar um Ocampo com uma senhorita Doria y Dávila, para reconciliá-las.

Todos sabem que essa era a prática na Itália. Romeu e Julieta foram aqui mais felizes. Por volta dos anos de 1817, o Governo de Buenos Aires, a fim de pôr termo também aos feudos daquelas casas, mandou um governador de fora da província, um senhor Barnachea, que não tardou muito a cair sob a influência do partido dos Dávilas, que contavam com o apoio de dom Prudencio Quiroga, residente nos Llanos e muito querido dos habitantes, e que por causa disso foi chamado à cidade e feito tesoureiro e alcaide. Note-se que, embora de modo legítimo e nobre, com dom Prudencio Quiroga, pai de Facundo, a campanha pastoril entra já nos partidos civis a figurar como elemento político. Os Llanos, como já disse, são um oásis montanhoso de pastos, encravado no centro de uma extensa travessia; seus habitantes, exclusivamente pastores, vivem a vida patriarcal e primitiva que aquele isolamento conserva em toda a sua pureza bárbara e hostil às cidades. A hospitalidade é ali um dever comum, e entre os deveres do peão entra o de defender seu patrão em qualquer perigo ou risco de vida. Esses costumes já explicarão um pouco os fenômenos que vamos presenciar.

Depois do acontecimento de San Luis, Facundo apresentou-se nos Llanos revestido do prestígio da recente façanha e munido de uma recomendação do Governo. Os partidos que dividiam La Rioja não tardaram muito a solicitar a adesão de um homem que todos olhavam com o respeito e assombro que inspiram sempre as ações arrojadas. Os Ocampos, que obtiveram o governo em 1820, deram-lhe o título de sargento-mor das milícias dos Llanos, com a influência e autoridade de comandante de campanha.

Desde esse momento principia a vida pública de Facundo. O elemento pastoril, bárbaro, daquela província; aquela terceira entidade que aparece no cerco de Montevidéu com Artigas, vai apresentar-se em La Rioja com Quiroga, chamado em apoio por um dos partidos da cidade. Este é um momento solene e crítico na história de todos os povos pastores da República Argentina; há em todos eles um dia em que, por necessidade de apoio exterior, ou pelo temor que já inspira um homem audaz, ele é eleito comandante de campanha. É este o cavalo dos gregos que os troianos se apressam a introduzir na cidade.

Por esse tempo ocorria em San Juan a desgraçada sublevação do número 1 dos Andes, que havia voltado do Chile para recompor-se. Frustrados nos objetivos do motim, Francisco Aldao e Corro empreenderam uma retirada desastrosa para o norte, para reunir-se a Güemes, caudilho de Salta. O general Ocampo, governador de La Rioja, dispõe-se a fechar-lhes o passo e, para isso, convoca todas as forças da província e se prepara para dar uma batalha. Facundo apresenta-se com seus llanistas. As forças vêm às mãos, e poucos minutos bastaram ao número 1 para mostrar que com a rebelião nada perdera de seu antigo brilho nos campos de batalha. Corro e Aldao dirigiram-se à cidade, e os dispersos trataram de recompor-se, dirigindo-se para os Llanos, onde podiam aguardar as forças que vinham de San Juan e Mendoza em perseguição dos fugitivos. Facundo, entretanto, abandona o ponto de reunião, cai sobre a retaguarda dos vencedores, alveja-os, importuna-os, mata ou faz prisioneiros os retardatários. Facundo é o único dotado de vida própria, que não espera ordens, que age por seu proprio motu. Sentiu-se chamado à ação, e não espera que o empurrem. Mais ainda: fala com desdém do Governo e do general e anuncia sua disposição de agir, daí em diante, segundo seu parecer e de derrubar o Governo. Diz-se que um conselho dos principais do exército instava o general Ocampo a prendê-lo, julgá-lo e fuzilá-lo; mas o general não consentiu, menos talvez por moderação que por sentir que Quiroga já era, não tanto um súdito, quanto um aliado temível.

Um acordo definitivo entre Aldao e o Governo deixou combinado que aquele se dirigiria a San Luis, por não querer seguir Corro, provendo-lhe o Governo de meios até sair do território por um itinerário que passava pelos Llanos. Facundo foi encarregado da execução dessa parte do estipulado, e regressou aos Llanos com Aldao. Quiroga já leva a consciência de sua força e, ao voltar as costas a La Rioja, poderia ter-lhe dito em despedida: “Ai de ti, cidade! Em verdade vos digo que dentro de pouco não ficará pedra sobre pedra.”

Aldao, chegado aos Llanos e conhecido o descontentamento de Quiroga, oferece-lhe cem homens de linha para apoderar-se de La Rioja, em troca de se aliarem para futuras empresas. Quiroga aceita com ardor, encaminha-se à cidade, toma-a, prende os indivíduos do Governo, manda-lhes confessores e ordem de se prepararem para morrer. Que objeto tem para ele essa revolução? Nenhum; sentiu-se com forças, esticou os braços e derrotou a cidade. É culpa sua?

Os antigos patriotas chilenos não esqueceram, sem dúvida, as proezas do sargento Araya, dos granadeiros a cavalo, porque entre aqueles veteranos a auréola da glória costumava descer até o simples soldado. Contava-me o presbítero Meneses, que foi cura de Los Andes, que, depois da derrota de Cancha Rayada, o sargento Araya ia encaminhando-se a Mendoza com sete granadeiros.

Ia-se a alma aos patriotas ao ver afastarem-se e repassarem os Andes os soldados mais valentes do exército, enquanto Las Heras ainda tinha um terço sob suas ordens, disposto a fazer frente aos espanhóis. Tratava-se de deter o sargento Araya; mas uma dificuldade ocorria. Quem se aproximaria dele? Uma partida de 60 homens de milícias estava à mão; mas todos os soldados sabiam que o prófugo era o sargento Araya, e teriam preferido mil vezes atacar os espanhóis a atacar esse leão dos granadeiros; dom José María Meneses então se adianta sozinho e desarmado, alcança Araya, corta-lhe o passo, censura-o, recorda-lhe suas glórias passadas e a vergonha de uma fuga sem motivo; Araya deixa-se comover e não opõe resistência às súplicas e ordens de um bom paisano; entusiasma-se em seguida e corre a deter outros grupos de granadeiros que o precediam na fuga, e, graças à sua diligência e reputação, volta a incorporar-se ao exército com 60 companheiros de armas, que em Maipú se lavaram da mancha momentânea que caíra sobre seus louros.

Esse sargento Araya e um Lorca, também valente conhecido no Chile, comandavam a força que Aldao pusera sob as ordens de Facundo. Os réus de La Rioja, entre os quais se achava o doutor dom Gabriel Ocampo, ex-ministro do Governo, solicitaram a proteção de Lorca para que intercedesse por eles. Facundo, ainda não seguro de sua momentânea elevação, consentiu em lhes conceder a vida; mas essa restrição posta a seu poder fê-lo sentir outra necessidade. Era preciso possuir essa força veterana para não encontrar contradições no futuro. De volta aos Llanos, entende-se com Araya e, pondo-se de acordo, caem sobre o resto da força de Aldao, surpreendem-na, e Facundo se encontra em seguida chefe de 400 homens de linha, de cujas fileiras saíram depois os oficiais de seus primeiros exércitos.

Facundo lembrou-se de que dom Nicolás Dávila estava em Tucumán, expatriado, e mandou chamá-lo para encarregar-lhe as moléstias do governo de La Rioja, reservando para si apenas o poder real que o seguia aos Llanos. O abismo que mediava entre ele e os Ocampos e Dávilas era tão largo, tão brusca a transição, que não era possível então fazê-la de um golpe; o espírito de cidade ainda era poderoso demais para sobrepor-lhe a campanha; ainda um doutor em leis valia mais para o governo que um peão qualquer. Depois, tudo isso mudou.

Dávila tomou conta do governo sob o patrocínio de Facundo, e por então pareceu afastado todo motivo de sobressalto. As fazendas e propriedades dos Dávilas estavam situadas nas imediações de Chilecito, e ali, portanto, em seus parentes e amigos, achava-se reconcentrada a força física e moral que devia apoiá-lo no governo. Tendo-se, além disso, acrescido a população de Chilecito com a proveitosa exploração das minas, e reunido cabedais vultosos, o governo estabeleceu uma casa da moeda provincial e transferiu sua residência para aquele pequeno povoado, fosse para levar a cabo a empresa, fosse para afastar-se dos Llanos e subtrair-se à sujeição incômoda que Quiroga queria exercer sobre ele. Dávila não tardou muito em passar dessas medidas puramente defensivas a uma atitude mais decidida e, aproveitando a ausência temporária de Facundo, que andava em San Juan, concertou-se com o capitão Araya para que o prendessem à sua chegada. Facundo teve aviso das medidas que contra ele se preparavam e, introduzindo-se secretamente nos Llanos, mandou assassinar Araya.

O governo, cuja autoridade era contestada de maneira tão indigna, intimou Facundo a apresentar-se para responder às acusações que se lhe faziam sobre o assassinato. Paródia ridícula! Não restava outro meio senão apelar às armas e acender a guerra civil entre o governo e Quiroga, entre a cidade e os Llanos. Facundo mandou, por sua vez, uma comissão à Junta de Representantes, pedindo-lhe que depusesse Dávila. A Junta havia chamado o governador com insistência para que, dali e com o apoio de todos os cidadãos, invadisse os Llanos e desarmasse Quiroga. Havia nisso um interesse local, que era fazer com que a Casa da Moeda fosse transferida para a cidade de La Rioja; mas, como Dávila persistisse em residir em Chilecito, a Junta, acedendo à solicitação de Quiroga, declarou-o deposto. O governador Dávila havia reunido, sob as ordens de dom Miguel Dávila, muitos soldados dos de Aldao; possuía bom armamento, muitos adeptos que queriam salvar a província do domínio do caudilho que se levantava nos Llanos, e vários oficiais de linha para pôr à frente das forças. Os preparativos de guerra começaram, pois, com igual ardor em Chilecito e nos Llanos; e o rumor dos acontecimentos funestos que se preparavam chegou até San Juan e Mendoza, cujos governos mandaram um comissário para procurar um acordo entre os beligerantes, que já estavam a ponto de vir às mãos.

Corvalán, esse mesmo que hoje serve de ordenança a Rosas, apresentou-se ao campo de Quiroga para interpor a mediação de que vinha encarregado, e que foi aceita pelo caudilho; passou em seguida ao campo inimigo, onde obteve a mesma acolhida cordial. Regressa ao campo de Quiroga para ajustar o convênio definitivo; mas este, deixando-o ali, pôs-se em movimento sobre seu inimigo, cujas forças, desprevenidas pelas garantias dadas pelo enviado, foram facilmente derrotadas e dispersas. Dom Miguel Dávila, reunindo alguns dos seus, acometeu denodadamente Quiroga, a quem chegou a ferir numa coxa antes que uma bala lhe levasse o punho; em seguida foi rodeado e morto pelos soldados. Há nesse acontecimento uma coisa muito característica do espírito gaúcho. Um soldado se compraz em mostrar suas cicatrizes; o gaúcho as oculta e dissimula quando são de arma branca, porque provam sua pouca destreza, e Facundo, fiel a essas ideias de honra, jamais recordou a ferida que Dávila lhe abrira antes de morrer.

Aqui termina a história dos Ocampos e Dávilas, e também a de La Rioja. O que se segue é a história de Quiroga. Esse dia é também um dos nefastos das cidades pastoris, dia aziago que enfim chega. Esse dia corresponde, na história de Buenos Aires, ao de abril de 1835, quando seu comandante de campanha, seu herói do deserto, apodera-se da cidade.

Há uma circunstância curiosa, 1823, que não devo omitir porque honra Quiroga: nesta noite negra que vamos atravessar não deve perder-se a mais fraca luzinha. Facundo, ao entrar triunfante em La Rioja, fez cessar os repiques dos sinos e, depois de mandar dar os pêsames à viúva do general morto, ordenou pomposas exéquias para honrar suas cinzas. Nomeou ou fez nomear governador um espanhol vulgar, um Blanco, e com ele principiou a nova ordem de coisas que devia realizar o belo ideal de governo que havia concebido; porque Quiroga, em sua longa carreira, nos diversos povos que conquistou, jamais se encarregou do governo organizado, que abandonava sempre a outros. Momento grande e espetacular para os povos é sempre aquele em que uma mão vigorosa se apodera de seus destinos. As instituições se firmam ou cedem seu lugar a outras novas, mais fecundas em resultados ou mais conformes com as ideias que predominam. Daquele foco partem muitas vezes os fios que, entretecendo-se com o tempo, chegam a mudar a tela de que se compõe a história.

Não assim quando predomina uma força estranha à civilização, quando Átila se apodera de Roma ou Tamerlão percorre as planícies asiáticas; os escombros ficam, mas em vão iria depois removê-los a mão da filosofia para buscar sob eles as plantas vigorosas que nascessem do adubo nutritivo do sangue humano. Facundo, gênio bárbaro, apodera-se de seu país; as tradições de governo desaparecem, as formas se degradam, as leis são um brinquedo em mãos torpes; e em meio a essa destruição efetuada pelas pisadas dos cavalos, nada se substitui, nada se estabelece. O desafogo, a desocupação e a incúria são o bem supremo do gaúcho. Se La Rioja, assim como tinha doutores, tivesse estátuas, estas teriam servido para amarrar os cavalos.

Facundo desejava possuir e, incapaz de criar um sistema de rendas, recorre àquilo a que sempre recorrem os governos torpes e imbecis. Mas aqui o monopólio levará o selo da vida pastoril, a espoliação e a violência. Arrematavam-se os dízimos de La Rioja naquela época por dez mil pesos anuais; esse era, pelo menos, o termo médio. Facundo apresenta-se à mesa do leilão, e já sua assistência, até então inusitada, impõe respeito aos ofertantes. “Dou dois mil pesos”, diz, “e mais um sobre a melhor oferta.” O escrivão repete a proposta três vezes, e ninguém oferece melhora. É que todos os concorrentes haviam escorregado, um a um, ao ler no olhar sinistro de Quiroga que aquela era a última oferta. No ano seguinte contentou-se em mandar ao leilão uma cédula assim concebida: “Dou dois mil pesos, e mais um, sobre a melhor oferta.—Facundo Quiroga.”

No terceiro ano suprimiu-se a cerimônia do leilão, e no ano de 1831 Quiroga ainda mandava a La Rioja dois mil pesos, valor fixado para os dízimos.

Mas faltava dar um passo para fazer o dízimo render cem por um, e Facundo, desde o segundo ano, não quis receber o de animais, mas distribuiu sua marca a todos os fazendeiros, a fim de que ferrassem o dízimo, e que as estâncias o guardassem até que ele o reclamasse. As crias aumentavam, os novos dízimos acresciam o rebanho, e ao fim de dez anos pôde-se calcular que metade do gado das estâncias de uma província pastoril pertencia ao comandante-geral de armas e levava sua marca.

Um costume imemorial em La Rioja fazia com que os gados sem dono, ou não marcados a certa idade, pertencessem de direito ao fisco, que mandava seus agentes recolher essas espigas perdidas e tirava da coleta uma renda nada desprezível, embora ela se tornasse intolerável para os estancieiros. Facundo pediu que se lhe adjudicasse esse gado em ressarcimento dos gastos que lhe demandara a invasão da cidade; gastos que se reduziam a convocar as milícias, que acorrem em seus cavalos e vivem sempre do que encontram. Possuidor já de partidas de seis mil novilhos por ano, mandava às cidades seus abastecedores, e desgraçado daquele que entrasse a competir com ele! Esse negócio de abastecer os mercados de carne ele praticou onde quer que suas armas se apresentassem, em San Juan, Mendoza, Tucumán, cuidando sempre de monopolizá-lo em seu favor por algum bando ou simples anúncio. Dá asco e vergonha, sem dúvida, ter de descer a esses pormenores indignos de serem recordados. Mas que fazer? Em seguida a uma batalha sangrenta que lhe abriu a entrada numa cidade, a primeira coisa que o general ordena é que ninguém possa abastecer de carne o mercado... Em Tucumán soube que um vizinho, contrariando a ordem, matava reses em sua casa. O general do Exército dos Andes, o vencedor da Cidadela, não julgou dever confiar a ninguém a investigação de delito tão horrendo. Vai ele em pessoa, dá golpes fortes à porta da casa, que permanecia fechada e que, atônitos os de dentro, não acertam abrir. Um pontapé do ilustre general a põe abaixo e expõe à sua vista esta cena: uma rês morta que o dono da casa esfolava, o qual, por sua vez, também cai morto à vista terrífica do general ofendido[26].

Não me detenho nesses pormenores de propósito. Quantas páginas omito! Quantas iniquidades comprovadas e de todos sabidas calo! Mas faço a história do governo bárbaro e preciso dar a conhecer suas molas. Mehemet-Ali, senhor do Egito pelos mesmos meios que Facundo, entrega-se a uma rapacidade sem exemplo mesmo na Turquia; constitui o monopólio em todos os ramos e os explora em seu benefício; mas Mehemet-Ali sai do seio de uma nação bárbara e se eleva até desejar a civilização europeia e enxertá-la nas veias do povo que oprime. Facundo, contudo, rejeita todos os meios civilizados que já são conhecidos, destrói-os e desmoraliza-os; Facundo, que não governa, porque o governo já é um trabalho em benefício alheio, abandona-se aos instintos de uma avareza sem medidas, sem escrúpulos.

O egoísmo é o fundo de quase todos os grandes caracteres históricos; o egoísmo é a mola real que faz executar todas as grandes ações; Quiroga possuía esse dom político em grau eminente e o exercitava em reconcentrar em torno de si tudo o que via disseminado na sociedade inculta que o rodeava; fortuna, poder, autoridade, tudo está com ele; tudo o que não pode adquirir — modos, instrução, respeitabilidade fundada — isso ele persegue, destrói nas pessoas que o possuem. Seu rancor contra a gente decente, contra a cidade, torna-se a cada dia mais visível; o governador de La Rioja posto por ele renuncia afinal à força de ser diariamente vexado. Um dia, Quiroga está de bom humor e brinca com um jovem, como o gato brinca com o tímido rato: joga a se o mata ou não o mata; o terror da vítima foi tão ridículo, que o verdugo ficou de bom humor, riu às gargalhadas, contra seu costume habitual.

Seu bom humor não deve ficar ignorado: precisa expandir-se, estendê-lo sobre uma grande superfície. Soa a generala em La Rioja, e os cidadãos saem às ruas armados ao rumor do alarme. Facundo, que mandou tocar a generala para divertir-se, forma os vizinhos na praça às onze da noite, despede das fileiras a plebe e deixa apenas os vizinhos pais de família acomodados, os jovens que ainda conservam visos de cultura.

Fá-los marchar e contramarchar a noite inteira, fazer alto, alinhar-se, marchar de frente, de flanco. É um cabo de instrução que ensina alguns recrutas, e a vara do cabo anda pela cabeça dos torpes, pelo peito dos que não se alinham bem; que querem? Assim se ensina! O dia sobrevém, e os semblantes pálidos dos recrutas, sua fadiga e extenuação revelam tudo o que se aprendeu durante a noite. Por fim dá descanso à sua tropa e leva a generosidade até comprar empanadas e distribuir a cada um a sua, que se apressam a comer, porque isso faz parte da diversão.

Lições desse gênero não são inúteis para as cidades, e o hábil político que em Buenos Aires elevou a sistema esses procedimentos os refinou e fez produzir efeitos maravilhosos. Por exemplo, de 1835 a 1840, quase toda a cidade de Buenos Aires passou pelas prisões. Havia às vezes cento e cinquenta cidadãos que permaneciam presos dois, três meses, para ceder seu lugar a uma reposição de duzentos que permaneciam seis meses. Por quê? Que tinham feito?... Que tinham dito? Imbecis: não vedes que se está disciplinando a cidade?... Não recordais que Rosas dizia a Quiroga que não era possível constituir a República porque não havia costumes? É que está acostumando a cidade a ser governada; ele concluirá a obra, e em 1844 poderá apresentar ao mundo um povo que não tem senão um pensamento, uma opinião, uma voz, um entusiasmo sem limites pela pessoa e pela vontade de Rosas! Agora sim se pode constituir uma república!

Mas voltemos a La Rioja. Excitara-se na Inglaterra um movimento febril de empresa sobre as minas dos novos Estados americanos; companhias poderosas se propunham explorar as do México e do Peru, e Rivadavia, residente então em Londres, estimulou os empresários a trazer seus capitais à República Argentina. As minas de Famatina se apresentavam às grandes empresas. Especuladores de Buenos Aires obtêm ao mesmo tempo privilégios exclusivos para a exploração, com o desígnio de vendê-los às companhias inglesas por somas enormes. Essas duas especulações, a da Inglaterra e a de Buenos Aires, cruzaram-se em seus planos e não puderam entender-se. Por fim houve transação com outra casa inglesa que deveria fornecer fundos, e que, com efeito, mandou diretores e mineiros ingleses. Mais tarde especulou-se em estabelecer uma Casa da Moeda em La Rioja, que, quando o Governo nacional se organizasse, deveria ser-lhe vendida por grande soma. Facundo, solicitado, entrou com grande número de ações, que pagou com o Colégio dos Jesuítas, que se fez adjudicar em pagamento de seus soldos de general. Uma comissão de acionistas de Buenos Aires veio a La Rioja para realizar essa empresa e desde logo manifestou seu desejo de ser apresentada a Quiroga, cujo nome misterioso e terrorífico começava a ressoar por toda parte. Facundo apresenta-se a ela em seu alojamento com meia de seda de patente, calção de jergão e um poncho de pano ruim. Não obstante o grotesco dessa figura, a nenhum dos cidadãos elegantes de Buenos Aires ocorreu rir-se, porque eram demasiado avisados para não decifrar o enigma. Queria humilhar os homens cultos e mostrar-lhes o caso que fazia de seus trajes europeus.

Por fim, direitos exorbitantes sobre a extração de gados que não fossem seus completaram o sistema de administração estabelecido em sua província. Mas, além desses meios diretos de fortuna, há um que me apresso a expor, para desembaraçar-me de uma vez de um fato que abraça toda a vida pública de Facundo. O jogo! Facundo tinha a raiva do jogo, como outros a dos licores, como outros a do rapé. Uma alma poderosa, mas incapaz de abarcar uma grande esfera de ideias, necessitava dessa ocupação fictícia em que uma paixão está em contínuo exercício, contrariada e lisonjeada ao mesmo tempo, irritada, excitada, atormentada. Sempre acreditei que a paixão do jogo é, na maioria dos casos, uma boa qualidade de espírito que permanece ociosa pela má organização de uma sociedade. Essas forças de vontade, de temeridade, de abnegação e de constância são as mesmas que formam as fortunas do comerciante empreendedor, do banqueiro e do conquistador que joga impérios nas batalhas. Facundo jogou desde a infância; o jogo foi seu único gozo, seu desafogo, sua vida inteira. Mas sabeis o que é um banqueiro que tem em fundos o poder, o terror e a vida de seus companheiros de mesa?

Esta é uma coisa de que ninguém pôde formar ideia senão depois de tê-lo visto durante vinte anos. Facundo jogava sem lealdade, dizem seus inimigos... Não dou fé a essa acusação, porque a má-fé lhe era inútil e porque perseguia de morte os que a usavam.

Mas Facundo jogava com fundos ilimitados; jamais permitiu que ninguém levantasse da mesa o dinheiro com que jogava; não era possível deixar de jogar sem que ele o dispusesse; ele jogava quarenta horas, e mais, consecutivas; ele não estava perturbado pelo terror, e ele podia mandar açoitar ou fuzilar seus companheiros de carpeta, que muitas vezes eram homens comprometidos. Eis o segredo da boa fortuna de Quiroga. São raros os que lhe ganharam somas consideráveis, embora sejam muitos os que, em dados momentos de uma partida de jogo, tiveram diante de si pirâmides de onças ganhas a Quiroga; o jogo continuou, porque ao ganhador não era permitido levantar-se, e no fim restou-lhe apenas a glória de contar que já tinha ganhado tanto e o perdeu em seguida.

O jogo foi, pois, para Quiroga, uma diversão favorita e um sistema de espoliação. Ninguém recebia dinheiro dele em La Rioja, ninguém o possuía sem ser imediatamente convidado a jogar e a deixá-lo em poder do caudilho. A maior parte dos comerciantes de La Rioja quebra, desaparece, porque o dinheiro foi parar na bolsa do general, e não é que ele não lhes dê lições de prudência. Um jovem ganhara de Facundo quatro mil pesos, e Facundo não quer jogar mais. O jovem crê que é uma rede que lhe estendem, que sua vida está em perigo. Facundo repete que não joga mais; insiste o jovem aturdido, e Facundo, condescendendo, ganha-lhe os quatro mil pesos e manda dar-lhe duzentos açoites, por bárbaro.

Fatigo-me de ler infâmias, concordes em todos os manuscritos que consulto. Sacrifico a relação delas à vaidade de autor, à pretensão literária. Se digo mais, os quadros me saem carregados, ignóbeis, repulsivos.

Até aqui chega a vida do comandante de campanha, depois que aboliu a cidade, que a suprimiu. Facundo até aqui é como todos os demais, como Rosas em sua estância, embora nem o jogo nem a satisfação brutal de todas as paixões o tivessem desonrado tanto antes de chegar ao Poder. Mas Facundo vai entrar numa nova esfera, e em breve teremos de segui-lo por toda a República, de ir buscá-lo nos campos de batalha.

Que consequências trouxe para a província de La Rioja a destruição da ordem civil? Sobre isso não se raciocina, não se discorre. Vai-se ver o teatro em que esses acontecimentos se desenvolveram, e estende-se a vista sobre ele: aí está a resposta. Os Llanos de La Rioja estão hoje desertos; a população emigrou para San Juan; as cisternas que davam de beber a milhares de rebanhos secaram. Nesses Llanos, onde há vinte anos pastavam tantos milhares de ruminantes, vagueia tranquilo o tigre, que reconquistou seus domínios; algumas famílias de mendigos recolhem algarroba para se manter. Assim pagaram os Llanos os males que estenderam sobre a República. “Ai de ti, Betsaida e Corazim! Em verdade vos digo que Sodoma e Gomorra foram tratadas melhor do que vós deveis ser.”

CAPÍTULO III

SOCIABILIDADE.—CÓRDOBA.—BUENOS AIRES.

A sociedade da Idade Média era
composta dos destroços de mil outras
sociedades. Todas as formas de
liberdade e servidão se reencontravam:
a liberdade monárquica do rei, a
liberdade individual do sacerdote, a liberdade
privilegiada das cidades, a liberdade
representativa da nação, a escravidão
romana, a servidão bárbara,
a servidão do estrangeiro.

Chateaubriand.

Facundo possui La Rioja como árbitro e senhor absoluto; não há mais voz que a sua, mais interesse que o seu. Como não há letras, não há opiniões, e como não há opiniões diversas, La Rioja é uma máquina de guerra que irá aonde a levarem. Até aqui, contudo, Facundo nada fez de novo; era o mesmo que haviam feito o doutor Francia, Ibarra, López e Bustos; o que haviam tentado Güemes e Araoz no Norte: destruir todo o direito para fazer valer o próprio. Mas um mundo de ideias, de interesses contraditórios, agitava-se fora de La Rioja, e o rumor longínquo das discussões da imprensa e dos partidos chegava até sua residência nos Llanos. Por outro lado, ele não pudera elevar-se sem que o ruído que fazia no edifício da civilização que destruía fosse ouvido à distância e os povos vizinhos fixassem nele seus olhares. Seu nome ultrapassara os limites de La Rioja; Rivadavia o convidava a contribuir para a organização da República; Bustos e López, a opor-se a ela; o Governo de San Juan se prezava de contá-lo entre seus amigos, e homens desconhecidos vinham aos Llanos saudá-lo e pedir-lhe apoio para sustentar este ou aquele partido. A República Argentina apresentava naquela época um quadro animado e interessante. Todos os interesses, todas as ideias, todas as paixões tinham marcado encontro para agitar-se e fazer ruído. Aqui, um caudilho que não queria nada com o resto da República; ali, um povo que nada mais pedia senão sair de seu isolamento; acolá, um Governo que transportava a Europa para a América; mais além, outro que odiava até o nome de civilização; em algumas partes se reabilitava o Santo Tribunal da Inquisição; em outras se declarava a liberdade de consciência como o primeiro dos direitos do homem; uns gritavam federação, outros governo central. Cada uma dessas diversas fases tinha interesses e paixões fortes, invencíveis em seu apoio. Preciso esclarecer um pouco este caos para mostrar o papel que coube a Quiroga desempenhar e a grande obra que devia realizar. Para pintar o comandante de campanha que se apodera da cidade e afinal a aniquila, precisei descrever o solo argentino, os hábitos que engendra, os caracteres que desenvolve. Agora, para mostrar Quiroga saindo já de sua província e proclamando um princípio, uma ideia, e levando-a por toda parte na ponta das lanças, preciso também traçar a carta geográfica das ideias e dos interesses que se agitavam nas cidades. Para esse fim, preciso examinar duas cidades, em cada uma das quais predominavam as ideias opostas: Córdoba e Buenos Aires, tais como existiam até 1825.

Córdoba era, não direi a cidade mais faceira da América, porque sua gravidade espanhola se ofenderia com isso, mas sim uma das cidades mais bonitas do continente. Situada numa depressão formada por um terreno elevado, chamado Los Altos, viu-se forçada a recolher-se sobre si mesma, a estreitar e reunir seus regulares edifícios de tijolo. O céu é puríssimo, o inverno seco e tônico, o verão ardente e tempestuoso. Para o oriente tem um belíssimo passeio de formas caprichosas, de efeito visual mágico. Consiste num tanque de água enquadrado por uma vereda espaçosa, sombreada por salgueiros anosos e colossais. Cada lado tem uma quadra de comprimento, encerrado sob uma grade de ferro de quatro varas de altura, com enormes portas nos quatro lados, de modo que o passeio é uma prisão encantada em que se dão voltas sempre em torno de um vistoso coreto de arquitetura grega, imóvel no centro do lago fingido. Na praça principal está a magnífica catedral de ordem romana, com sua enorme cúpula recortada em arabescos, único modelo que eu saiba haver na América do Sul da arquitetura da Idade Média. A uma quadra está o templo e convento da Companhia de Jesus, em cujo presbitério há uma portinhola que dá entrada a subterrâneos que se estendem por debaixo da cidade e vão parar não se sabe ainda onde; também se encontraram os calabouços em que a Sociedade sepultava vivos seus réus. Se quereis, pois, conhecer monumentos da Idade Média e examinar o poder e as formas daquela célebre ordem, ide a Córdoba, onde esteve um de seus grandes estabelecimentos centrais da América.

Em cada quadra da sucinta cidade há um soberbo convento, um mosteiro ou uma casa de beatas ou de exercícios. Cada família tinha então um clérigo, um frade, uma freira ou um corista; os pobres contentavam-se em poder contar entre os seus um belermita, um motilão, um sacristão ou um monaguinho.

Cada convento ou mosteiro tinha uma rancheria contígua, em que se reproduziam oitocentos escravos da ordem, negros, zambos, mulatos e mulatinhas de olhos azuis, loiras, viçosas, de pernas brunidas como mármore; verdadeiras circassianas dotadas de todas as graças, com mais de uma dentadura de origem africana, que servia de isca às paixões humanas, tudo para maior honra e proveito do convento a que essas huris pertenciam.

Andando um pouco na visita que fazemos, encontra-se a célebre Universidade de Córdoba, fundada nada menos que no ano de 1613, e em cujos claustros sombrios passaram a juventude oito gerações de doutores em ambos os direitos, ergotistas insignes, comentadores e casuístas. Ouçamos o célebre deão Funes descrever o ensino e o espírito dessa famosa Universidade, que proveu durante dois séculos de teólogos e doutores grande parte da América: “O curso teológico durava cinco anos e meio... A Teologia participava da corrupção dos estudos filosóficos. Aplicada a filosofia de Aristóteles à Teologia, formava uma mistura de profano e espiritual. Raciocínios puramente humanos, sutilezas, sofismas enganosos, questões frívolas e impertinentes, foi isso que veio a formar o gosto dominante dessas escolas.” Se quereis penetrar um pouco mais no espírito de liberdade que essa instrução daria, ouvi ainda o deão Funes: “Esta Universidade nasceu e se criou exclusivamente nas mãos dos jesuítas, que a estabeleceram em seu colégio chamado Máximo, da cidade de Córdoba.” Advogados muito distintos saíram dali, mas literatos, nenhum que não tenha ido refazer sua educação em Buenos Aires e com os livros europeus.

Essa cidade douta não teve até hoje teatro público, não conheceu a ópera, ainda não tem jornais, e a imprensa é uma indústria que não pôde ali enraizar-se. O espírito de Córdoba até 1829 é monacal e escolástico; a conversa dos salões gira sempre em torno das procissões, das festas dos santos, dos exames universitários, profissão de freiras, recepção das borlas de doutor.

Até onde isso pode influir no espírito de um povo ocupado por dois séculos com essas ideias, não se pode dizer; mas algo deve influir, porque já o vedes: o habitante de Córdoba estende os olhos em torno de si e não vê o espaço; o horizonte está a quatro quadras da praça; sai às tardes para passear e, em vez de ir e vir por uma rua de álamos, espaçosa e longa como a alameda de Santiago, que alarga o ânimo e o vivifica, dá voltas em torno de um lago artificial de água sem movimento, sem vida, em cujo centro está um coreto de formas majestosas, mas imóvel, estacionário. A cidade é um claustro encerrado entre barrancas; o passeio é um claustro com grades de ferro; cada quarteirão tem um claustro de freiras ou frades; a Universidade é um claustro em que todos usam batina ou mantelete; a legislação que se ensina, a Teologia, toda a ciência escolástica da Idade Média, é um claustro em que a inteligência se encerra e se entrincheira contra tudo que saia do texto e do comentário. Córdoba não sabe que existe na terra outra coisa além de Córdoba; ouviu, é verdade, dizer que Buenos Aires fica por aí; mas se acredita, o que nem sempre acontece, pergunta: “Tem Universidade? Mas será de ontem. Vejamos: quantos conventos tem? Tem passeio como este? Então isso não é nada...”

“Por que autor estudam vocês legislação lá?”, perguntava o grave doutor Jigena a um jovem de Buenos Aires. “Por Bentham.” “Por quem o senhor diz? Por Benthanzinho?”, apontando com o dedo o tamanho do volume em duodécimo em que anda a edição de Bentham. “Ha, ha, ha!... Por Benthanzinho! Num escrito meu há mais doutrina que nesses alfarrábios. Que Universidade e que doutorecos!” “E os senhores, por quem ensinam?” “Oh, pelo cardeal de Luca!...” “Que diz o senhor?...” “Dezessete volumes em fólio!...”

É verdade que o viajante que se aproxima de Córdoba procura e não encontra no horizonte a cidade santa, a cidade mística, a cidade com capelo e borlas de doutor. Por fim o arrieiro lhe diz: “Veja ali... embaixo..., entre os pastos...” E, com efeito: fixando a vista no chão, a curta distância, vêem-se assomar uma, duas, três, dez cruzes seguidas de cúpulas e torres dos muitos templos que decoram essa Pompeia da Espanha da Idade Média.

De resto, o povo da cidade, composto de artesãos, participa do espírito das classes altas; o mestre sapateiro dava ares de doutor em sapataria e vos endereçava um texto latino ao tomar-vos gravemente a medida; o ergo andava pelas cozinhas, na boca dos mendigos e loucos da cidade, e toda disputa entre ganhadores de pão tomava o tom e a forma das conclusões. Acrescente-se que, durante toda a revolução, Córdoba foi o asilo dos espanhóis maltratados em todas as demais partes. Estavam ali como em casa. Que mossa faria a revolução de 1810 num povo educado pelos jesuítas e enclausurado pela natureza, pela educação e pela arte? Que ponto de apoio encontrariam as ideias revolucionárias, filhas de Rousseau, Mably, Raynal e Voltaire, se por acaso atravessavam a pampa para descer à catacumba espanhola, naquelas cabeças disciplinadas pelo peripatético para fazer frente a toda ideia nova, naquelas inteligências que, como seu passeio, tinham uma ideia imóvel no centro, rodeada por um lago de águas mortas, que impedia penetrar até elas?

Por volta dos anos de 1816, o ilustrado e liberal deão Funes conseguiu introduzir naquela antiga Universidade os estudos até então tão desprezados: Matemática, idiomas vivos, Direito público, Física, Desenho e Música. A juventude cordobesa começou desde então a encaminhar suas ideias por novas vias, e não tardou muito a sentir-se os efeitos, de que trataremos em outra parte, porque por ora apenas caracterizo o espírito maduro, tradicional, que era o que predominava.

A revolução de 1810 encontrou em Córdoba um ouvido fechado, ao mesmo tempo que todas as províncias respondiam a uma só voz: “Às armas! À liberdade!” Em Córdoba começou Liniers a levantar exércitos para que fossem a Buenos Aires justiçar a revolução; a Córdoba mandou a Junta um dos seus e suas tropas para decapitar a Espanha. Córdoba, enfim, ofendida pelo ultraje e esperando vingança e reparação, escreveu com a mão douta da Universidade, e no idioma do breviário e dos comentadores, aquele célebre anagrama que indicava ao passageiro o túmulo dos primeiros realistas sacrificados nos altares da pátria:

Já o vedes. Córdoba protesta e clama ao céu contra a revolução de 1810!

Em 1820, um exército se subleva em Arequito, e seu chefe, cordobês, abandona o pavilhão da pátria e se estabelece pacificamente em Córdoba, que não tomou parte na revolução e se compraz em lhe ter arrebatado um exército. Bustos cria um Governo espanhol, sem responsabilidade; introduz a etiqueta de corte, o quietismo secular da Espanha, e assim preparada chega Córdoba ao ano 25, quando se trata de organizar a República e constituir a revolução e suas consequências.

Examinemos agora Buenos Aires. Durante muito tempo luta com os indígenas que a varrem da face da terra; volta a levantar-se, cai em seguida, até que por volta dos anos de 1620 se ergue já no mapa dos domínios espanhóis o bastante para elevá-la a capitania-geral, separando-a da do Paraguai, à qual até então estava submetida. Em 1777, Buenos Aires já era muito visível. Tanto, que foi necessário refazer a geografia administrativa das colônias para pô-la à frente de um vice-reinado criado expressamente para ela.

Em 1806, o olho especulador da Inglaterra percorre o mapa americano e só vê Buenos Aires, seu rio, seu futuro. Em 1810, Buenos Aires pulula de revolucionários avezados em todas as doutrinas antiespanholas, francesas, europeias. Que movimento de ascensão vinha operando-se na ribeira ocidental do Rio da Prata? A Espanha colonizadora não era nem comerciante nem navegante; o Rio da Prata era para ela pouca coisa; a Espanha oficial olhou com desdém uma praia e um rio. Com o andar do tempo, o rio havia deposto seu sedimento de riquezas sobre essa praia, mas muito pouco do espírito espanhol, do Governo espanhol. A atividade do comércio trouxera o espírito e as ideias gerais da Europa; os navios que frequentavam suas águas traziam livros de todas as partes e notícia de todos os acontecimentos políticos do mundo. Note-se que a Espanha não tinha outra cidade comerciante no Atlântico.

A guerra com os ingleses acelerou o movimento dos ânimos rumo à emancipação e despertou o sentimento da própria importância. Buenos Aires é uma criança que vence um gigante, envaidece-se, crê-se um herói e se aventura a coisas maiores. Levada por esse sentimento da própria suficiência, inicia a revolução com uma audácia sem exemplo, leva-a por toda parte, crê-se encarregada pelo Alto da realização de uma grande obra. O Contrato Social voa de mão em mão; Mably e Raynal são os oráculos da imprensa; Robespierre e a Convenção, os modelos. Buenos Aires se crê uma continuação da Europa e, se não confessa francamente que é francesa e norte-americana em seu espírito e tendências, nega sua origem espanhola, porque o Governo espanhol, diz, a recolheu depois de adulta. Com a revolução vêm os exércitos e a glória, os triunfos e os reveses, as revoltas e as sedições.

Mas Buenos Aires, em meio a todos esses vaivéns, mostra a força revolucionária de que é dotada. Bolívar é tudo; Venezuela é o pedestal daquela figura colossal; Buenos Aires é uma cidade inteira de revolucionários; Belgrano, Rondeau, San Martín, Alvear e os cem generais que comandam seus exércitos são seus instrumentos, seus braços, não sua cabeça nem seu corpo. Na República Argentina não se pode dizer o general tal libertou o país, mas sim a junta, o diretório, o congresso, o Governo de tal ou tal época mandou o general tal fazer tal coisa etc. O contato com os europeus de todas as nações é maior ainda, desde os princípios, que em qualquer outra parte do continente hispano-americano; a desespanholização e a europeização se efetuam em dez anos de modo radical, só em Buenos Aires, entenda-se.

Basta tomar uma lista de vizinhos de Buenos Aires para ver como abundam, entre os filhos do país, os sobrenomes ingleses, franceses, alemães e italianos. No ano de 1820 começa-se a organizar a sociedade segundo as novas ideias de que está impregnada, e o movimento continua até que Rivadavia se põe à frente do Governo. Até esse momento, Rodríguez e Las Heras vinham lançando os alicerces ordinários dos governos livres. Lei do esquecimento, segurança individual, respeito à propriedade, responsabilidade da autoridade, equilíbrio dos poderes, educação pública; tudo, enfim, se cimenta e constitui pacificamente. Rivadavia vem à Europa, traz a Europa consigo; mais ainda, despreza a Europa; Buenos Aires, e naturalmente, diziam, a República Argentina, realizará o que a França republicana não pôde, o que a aristocracia inglesa não quer, o que a Europa despotizada sente falta. Isso não era uma ilusão de Rivadavia, era o pensamento geral da cidade, era seu espírito e sua tendência.

O mais ou o menos nas pretensões dividia os partidos, mas não ideias antagônicas no fundo. E que outra coisa haveria de suceder num povo que, em apenas catorze anos, havia escarmentado a Inglaterra, corrido metade do continente, equipado dez exércitos, dado cem batalhas campais, vencido em toda parte, misturado-se em todos os acontecimentos, violado todas as tradições, ensaiado todas as teorias, aventurado tudo e saído bem em tudo, que vivia, enriquecia, civilizava-se? Que haveria de suceder quando as teorias de governo, a fé política que a Europa lhe dera, estavam infestadas de erros, de teorias absurdas e enganosas, de maus princípios, porque seus políticos não tinham obrigação de saber mais que os grandes homens da Europa, que até então nada sabiam em matéria de organização política? Este é um fato grave que quero fazer notar. Hoje, os estudos sobre as constituições, as raças, as crenças, a história, enfim, tornaram vulgares certos conhecimentos práticos que nos instruem contra o brilho das teorias concebidas à priori; mas antes de 1820 nada disso havia transpirado pelo mundo europeu.

Com os paradoxos do Contrato Social sublevou-se a França; Buenos Aires fez o mesmo; Voltaire havia desacreditado o cristianismo, desacreditou-se também em Buenos Aires; Montesquieu distinguiu três poderes, e logo três poderes tivemos nós; Benjamin Constant e Bentham anulavam o executivo, nulo de nascimento o constituíram ali; Smith e Say pregavam o comércio livre, livre comércio se repetiu. Buenos Aires confessava e acreditava em tudo o que o mundo sábio da Europa acreditava e confessava. Só depois da revolução de 1830 na França, e de seus resultados incompletos, as ciências sociais tomam nova direção e começam a dissipar-se as ilusões.

Desde então começam a chegar-nos livros europeus que nos demonstram que Voltaire não tinha muita razão, que Rousseau era um sofista, que Mably e Raynal eram uns anárquicos, que não há três poderes, nem contrato social etc., etc. Desde então sabemos algo de raças, de tendências, de hábitos nacionais, de antecedentes históricos. Tocqueville nos revela pela primeira vez o segredo da América do Norte; Sismondi nos descobre o vazio das constituições; Thierry, Michelet e Guizot, o espírito da história; a revolução de 1830, toda a decepção do constitucionalismo de Benjamin Constant; a revolução espanhola, tudo o que há de incompleto e atrasado em nossa raça. De que culpam, pois, Rivadavia e Buenos Aires? De não terem mais saber que os sábios europeus que os desencaminhavam? Por outro lado, como não abraçar com ardor as ideias gerais o povo que tanto e com tão bom sucesso contribuíra para generalizar a revolução? Como pôr rédea ao voo da fantasia do habitante de uma planície sem limites, de frente para um rio sem margem oposta, a um passo da Europa, sem consciência de suas próprias tradições, sem tê-las na realidade, povo novo, improvisado, e que desde o berço se ouve saudar povo grande?

Ao grande povo argentino, saúde!

Porque essas palavras que nossa canção nacional recorda e com as quais fomos embalados desde o berço não as inventou a vaidade do autor, tomou-as de Pradt e da imprensa da Europa, das gazetas e comunicações oficiais dos demais Estados americanos. Todos o chamavam grande, todos haviam conspirado para impulsioná-lo às grandes coisas.

Assim educada, mimada até então pela fortuna, Buenos Aires entregou-se à obra de constituir a si mesma e a República como se entregara à de libertar a si mesma e a América: com decisão, sem meios-termos, sem contemporização com os obstáculos. Rivadavia era a encarnação viva desse espírito poético, grandioso, que dominava a sociedade inteira. Rivadavia, pois, continuava a obra de Las Heras no molde amplo em que devia vazar-se um grande Estado americano, uma República. Trazia sábios europeus para a imprensa e as cátedras, colônias para os desertos, naves para os rios, interesses e liberdade para todas as crenças, crédito e Banco Nacional para impulsionar a indústria; todas as grandes teorias sociais da época para modelar seu governo; a Europa, enfim, para despejá-la de golpe na América e realizar em dez anos a obra que antes necessitaria do transcurso dos séculos. Era quimérico esse projeto? Protesto que não. Todas as suas criações subsistem, salvo as que a barbárie de Rosas achou incômodas para seus atentados.

A liberdade de cultos, que o alto clero de Buenos Aires apoiou, não foi restringida; a população europeia se dissemina pelas estâncias e toma as armas de seu motu proprio para romper com o único obstáculo que a priva das bênçãos que aquele solo lhe oferecera; os rios estão pedindo a gritos que se rompam as cataratas oficiais que os impedem de ser navegados, e o Banco Nacional é uma instituição tão profundamente arraigada que salvou a sociedade da miséria a que a teria conduzido o tirano.

Sobretudo, por mais fantástico e extemporâneo que fosse aquele grande sistema ao qual se encaminham e precipitam todos os povos americanos agora, era ao menos leve e tolerável para os povos; e por mais que os homens sem consciência o vociferem todos os dias, Rivadavia nunca derramou uma gota de sangue nem destruiu a propriedade de ninguém, e da presidência faustosa desceu voluntariamente à pobreza nobre e humilde do proscrito. Rosas, que tanto o calunia, afogar-se-ia no lago que poderia formar todo o sangue que derramou; e os 40 milhões de pesos fortes do Tesouro nacional e os 50 de fortunas particulares que consumiu em dez anos para sustentar a guerra formidável que suas brutalidades acenderam, nas mãos do fátuo, do iluso Rivadavia, teriam se convertido em canais de navegação, cidades edificadas e grandes e multiplicados estabelecimentos de utilidade pública.

Que fique, pois, a esse homem, já inútil para sua pátria, a glória de ter representado a civilização europeia em suas mais nobres aspirações, e que seus adversários cobrem a sua por mostrar a barbárie americana em suas formas mais odiosas e repugnantes; porque Rosas e Rivadavia são os dois extremos da República Argentina, que se liga aos selvagens pela pampa e à Europa pelo Prata.

Não é o elogio, mas a apoteose que faço de Rivadavia e seu partido, que morreram para a República Argentina como elemento político, não obstante Rosas se obstine, suspicazmente, em chamar unitários seus inimigos atuais. O antigo partido unitário, como o da Gironda, sucumbiu há muitos anos. Mas, em meio a seus desacertos e suas ilusões fantásticas, tinha tanto de nobre e grande, que a geração que lhe sucede lhe deve as mais pomposas honras fúnebres.

Muitos daqueles homens ainda ficam entre nós, mas não já como partido organizado; são as múmias da República Argentina, tão veneráveis e nobres como as do Império de Napoleão. Esses unitários do ano 25 formam um tipo separado, que sabemos distinguir pela figura, pelos modos, pelo tom da voz e pelas ideias. Parece-me que, entre cem argentinos reunidos, eu diria: este é unitário. O unitário típico marcha direito, cabeça erguida; não se volta, ainda que sinta desabar um edifício; fala com arrogância; completa a frase com gestos desdenhosos e ademanes concludentes; tem ideias fixas, invariáveis, e na véspera de uma batalha ainda se ocupará de discutir em toda a forma um regulamento ou de estabelecer uma nova formalidade legal, porque as fórmulas legais são o culto exterior que rende a seus ídolos: a Constituição, as garantias individuais.

Sua religião é o futuro da República, cuja imagem colossal, indefinível, mas grandiosa e sublime, lhe aparece a toda hora coberta com o manto das glórias passadas e não o deixa ocupar-se dos fatos que presencia. Estou seguro de que a alma de cada unitário degolado por Rosas abandonou o corpo desdenhando o verdugo que o assassina e até sem crer que a coisa tenha sucedido. É impossível imaginar uma geração mais raciocinadora, mais dedutiva, mais empreendedora e que tenha carecido em tão alto grau de senso prático. Chega a notícia de um triunfo de seus inimigos; todos a repetem, a parte oficial a detalha, os dispersos vêm feridos. Um unitário não acredita em tal triunfo e se funda em razões tão concludentes que vos faz duvidar daquilo que vossos olhos estão vendo. Tem tal fé na superioridade de sua causa, e tanta constância e abnegação para consagrar-lhe a vida, que o desterro, a pobreza nem o lapso dos anos esfriarão em um ápice seu ardor.

Quanto à têmpera de alma e energia, são infinitamente superiores à geração que lhes sucedeu. Sobretudo, o que mais os distingue de nós são seus modos finos, sua política cerimoniosa e seus gestos pomposamente cultos. Nos salões não têm rival, e, não obstante já estarem desmontados pela idade, são mais galantes, mais bulhentos e alegres com as damas do que seus filhos.

Hoje em dia, as formas se descuidam entre nós à medida que o movimento democrático se faz mais pronunciado, e não é fácil fazer ideia da cultura e refinamento da sociedade de Buenos Aires até 1828. Todos os europeus que arribavam acreditavam achar-se na Europa, nos salões de Paris; nada faltava, nem mesmo a petulância francesa, que se deixava notar então no elegante de Buenos Aires.

Detive-me nesses pormenores para caracterizar a época em que se tratava de constituir a República e os diversos elementos que se combatiam. Córdoba, espanhola por educação literária e religiosa, estacionária e hostil às inovações revolucionárias, e Buenos Aires, toda novidade, toda revolução e movimento, são as duas fases proeminentes dos partidos que dividiam todas as cidades, em cada uma das quais lutavam esses dois elementos diversos que há em todos os povos cultos.

Não sei se na América se apresenta um fenômeno igual a este; isto é, dois partidos, retrógrado e revolucionário, conservador e progressista, altamente representados cada um por uma cidade civilizada de modo diverso, alimentando-se cada uma de ideias extraídas de fontes distintas: Córdoba, da Espanha, dos Concílios, dos comentadores, do Digesto; Buenos Aires, de Bentham, Rousseau, Montesquieu e de toda a literatura francesa.

A esses elementos de antagonismo acrescentava-se outra causa não menos grave: tal era o afrouxamento de todo vínculo nacional, produzido pela revolução da Independência. Quando a autoridade é tirada de um centro para ser fundada em outra parte, passa muito tempo antes de lançar raízes. O Republicano dizia outro dia que “a autoridade não é mais que uma convenção entre governantes e governados”. Ainda há muitos unitários por aqui! A autoridade se funda no assentimento não deliberado que uma nação dá a um fato permanente. Onde há deliberação e vontade, não há autoridade. Aquele estado de transição chama-se federalismo; e depois de toda revolução e consequente mudança de autoridade, todas as nações têm seus dias e suas tentativas de federação.

Explicar-me-ei. Arrebatado da Espanha Fernando VII, a autoridade, aquele fato permanente, deixa de existir, e a Espanha se reúne em juntas provinciais que negam autoridade aos que governam em nome do rei. Isso é federação da Espanha. Chega a notícia à América, e ela se desprende da Espanha, separando-se em várias seções: federação da América.

Do vice-reinado de Buenos Aires saem, ao fim da luta, quatro Estados: Bolívia, Paraguai, Banda Oriental e República Argentina: federação do vice-reinado.

A República se divide em províncias, não pelas antigas intendências, mas por cidades: federação das cidades.

Não é que a palavra federação signifique separação, mas sim que, dada a separação prévia, exprime a união de partes distintas. A República Argentina achava-se nessa crise social, e muitos homens notáveis e bem-intencionados das cidades acreditavam que é possível fazer federações cada vez que um homem ou um povo se sente sem respeito por uma autoridade nominal e de puro convênio.

Assim, pois, havia essa outra maçã de discórdia na República, e os partidos, depois de se terem chamado realistas e patriotas, congressistas e executivistas, pelucones e liberais, acabaram por chamar-se federais e unitários. Minto, que a festa ainda não acabou: pois a dom Juan Manuel Rosas deu-se na veneta chamar seus inimigos presentes e futuros de selvagens, imundos unitários, e alguém nascerá selvagem estereotipado ali dentro de vinte anos, como são federais hoje todos os que levam a máscara que ele lhes pôs. Como esse miserável há de rir por dentro da imbecilidade dos povos!

Mas a República Argentina está geograficamente constituída de tal maneira que há de ser unitária sempre, embora o rótulo da garrafa diga o contrário. Sua planície contínua, seus rios confluentes a um porto único a fazem fatalmente una e indivisível. Rivadavia, mais conhecedor das necessidades do país, aconselhava os povos a se unirem sob uma Constituição comum, tornando nacional o porto de Buenos Aires. Agüero, seu eco no Congresso, dizia aos portenhos com seu acento magistral e unitário: “Demos voluntariamente aos povos aquilo que mais tarde nos reclamarão com as armas na mão.”

O prognóstico falhou por uma palavra. Os povos não reclamaram de Buenos Aires o porto com as armas, mas com a barbárie, que lhe mandaram em Facundo e Rosas. Mas Buenos Aires ficou com a barbárie e o porto, que só a Rosas serviu, e não às províncias. De modo que Buenos Aires e as províncias fizeram mal mutuamente, sem colher vantagem alguma.

Todos esses antecedentes precisei estabelecer para continuar com a vida de Juan Facundo Quiroga, porque, ainda que pareça ridículo dizê-lo, Facundo é o rival de Rivadavia. Todo o mais é transitório, intermediário e de pouca monta; o partido federal das cidades era um elo que se ligava ao partido bárbaro das campanhas. A República era solicitada por duas forças unitárias: uma que partia de Buenos Aires e se apoiava nos liberais do interior; outra que partia das campanhas e se apoiava nos caudilhos que já haviam conseguido dominar as cidades; uma, civilizada, constitucional, europeia; outra, bárbara, arbitrária, americana.

Essas duas forças haviam chegado ao seu ponto mais alto de desenvolvimento, e só uma palavra era necessária para travar a luta; e já que o partido revolucionário se chamava unitário, não havia inconveniente para que o partido adverso adotasse a denominação de federal, sem compreendê-la.

Mas aquela força bárbara estava disseminada por toda a República, dividida em províncias, em cacicados; era necessária uma mão poderosa para fundi-la e apresentá-la num todo homogêneo, e Quiroga ofereceu seu braço para realizar essa grande obra.

O gaúcho argentino, embora de instintos comuns aos pastores, é eminentemente provincial: há o portenho, o santafesino, o cordobês, o llanista etc. Todas as suas aspirações se encerram em sua província; as demais são inimigas ou estranhas; são diversas tribos que fazem guerra entre si. López, apoderado de Santa Fé, não se cura do que passa ao redor, salvo se vêm importuná-lo, pois então monta a cavalo e expulsa os intrusos. Mas como não estava em suas mãos que as províncias não se tocassem por toda parte, não podia tampouco evitar que ao fim se unissem num interesse comum, e daí lhes viesse essa mesma unidade que tanto se interessava em combater.

Recorde-se que no princípio eu disse que as correrias e viagens da juventude de Quiroga haviam sido a base de sua futura ambição. Efetivamente: Facundo, embora gaúcho, não tem apego a um lugar determinado; é riojano, mas se educou em San Juan, viveu em Mendoza, esteve em Buenos Aires. Conhece a República; seus olhares se estendem sobre um grande horizonte; senhor de La Rioja, gostaria naturalmente de apresentar-se revestido de poder no povo em que aprendeu a ler, na cidade onde levantou umas taipas, naquela outra em que esteve preso e fez uma ação gloriosa. Se os acontecimentos o atraem para fora de sua província, não resistirá a sair por acanhamento nem retraimento. Muito distinto de Ibarra e López, que só gostam de defender-se em seu território, ele acometerá o alheio e se apoderará dele. Assim a Providência realiza as grandes coisas por meios insignificantes e imperceptíveis, e a unidade bárbara da República vai iniciar-se porque um gaúcho mau andou de província em província levantando taipas e dando punhaladas.

Facundo

Sinopse

Marco da literatura e do pensamento político argentino, Facundo investiga a tensão entre civilização e barbárie a partir da figura de Juan Facundo Quiroga, das pampas, das cidades e das guerras civis do século XIX. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.

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