Universo da obra
Universo da obra
Os habitantes de Tucumán terminam seus dias em reuniões campestres, onde, à sombra de belas árvores, improvisam, ao som de uma guitarra rústica, cantos alternados do gênero daqueles que Virgílio e Teócrito embelezaram. Tudo, até os prenomes gregos, recorda ao viajante admirado a antiga Arcádia.
Malte-Brun.
A expedição partiu, e os sanjuaninos federais, bem como as mulheres e mães de unitários, respiraram enfim, como se despertassem de um pesadelo horrível. Facundo revelou nessa campanha um espírito de ordem e uma rapidez em suas marchas que mostravam quanto os desastres passados o haviam instruído. Em vinte e quatro dias atravessou com seu exército cerca de trezentas léguas de território; de modo que esteve a ponto de surpreender a pé alguns esquadrões do exército inimigo, que, diante da notícia inesperada de sua chegada próxima, o viu apresentar-se na Ciudadela, antigo acampamento dos exércitos da pátria sob as ordens de Belgrano. Seria inconcebível como se deixou vencer um exército como o que La Madrid comandava em Tucumán, com chefes tão valentes e soldados tão aguerridos, se causas morais e preocupações antiestratégicas não viessem dar a solução de tão estranho enigma.
O general La Madrid, chefe do exército, tinha entre seus subordinados o general López, espécie de caudilho de Tucumán, que lhe era pessoalmente desafeto; e, além de uma retirada desmoralizar as tropas, o general La Madrid não era o mais adequado para dominar o espírito dos chefes subalternos. O exército apresentava-se à batalha meio federalizado, meio montonerizado, enquanto o de Facundo trazia aquela unidade que dão o terror e a obediência a um caudilho que não é causa, mas pessoa, e que, portanto, afasta o livre-arbítrio e sufoca toda individualidade. Rosas triunfou de seus inimigos por essa unidade de ferro, que faz de todos os seus satélites instrumentos passivos, executores cegos de sua suprema vontade. Na véspera da batalha, o tenente-coronel Balmaceda pede ao general em chefe que lhe permita dar a primeira carga. Se assim se houvesse feito, já que era regra principiar as batalhas por cargas de cavalaria, e já que um subalterno tomava a liberdade de pedi-lo, a batalha teria sido ganha, porque o segundo dos Couraceiros jamais encontrou, nem no Brasil nem na República Argentina, quem resistisse a seu ímpeto. O general acedeu ao pedido do comandante do segundo; mas um coronel achou que lhe tiravam o melhor corpo; o general López, que se comprometiam no início as tropas de elite que deviam formar a reserva, segundo todas as regras; e o general em chefe, não tendo autoridade suficiente para calar esses clamores, mandou para a reserva o esquadrão invencível e o insigne carregador que o comandava.
Facundo dispõe sua linha de batalha a uma distância tal que o põe ao abrigo da infantaria comandada por Barcala e enfraquece o efeito de oito peças de artilharia dirigidas pelo inteligente Arengreen. Havia Facundo previsto o que seus inimigos iam fazer? Uma guerrilha havia precedido, na qual a partida de Quiroga atropela a divisão tucumana. Facundo chama o chefe vitorioso.—Por que voltou o senhor?—Porque atropelei o inimigo até a beira do mato.—Por que não penetrou no mato, acutilando?—Porque havia forças superiores.—Pois bem, quatro atiradores!... E o chefe é executado. Ouvia-se de um extremo ao outro da linha de Quiroga o tinido das esporas e dos fuzis dos soldados, que tremiam, não de medo do inimigo, mas do terrível chefe que andava à sua retaguarda, correndo a linha e brandindo sua lança de cabo de ébano. Esperam como alívio e desafogo do terror que os oprime que lhes mandem lançar-se sobre o inimigo; fá-lo-ão em pedaços, romperão a linha de baionetas, contanto que ponham algo de permeio entre eles e a imagem de Facundo, que os persegue como um fantasma irado. Como se vê, pois, campeava de um lado o terror, do outro a anarquia. À primeira tentativa de carga, a cavalaria de La Madrid debanda; segue-a a reserva, e apenas cinco chefes a cavalo ficam com a artilharia, que amiudava suas detonações, e a infantaria, que se lançava à baioneta sobre o inimigo. Para que mais pormenores? O detalhe de uma batalha é dado por quem triunfa.
A consternação reina em Tucumán; a emigração se faz em massa, porque naquela cidade os federais são contados. Era a terceira visita de Facundo! No dia seguinte deve repartir-se uma contribuição. Quiroga sabe que num templo há objetos preciosos escondidos; apresenta-se ao sacristão, a quem interroga sobre o caso; é uma espécie de imbecil que responde sorrindo. “Está rindo? Pois bem!... Quatro atiradores!...”, que o deixam no lugar, e as listas da contribuição se enchem em uma hora. As arcas do general incham-se de ouro. Se alguém não compreendeu bem, não lhe restará dúvida quando vir passarem presos, para serem açoitados, o guardião de San Francisco e o presbítero Colombres. Facundo apresenta-se em seguida ao depósito de prisioneiros, separa os oficiais e retira-se para descansar de tanta fadiga, deixando ordem de que sejam todos fuzilados.
Tucumán é um país tropical, onde a Natureza fez ostentação de suas mais pomposas galas; é o Éden da América, sem rival em toda a redondeza da terra. Imaginai os Andes cobertos de um manto verde-negro de vegetação colossal, deixando escapar por debaixo da orla desse vestido doze rios que correm a distâncias iguais em direção paralela, até começarem todos a inclinar-se para um rumo e formarem, reunidos, um canal navegável que se aventura no coração da América. O país compreendido entre os afluentes e o canal tem, no máximo, cinquenta léguas. Os bosques que encobrem a superfície do país são primitivos; mas neles as pompas da Índia estão revestidas das graças da Grécia.
A nogueira entretece sua ampla ramagem com o mogno e o ébano; o cedro deixa crescer a seu lado o clássico loureiro, que por sua vez resguarda, sob sua folhagem, o mirto consagrado a Vênus, deixando ainda espaço para que ergam suas hastes o nardo balsâmico e a açucena dos campos. O cedro odorífero apoderou-se aqui e ali de uma faixa de terreno que interrompe o bosque, e o roseiral fecha a passagem em outras partes com suas varas densas e espinhosas. Os troncos anosos servem de terreno a diversas espécies de musgos florescentes, e as lianas e amoreiras festonam, enredam e confundem todas essas diversas gerações de plantas. Sobre toda essa vegetação, que esgotaria a paleta fantástica em combinações e riqueza de colorido, revoavam enxames de borboletas douradas, beija-flores esmaltados, milhões de papagaios cor de esmeralda, gralhas azuis e tucanos alaranjados. O estrépito dessas aves vocingueiras vos aturde o dia inteiro, como se fosse o rumor de uma sonora catarata. O major Andrews, um viajante inglês que dedicou muitas páginas à descrição de tantas maravilhas, conta que saía pelas manhãs para extasiar-se na contemplação daquela soberba e brilhante vegetação; que penetrava nos bosques aromáticos e, delirando, arrebatado pela exaltação que o dominava, internava-se onde via escuridão, espessura, até que enfim voltava para casa, onde lhe faziam notar que rasgara as roupas, arranhara e ferira o rosto, do qual às vezes vinha destilando sangue, sem que ele o houvesse sentido.
A cidade está cercada por um bosque de muitas léguas, formado exclusivamente de laranjeiras doces, acopladas a determinada altura, de modo que formam uma abóbada sem limites, sustentada por um milhão de colunas lisas e torneadas. Os raios daquele sol tórrido jamais puderam mirar as cenas que têm lugar sobre o tapete de verdura que cobre a terra sob aquele toldo imenso. E que cenas! Aos domingos, vão as beldades tucumanas passar o dia naquelas galerias sem fim; cada família escolhe um lugar aparente; afastam-se as laranjas que embaraçam a passagem, se é outono, ou então, sobre o espesso tapete de flores de laranjeira que atapeta o chão, balançam-se os pares da dança, e, com os perfumes de suas flores, dilatam-se, enfraquecendo ao longe, os sons melodiosos dos tristes cantares que a guitarra acompanha. Credes, porventura, que esta descrição é plagiada das Mil e Uma Noites ou de outros contos de fadas à oriental? Apressai-vos antes a imaginar aquilo que não digo da voluptuosidade e da beleza das mulheres que nascem sob um céu de fogo, e que, desfalecidas, vão à sesta reclinar-se brandamente à sombra dos mirtos e loureiros, adormecer embriagadas pelas essências que sufocam quem não está habituado àquela atmosfera.
Facundo havia ganho uma dessas ramadas sombrias, talvez para meditar sobre o que devia fazer com a pobre cidade que caíra como um esquilo sob a garra do leão. A pobre cidade, entretanto, estava preocupada com a realização de um projeto cheio de inocente coqueteria. Uma deputação de meninas transbordando juventude, candor e formosura dirige-se para o lugar onde Facundo jaz reclinado sobre seu poncho. A mais resoluta ou entusiasta caminha adiante; vacila, detém-se, empurram-na as que a seguem, param todas tomadas de medo, voltam as pudicas faces, encorajam-se umas às outras e, detendo-se, avançando timidamente e empurrando-se entre si, chegam enfim à sua presença. Facundo as recebe com bondade, faz com que se sentem ao seu redor, deixa-as recobrar-se e inquire afinal o objeto daquela agradável visita. Vêm implorar pela vida dos oficiais do exército que vão ser fuzilados.
Os soluços escapam do meio da escolhida e tímida comitiva; o sorriso da esperança brilha em alguns semblantes, e todas as seduções delicadas da mulher são postas em requisição para alcançar o piedoso fim que se propuseram. Facundo está vivamente interessado, e por entre a espessura de sua barba negra chega-se a discernir nas feições a complacência e o contentamento. Mas precisa interrogá-las uma a uma, conhecer suas famílias, a casa onde vivem, mil pormenores que parecem entretê-lo e agradar-lhe, e que ocupam uma hora de tempo, mantêm a expectativa e a esperança; enfim lhes diz, com a maior bondade: “As senhoritas não ouvem essas descargas?”
Já não há tempo! Fuzilaram-nos! Um grito de horror sai daquele coro de anjos, que se dispersa como uma revoada de pombas perseguidas pelo falcão. Tinham-nos fuzilado, com efeito! Mas como! Trinta e três oficiais, de coronéis para baixo, formados na praça, inteiramente nus, recebem de pé a descarga mortal. Dois irmãozinhos, filhos de uma distinta família de Buenos Aires, abraçam-se para morrer, e o cadáver de um resguarda o outro das balas. “Estou livre”, grita; “salvei-me pela lei.” Pobre iludido! Quanto teria dado pela vida! Ao confessar-se, tirara da boca um anel, onde o escondera para que não lho tirassem, encarregando o sacerdote de devolvê-lo à sua linda prometida, que ao recebê-lo deu em troca a razão, que até hoje a pobre louca não recobrou!
Os soldados de cavalaria enlaçam, cada um, seu cadáver e o levam arrastado ao cemitério, embora alguns pedaços de crânio, um braço e outros membros fiquem na praça de Tucumán e sirvam de pasto aos cães. Ah! Quantas glórias arrastadas assim pelo lodo! Don Juan Manuel Rosas mandava matar do mesmo modo e quase ao mesmo tempo, em San Nicolás de los Arroyos, vinte e oito oficiais, fora cento e mais que haviam perecido obscuramente! Chacabuco, Maipú, Junín, Ayacucho, Ituzaingó! Por que teus louros foram uma maldição para todos os que os levaram?
Se ao horror dessas cenas se pode acrescentar algo, é a sorte que coube ao respeitável coronel Arraya, pai de oito filhos, prisioneiro, com três lançadas nas costas; fizeram-no entrar em Tucumán a pé, nu, sangrando e carregado com oito fuzis. Extenuado de fadiga, foi preciso conceder-lhe uma cama numa casa particular. À hora da execução na praça, alguns atiradores penetram até seu quarto, e na cama o atravessam a balaços, fazendo-o morrer em meio às labaredas dos lençóis incendiados.
O coronel Barcala, o ilustre negro, foi o único chefe excetuado dessa carnificina, porque Barcala era o senhor de Córdoba e de Mendoza, onde os cívicos o idolatravam. Era um instrumento que podia ser conservado para o futuro; quem sabe o que mais tarde poderá suceder?
No dia seguinte principia em toda a cidade uma operação chamada sequestro. Consiste em pôr sentinelas às portas de todas as lojas e armazéns, nos depósitos de couros, nos curtumes de solas, nos depósitos de tabaco. Em todos, porque em Tucumán não há federais, essa planta que não pôde crescer senão depois de três boas regas de sangue que Quiroga deu ao solo, e outra maior que as três juntas que Oribe lhe concedeu. Agora dizem que há federais que levam uma fita que o comprova, na qual está escrito: Morram os selvagens, imundos unitários! Como duvidá-lo por um momento!
Todas aquelas propriedades móveis e os gados das campanhas pertencem de direito a Facundo. Duzentas e cinquenta carretas, com a dotação de dezesseis bois cada uma, põem-se em marcha para Buenos Aires, levando os produtos do país. Os efeitos europeus são postos num depósito que abastece um bazar de quinquilharias, no qual os comandantes desempenham o ofício de vendedores. Tudo se vende, e a preço vil.
Há mais ainda: Facundo em pessoa vende camisas, anáguas de mulheres, vestidos de crianças; desdobra-os, mostra-os e agita-os diante da multidão. Meio, um real, tudo é bom; a mercadoria se despacha, o negócio está brilhante, faltam braços, a multidão se aglomera, sufoca no aperto. Apenas começa a notar-se que, passados alguns dias, os compradores escasseiam, e em vão se lhes oferecem lenços de espuma bordados por quatro reais; ninguém compra.
Que aconteceu? Remorsos da plebe? Nada disso. Esgotou-se o dinheiro circulante; as contribuições de um lado, o sequestro do outro, a venda barata, reuniram o último meio que circulava na província. Se algum fica em poder dos adeptos ou oficiais, a mesa de jogo está ali para deixar, ao fim e ao cabo, vazios todos os bolsos. À porta da casa do general estão secando ao sol fileiras de surrões de prata forrados de couro. Ali permanecem durante a noite, sem guarda, sem que os transeuntes se atrevam sequer a olhar.
E não se creia que a cidade foi abandonada à pilhagem, ou que o soldado participou daquele imenso butim! Não; Quiroga repetia depois em Buenos Aires, nos círculos de seus companheiros: “Eu jamais consenti que o soldado roubasse, porque isso me pareceu imoral.” Um chacareiro se queixa a Facundo, nos primeiros dias, de que seus soldados lhe tomaram algumas frutas. Ele os faz formar, e os culpados são reconhecidos. Seiscentos açoites é a pena que cada um sofre. O vizinho, espantado, pede pelas vítimas, e ameaçam-no com levar a mesma porção. Porque assim é o gaúcho argentino: mata porque seus caudilhos lhe mandam matar, e não rouba porque não lhe mandam. Se quereis averiguar como esses homens não se sublevam e não se desencadeiam contra aquele que não lhes dá nada em troca de seu sangue e de seu valor, perguntai a don Juan Manuel Rosas todos os prodígios que se podem fazer com o terror. Ele sabe muito disso! Não só o miserável gaúcho, mas o ínclito general, o cidadão faustoso e envaidecido, são levados a operar milagres! Eu não vos dizia que o terror produz resultados maiores que o patriotismo?
O coronel do exército do Chile don Manuel Gregorio Quiroga, ex-governador federal de San Juan e chefe de Estado-Maior do exército de Quiroga, convencido de que aquele butim de meio milhão é somente para o general, que acaba de esbofetear um comandante que guardou para si alguns reais da venda de um lenço, concebe o projeto de subtrair algumas joias de valor das que estão amontoadas no depósito geral e ressarcir-se com elas de seus soldos.
Descobre-se o roubo, e o general manda amarrá-lo contra um poste e expô-lo à vergonha pública; e quando o exército regressa a San Juan, o coronel do exército do Chile, ex-governador de San Juan, o chefe de Estado-Maior, marcha a pé por caminhos mal praticáveis, acorrentado pelo pescoço a um novilho; o companheiro do novilho sucumbiu em Catamarca, sem que se saiba se o novilho chegou a San Juan! Enfim: Facundo sabe que um jovem Rodríguez, dos mais ilustres de Tucumán, recebeu carta dos fugitivos; manda prendê-lo, leva-o ele mesmo à praça, pendura-o e manda dar-lhe seiscentos açoites. Mas os soldados não sabem dar açoites como aquele crime exige, e Quiroga toma as grossas rédeas que servem para a execução, batendo-as no ar com seu braço hercúleo, e descarrega cinquenta açoites para que sirvam de modelo.
Concluído o ato, ele em pessoa remexe a tina de salmoura, esfrega-lhe as nádegas, arranca-lhe os pedaços flutuantes e mete o punho nas concavidades que aqueles deixaram. Facundo volta para casa, lê as cartas interceptadas e encontra nelas recados dos maridos às mulheres, letras de comerciantes, recomendações para que não se preocupem com eles, etc. Em uma palavra: não há nada que possa interessar à política; então pergunta pelo jovem Rodríguez e lhe dizem que está expirando. Em seguida põe-se a jogar e ganha milhares.
Don Francisco Reto e don N. Lugones murmuraram entre si algo sobre os horrores que presenciam. Cada um recebe trezentos açoites e a ordem de retirar-se para casa atravessando a cidade inteiramente nu, as mãos postas na cabeça e as nádegas escorrendo sangue; soldados armados vão à distância para fazer com que a ordem seja executada pontualmente. E quereis saber o que é a natureza humana quando a infâmia está entronizada e não há a quem apelar na terra contra os verdugos? Lugones, que é de caráter travesso, volta-se para seu companheiro de suplício e lhe diz com a maior compostura: “Passa-me, companheiro, a tabaqueira; fumemos um cigarro!” Enfim: a disenteria declara-se em Tucumán, e os médicos asseguram que não há remédio, que vem de afecções morais, do terror, enfermidade contra a qual não se encontrou remédio na República Argentina até o dia de hoje.
Facundo apresenta-se um dia numa casa e pergunta pela senhora a um grupo de pequenos que brincam de nozes; o mais esperto responde que ela não está. “Diga-lhe que estive aqui.—E quem é o senhor?—Sou Facundo Quiroga...” A criança cai redonda, e só no ano passado começou a dar indícios de recobrar um pouco a razão; os outros saem correndo, chorando aos gritos; um sobe numa árvore, outro salta uns muros e sofre um golpe terrível... Que queria Facundo com essa senhora?... Era uma bela viúva que atraíra seus olhares, e ele vinha solicitá-la! Porque em Tucumán o Cupido ou o sátiro não estava ocioso. Agrada-lhe uma mocinha; fala-lhe e propõe levá-la a San Juan. Imaginai o que uma pobre menina poderia responder a essa proposta desonrosa feita por um tigre.
Ela enrubesce e, balbuciando, responde que não podia decidir...; que seu pai... Facundo dirige-se ao pai, e o pai angustiado, dissimulando seu horror, objeta quem lhe responderia por sua filha; que a abandonariam. Facundo satisfaz todas as objeções, e o infeliz pai, sem saber o que diz e crendo cortar aquele mercado abominável, propõe que lhe façam um documento... Facundo toma a pena e estende a garantia requerida, passando papel e pena ao pai para que assine o acordo. O pai é pai, enfim, e a natureza fala dizendo: “Não assino; mate-me!”—“Eh, velho porco!”, responde Quiroga, e toma a porta, sufocado de raiva.
Quiroga, o campeão da causa que os povos juraram, como se costuma dizer por lá, era bárbaro, avaro e lúbrico, e entregava-se às suas paixões sem rebuço; seu sucessor não saqueia os povos, é verdade; não ultraja o pudor das mulheres; tem apenas uma paixão, uma necessidade: a sede de sangue humano e a do despotismo. Em compensação, sabe usar as palavras e as formas que satisfazem a exigência dos indiferentes. Os selvagens, os sanguinários, os pérfidos, imundos unitários, o sanguinário duque de Abrantes, o pérfido ministro do Brasil, a federação!, o sentimento americano!, o ouro imundo da França, as pretensões iníquas da Inglaterra, a conquista europeia! Palavras assim bastam para encobrir a mais espantosa e longa série de crimes que o século XIX viu. Rosas!, Rosas!, Rosas!, prosterno-me e humilho-me diante de tua poderosa inteligência! Sois grande como o Prata, como os Andes! Só tu compreendeste quão desprezível é a espécie humana, suas liberdades, sua ciência e seu orgulho! Pisoteai-a! Que todos os governos do mundo civilizado te acatarão à medida que fores mais insolente! Pisoteai-a! Que não te faltarão cães fiéis que, recolhendo o mendrugo que lhes atiras, vão derramar seu sangue nos campos de batalha ou ostentar no peito vossa marca vermelha por todas as capitais americanas! Pisoteai-a! Oh, sim; pisoteai-a!...
Em Tucumán, Salta e Jujuy ficava, pela invasão de Quiroga, interrompido ou debilitado um grande movimento industrial e progressivo, em nada inferior ao que indicamos em Mendoza. O doutor Colombres, a quem Facundo carregava de prisões, havia introduzido e fomentado o cultivo da cana-de-açúcar, a que tanto se presta o clima, não se dando por satisfeito com sua obra até que dez grandes engenhos estivessem em movimento. Custear plantas de Havana, mandar agentes aos engenhos do Brasil para estudar os procedimentos e aparelhos, destilar o melaço, tudo se realizara com ardor e sucesso quando Facundo lançou suas cavalhadas nos canaviais e desmontou grande parte dos engenhos nascentes.
Uma sociedade de agricultura já publicava seus trabalhos e se preparava para ensaiar o cultivo do anil e da cochonilha. A Salta haviam sido trazidas da Europa e da América do Norte oficinas e artífices para tecidos de lã, panos feltrados, jergões para tapetes e marroquins, de tudo o que já se haviam alcançado resultados satisfatórios. Mas o que mais preocupava aqueles povos, porque é o que mais vitalmente lhes interessa, era a navegação do Bermejo, grande artéria comercial que, passando pelas imediações ou limites daquelas províncias, aflui ao Paraná e abre uma saída às imensas riquezas que aquele céu tropical derrama por toda parte.
O futuro daquelas belas províncias depende da habilitação das vias aquáticas para o comércio; de cidades mediterrâneas, pobres e pouco populosas, poderiam converter-se em dez anos em outros tantos focos de civilização e riqueza, se pudessem, favorecidas por um governo hábil, consagrar-se a remover os leves obstáculos que se opõem ao seu desenvolvimento. Não são estes sonhos quiméricos de um futuro provável, porém longínquo; não.
Na América do Norte, as margens do Mississippi e de seus afluentes cobriram-se em menos de dez anos não só de cidades populosas e grandes, mas de Estados novos que passaram a fazer parte da União; e o Mississippi não é mais vantajoso que o Paraná, nem o Ohio, o Illinois e o Arkansas percorrem territórios mais férteis nem comarcas mais extensas que as do Pilcomayo, do Bermejo, do Paraguai e de tantos grandes rios que a Providência colocou entre nós para marcar-nos o caminho que mais tarde hão de seguir as novas populações que formarão a União argentina. Rivadavia havia posto na pasta de seu gabinete, como assunto vital, a navegação interna dos rios; em Salta e Buenos Aires formara-se uma grande associação que contava com meio milhão de pesos, e o ilustre Sola realizara sua viagem e publicara a carta do rio. Quanto tempo perdido desde 1825 até 1845! Quanto tempo mais ainda até que Deus se digne afogar o monstro da Pampa! Porque Rosas, opondo-se tão tenazmente à livre navegação dos rios; pretextando temores de intrusão europeia; hostilizando as cidades do interior e abandonando-as às próprias forças, não obedece simplesmente às preocupações espanholas contra os estrangeiros, não cede somente às sugestões de portenho ignorante que possui o porto e a alfândega geral da República sem cuidar de desenvolver a civilização e a riqueza de toda esta nação para que seu porto esteja cheio de navios carregados de produtos do interior e sua alfândega de mercadorias, mas principalmente segue seus instintos de gaúcho da pampa que olha com horror a água, com desprezo os navios, e que não conhece ventura nem felicidade igual à de montar um bom parelheiro para transportar-se de um lugar a outro. Que lhe importam a amoreira, o açúcar, o anil, a navegação dos rios, a imigração europeia e tudo o que sai do estreito círculo de ideias em que se criou? Que lhe interessa fomentar o interior, a ele, que vive em meio às riquezas e possui uma alfândega que, sem nada disso, lhe dá dois milhões de fortes anuais? Salta, Jujuy, Tucumán, Santa Fe, Corrientes e Entre Ríos seriam hoje outras tantas Buenos Aires se houvesse continuado o movimento industrial e civilizador tão poderosamente iniciado pelos antigos unitários, e do qual, no entanto, ficaram tão fecundas sementes.
Tucumán tem hoje uma grande exploração de açúcares e licores, que seria sua riqueza se pudesse tirá-los a baixo custo de frete até a costa, para permutá-los por mercadorias naquela ingrata e torpe Buenos Aires, de onde lhe vem hoje o movimento barbarizador impresso pelo gaúcho da manta vermelha.
Mas não há males eternos, e um dia abrirão os olhos esses pobres povos a quem se nega toda liberdade de mover-se e se priva de todos os homens capazes e inteligentes que poderiam levar a cabo a obra de realizar em poucos anos o futuro grandioso a que estão chamados pela natureza aqueles países que hoje permanecem estacionários, empobrecidos e devastados.
Por que são perseguidos em toda parte, ou melhor, por que eram unitários selvagens, e não federais sábios, toda essa multidão de homens animosos e empreendedores que consagravam seu tempo a diversas melhorias sociais: este a fomentar a educação pública, aquele a introduzir o cultivo da amoreira, este outro o da cana-de-açúcar, esse outro a seguir o curso dos grandes rios, sem outro interesse pessoal, sem outra recompensa que a glória de merecer bem de seus concidadãos? Por que cessaram esse movimento e essa solicitude? Por que não vemos erguer-se de novo o gênio da civilização europeia, que antes brilhava, ainda que em esboço, na República Argentina? Por que seu governo, unitário hoje como jamais o tentou o próprio Rivadavia, não dedicou um só olhar a examinar os inexauríveis e intocados recursos de um solo privilegiado? Por que não se consagrou uma vigésima parte dos milhões que devora uma guerra fratricida e de extermínio a fomentar a educação do povo e promover sua ventura? Que se lhe deu, em troca de seus sacrifícios e de seus sofrimentos? Um trapo vermelho! A isto se reduziu a solicitude do governo durante quinze anos; esta é a única medida de administração nacional, o único ponto de contato entre o amo e o servo: marcar o gado!
O fogo que por tanto tempo abrasou a Albânia já se apagou. Limpou-se todo o sangue vermelho, e as lágrimas de nossos filhos foram enxugadas. Agora nos atamos com o laço da confederação e da amizade.
Colden, História das Seis Nações.
O vencedor da Ciudadela empurrou para fora dos confins da República os últimos sustentadores do sistema unitário. As mechas dos canhões estão apagadas, e as pisadas dos cavalos deixaram de turbar o silêncio da Pampa. Facundo voltou a San Juan e dispersou seu exército, não sem devolver em efeitos de Tucumán as somas arrancadas pela violência aos cidadãos. Que resta fazer? A paz é agora a condição normal da República, como antes o fora um estado perpétuo de oscilação e de guerra.
As conquistas de Quiroga haviam acabado por destruir todo sentimento de independência nas províncias, toda regularidade na administração. O nome de Facundo preenchia o vazio das leis; a liberdade e o espírito de cidade haviam deixado de existir, e os caudilhos de província se haviam reassumido em um só geral para uma porção da República. Jujuy, Salta, Tucumán, Catamarca, La Rioja, San Juan, Mendoza e San Luis repousavam, mais do que se moviam, sob a influência de Quiroga. Direi tudo de uma vez: o federalismo desaparecera com os unitários, e a mais completa fusão unitária acabava de realizar-se no interior da República na pessoa do vencedor.
Assim, pois, a organização unitária que Rivadavia quisera dar à República, e que ocasionara a luta, vinha realizando-se desde o interior; a não ser que, para pôr em dúvida esse fato, concebamos que possa existir federação de cidades que perderam toda espontaneidade e estão à mercê de um caudilho. Mas, não obstante o engano das palavras usuais, os fatos são tão claros que não deixam dúvida alguma. Facundo fala em Tucumán com desprezo da sonhada federação; propõe a seus amigos que se fixem, para presidente da República, num provinciano; indica como candidato o doutor don José Santos Ortiz, ex-governador de San Luis, seu amigo e secretário. “Não é gaúcho bruto como eu; é doutor e homem de bem”, diz; “sobretudo, o homem que sabe fazer justiça a seus inimigos merece toda confiança.”
Como se vê, em Facundo, depois de haver derrotado os unitários e dispersado os doutores, reaparece sua primeira ideia, antes de ter entrado na luta, sua decisão pela presidência e seu convencimento da necessidade de pôr ordem nos negócios da República. Entretanto, algumas dúvidas o assaltam. “Agora, general”, diz-lhe alguém, “a nação se constituirá sob o sistema federal; não resta nem sombra dos unitários.”—“Hum!”, responde, meneando a cabeça, “ainda há trapinhos a amassar”[32]. E com ar significativo acrescenta: “Os amigos de baixo”[33] “não querem Constituição.” Essas palavras ele já vertia desde Tucumán. Quando lhe chegaram comunicações de Buenos Aires e gazetas em que se registravam as promoções concedidas aos oficiais-generais que haviam feito a estéril campanha de Córdoba, Quiroga dizia ao general Huidobro: “Veja o senhor se foram capazes de me mandar dois títulos em branco para premiar meus oficiais, depois que nós fizemos tudo. Tinham de ser portenhos!” Sabe que López tem em seu poder seu cavalo mouro sem mandá-lo, e Quiroga enfurece-se com a notícia. “Gaúcho, ladrão de vacas!”, exclama; “caro te vai custar o prazer de montar em coisa boa!” E como as ameaças e os insultos continuassem, Huidobro e outros chefes alarmam-se com a indiscrição com que ele se derrama de maneira tão pública.
Qual é o pensamento secreto de Quiroga? Que ideias o preocupam desde então? Ele não é governador de nenhuma província, não conserva exército em armas; restava-lhe apenas um nome reconhecido e temido em oito províncias, e ainda armamento. Ao passar por La Rioja, deixou escondidos nos bosques todos os fuzis, sabres, lanças e tercerolas que recolhera nos oito povos que percorrera; passam de doze mil armas. Um parque de vinte e seis peças de artilharia fica na cidade, com depósitos abundantes de munições e petrechos; dezesseis mil cavalos escolhidos vão pastar na quebrada de Huaco, que é um imenso vale fechado por uma estreita garganta.
La Rioja é, além do berço de seu poder, o ponto central das províncias que estão sob sua influência. Ao menor sinal, aquele arsenal proverá de elementos de guerra doze mil homens. E não se creia que esconder os fuzis nos bosques seja ficção poética. Até o ano de 1841 estiveram sendo desenterrados depósitos de fuzis, e acredita-se ainda, embora sem fundamento, que nem todas as armas escondidas então sob a terra foram exumadas. No ano de 1830, o general La Madrid apoderou-se de um tesouro de trinta mil pesos pertencentes a Quiroga, e muito logo outro de quinze mil foi denunciado.
Quiroga escrevia-lhe depois, cobrando-lhe cinquenta e nove mil pesos, que, segundo seu dizer, continham aqueles dois enterros, que sem dúvida, entre outros, deixara em La Rioja desde antes da batalha de Oncativo, ao mesmo tempo que dava morte e tormento a tantos cidadãos a fim de arrancar-lhes dinheiro para a guerra. Quanto às verdadeiras quantias escondidas, o general La Madrid suspeitou depois que a afirmação de Quiroga fosse exata, pois, tendo caído prisioneiro o descobridor, ofereceu dez mil pesos por sua liberdade, e, não a obtendo, tirou a própria vida, degolando-se. Esses acontecimentos são demasiado elucidativos para que eu me excuse de referi-los.
O interior tinha, pois, um chefe; e o derrotado de Oncativo, a quem não se haviam confiado em Buenos Aires outras tropas além de algumas centenas de presidiários, podia agora considerar-se o segundo, senão o primeiro, em poder. Para tornar mais sensível a cisão da República em duas frações, as províncias litorâneas do Prata haviam celebrado um convênio ou federação, pela qual se garantiam mutuamente sua independência e liberdade; é verdade que o federalismo feudal existia ali fortemente constituído em López, Santa Fe, Ferré e Rosas, chefes natos dos povos que dominavam; porque Rosas já começava a influir como árbitro nos negócios públicos. Com a derrota de Lavalle, fora chamado ao governo de Buenos Aires, desempenhando-o até 1832 com a regularidade com que o poderia ter feito qualquer outro. Não devo omitir, contudo, um fato que é antecedente necessário. Rosas solicitou desde o princípio ser investido de faculdades extraordinárias, e não é possível detalhar as resistências que seus partidários da cidade lhe opunham.
Obteve-as, porém, à força de rogos e seduções, enquanto durasse a guerra de Córdoba; concluída esta, recomeçaram as exigências para fazê-lo despir-se daquele poder ilimitado. A cidade de Buenos Aires não concebia então, quaisquer que fossem as ideias de partido que dividissem seus políticos, como poderia existir um governo absoluto. Rosas, porém, resistia brandamente, manhosamente. “Não é para fazer uso delas”, dizia, “mas porque, como diz meu secretário García Zúñiga, é preciso, como o mestre-escola, estar com o chicote na mão para que respeitem a autoridade.” Essa comparação lhe parecera irrepreensível e ele a repetia sem cessar.
Os cidadãos, crianças; o governador, o homem, o mestre. O ex-governador não descia, porém, a confundir-se com os cidadãos; a obra de tantos anos de paciência e ação estava a ponto de terminar; o período legal em que exercera o mando lhe ensinara todos os segredos da Ciudadela; conhecia suas avenidas, seus pontos mal fortificados; e, se saía do governo, era só para poder tomá-lo de fora, por assalto, sem restrições constitucionais, sem entraves nem responsabilidade. Deixava o bastão, mas armava-se da espada, para vir com ela mais tarde, e deixar uma e outra pelo machado e pelas varas, antiga insígnia dos reis romanos.
Uma poderosa expedição, da qual ele se nomeara chefe, organizara-se durante o último período de seu governo para assegurar e alargar os limites da província para o Sul, teatro das frequentes incursões dos selvagens. Devia fazer-se uma batida geral sob um plano grandioso; um exército composto de três divisões operaria sobre uma frente de quatrocentas léguas, desde Buenos Aires até Mendoza. Quiroga devia comandar as forças do interior, enquanto Rosas seguiria a costa do Atlântico com sua divisão. O colossal e o útil da empresa ocultavam aos olhos do vulgo o pensamento puramente político que, sob véu tão especioso, se dissimulava. Efetivamente: que coisa mais bela do que assegurar a fronteira da República para o Sul, escolhendo um grande rio como limite com os índios e resguardando-a com uma cadeia de fortes, propósito de modo algum impraticável, e que na Viagem de Cruz de Concepción a Buenos Aires havia sido luminosamente desenvolvido? Mas Rosas estava muito longe de ocupar-se de empresas que propendessem apenas ao bem-estar da República. Seu exército fez um passeio marcial até o rio Colorado, marchando lentamente e fazendo observações sobre o terreno, o clima e as demais circunstâncias do país que percorria.
Alguns toldos de índios foram desbaratados, alguma chusma feita prisioneira; a isso se limitaram os resultados daquela pomposa expedição, que deixou a fronteira indefesa como antes, e como se conserva até o dia de hoje. As divisões de Mendoza e San Luis tiveram resultados ainda menos felizes e regressaram depois de uma estéril excursão aos desertos do Sul. Rosas desfraldou então pela primeira vez sua bandeira vermelha, semelhante em tudo à de Argel ou à do Japão, e fez dar-se o título de Herói do Deserto, que vinha corroborar o que já obtivera de Ilustre Restaurador das Leis, dessas mesmas leis que se propunha ab-rogar pela base[34].
Facundo, demasiado penetrante para deixar-se iludir quanto ao objeto da grande expedição, permaneceu em San Juan até o regresso das divisões do interior. A de Huidobro, que entrara no deserto em frente a San Luis, saiu em direitura a Córdoba, e à sua aproximação foi sufocada uma revolução capitaneada pelos Castillos, que tinha por objeto tirar do governo os Reinafé, que obedeciam à influência de López. Essa revolução se fazia pelos interesses e sob a inspiração de Facundo; os primeiros cabeças foram desde San Juan, residência de Quiroga, e todos os seus fautores. Arredondo, Camargo, etc., eram seus decididos partidários. Os jornais da época nada disseram, porém, sobre as conexões de Facundo com aquele movimento; e, quando Huidobro se retirou para seus acantonamentos, e Arredondo e outros caudilhos foram fuzilados, nada restou a fazer nem a dizer sobre aqueles movimentos; porque a guerra que deviam fazer entre si as duas frações da República, os dois caudilhos que se disputavam surdamente o mando, devia ser somente de emboscadas, laços e traições. É um combate mudo, em que não se medem forças, mas audácias da parte de um, e astúcia e artifício da parte do outro. Esta luta entre Quiroga e Rosas é pouco conhecida, não obstante abranger um período de cinco anos. Ambos se detestam, desprezam-se, não se perdem de vista um momento, porque cada um sente que sua vida e seu futuro dependem do resultado desse jogo terrível.
Creio oportuno tornar sensível por um quadro a geografia política da República desde 1822 em diante, para que o leitor compreenda melhor os movimentos que começam a operar-se.
REPÚBLICA ARGENTINA
REGIÃO DOS ANDES — LITORAL DO PRATA
Unidade sob a influência de Quiroga. Federação sob o pacto da Liga Litoral.
Jujuy. Corrientes—Ferré.
Salta.
Tucumán.
Catamarca. Entre Ríos.
La Rioja. Santa Fe.—López.
San Juan. Córdoba.
Mendoza.
San Luis. Buenos Aires.—Rosas.
Federação Feudal.
Santiago del Estero
sob a dominação de Ibarra.
López de Santa Fe estendia sua influência sobre Entre Ríos por meio de Echagüe, santafesino e criatura sua, e sobre Córdoba pelos Reinafé. Ferré, homem de espírito independente, provincialista, manteve Corrientes fora da luta até 1839; sob o governo de Berón de Astrada, voltou as armas daquela província contra Rosas, que, com seu acréscimo de poder, tornara ilusório o pacto da Liga. Esse mesmo Ferré, por esse espírito de provincialismo estreito, declarou desertor Lavalle em 1840, por ter passado o Paraná com o exército correntino; e depois da batalha de Caaguazú tirou do general Paz o exército vitorioso, fazendo assim malograr as vantagens decisivas que aquele triunfo poderia produzir.
Ferré, nesses procedimentos, como na Liga Litoral que anos antes promovera, estava inspirado pelo espírito provincial de independência e isolamento que a revolução da independência despertara em todos os ânimos. Assim, pois, o mesmo sentimento que lançara Corrientes na oposição à Constituição unitária de 1826 fazia-a desde 1838 lançar-se na oposição a Rosas, que centralizava o poder. Daí nascem os desacertos daquele caudilho e os desastres que se seguiram à batalha de Caaguazú, estéril não só para a República em geral, mas para a própria província de Corrientes; pois, centralizado o resto da nação por Rosas, mal poderia ela conservar sua independência feudal e federal.
Terminada a expedição ao Sul, ou, melhor dizendo, desbaratada porque não tinha verdadeiro plano nem fim real, Facundo partiu para Buenos Aires acompanhado de sua escolta e de Barcala, e entrou na cidade sem se dar ao trabalho de anunciar a ninguém sua chegada. Esses procedimentos subversivos de toda forma recebida poderiam dar lugar a comentários muito longos, se não fossem sistemáticos e característicos. Que objetivo levava Quiroga desta vez a Buenos Aires? É outra invasão que, como a de Mendoza, faz sobre o centro do poder de seu rival? O espetáculo da civilização terá por fim dominado sua rudeza selvática, e ele quer viver no seio do luxo e das comodidades? Creio que todas essas causas reunidas aconselharam a Facundo sua mal aconselhada viagem a Buenos Aires. O poder educa, e Quiroga tinha todos os altos dotes de espírito que permitem a um homem corresponder sempre à sua nova posição, por elevada que seja. Facundo estabelece-se em Buenos Aires, e muito em breve se vê rodeado dos homens mais notáveis; compra seiscentos mil pesos de fundos públicos; joga na alta e na baixa; fala com desprezo de Rosas; declara-se unitário entre os unitários, e a palavra constituição não abandona seus lábios. Sua vida passada, seus atos de barbárie, pouco conhecidos em Buenos Aires, são então explicados e justificados pela necessidade de vencer, pela de sua própria conservação. Sua conduta é moderada, seu ar nobre e imponente, embora use jaqueta, o poncho atravessado, e a barba e o cabelo enormemente volumosos.
Quiroga, durante sua residência em Buenos Aires, faz alguns ensaios de seu poder pessoal. Um homem, com faca em punho, não queria entregar-se a um vigia noturno. Quiroga acerta de passar pelo lugar da cena, embuçado em seu poncho como sempre; para a ver, e subitamente atira o poncho, abraça-o e o imobiliza. Depois de desarmá-lo, ele mesmo o conduz à Polícia, sem ter querido dar seu nome ao vigia, como tampouco o deu na Polícia, onde foi, entretanto, reconhecido por um oficial; os jornais publicaram no dia seguinte aquele ato de arrojo. Sabe uma vez que certo boticário falou com desprezo de seus atos de barbárie no interior. Facundo dirige-se à sua botica e o interroga. O boticário impõe-se a ele e lhe diz que ali ele não está nas províncias para atropelar impunemente quem quer que seja.
Esse acontecimento enche de prazer toda a cidade de Buenos Aires. Pobre Buenos Aires, tão cândida, tão orgulhosa de suas instituições! Mais um ano e sereis tratada com mais brutalidade do que foi tratado o interior por Quiroga! A Polícia faz entrar seus satélites até o quarto de Quiroga em perseguição ao hóspede da casa, e Facundo, que se vê tratado tão sem consideração, estende o braço, toma o punhal, ergue-se na cama onde está recostado e em seguida volta a reclinar-se, abandonando lentamente a arma homicida. Sente que ali há outro poder além do seu, e que podem metê-lo na cadeia se fizer justiça por si mesmo.
Seus filhos estão nos melhores colégios; jamais lhes permite vestir senão fraque ou sobrecasaca, e a um deles, que tenta deixar os estudos para abraçar a carreira das armas, põe como tambor num batalhão até que se arrependa de sua loucura. Quando algum coronel lhe fala em alistar em seu corpo, na classe de oficial, algum de seus filhos: “se fosse num regimento comandado por Lavalle”, responde zombando, “vá lá; mas nesses corpos!...” Se se fala de escritores, não há nenhum que, em seu conceito, possa rivalizar com os Varela, que tanto mal disseram dele. Os únicos homens honrados que tem a República são Rivadavia e Paz: “ambos tinham as intenções mais sãs”. Aos unitários só exige um secretário como o doutor Ocampo, um político que redija uma Constituição, e com uma imprensa marchará a San Luis, e de lá a ensinará a toda a República na ponta de uma lança.
Quiroga, pois, apresenta-se como o centro de uma nova tentativa de reorganizar a República; e poder-se-ia dizer que conspira abertamente, se todos esses propósitos, todas aquelas bravatas não carecessem de fatos que viessem dar-lhes corpo. A falta de hábitos de trabalho, a preguiça de pastor, o costume de esperar tudo do terror, talvez a novidade do teatro de ação, paralisam seu pensamento, mantêm-no numa expectativa funesta que finalmente o compromete e o entrega maniatado a seu astuto rival. Não restaram fatos nenhuns que comprovem que Quiroga se propunha agir imediatamente, salvo suas inteligências com os governadores do interior e suas palavras indiscretas, repetidas por unitários e federais, sem que os primeiros se resolvam a confiar sua sorte a mãos como as suas, nem os federais o rechacem como desertor de suas fileiras.
E, enquanto se abandona assim a uma perigosa indolência, vê cada dia aproximar-se a jiboia que há de sufocá-lo em seus laços redobrados. No ano de 1833, Rosas se achava ocupado em sua fantástica expedição e tinha seu exército operando ao sul de Buenos Aires, de onde observava o governo de Balcarce. A província de Buenos Aires apresentou pouco depois um dos espetáculos mais singulares. Imagino o que sucederia na terra se um poderoso cometa se aproximasse dela: a princípio, o mal-estar geral; depois, rumores surdos, vagos; em seguida, as oscilações do globo atraído para fora de sua órbita; até que enfim os abalos convulsivos, o desabamento das montanhas, o cataclismo, trariam o caos que precede cada uma das criações sucessivas de que nosso globo foi teatro.
Tal era a influência que Rosas exercia em 1834. O governo de Buenos Aires sentia-se cada vez mais circunscrito em sua ação, mais embaraçado em sua marcha, mais dependente do Herói do Deserto. Cada comunicação deste era uma censura dirigida a seu governo, uma quantia exorbitante exigida para o exército, alguma demanda inusitada; depois, a campanha não obedecia à cidade, e era preciso apresentar a Rosas a queixa dessa desobediência aos seus editos. Mais tarde, a desobediência entrava na própria cidade; ultimamente, homens armados percorriam as ruas a cavalo disparando tiros, que davam morte a alguns transeuntes. Essa desorganização da sociedade ia aumentando de dia em dia como um câncer e avançando até o coração, embora se pudesse discernir o caminho que trazia desde a tenda de Rosas até a campanha, da campanha a um bairro da cidade, dali a certa classe de homens, os açougueiros, que eram os principais instigadores.
O governo de Balcarce sucumbira em 1833 ao ímpeto desse transbordamento da campanha sobre a cidade. O partido de Rosas trabalhava com ardor para abrir um caminho longo e desimpedido ao Herói do Deserto, que se aproximava para receber a ovacão merecida: o governo; mas o partido federal da cidade ainda burla seus esforços se quer fazer frente. A Junta de Representantes reúne-se em meio ao conflito que traz a acefalia do governo, e o general Viamont, ao seu chamado, apresenta-se às pressas, em traje de casa, e ainda se atreve a tomar conta do governo. Por um momento parece que a ordem se restabelece e a pobre cidade respira; mas logo principia a mesma agitação, os mesmos manejos, os grupos de homens que percorrem as ruas, que distribuem chicotadas aos passantes.
É indizível o estado de alarme em que viveu um povo inteiro durante dois anos, com esse estranho e sistemático desquiciamento. De repente viam-se as pessoas disparando pelas ruas, e o ruído das portas que se fechavam ia repetindo-se de quarteirão em quarteirão, de rua em rua. De que fugiam? Por que se encerravam ao meio-dia? Quem sabe! Alguém dissera que vinham..., que se divisava um grupo..., que se ouvira o tropel longínquo de cavalos.
Uma dessas vezes, Facundo Quiroga seguia por uma rua acompanhado de um ajudante, e, ao ver esses homens de fraque que correm pelas calçadas, as senhoras que fogem sem saber de quê, Quiroga detém-se, passeia um olhar de desdém sobre aqueles grupos e diz a seu ajudante de ordens: “Este povo enlouqueceu.” Facundo chegara a Buenos Aires pouco depois da queda de Balcarce. “Outra coisa teria acontecido”, dizia, “se eu estivesse aqui.”—“E que teria feito, general?”, replicava-lhe um dos que o ouviam; “V. Exa. não tem influência sobre esta plebe de Buenos Aires.” Então Quiroga, levantando a cabeça, sacudindo sua negra melena e desprendendo raios dos olhos, diz-lhe com voz breve e seca: “Olhe o senhor! Eu teria saído à rua, e ao primeiro homem que encontrasse lhe teria dito: siga-me! E esse homem me teria seguido!” Tal era a avassaladora energia das palavras de Quiroga, tão imponente sua fisionomia, que o incrédulo baixou a vista aterrorizado, e por largo tempo ninguém se atreveu a abrir os lábios.
O general Viamont renuncia por fim, porque vê que não se pode governar, que há uma mão poderosa que detém as rodas da administração. Procura-se alguém que queira substituí-lo; pede-se por favor aos mais animosos que assumam o bastão, e ninguém quer; todos encolhem os ombros e ganham suas casas amedrontados. Enfim coloca-se à frente do governo o doutor Maza, o mestre, o mentor e amigo de Rosas, e creem haver posto remédio ao mal que os aflige. Vã esperança! O mal-estar cresce, longe de diminuir.
Anchorena apresenta-se ao governo pedindo que reprima as desordens, e sabe que não há meio algum ao seu alcance; que a força da Polícia não obedece; que há ordens de fora. O general Guido, o doutor Alcorta, ainda deixam ouvir na Junta de Representantes alguns protestos enérgicos contra aquela agitação convulsiva em que se mantém a cidade; mas o mal segue, e, para agravá-lo, Rosas censura o governo, desde seu acampamento, pelas desordens que ele mesmo fomenta. Que quer esse homem? Governar? Uma comissão da Sala vai oferecer-lhe o governo; diz-lhe que só ele pode pôr termo àquela angústia, àquela agonia de dois anos. Mas Rosas não quer governar, e vêm novas comissões, novos rogos. Enfim encontra meio de conciliar tudo. Far-lhes-á o favor de governar, se os três anos que abrange o período legal se prolongarem a cinco, e se lhe entregar a soma do Poder público, palavra nova cujo alcance só ele compreende.
Nessas transações se achavam a cidade de Buenos Aires e Rosas, quando chega a notícia de uma desavença entre os governos de Salta, Tucumán e Santiago del Estero, que podia fazer estourar a guerra. Cinco anos transcorreram desde que os unitários desapareceram da cena política, e dois desde que os federais da cidade, os lombos negros, perderam toda influência no governo, quando muito tendo valor para exigir algumas condições que tornassem tolerável a capitulação. Rosas, enquanto a cidade se rende à discrição, com suas constituições, suas garantias individuais, com suas responsabilidades impostas ao governo, agita fora de Buenos Aires outra máquina não menos complicada.
Suas relações com López de Santa Fe são ativas, e tem além disso uma entrevista em que ambos os caudilhos conferenciam; o governo de Córdoba está sob a influência de López, que pôs à sua frente os Reinafé. Convida-se Facundo a ir interpor sua influência para apagar as fagulhas que se levantaram no Norte da República; ninguém senão ele está chamado a desempenhar essa missão de paz. Facundo resiste, vacila; mas decide-se por fim. Em 18 de dezembro de 1835, sai de Buenos Aires e, ao subir à diligência, dirige, na presença de vários amigos, seus adeuses à cidade. “Se me sair bem”, diz, agitando a mão, “voltarei a ver-te; se não, adeus para sempre!” Que sinistros pressentimentos vêm, naquele momento, mostrar sua face lívida no ânimo desse homem impávido? Não se lembra o leitor de que algo parecido manifestava Napoleão ao partir das Tulherias para a campanha que devia terminar em Waterloo?
Mal andou meia jornada, encontra um arroio lamacento que detém a diligência. O vizinho mestre de posta acode solícito para fazê-la passar; põem-se novos cavalos, apuram-se todos os esforços, e a diligência não avança. Quiroga enfurece-se e manda jungir às varas o próprio mestre de posta. A brutalidade e o terror voltam a aparecer desde que ele se encontra no campo, em meio àquela natureza e àquela sociedade semibárbara.
Vencido aquele primeiro obstáculo, a diligência segue cruzando a Pampa como uma exalação; caminha todos os dias até as duas da manhã e põe-se em marcha de novo às quatro. Acompanha-o o doutor Ortiz, seu secretário, e um jovem conhecido, que ao sair ele encontrou impossibilitado de seguir adiante pela fratura das rodas de seu veículo. Em cada posta a que chega, manda perguntar imediatamente: “A que horas passou um chasque de Buenos Aires?—Há uma hora.—Cavalos, sem perda de momento!”, grita Quiroga. E a marcha continua. Para tornar mais penosa a situação, parecia que as cataratas do céu se haviam aberto; durante três dias a chuva não cessa um momento, e o caminho converteu-se em torrente.
Ao entrar na jurisdição de Santa Fe, a inquietude de Quiroga aumenta e se torna visível angústia quando, na posta de Pavón, sabe que não há cavalos e que o mestre de posta está ausente. O tempo que passa antes de obter novos tiros é uma agonia mortal para Facundo, que grita a cada momento: “Cavalos! Cavalos!” Seus companheiros de viagem nada compreendem desse estranho sobressalto, espantados de ver esse homem, terror dos povos, agora assustadiço e cheio de temores, ao que parece quiméricos. Quando a diligência consegue pôr-se em marcha, ele murmura em voz baixa, como se falasse consigo mesmo: “Se eu sair do território de Santa Fe, não há cuidado com o resto.” Na passagem do Rio Tercero, os gaúchos da vizinhança acorrem para ver o famoso Quiroga, e passam a diligência pouco menos que nos ombros.
Finalmente chega à cidade de Córdoba às nove e meia da noite, e uma hora depois da chegada do chasque de Buenos Aires, a quem veio calcando desde sua saída. Um dos Reinafé acode à posta, onde Facundo ainda está na diligência pedindo cavalos, que não há naquele momento. Saúda-o com respeito e efusão; suplica-lhe que passe a noite na cidade, onde o governo se prepara para hospedá-lo dignamente. “Preciso de cavalos!”, é a breve resposta que dá Quiroga. “Cavalos!”, replica a cada nova manifestação de interesse ou solicitude da parte de Reinafé, que por fim se retira humilhado, e Facundo parte para seu destino à meia-noite.
A cidade de Córdoba, entretanto, estava agitada pelos mais estranhos rumores; os amigos do jovem que veio por acaso em companhia de Quiroga, e que fica em Córdoba, sua pátria, vão em tropel visitá-lo. Admiram-se de vê-lo vivo e lhe falam do perigo iminente de que se salvou. Quiroga devia ser assassinado em tal ponto; os assassinos são N. e N.; as pistolas foram compradas em tal armazém; foram vistos N. e N. para encarregar-se da execução, e recusaram-se. Quiroga os surpreendeu com a espantosa rapidez de sua marcha, pois mal chega o chasque que anuncia sua próxima chegada, apresenta-se ele mesmo e faz abortar todos os preparativos. Jamais se premeditou um atentado com mais descaramento; toda Córdoba está instruída dos mínimos detalhes do crime que o governo intenta, e a morte de Quiroga é o assunto de todas as conversas.
Quiroga, entretanto, chega a seu destino, ajusta as diferenças entre os governantes hostis e regressa por Córdoba, a despeito das reiteradas instâncias dos governadores de Santiago e Tucumán, que lhe oferecem uma grossa escolta para sua custódia, aconselhando-o a tomar o caminho de Cuyo para regressar. Que gênio vingativo lhe fecha o coração e os ouvidos e o faz obstinar-se em voltar a desafiar seus inimigos, sem escolta, sem meios adequados de defesa? Por que não toma o caminho de Cuyo, desenterra seus imensos depósitos de armas ao passar por La Rioja e arma as oito províncias que estão sob sua influência? Quiroga sabe tudo; aviso após aviso recebeu em Santiago del Estero; sabe o perigo de que sua diligência o salvou; sabe o novo e mais iminente que o espera, porque seus inimigos não desistiram do desígnio concebido. “A Córdoba!”, grita aos postilhões ao pôr-se em marcha, como se Córdoba fosse o termo de sua viagem[35].
Antes de chegar à posta do Ojo de Agua, um jovem sai do bosque e dirige-se à diligência, requerendo ao postilhão que se detenha. Quiroga põe a cabeça pela portinhola e pergunta-lhe o que deseja. “Quero falar com o doutor Ortiz.” Este desce e sabe o seguinte: “Nas imediações do lugar chamado Barranca-Yaco, Santos Pérez está postado com uma partida; à chegada da diligência devem fazer fogo de ambos os lados e matar em seguida desde o postilhão para cima; ninguém deve escapar; esta é a ordem.” O jovem, que outrora fora favorecido pelo doutor Ortiz, veio salvá-lo; tem ali mesmo um cavalo para que monte e escape com ele; sua fazenda está próxima. O secretário, assustado, põe Facundo a par do que acaba de saber e insiste para que se ponha em segurança. Facundo interroga de novo o jovem Sandivaras, agradece-lhe por sua boa ação, mas o tranquiliza quanto aos temores que abriga. “Ainda não nasceu”, diz-lhe com voz enérgica, “o homem que há de matar Facundo Quiroga. A um grito meu, essa partida amanhã se porá às minhas ordens e me servirá de escolta até Córdoba. Vá, amigo, sem cuidado.”
Essas palavras de Quiroga, de que eu não tive notícia até este momento, explicam a causa de sua estranha obstinação em ir desafiar a morte. O orgulho e o terrorismo, os dois grandes móveis de sua elevação, levam-no manietado à sangrenta catástrofe que deve terminar sua vida. Tem por menos evitar o perigo e conta com o terror de seu nome para fazer cair as lâminas erguidas sobre sua cabeça. Esta explicação eu a dava a mim mesmo antes de saber que suas próprias palavras a haviam tornado inútil.
A noite que os viajantes passaram na posta do Ojo de Agua é de tal maneira angustiosa para o infeliz secretário, que vai a uma morte certa e inevitável, e que carece do valor e da temeridade que anima Quiroga, que creio não dever omitir nenhum de seus detalhes, tanto mais quanto, sendo, por fortuna, seus pormenores tão autênticos, seria criminoso descuido não conservá-los, pois, se alguma vez um homem sorveu todas as fezes da agonia; se alguma vez a morte deveu parecer horrível, é aquela em que um triste dever, o de acompanhar um amigo temerário, a impõe, quando não há infâmia nem desonra em evitá-la[36].
O doutor Ortiz chama à parte o mestre de posta e o interroga encarecidamente sobre o que sabe acerca dos estranhos avisos que receberam, assegurando-lhe que não abusará de sua confiança. Que pormenores vai ouvir! Santos Pérez esteve ali, com uma partida de trinta homens, uma hora antes de sua chegada; vão todos armados de tercerola e sabre; já estão postados no lugar designado; devem morrer todos os que acompanham Quiroga; assim o disse Santos Pérez ao próprio mestre de posta. Essa confirmação da notícia recebida de antemão nada altera a determinação de Quiroga, que depois de tomar uma xícara de chocolate, segundo seu costume, dorme profundamente.
O doutor Ortiz também ganha a cama, não para dormir, mas para lembrar-se de sua esposa, de seus filhos, a quem não tornará a ver. E tudo, por quê? Por não arrostar o enojo de um amigo temível; por não incorrer na pecha de desleal. À meia-noite, a inquietude da agonia torna-lhe a cama insuportável; levanta-se e vai buscar seu confidente: “Dorme, amigo?”, pergunta-lhe em voz baixa.—“Quem há de dormir, senhor, com coisa tão horrível!”—“Então não há dúvida? Que suplício o meu!”—“Imagine, senhor, como estou eu, que tenho de mandar dois postilhões, que devem ser mortos também. Isto me mata. Há aqui um menino que é sobrinho do sargento da partida, e penso mandá-lo; mas o outro... a quem mandarei? Para fazê-lo morrer inocentemente!”
O doutor Ortiz faz um último esforço para salvar sua vida e a do companheiro; desperta Quiroga e o instrui dos pavorosos detalhes que acaba de adquirir, significando-lhe que não o acompanha se ele se obstina em fazer-se matar inutilmente. Facundo, com gesto irado e palavras grosseiramente enérgicas, faz-lhe entender que há maior perigo em contrariá-lo ali do que aquele que o aguarda em Barranca-Yaco, e força é submeter-se sem mais réplica. Quiroga manda a seu assistente, que é um valente negro, que limpe algumas armas de fogo que vêm na diligência e as carregue; a isso se reduzem todas as suas precauções.
Chega o dia, por fim, e a diligência se põe a caminho. Acompanha-a, além do postilhão que vai no tiro, aquele menino, dois correios que se reuniram por acaso e o negro que vai a cavalo. Chega ao ponto fatal, e duas descargas atravessam a diligência de ambos os lados, mas sem ferir ninguém; os soldados se lançam sobre ela com os sabres desembainhados e, num momento, inutilizam os cavalos e esquartejam o postilhão, os correios e o assistente. Quiroga então põe a cabeça para fora e faz por um momento vacilar aquela turba. Pergunta pelo comandante da partida, manda-o aproximar-se, e à pergunta de Quiroga “que significa isto?”, recebe por toda resposta um balaço num olho, que o deixa morto.
Então Santos Pérez atravessa repetidas vezes com sua espada o malaventurado secretário e, concluída a execução, manda atirar para o bosque a diligência cheia de cadáveres, com os cavalos feitos em pedaços e o postilhão, que, com a cabeça aberta, se mantém ainda a cavalo. “Que menino é este?”, pergunta vendo o menino da posta, único que resta vivo.—“É um sobrinho meu”, responde o sargento da partida; “respondo por ele com minha vida.” Santos Pérez aproxima-se do sargento, atravessa-lhe o coração com um balaço e em seguida, desmontando, toma o menino por um braço, estende-o no chão e o degola, apesar de seus gemidos de criança que se vê ameaçada por um perigo.
Esse último gemido do menino é, contudo, o único suplício que martiriza Santos Pérez. Depois, fugindo das partidas que o perseguem, oculto entre as brenhas das rochas ou nos bosques emaranhados, o vento lhe traz ao ouvido o gemido lastimoso do menino. Se à vacilante claridade das estrelas se aventura a sair de seu esconderijo, seus olhares inquietos mergulham na escuridão das árvores sombrias para certificar-se de que não se divisa em parte alguma o vultinho esbranquiçado do menino; e, quando chega ao lugar onde se cruzam dois caminhos, aterra-o ver vir, pelo que ele deixa, o menino animando seu cavalo. Facundo dizia também que um só remorso o afligia: a morte dos vinte e seis oficiais fuzilados em Mendoza!
Quem é, entretanto, esse Santos Pérez? É o gaúcho mau da campanha de Córdoba, célebre na serra e na cidade por suas numerosas mortes, por seu arrojo extraordinário, por suas inauditas aventuras. Enquanto o general Paz permaneceu em Córdoba, ele chefiou as montoneras mais obstinadas e intangíveis da Serra, e por longo tempo o pago de Santa Catalina foi uma republiqueta onde os veteranos do exército não puderam penetrar. Com miras mais elevadas teria sido o digno rival de Quiroga; com seus vícios, só alcançou ser seu assassino. Era alto de talhe, belo de rosto, de cor pálida e barba negra e crespa. Por longo tempo foi depois perseguido pela justiça, e nada menos que quatrocentos homens andavam à sua busca. A princípio, os Reinafé o chamaram, e na casa do governo foi recebido amigavelmente. Ao sair da entrevista, começou a sentir uma estranha descompostura de estômago, que lhe sugeriu a ideia de consultar um médico amigo seu; este, informado por ele de ter tomado uma taça de licor que lhe fora oferecida, deu-lhe um elixir que o fez expelir oportunamente o arsênico que o licor dissimulava. Mais tarde, e no auge da perseguição, o comandante Casanovas, seu antigo amigo, mandou significar-lhe que tinha algo de importância a comunicar-lhe. Uma tarde, enquanto o esquadrão de que o comandante Casanovas era chefe fazia exercício diante de sua casa, Santos Pérez desmonta e lhe diz: “Aqui estou; que queria dizer-me?”—“Homem! Santos Pérez, passe por aqui; sente-se.”—“Não! Para que me mandou chamar?” O comandante, assim surpreendido, vacila e não sabe o que dizer naquele momento. Seu astuto e ousado interlocutor compreende-o e, lançando-lhe um olhar de desdém e dando-lhe as costas, diz: “Eu tinha certeza de que queria agarrar-me por traição! Vim apenas para me convencer.” Quando se deu ordem ao esquadrão para persegui-lo, Santos havia desaparecido. Por fim, uma noite o apanharam dentro da cidade de Córdoba, por uma vingança feminina.
Havia espancado a amante com quem dormia; esta, sentindo-o profundamente adormecido, levanta-se com precaução, toma-lhe as pistolas e o sabre, sai à rua e o denuncia a uma patrulha. Quando desperta, rodeado de fuzis apontados ao peito, lança mão das pistolas e, não as encontrando: “Estou rendido”, diz com serenidade. “Tiraram-me as pistolas!” No dia em que o fizeram entrar em Buenos Aires, uma multidão imensa se reunira à porta da casa do governo.
À sua vista, o populacho gritava: Morra Santos Pérez!, e ele, meneando desdenhosamente a cabeça e passeando seus olhares por aquela multidão, murmurava apenas estas palavras: “Se eu tivesse aqui minha faca!” Ao descer do carro que o conduzia à prisão, gritou repetidas vezes: “Morra o tirano!”; e, ao encaminhar-se ao patíbulo, sua estatura gigantesca, como a de Danton, dominava a multidão, e seus olhares se fixavam de vez em quando no cadafalso como num andaime de arquitetos.
O governo de Buenos Aires deu um aparato solene à execução dos assassinos de Juan Facundo Quiroga; a diligência ensanguentada e crivada de balas ficou por muito tempo exposta ao exame do povo, e o retrato de Quiroga, assim como a vista do patíbulo e dos justiçados, foram litografados e distribuídos aos milhares, como também extratos do processo, que se deu à luz em um volume in-fólio. A História imparcial ainda espera dados e revelações para assinalar com o dedo o instigador dos assassinos.
Não se sabe bem por que é que quer governar. Uma só coisa se pôde averiguar: é que está possuído por uma fúria que o atormenta: quer governar! É um urso que rompeu as grades de sua jaula, e, desde que tiver em suas mãos seu governo, porá todo o mundo em fuga. Ai daquele que cair em suas mãos! Não o largará até que expire sob seu governo. É uma sanguessuga que não se desprende enquanto não está repleta de sangue.
Lamartine.
Disse na introdução destes ligeiros apontamentos que, a meu ver, Facundo Quiroga é o núcleo da guerra civil da República Argentina e a expressão mais franca e cândida de uma das forças que lutaram sob diversos nomes durante trinta anos. A morte de Quiroga não é um fato isolado nem sem consequências; antecedentes sociais que desenvolvi antes a tornavam quase inevitável; era um desenlace político, como o que poderia ter dado uma guerra.
O governo de Córdoba, que se encarregou de consumar o atentado, era demasiado subalterno entre os que se haviam estabelecido para que ousasse acometer a empresa com tanto descaramento, se não se tivesse julgado apoiado pelos que iam colher os resultados. O assassinato de Quiroga é, pois, um ato oficial, longamente discutido entre vários governos, preparado com antecedência e levado a cabo com tenacidade como uma medida de Estado. Por isso, com sua morte não fica terminada uma série de fatos que me propus coordenar; e, para não deixá-la truncada e incompleta, preciso continuar um pouco mais adiante no caminho que levo, para examinar os resultados que produz na política interior da República, até que o número de cadáveres que cubram a senda já seja tão grande que me seja forçoso deter-me, à espera de que o tempo e a intempérie os destruam, para que desobstruam a marcha. Pela porta que deixa aberta o assassinato de Barranca-Yaco, entrará o leitor comigo num teatro onde ainda não terminou o drama sangrento.
Facundo morre assassinado em 18 de fevereiro; a notícia de sua morte chega a Buenos Aires no dia 24, e no início de março já estavam ajustadas todas as bases do governo necessário e inevitável do comandante geral de campanha, que desde 1833 teve a cidade em tortura, fatigando-a, angustiando-a, desesperando-a, até arrancar-lhe por fim, entre soluços e gemidos, a soma do Poder público, porque Rosas não se contentou desta vez com exigir a ditadura, as faculdades extraordinárias, etc. Não; o que pede é o que a frase expressa: tradições, costumes, formas, garantias, leis, culto, ideias, consciência, vida, fazendas, preocupações; somai tudo o que tem poder sobre a sociedade, e o resultado será a soma do poder público pedida. Em 5 de abril, a Junta de Representantes, em cumprimento do estipulado, elege governador de Buenos Aires, por cinco anos, o general don Juan Manuel Rosas, Herói do Deserto, Ilustre Restaurador das Leis, Depositário da Soma do Poder Público.
Mas não o satisfaz a eleição feita pela Junta de Representantes; o que medita é tão grande, tão novo, tão jamais visto, que é preciso tomar antes todas as seguranças imagináveis, não vá mais tarde dizer-se que o povo de Buenos Aires não lhe delegou a soma do Poder público. Rosas, governador, propõe às Mesas eleitorais esta questão: Convêm em que don Juan Manuel Rosas seja governador por cinco anos, com a soma do Poder público? E devo dizê-lo em obsequio à verdade histórica: nunca houve governo mais popular, mais desejado nem mais bem sustentado pela opinião.
Os unitários, que em nada haviam tomado parte, recebiam-no ao menos com indiferença; os federais, lombos negros, com desdém, mas sem oposição; os cidadãos pacíficos esperavam-no como uma bênção e um termo às cruéis oscilações de dois longos anos; a campanha, enfim, como símbolo de seu poder e da humilhação dos almofadinhas da cidade. Sob tão felizes disposições, principiaram as eleições ou ratificações de todas as paróquias, e a votação foi unânime, exceto três votos que se opuseram à delegação da soma do Poder público. Concebe-se como pôde suceder que, numa província de quatrocentos mil habitantes, segundo assegura a Gaceta, houvesse apenas três votos contrários ao governo? Seria acaso que os dissidentes não votaram? Nada disso! Não se tem ainda notícia de cidadão algum que não fosse votar; os enfermos levantaram-se da cama para ir dar seu assentimento, temerosos de que seus nomes fossem inscritos em algum registro negro, porque assim se havia insinuado.
O terror já estava na atmosfera, e, embora o trovão ainda não houvesse estalado, todos viam a nuvem negra e torva que vinha cobrindo o céu havia dois anos. Aquela votação é única nos anais dos povos civilizados, e os nomes dos três loucos, mais do que animosos opositores, conservaram-se na tradição do povo de Buenos Aires.
Há um momento fatal na história de todos os povos, e é aquele em que, cansados os partidos de lutar, pedem antes de tudo o repouso de que por longos anos careceram, ainda que à custa da liberdade ou dos fins que ambicionavam; este é o momento em que se erguem os tiranos que fundam dinastias e impérios. Roma, cansada das lutas de Mário e de Sila, de patrícios e plebeus, entregou-se com delícia à doce tirania de Augusto, o primeiro que encabeça a execrável lista dos imperadores romanos.
A França, depois do Terror, depois da impotência e desmoralização do Diretório, entregou-se a Napoleão, que, por um caminho semeado de louros, submeteu-a aos aliados que a devolveram aos Bourbons.
Rosas teve a habilidade de acelerar aquele cansaço, de criá-lo à força de tornar impossível o repouso. Uma vez senhor do poder absoluto, quem lho pedirá mais tarde, quem se atreverá a disputar-lhe seus títulos à dominação? Os romanos davam a ditadura em casos raros e por prazo curto e fixo; e, ainda assim, o uso da ditadura temporal autorizou a perpétua, que destruiu a República e trouxe todo o desenfreamento do Império. Quando o termo do governo de Rosas expira, anuncia sua decidida determinação de retirar-se à vida privada; a morte de sua cara esposa, a de seu pai, ulceraram seu coração; precisa ir longe do tumulto dos negócios públicos para chorar à vontade perdas tão amargas. O leitor deve recordar, ao ouvir esta linguagem na boca de Rosas, que ele não via seu pai desde a juventude, e a cuja esposa dera dias tão amargos, algo parecido com os hipócritas protestos de Tibério perante o Senado romano. A Sala de Buenos Aires lhe roga, suplica-lhe que continue fazendo sacrifícios pela pátria; Rosas deixa-se persuadir, continua apenas por mais seis meses; passam os seis meses e abandona-se a farsa da eleição. E, com efeito: que necessidade tem de ser eleito um chefe que enraizou o poder em sua pessoa? Quem lhe pede contas, tremendo do terror que inspirou a todos?
Quando a aristocracia veneziana sufocou a conspiração de Tiépolo em 1300, nomeou de seu seio dez indivíduos que, investidos de faculdades discricionárias, deviam perseguir e castigar os conjurados, limitando, porém, a duração de sua autoridade a apenas dez dias. Ouçamos o conde de Daru, em sua célebre História de Veneza, referir o acontecimento: “Tão iminente se julgou o perigo”, diz, “que se criou uma autoridade ditatorial depois da vitória. Um conselho de dez membros foi nomeado para velar pela conservação do Estado. Armou-se-lhe de todos os meios; livrou-se-lhe de todas as formas, de todas as responsabilidades; ficaram-lhe submetidas todas as cabeças.
“É verdade que sua duração não devia passar de dez dias; foi necessário, contudo, prorrogá-la por mais dez, depois por vinte, em seguida por dois meses; mas, afinal, foi prolongada seis vezes seguidas por este último termo. Ao cabo de um ano de existência, fez-se continuar por cinco. Então se achou demasiado forte para prorrogar-se a si mesmo durante mais dez anos, até que aquele terrível tribunal foi declarado perpétuo. O que fizera para prolongar sua duração, fez para estender suas atribuições. Instituído somente para conhecer dos crimes de Estado, esse tribunal apoderara-se da administração. Sob pretexto de velar pela segurança da República, intrometeu-se na paz e na guerra, dispôs das rendas e acabou por arrogar-se o poder soberano”[37].
Na República Argentina não é um Conselho que assim se apoderou da autoridade suprema: é um homem, e um homem bem indigno. Encarregado temporariamente das Relações Exteriores, depõe, fuzila, assassina os governadores das províncias que lhe fizeram o encargo. Revestido da soma do Poder público em 1835 por apenas cinco anos, em 1845 ainda está revestido daquele poder. E ninguém seria hoje tão cândido para esperar que o deixe, nem que o povo se atreva a pedi-lo. Seu governo é vitalício; e se a Providência consentisse que morresse pacificamente como o doutor Francia, longos anos de dores e misérias aguardam aqueles desgraçados povos, hoje vítimas do cansaço de um momento.
Em 13 de abril de 1835, Rosas tomou posse do governo, e seu talante desembaraçado e seu aprumo na cerimônia não deixaram de surpreender os iludidos que haviam acreditado ter um momento de diversão ao ver o desmaio e a gaucherie do gaúcho. Apresentou-se de casaca de general, desabotoada, que deixava ver um colete amarelo de algodão. Perdoem-me os que não compreendem o espírito dessa singular toilette o fato de eu recordar aquela circunstância.
Enfim: já tem o governo em suas mãos. Facundo morreu um mês antes; a cidade entregou-se à sua discrição; o povo confirmou, do modo mais autêntico, essa entrega de toda garantia e de toda instituição. O Estado é uma tábula rasa em que ele vai escrever uma coisa nova, original; ele é um poeta, um Platão que vai realizar sua república ideal segundo a concebeu; é este um trabalho que meditou durante vinte anos, e que por fim pode dar à luz sem que venham estorvar sua realização tradições envelhecidas, preocupações da época, plágios feitos à Europa, garantias individuais, instituições vigentes. É um gênio, enfim, que esteve lamentando os erros de seu século e preparando-se para destruí-los de um golpe. Tudo será novo, obra de seu engenho; vejamos este portento.
Da Sala de Representantes, onde foi receber o bastão, retira-se num coche vermelho, mandado pintar de propósito para o ato, ao qual estão atados cordões de seda vermelha, e a eles se jungem aqueles homens que desde 1833 mantiveram a cidade em contínuo alarme por seus atentados e sua impunidade; chama-se a Sociedade Popular e leva o punhal à cintura, colete vermelho e uma fita vermelha na qual se lê: Morram os unitários. À porta de sua casa fazem-lhe guarda de honra esses mesmos homens; depois acodem os cidadãos, depois os generais, porque é necessário fazer aquela manifestação de adesão sem limites à pessoa do Restaurador.
No dia seguinte aparece uma proclamação e uma lista de proscrição, na qual entra um de seus concunhados, o doutor Alsina. Aquela proclamação, que é um dos poucos escritos de Rosas, é um documento precioso que lamento não ter à mão. Era um programa de seu governo, sem disfarce, sem rodeios: quem não está comigo é meu inimigo; tal era o axioma de política nela consagrado. Anuncia-se que vai correr sangue, e promete apenas não atentar contra as propriedades. Ai dos que provocarem sua cólera!
Quatro dias depois, a paróquia de San Francisco anuncia sua intenção de celebrar uma missa e Te Deum em ação de graças ao Todo-Poderoso, etc., etc., convidando a vizinhança a solenizar o ato com sua presença. As ruas circunvizinhas estão embandeiradas, atapetadas, revestidas, decoradas. Aquilo é um bazar oriental em que se ostentam tecidos de damasco, púrpura, ouro e pedrarias em decorações caprichosas. O povo enche as ruas, os jovens acodem à novidade, as senhoras fazem da paróquia seu passeio da tarde. O Te Deum se posterga de um dia para outro, e a agitação da cidade, o ir e vir, a excitação, a interrupção de todo trabalho dura quatro, cinco dias consecutivos. A Gaceta repete os mínimos detalhes da esplêndida função.
Oito dias depois, outra paróquia anuncia seu Te Deum; os vizinhos propõem-se a rivalizar em entusiasmo e obscurecer a festa passada. Que luxo de decorações; que ostentação de riquezas e adornos! O retrato do Restaurador está na rua, sob um dossel, em que os veludos vermelhos se misturam aos galões e cordoaduras de ouro. Igual movimento por mais dias ainda; vive-se na rua, na paróquia privilegiada. Poucos dias depois, outra paróquia, outra festa em outro bairro. Mas até quando festas? O quê! Este povo não se cansa de espetáculos? Que entusiasmo é aquele, que não se esfria em um mês? Por que não fazem todas as paróquias sua função ao mesmo tempo? Não; é o entusiasmo sistemático, ordenado, administrado pouco a pouco.
Um ano depois, as paróquias ainda não terminaram de dar sua festa; a vertigem oficial passa da cidade à campanha, e é coisa de nunca acabar. A Gaceta da época está ali ocupada um ano e meio em descrever festas federais. O retrato se mistura em todas elas, puxado num carro feito para ele, pelos generais, pelas senhoras, pelos federais líquidos. “E o povo, encantado com tal espetáculo, entusiasmado com o Te Deum cantado muitíssimo bem a Nossa Senhora, o povo esquecia que pagava caríssimo por tudo e retirava-se muito alegre”[38].
Das festas sai, ao fim de ano e meio, a cor vermelha como insígnia de adesão à causa; o retrato de Rosas, colocado primeiro nos altares, passa depois a ser parte do equipamento de cada homem, que deve levá-lo no peito, em sinal de amor intenso à pessoa do Restaurador. Por último, de entre essas festas desprende-se enfim a terrível Mazorca, corpo de Polícia entusiasta, federal, que tem por encargo e ofício aplicar clisteres de pimenta e aguarrás aos descontentes, primeiro, e depois, não bastando esse tratamento flogístico, degolar aqueles que se lhes indiquem.
A América inteira zombou daquelas famosas festas de Buenos Aires e as olhou como o cúmulo da degradação de um povo; mas eu não vejo nelas senão um desígnio político, o mais fecundo em resultados. Como encarnar numa República que jamais conheceu reis a ideia da personalidade do governo? A fita vermelha é uma materialização do terror que vos acompanha por toda parte, na rua, no seio da família; é preciso pensar nela ao vestir-se, ao despir-se, e as ideias nos ficam gravadas sempre por associação. A vista de uma árvore no campo nos recorda o que íamos conversando dez anos antes ao passar perto dela; figurai as ideias que a fita vermelha traz consigo associadas e as impressões indeléveis que deve ter deixado unidas à imagem de Rosas!
Assim, numa comunicação de um alto funcionário de Rosas, li nestes dias “que é um sinal que seu governo mandou levar a seus empregados em sinal de conciliação e paz”. As palavras Morram os selvagens, asquerosos, imundos unitários são, por certo, muito conciliadoras, tanto que só no desterro ou no sepulcro haverá quem se atreva a negar sua eficácia. A Mazorca foi um poderoso instrumento de conciliação e de paz; e, se não, ide ver os resultados e procurai na terra cidade mais conciliada e pacífica que a de Buenos Aires. À morte de sua esposa, que uma pilhéria brutal de sua parte precipitou, manda que se lhe tributem honras de capitão-general e ordena um luto de dois anos à cidade e à campanha da província, que consiste num largo crepe atado ao chapéu com uma fita vermelha. Imaginai uma cidade culta, homens e crianças vestidos à europeia, uniformizados durante dois anos inteiros com uma orla vermelha no chapéu! Parece-vos ridículo? Não! Nada há de ridículo quando todos, sem exceção, participam da extravagância, e sobretudo quando o açoite ou os clisteres de pimenta estão ali para vos pôr sérios como estátuas, se vos vier a tentação de rir.
Os vigias noturnos cantam a cada quarto de hora: Viva o ilustre Restaurador! Viva dona Encarnación Ezcurra! Morram os ímpios unitários! O primeiro-sargento, ao passar lista à sua companhia, repete as mesmas palavras; a criança, ao levantar-se da cama, saúda o dia com a frase sacramental. Não faz um mês que uma mãe argentina, alojada numa hospedaria do Chile, dizia a um de seus filhos que despertava repetindo em voz alta: “Vivam os federais! Morram os selvagens, asquerosos unitários!”: “Cala-te, filho, não digas isso aqui, que não se usa; não digas mais, não vão te ouvir!”
Seu temor era fundado: ouviram-no! Que político produziu a Europa que tenha tido o alcance para compreender o meio de criar a ideia da personalidade do chefe de governo, nem a tenacidade prolixa de incubá-la quinze anos, nem que tenha tocado meios mais variados nem mais conducentes ao objeto? Podemos, nisso, contudo, consolar-nos de que a Europa tenha fornecido um modelo ao gênio americano. A Mazorca, com os mesmos caracteres, composta dos mesmos homens, existiu na Idade Média na França, no tempo das guerras entre os partidos dos Armagnacs e do duque de Borgonha. Na História de Paris, escrita por La Fosse, encontro estes singulares detalhes: “Esses instigadores do assassinato, a fim de reconhecer por toda parte os borgonheses, já haviam ordenado que levassem na roupa a cruz de Santo André, principal atributo do escudo de Borgonha; e, para estreitar mais os laços do partido, imaginaram em seguida formar uma Irmandade sob a invocação do mesmo Santo André. Cada confrade devia levar como sinal distintivo, além da cruz, uma coroa de rosas... Horrível confusão! O símbolo de inocência e ternura sobre a cabeça dos degoladores!... Rosas e sangue!... A sociedade odiosa dos cabochiens, isto é, a horda de açougueiros e esfoladores, foi solta pela cidade como uma tropa de tigres famintos, e esses verdugos sem número banharam-se em sangue humano”[39].
Ponde no lugar da cruz de Santo André a fita vermelha; no lugar das rosas vermelhas, o colete vermelho; no lugar de cabochiens, mazorqueiros; no lugar de 1418, data daquela sociedade, 1835, data desta outra; no lugar de Paris, Buenos Aires; no lugar do duque de Borgonha, Rosas, e tereis o plágio feito em nossos dias. A Mazorca, como os cabochiens, compôs-se em sua origem dos açougueiros e esfoladores de Buenos Aires. Como é instrutiva a História! Como se repete a cada instante!...
Outra criação daquela época foi o censo das opiniões. Esta é uma instituição verdadeiramente original. Rosas mandou levantar na cidade e na campanha, por meio dos juízes de paz, um registro em que se anotou o nome de cada vizinho, classificando-o como unitário, indiferente, federal ou federal líquido. Nos colégios, encarregou-se disso os reitores, e por toda parte se fez com a mais severa escrupulosidade, comprovando-se depois e admitindo-se as reclamações que a inexatidão pudesse originar. Esses registros, reunidos depois no gabinete do governo, serviram para fornecer gargantas à faca infatigável da Mazorca durante sete anos.
Sem dúvida espanta a ousadia do pensamento de formar a estatística das opiniões de um povo inteiro, caracterizá-las segundo sua importância e, com o registro à vista, seguir durante dez anos a tarefa de desembaraçar-se de todas as cifras adversas, destruindo na pessoa o germe da hostilidade. Nada igual me apresenta a História, senão as classificações da Inquisição, que distinguia as opiniões heréticas em malsoantes, ofensivas aos ouvidos piedosos, quase heresia, heresia, heresia perniciosa, etc., etc.; mas afinal a Inquisição não fez o cadastro da Espanha para exterminá-la nas gerações, no indivíduo, antes de ser denunciado ao Santo Tribunal.
Como meu ânimo é apenas mostrar a nova ordem de instituições que suplanta as que estamos copiando da Europa, preciso acumular as principais, sem atender às datas. A execução que chamamos fuzilar fica desde logo substituída pela de degolar. É verdade que se fuzilam certa manhã quarenta e quatro índios numa praça da cidade, para deixar todos gelados com essa matança que, embora de selvagens, era afinal de homens; mas pouco a pouco se abandona, e a faca se torna o instrumento da Justiça.
De onde tirou tão peregrinas ideias de governo esse homem horrivelmente extravagante? Vou consignar alguns dados. Rosas descende de uma família perseguida como goda durante a revolução da Independência. Sua educação doméstica ressente-se da dureza e da teimosia dos antigos costumes senhoriais. Eu disse que sua mãe, de caráter duro, tétrico, fez-se servir de joelhos até estes últimos anos; o silêncio o rodeou durante a infância, e o espetáculo da autoridade e da servidão deve ter-lhe deixado impressões duradouras.
Algo de extravagante houve no caráter da mãe, e isso se reproduziu em don Juan Manuel e duas de suas irmãs. Apenas chegado à puberdade, torna-se insuportável à família, e seu pai o desterra para uma estância. Rosas, com curtos intervalos, residiu na campanha de Buenos Aires perto de trinta anos; e já no ano de 1824 era uma autoridade que as sociedades industriais pecuárias consultavam em matéria de organização de estâncias. É o primeiro ginete da República Argentina, e, quando digo da República Argentina, suspeito que de toda a terra, porque nem um cavaleiro nem um árabe tem de haver-se com o potro selvagem da Pampa.
É um prodígio de atividade; sofre acessos nervosos em que a vida predomina tanto que precisa saltar sobre um cavalo, lançar-se a correr pela Pampa, soltar gritos descompassados, rolar, até que, por fim, extenuado o cavalo, e ele suando aos mares, volta às habitações já fresco e disposto para o trabalho. Napoleão e lorde Byron padeciam desses arrebatos, desses furores causados pelo excesso de vida.
Rosas distingue-se desde cedo na campanha pelas vastas empresas de léguas de semeaduras de trigo que acomete e leva a cabo com sucesso, e sobretudo pela administração severa, pela disciplina de ferro que introduz em suas estâncias. Esta é sua obra-prima, seu tipo de governo, que mais tarde ensaiará na própria cidade. É preciso conhecer o gaúcho argentino e suas propensões inatas, seus hábitos inveterados. Se, andando na Pampa, lhe ides propondo dar-lhe uma estância com gados que o façam rico proprietário; se corre em busca da curandeira dos arredores para que salve sua mãe, sua esposa querida que deixa agonizando, e uma ema atravessa seu caminho, lançará a correr atrás dela, esquecendo a fortuna que lhe ofereceis, a esposa ou a mãe moribunda; e não é só ele quem está dominado por esse instinto: o próprio cavalo relincha, sacode a cabeça e masca o freio de impaciência por voar atrás da ema. Se à distância de dez léguas de sua habitação o gaúcho dá pela falta de sua faca, volta para tomá-la, ainda que esteja a uma quadra do lugar aonde ia; porque a faca é para ele o que a respiração é para a própria vida.
Pois bem: Rosas conseguiu que em suas estâncias, que se unem sob diversos nomes desde os cerrillos até o arroio Cachagualefú, as emas andassem em rebanhos e deixassem, afinal, de fugir à aproximação do gaúcho; tão seguras e tranquilas pastam nas possessões de Rosas, e isso enquanto já foram extintas em todas as campanhas adjacentes. Quanto à faca, nenhum de seus peões a carregou jamais, embora a maior parte deles fossem assassinos perseguidos pela Justiça. Uma vez ele, por esquecimento, pôs o punhal à cintura, e o mordomo o fez notar; Rosas baixa as calças e manda que lhe deem duzentos açoites, que é a pena imposta em sua estância a quem leva faca.
Haverá gente que duvide desse fato confessado e publicado por ele mesmo; mas é autêntico, como o são as extravagâncias e raridades sangrentas que o mundo civilizado se negou obstinadamente a acreditar durante dez anos. A autoridade antes de tudo; o respeito ao mandado, ainda que ridículo ou absurdo; dez anos estará em Buenos Aires e em toda a República mandando açoitar e degolar, até que a fita vermelha seja uma parte da existência do indivíduo, como o próprio coração. Repetirá na presença do mundo inteiro, sem contemporizar jamais, em cada comunicação oficial: Morram os asquerosos, selvagens, imundos unitários!, até que o mundo inteiro se eduque e se habitue a ouvir esse grito sanguinário, sem escândalo, sem réplica, e já vimos um magistrado do Chile tributar sua homenagem e aquiescência a esse fato, que, afinal, a ninguém interessa.
Onde, pois, estudou esse homem o plano de inovações que introduz em seu governo, em desprezo do senso comum, da tradição, da consciência e da prática imemorial dos povos civilizados? Deus me perdoe se me engano, mas esta ideia me domina há tempo: na estância de gado em que passou toda sua vida, e na Inquisição, em cuja tradição foi educado. As festas das paróquias são uma imitação da ferra do gado, a que acodem todos os vizinhos; a fita vermelha que prende cada homem, mulher ou criança é a marca com que o proprietário reconhece seu gado; a degola a faca, erigida em meio de execução pública, vem do costume de degolar as reses que tem todo homem na campanha; a prisão sucessiva de centenas de cidadãos sem motivo conhecido e por anos inteiros é o rodeio com que se dociliza o gado, encerrando-o diariamente no curral; os açoites pelas ruas, a Mazorca, as matanças ordenadas, são outros tantos meios de domar a cidade, deixá-la enfim como o gado mais manso e ordenado que se conhece.
Essa minúcia e ordem distinguiram em sua vida privada don Juan Manuel Rosas, cujas estâncias eram citadas como modelo da disciplina dos peões e da mansidão do gado. Se esta explicação parece monstruosa e absurda, deem-me outra; mostrem-me a razão por que coincidem de modo tão espantoso seu manejo de uma estância, suas práticas e administração, com o governo, a prática e a administração de Rosas; até seu respeito de então pela propriedade é efeito de que o gaúcho governador é proprietário! Facundo respeitava menos a propriedade que a vida. Rosas perseguiu os ladrões de gado com igual obstinação que os unitários. Implacável se mostrou seu governo contra os coureadores da campanha, e centenas foram degolados. Isto é louvável, sem dúvida; eu apenas explico a origem da antipatia.
Mas há outra parte da sociedade que é preciso moralizar, ensinar a obedecer, a entusiasmar-se quando deva entusiasmar-se, a aplaudir quando deva aplaudir, a calar quando deva calar. Com a posse da Soma do Poder público, a Sala de Representantes fica inútil, posto que a lei emana diretamente da pessoa do chefe da República. Entretanto, conserva a forma, e durante quinze anos são reeleitos uns trinta indivíduos que estão a par dos negócios. Mas a tradição atribuiu outro papel à Sala; ali Alcorta, Guido e outros fizeram ouvir, no tempo de Balcarce e Viamonte, acentos de liberdade e censuras ao instigador das desordens; precisa, pois, quebrantar essa tradição e dar uma lição severa para o futuro.
O doutor don Vicente Maza, presidente da Sala e da Câmara de Justiça, conselheiro de Rosas, e o que mais contribuiu para elevá-lo, vê um dia que seu retrato foi tirado da sala do Tribunal por um destacamento da Mazorca; à noite, quebram os vidros das janelas de sua casa, onde foi asilar-se; no dia seguinte, escreve a Rosas, outrora seu protegido, seu afilhado político, mostrando-lhe a estranheza daqueles procedimentos e sua inocência de todo crime. Na noite do terceiro dia, dirige-se à Sala e estava ditando ao escrevente sua renúncia, quando a faca que lhe corta a garganta interrompe o ditado. Os representantes começam a chegar, o tapete está coberto de sangue, o cadáver do presidente jaz ainda estendido; o senhor Irigoyen propõe que no dia seguinte se reúna o maior número possível de carruagens para acompanhar devidamente ao cemitério a ilustre vítima. Don Baldomero García diz: “Parece-me bem; mas... não muitos coches... para quê?” Entra o general Guido, e comunicam-lhe a ideia, a que responde, cravando neles uns olhos enormes e olhando-os de fito a fito: “Coches? Acompanhamento? Que tragam o carro da Polícia e o levem agora mesmo.”—“Isso dizia eu”, continua García. “Para que coches!...” A Gaceta do dia seguinte anunciou que os ímpios unitários haviam assassinado Maza. Um governador do interior dizia, aterrorizado, ao saber da catástrofe: “É impossível que Rosas tenha mandado matá-lo!” Ao que seu secretário acrescentou: “E, se ele o fez, razão há de ter tido”; no que concordaram todos os circunstantes.
Efetivamente, razão tinha. Seu filho, o coronel Maza, tramara uma conspiração em que entrava todo o exército, e depois Rosas dizia que matara o velho pai para não lhe dar o pesar de ver morrer seu querido filho.
Mas ainda me falta entrar no vasto campo da política geral de Rosas com respeito à República inteira. Já tem seu governo; Facundo morreu deixando oito províncias órfãs, unitarizadas sob sua influência. A República marcha visivelmente para a unidade de governo, a que sua superfície plana, seu porto único, a condena. Disse-se que é federal, chame-se-a Confederação Argentina, mas tudo vai encaminhando-se à unidade mais absoluta; desde 1835 vem fundindo-se desde o interior em formas, práticas e influências. Mal Rosas assume o governo em 1835, declara, por uma proclamação, que os ímpios unitários assassinaram aleivosamente o ilustre general Quiroga, e que ele se propõe castigar atentado tão espantoso, que privou a Federação de sua coluna mais poderosa. O quê!... diziam, de boca aberta, os pobres unitários ao ler a proclamação; o quê!... Os Reinafé são unitários? Não são feitura de López? Não entraram em Córdoba perseguindo o exército de Paz? Não estão em ativa e amigável correspondência com Rosas? Não saiu Quiroga de Buenos Aires por solicitação de Rosas? Não ia um chasque adiante dele, anunciando aos Reinafé sua próxima chegada? Não tinham os Reinafé preparado de antemão a partida que devia assassiná-lo?... Nada; os ímpios unitários foram os assassinos, e desgraçado quem duvidar disso!... Rosas manda a Córdoba pedir os preciosos restos de Quiroga, a diligência em que foi morto, e se lhe fazem em Buenos Aires as exéquias mais suntuosas que até então se viram; manda-se carregar luto à cidade inteira. Ao mesmo tempo dirige uma circular a todos os governos, na qual lhes pede que o nomeiem juiz árbitro para seguir a causa e julgar os ímpios unitários que assassinaram Quiroga; indica-lhes a forma em que devem autorizá-lo, e por cartas particulares encarece-lhes a importância da medida; lisonjeia-os, seduz e roga. A autorização é unânime, e os Reinafé são depostos e presos todos os que tiveram parte, notícia ou atinência com o crime, e conduzidos a Buenos Aires.
Um Reinafé escapa e é alcançado no território da Bolívia; outro passa ao Paraná e mais tarde cai nas mãos de Rosas, depois de ter escapado em Montevidéu e de ser roubado por um capitão de navio. Rosas e o doutor Maza seguem a causa de noite, a portas fechadas. O doutor Gamboa, que toma alguma liberdade na defesa de um réu subalterno, é declarado ímpio unitário por decreto de Rosas. Enfim, são justiçados todos os criminosos que se apreenderam, e um volumoso extrato da causa vê a luz pública. Dois anos depois, López de Santa Fe morrera de enfermidade natural, embora o médico mandado por Rosas para assisti-lo tenha recebido mais tarde uma casa da Municipalidade como recompensa de seus serviços ao governo.
Cullen, o secretário de López na época da morte de Quiroga, e que, à morte de López, fica governador de Santa Fe por disposição testamentária do finado, é deposto por Rosas e tirado afinal de Santiago del Estero, onde se asilara, e a cujo governador Rosas manda uma bolsa de onças ou a declaração de guerra, caso o amigo não entregue seu amigo. O governador prefere as onças; Cullen é entregue a Rosas, e ao pisar a fronteira de Buenos Aires encontra uma partida e um oficial que o faz desmontar do cavalo e o fuzila. A Gaceta de Buenos Aires publicava depois uma carta de Cullen a Rosas, na qual havia indícios claros da cumplicidade do governo de Santa Fe no assassinato de Quiroga, e como o finado López, dizia a Gaceta, tinha plena confiança em seu secretário, ignorava o atroz crime que este estava preparando.
Ninguém podia replicar então que, se López o ignorava, Rosas não, porque a ele era dirigida a carta. Finalmente, o doutor don Vicente Maza, o secretário de Rosas e processador dos réus, morreu também degolado na sala de sessões; de modo que Quiroga, seus assassinos, os juízes dos assassinos e os instigadores do crime, todos tiveram em dois anos a mordaça que a tumba põe às revelações indiscretas. Ide agora perguntar quem mandou matar Quiroga. López? Não se sabe. Um major Muslera, de auxiliares, dizia certa vez na presença de muitas pessoas, em Montevidéu: “Até agora pude descobrir por que o general Rosas me manteve preso e incomunicável durante dois anos e cinco meses. Na noite anterior à minha prisão estive em sua casa.
“Sua irmã e eu estávamos sentados num sofá, enquanto ele passeava ao longo da sala, com sinais visíveis de descontentamento.—Aposto que não adivinha”, disse-me a senhora, “por que Juan Manuel está assim? É porque está vendo este raminho verde que tenho nas mãos; agora verá”, acrescentou, atirando-o ao chão. Efetivamente, don Juan Manuel deteve-se pouco depois, aproximou-se de nós e disse-me em tom familiar: “E o que se diz em San Luis da morte de Quiroga?”—“Dizem, senhor, que V. Exa. é quem mandou matá-lo.”—“É? Assim se corre...” Continuou passeando, despedi-me depois, e no dia seguinte fui preso, e permaneci até o dia em que chegou a notícia da vitória de Yungay, quando, com duzentos mais, fui posto em liberdade.” O major Muslera também morreu combatendo contra Rosas, o que não impediu que se continue até o dia de hoje dizendo o mesmo que aquele ouvira.
Mas o vulgo não viu na morte de Quiroga e no julgamento de seus assassinos mais que um crime horrível. A História verá outra coisa no primeiro: a fusão da República numa unidade compacta; e, no julgamento dos Reinafé, governadores de uma província, o fato que constitui Rosas chefe do governo unitário absoluto, que desde aquele dia e por aquele ato se constitui na República Argentina. Rosas, investido do poder de julgar outro governador, estabelece nas consciências dos demais a ideia da autoridade suprema de que está investido.
Julga os Reinafé por um crime averiguado; mas em seguida manda fuzilar, sem julgamento prévio, Rodríguez, governador de Córdoba, que sucedeu aos Reinafé, por não ter obedecido a todas as suas instruções; fuzila em seguida Cullen, governador de Santa Fe, por razões que só ele conhece; e, finalmente, expede um decreto pelo qual declara que nenhum governo das demais províncias será reconhecido válido enquanto não obtiver seu exequatur. Se ainda se duvida de que assumiu o mando supremo, e de que os demais governadores são simples paxás, a quem pode mandar o cordão roxo cada vez que não cumpram suas ordens, expedirá outro em que derroga todas as leis existentes da República desde o ano de 1810 em diante, embora tenham sido ditadas pelos Congressos gerais ou por qualquer outra autoridade competente; declarando ademais írrito e de nenhum valor tudo o que, em consequência e em cumprimento dessas leis, se houvesse praticado até então. Eu pergunto: que legislador, que Moisés ou Licurgo levou mais adiante a intenção de refundir uma sociedade sob um plano novo? A revolução de 1810 fica por este decreto derrogada; nenhuma lei nem arranjo fica vigente; o campo para as inovações limpo como a palma da mão, e a República inteira submetida sem dar sequer uma batalha e sem consultar os caudilhos.
A soma do Poder público de que se investira somente para Buenos Aires ele estende a toda a República, porque não só não se diz que é o sistema unitário que se estabeleceu, do qual a pessoa de Rosas é o centro, mas com mais afinco do que nunca se grita: Viva a federação; morram os unitários! O epíteto unitário deixa de ser o distintivo de um partido e passa a expressar tudo o que é execrado: os assassinos de Quiroga são unitários; Rodríguez é unitário; Cullen, unitário; Santa Cruz, que trata de estabelecer a confederação peru-boliviana, unitário. É admirável a paciência que Rosas mostrou em fixar o sentido de certas palavras e o empenho em repeti-las.
Em dez anos ter-se-á visto escrito na República Argentina trinta milhões de vezes: Viva a Confederação! Viva o ilustre Restaurador! Morram os selvagens unitários!, e jamais o cristianismo nem o maometismo multiplicaram tanto seus respectivos símbolos, a cruz e o crescente, para estereotipar a crença moral em exterioridades materiais e tangíveis. Ainda era preciso afinar aquele vitupério de unitário; foi primeiro lisa e simplesmente unitários; mais tarde, os ímpios unitários, favorecendo com isso as preocupações do partido ultracatólico que secundou sua elevação. Quando se emancipou desse pobre partido, e a faca alcançou também a garganta de padres e cônegos, foi preciso abandonar a denominação de ímpios; o acaso forneceu uma conjuntura.
Os jornais de Montevidéu começaram a chamar Rosas de selvagem; um dia, a Gaceta de Buenos Aires apareceu com este acréscimo ao tema ordinário: morram os selvagens unitários; repetiu-o a Mazorca, repetiram-no todas as comunicações oficiais, repetiram-no os governadores do interior, e ficou consumada a adoção. “Repita o senhor a palavra selvagem”, escrevia Rosas a López, “até a saciedade, até aborrecer, até cansar. Eu sei o que digo, amigo.” Mais tarde acrescentou-se imundos; mais tarde, asquerosos; mais tarde, enfim, don Baldomero García dizia numa comunicação ao governo do Chile, que serviu de cabeça de processo a Bedoya, que aquele emblema e aquele letreiro eram “um sinal de conciliação e de paz”, porque todo o sistema se reduz a zombar do senso comum.
A unidade da República realiza-se à força de negá-la; e, desde que todos dizem federação, claro está que há unidade. Rosas chama-se encarregado das Relações Exteriores da República, e só quando a fusão está consumada e passou à tradição, dez anos depois, don Baldomero García, no Chile, troca aquele título pelo de Diretor Supremo dos assuntos da República.
Eis aqui, pois, a República unitarizada, toda submetida ao arbítrio de Rosas; a antiga questão dos partidos de cidade desnaturada; mudado o sentido das palavras, e introduzido o regime da estância de gado na administração da República mais guerreira, mais entusiasta pela liberdade e que mais sacrifícios fez para consegui-la.
A morte de López entregava-lhe Santa Fe; a dos Reinafé, Córdoba; a de Facundo, as oito províncias da encosta dos Andes. Para tomar posse de todas elas, bastaram-lhe alguns obséquios pessoais, algumas cartas amistosas e algumas erogações do erário. Os auxiliares acantonados em San Luis receberam um magnífico vestuário, e seus soldos começaram a ser pagos pelas caixas de Buenos Aires.
O padre Aldao, além de uma soma de dinheiro, começou a receber seu soldo de general das mãos de Rosas; e o general Heredia, de Tucumán, que, por motivo da morte de Quiroga, escrevia a um amigo seu: “Ai, amigo! O senhor não sabe o que a República perdeu com a morte de Quiroga! Que futuro, que pensamento tão grande de homem! Queria constituir a República e chamar todos os emigrados para que contribuíssem com suas luzes e saber a esta grande obra”; o general Heredia recebeu armamento e dinheiro para preparar a guerra contra o ímpio unitário Santa Cruz, e esqueceu muito depressa o quadro grandioso que Facundo desenvolvera à sua vista nas conferências que teve com ele antes de sua morte.
Uma medida administrativa que influía sobre toda a nação veio servir de ensaio e manifestação dessa fusão unitária e dependência absoluta de Rosas. Rivadavia estabelecera correios que, de oito em oito dias, levavam e traziam a correspondência das províncias a Buenos Aires, e um mensal ao Chile e outro à Bolívia, que davam nome às duas linhas gerais de comunicação estabelecidas na República. Os governos civilizados do mundo põem hoje toda solicitude em aumentar, à custa de gastos imensos, os correios não só de cidade a cidade, dia por dia e hora por hora, mas no seio mesmo das grandes cidades, estabelecendo estafetas de bairro, e entre todos os pontos da terra por meio das linhas de vapores que atravessam o Atlântico ou costeiam o Mediterrâneo, porque a riqueza dos povos, a segurança das especulações de comércio, tudo depende da facilidade de adquirir notícias.
No Chile vemos todos os dias ou as reclamações dos povos para que se aumentem os correios, ou a solicitude do governo em multiplicá-los por mar ou por terra. Em meio a esse movimento geral do mundo para acelerar as comunicações dos povos, don Juan Manuel Rosas, para melhor governar suas províncias, suprime os correios, que não existem em toda a República há catorze anos. Em seu lugar estabelece chasques de governo, que despacha quando há uma ordem ou uma notícia a comunicar a seus subalternos.
Essa medida horrível e ruinosa produziu, contudo, para seu sistema, as consequências mais úteis. A expectativa, a dúvida, a incerteza mantêm-se no interior; os próprios governadores passam três ou quatro meses sem receber um despacho, sem saber senão de ouvir dizer o que ocorre em Buenos Aires. Quando um conflito passou, quando uma vantagem se obteve, então partem os chasques ao interior conduzindo cargas de Gacetas, partes e boletins, com uma carta ao amigo, ao companheiro e governador, anunciando-lhe que os selvagens unitários foram derrotados, que a Divina Providência vela pela conservação da República.
Aconteceu em 1843 que, em Buenos Aires, as farinhas tinham preço exorbitante, e as províncias do interior o ignoravam; alguns que tiveram notícias privadas de seus correspondentes mandaram carregamentos que lhes deixaram pingues lucros. Então as províncias de San Juan e Mendoza, em massa, moveram-se a especular sobre as farinhas. Milhares de cargas atravessam a Pampa, chegam a Buenos Aires e encontram... que fazia dois meses que haviam baixado de preço, até não cobrirem nem os fretes. Mais tarde, corre em San Juan que as farinhas valorizaram em Buenos Aires; os colhedores sobem o preço; sobem as propostas; compra-se o trigo por quantias exorbitantes; acumula-se em várias mãos, até que por fim uma tropa de mulas que chega descobre que não houve alteração nenhuma na praça, e que ela deixa sua carga de farinha porque não há compradores. Imaginai, se podeis, povos colocados a imensas distâncias sendo governados desse modo!
Ainda nestes últimos anos as consequências de seus atropelos lhe serviram para consumar sua obra unitária. O governo do Chile, desprezado em suas reclamações sobre males inferidos a seus súditos, julgou oportuno cortar as relações comerciais com as províncias de Cuyo. Rosas aplaudiu a medida e calou a boca. O Chile lhe proporcionava o que ele não se atrevera a tentar, que era fechar todas as vias de comércio que não dependessem de Buenos Aires. Mendoza e San Juan, La Rioja e Tucumán, que proviam de gado, farinha, sabão e outros ramos valiosos as províncias do norte do Chile, abandonaram esse tráfico. Um enviado veio ao Chile, esperou seis meses em Mendoza, até que a cordilheira se fechasse, e aqui está há três sem ter dito uma palavra sobre abrir o comércio.
Organizada a República sob um plano de combinações tão fecundas em resultados, Rosas contraiu-se à organização de seu poder em Buenos Aires, assentando-lhe bases duradouras. A campanha o havia empurrado sobre a cidade; mas, abandonando ele a estância pelo Forte, precisando moralizar essa mesma campanha como proprietário e apagar o caminho por onde outros comandantes de campanha poderiam seguir suas pegadas, consagrou-se a levantar um exército, que se engrossava dia a dia, e que devia servir para conter a República na obediência e levar o estandarte da santa causa a todos os povos vizinhos.
Não era só o exército a força que substituíra a adesão da campanha e a opinião pública da cidade. Dois povos distintos, de raças diversas, vieram em seu apoio. Existe em Buenos Aires uma multidão de negros, dos milhares tomados pelos corsários durante a guerra do Brasil. Formam associações segundo os povos africanos a que pertencem, têm reuniões públicas, caixa municipal e um forte espírito de corpo que os sustenta em meio aos brancos.
Os africanos são conhecidos por todos os viajantes como uma raça guerreira, cheia de imaginação e de fogo, e, embora ferozes quando excitados, dóceis, fiéis e devotados ao amo ou aos que os ocupam. Os europeus que penetram no interior da África tomam negros a seu serviço, que os defendem dos outros negros e se expõem por eles aos maiores perigos.
Rosas formou uma opinião pública, um povo adicto na população negra de Buenos Aires, e confiou a sua filha dona Manuelita esta parte de seu governo. A influência das negras junto a ela, seu favor para com o governo, foram sempre sem limites. Um jovem sanjuanino estava em Buenos Aires quando Lavalle se aproximava em 1840; havia pena de morte para quem saísse do recinto da cidade. Uma negra velha que em outro tempo pertencera à sua família e fora vendida em Buenos Aires o reconhece; sabe que está detido: “Amito”, diz-lhe, “como não me avisou? Neste momento vou conseguir-lhe passaporte.”—“Tu?”—“Eu, amito; a senhorita Manuelita não mo negará.” Um quarto de hora depois, a negra voltava com o passaporte assinado por Rosas, com ordem às partidas para deixá-lo sair livremente.
Os negros assim ganhos para o governo punham nas mãos de Rosas uma zelosa espionagem no seio de cada família, por meio dos criados e escravos, proporcionando-lhe, além disso, excelentes e incorruptíveis soldados de outro idioma e de uma raça selvagem. Quando Lavalle se aproximou de Buenos Aires, o Forte e Santos Lugares estavam cheios, à falta de soldados, de negras entusiastas vestidas de homem para engrossar as forças. A adesão dos negros deu ao poder de Rosas uma base indestrutível. Felizmente, as contínuas guerras já exterminaram a parte masculina dessa população, que encontrava sua pátria e sua maneira de governar no amo a quem servia. Para intimidar a campanha, atraiu aos fortes do Sul algumas tribos selvagens, cujos caciques estavam às suas ordens.
Assegurados esses pontos principais, o tempo irá consolidando a obra de organização unitária que o crime iniciara, e que sustentavam o engano e a astúcia. A República assim reconstruída, sufocado o federalismo das províncias, e, por persuasão, conveniência ou temor, obedecendo todos os seus governos ao impulso que se lhes dá de Buenos Aires, Rosas precisa sair dos limites de seu Estado para ostentar fora, para exibir à luz pública a obra de seu engenho. De que lhe serviu absorver as províncias se afinal havia de permanecer, como o doutor Francia, sem brilho no exterior, sem contato nem influência sobre os povos vizinhos? A forte unidade dada à República é apenas a base firme de que precisa para lançar-se e produzir-se num teatro mais elevado, porque Rosas tem consciência de seu valor e espera uma nomeada imperecível.
Convidado pelo governo do Chile, toma parte na guerra que esse Estado faz a Santa Cruz. Que motivos o fazem abraçar com tanto ardor uma guerra distante e sem antecedentes para ele? Uma ideia fixa que o domina desde muito antes de exercer o governo supremo da República, a saber: a reconstrução do antigo vice-reinado de Buenos Aires.
Não é que então conceba apoderar-se da Bolívia, mas, havendo questões pendentes sobre limites, reclama a província de Tarija; o resto o darão o tempo e as circunstâncias. À outra margem do Prata há também uma desmembração do vice-reinado: a República Oriental. Ali Rosas encontra meios de estabelecer sua influência com o governo de Oribe, e, se não obtém que a imprensa deixe de atacá-lo, consegue ao menos que o pacífico Rivadavia, os Agüero, Varelas e outros unitários de nota sejam expulsos do território oriental.
Desde então a influência de Rosas se encarna cada vez mais naquela República, até que por fim o ex-presidente Oribe se constitui general de Rosas, e os emigrados argentinos se confundem com os nacionais na resistência que opõem a essa conquista disfarçada com nomes especiosos. Mais tarde, quando o doutor Francia morre, Rosas se nega a reconhecer a independência do Paraguai, sempre preocupado com sua ideia favorita: a reconstrução do antigo vice-reinado.
Mas todas essas manifestações da Confederação Argentina não bastam para mostrá-lo em toda sua luz; necessita-se de um campo mais vasto, antagonistas mais poderosos, questões de mais brilho, uma potência europeia, enfim, com quem haver-se e mostrar-lhe o que é um governo americano original, e a fortuna não se esquiva desta vez de oferecê-la.
A França mantinha em Buenos Aires, na qualidade de agente consular, um jovem de coração e capaz de ardentes simpatias pela civilização e pela liberdade. M. Roger está relacionado com a juventude letrada de Buenos Aires e olha, com a indignação de um coração jovem e francês, os atos de imoralidade, a subversão de todo princípio de justiça e a escravidão de um povo que estima altamente. Não quero entrar na apreciação dos motivos ostensivos que motivaram o bloqueio da França, mas nas causas que vinham preparando uma coalizão entre Rosas e os agentes dos poderes europeus. Os franceses, sobretudo, já se haviam distinguido desde 1828 por sua decisão entusiasta pela causa que sustentavam os antigos unitários. M. Guizot disse em pleno Parlamento que seus concidadãos são muito intrometidos; não porei em dúvida autoridade tão competente; a única coisa que assegurarei é que, entre nós, os franceses residentes se mostraram sempre franceses, europeus e homens de coração; se depois, em Montevidéu, se mostraram o que em 1828, isso provará que em todos os tempos são intrometidos, ou então que há algo nas questões políticas do Prata que lhes toca muito de perto.
Entretanto, não compreendo como concebe M. Guizot que, num país cristão, em que os franceses residentes têm seus filhos e sua fortuna e esperam fazer dele sua pátria definitiva, devam olhar com indiferença que se levante e se afirme um sistema de governo que destrói todas as garantias das sociedades civilizadas e abjura todas as tradições, doutrinas e princípios que ligam aquele país à grande família europeia.
Se a cena fosse na Turquia ou na Pérsia, compreendo muito bem que seriam demasiado intrometidos os estrangeiros que se misturassem nas querelas dos habitantes; entre nós, e quando as questões são da classe das que ali se ventilam, acho muito difícil crer que o próprio M. Guizot conservasse fleuma suficiente para não desejar sequer o triunfo daquela causa que mais de acordo está com sua educação, hábitos e ideias europeias. Seja como for, o certo é que os europeus, de qualquer nação que sejam, abraçaram com calor um partido, e, para que isso suceda, causas sociais muito profundas devem militar para vencer o egoísmo natural ao homem estrangeiro; mais indiferentes se mostraram sempre os próprios americanos.
A Gaceta de Rosas queixa-se até hoje da hostilidade puramente pessoal de Purvis e outros agentes europeus que favorecem os inimigos de Rosas, ainda contra as ordens expressas de seus governos. Essas antipatias pessoais de europeus civilizados, mais que a morte de Bacle, prepararam o bloqueio. O jovem Roger quis pôr o peso da França na balança em que não alcançava a pesar bastante o partido europeu civilizado que Rosas destruía, e M. Martigny, tão apaixonado quanto ele, secundou-o naquela obra mais digna dessa França ideal que nos fez amar a literatura francesa do que da verdadeira França, que anda hoje arrastando-se atrás de todas as questões de fatos mesquinhos e sem elevação de vistas.
Uma desavença com a França era para Rosas o belo ideal de seu governo, e não seria dado saber quem azedava mais a discussão: se M. Roger, com suas reclamações, seu desejo de fazer cair aquele tirano bárbaro, ou Rosas, animado de sua ojeriza contra os estrangeiros e suas instituições, trajes, costumes e ideias de governo. “Este bloqueio”, dizia Rosas esfregando as mãos de contentamento e entusiasmo, “vai levar meu nome por todo o mundo, e a América me olhará como defensor de sua independência.” Suas antecipações foram além do que ele podia prometer-se, e sem dúvida Mehemet-Alí nem Abdel-Kader gozam hoje na terra de uma nomeada mais sonora que a sua.
Quanto ao título de Defensor da Independência Americana, que ele se arrogou, os homens ilustrados da América começam hoje a disputá-lo, e talvez os fatos venham tristemente mostrar que só Rosas podia lançar a Europa sobre a América e forçá-la a intervir nas questões que deste lado do Atlântico se agitam. A tríplice intervenção que se anuncia é a primeira que teve lugar nos novos Estados americanos.
O bloqueio francês foi a via pública pela qual chegou a manifestar-se sem rebuço o sentimento chamado propriamente americanismo. Tudo o que temos de bárbaro; tudo o que nos separa da Europa culta mostrou-se desde então na República Argentina organizado em sistema e disposto a fazer de nós uma entidade à parte dos povos de procedência europeia. Ao par da destruição de todas as instituições que nos esforçamos por copiar da Europa por toda parte, ia a perseguição ao fraque, à moda, às costeletas, às fitas do calção, à forma do colarinho do colete e ao penteado que trazia o figurino; e a essas exterioridades europeias substituía-se a calça larga e solta, o colete vermelho, a jaqueta curta, o poncho, como trajes nacionais, eminentemente americanos; e esse mesmo don Baldomero García que hoje nos traz ao Chile o Morram os selvagens, asquerosos, imundos unitários, como “sinal de conciliação e de paz”, foi empurrado para fora do Forte um dia em que, como magistrado, acudia a um beija-mão, por ter o selvagismo asqueroso e imundo de apresentar-se de fraque.
Desde então a Gaceta cultiva, alarga, agita e desenvolve no ânimo de seus leitores o ódio aos europeus, o desprezo pelos europeus que querem conquistar-nos. Aos franceses chama titereiros sarnentos; a Luís Filipe, guardador de porcos unitário, e à política europeia, bárbara, asquerosa, brutal, sanguinária, cruel, inumana. O bloqueio principia, e Rosas escolhe meios de resistir-lhe dignos de uma guerra entre ele e a França. Tira dos catedráticos das Universidades suas rendas; das escolas primárias de homens e de mulheres, as dotações vultosas que Rivadavia lhes havia atribuído; fecha todos os estabelecimentos filantrópicos; os loucos são atirados às ruas, e os vizinhos se encarregam de encerrar em suas casas aqueles perigosos desgraçados.
Não há uma penetrante sutileza nessas medidas? Não se faz a verdadeira guerra à França, que em luzes está à frente da Europa, atacando-a na educação pública? A Mensagem de Rosas anuncia todos os anos que o zelo dos cidadãos mantém os estabelecimentos públicos. Bárbaro! É a cidade que trata de salvar-se de ser convertida em pampa se abandona a educação que a liga ao mundo civilizado! Efetivamente: o doutor Alcorta e outros jovens dão lições grátis na Universidade durante muitos anos, a fim de que os cursos não se fechem; os mestres-escolas continuam ensinando e pedem aos pais de família uma esmola para viver, porque querem continuar dando aulas.
A Sociedade de Beneficência percorre secretamente as casas em busca de subscrições; improvisa recursos para manter as heroicas professoras que, contanto que não morram de fome, juraram não fechar suas escolas; e, no 25 de Maio, apresentam todos os anos seus milhares de alunas, vestidas de branco, para mostrar seu aproveitamento nos exames públicos... Ah, corações de pedra! Ainda nos perguntareis por que combatemos?
Daria, com o que precede, por terminadas as consequências que da vida de Facundo Quiroga derivaram nos fatos históricos e na política da República Argentina, se, para conclusão destes apontamentos, ainda não me restasse apreciar as consequências morais trazidas pela luta das campanhas pastoris com as cidades e os resultados, já favoráveis, já adversos, que ela deu para o futuro da República.
Marco da literatura e do pensamento político argentino, Facundo investiga a tensão entre civilização e barbárie a partir da figura de Juan Facundo Quiroga, das pampas, das cidades e das guerras civis do século XIX. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
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