Universo da obra
Universo da obra
Como se alonga o dia!, porque
amanhã quero galopar dez quadras
sobre um campo semeado de
cadáveres.Shakespeare.
Tal como a pintamos, era em 1825 a fisionomia política da República quando o Governo de Buenos Aires convidou as províncias a se reunirem em congresso para dar a si mesmas uma forma de governo geral. De todas as partes essa ideia foi acolhida com aprovação, fosse porque cada caudilho contasse constituir-se caudilho legítimo de sua província, fosse porque o brilho de Buenos Aires ofuscasse todos os olhares e não fosse possível recusar, sem escândalo, uma pretensão tão racional. Imputou-se ao Governo de Buenos Aires como falta o haver promovido essa questão, cuja solução devia ser tão funesta para ele mesmo e para a civilização; mas toda civilização, como as próprias religiões, é generalizadora, propagandista, e mal creria um homem que não desejasse que todos cressem como ele.
Facundo recebeu em La Rioja o convite e acolheu a ideia com entusiasmo, talvez por aquelas simpatias que os espíritos altamente dotados têm pelas coisas essencialmente boas.
Nessa altura, a República preparava-se para a guerra do Brasil, e a cada província fora encomendada a formação de um regimento para o exército. A Tucumán veio com esse encargo o general La Madrid que, impaciente por obter os recrutas e elementos necessários para levantar seu regimento, não hesitou muito em derrubar aquelas autoridades morosas e subir ele próprio ao Governo, a fim de expedir os decretos convenientes ao efeito. Esse ato subversivo punha o Governo de Buenos Aires em posição delicada. Havia desconfiança nos governos, ciúmes de província, e o coronel La Madrid, vindo de Buenos Aires e transtornando um Governo provincial, fazia esse Governo aparecer aos olhos da nação como instigador. Para desvanecer tal suspeita, o Governo de Buenos Aires insta Facundo a invadir Tucumán e restabelecer as autoridades provinciais. La Madrid explica ao Governo o motivo real, embora bem frívolo, por certo, que o impulsionara, e protesta sua adesão inalterável. Mas já era tarde: Facundo estava em movimento, e era preciso preparar-se para repeli-lo. La Madrid pôde dispor de um armamento que seguia para Salta; mas por delicadeza, para não agravar ainda mais as acusações que pesavam contra ele, contentou-se em tomar cinquenta fuzis e outros tantos sabres, suficientes, segundo ele, para acabar com a força invasora.
É o general La Madrid um desses tipos naturais do solo argentino. Aos catorze anos começou a fazer guerra aos espanhóis, e os prodígios de seu valor romanesco passam os limites do possível; achou-se em cento e quarenta encontros, em todos os quais a espada de La Madrid saiu amolgada e destilando sangue; a fumaça da pólvora e os relinchos dos cavalos o arrebatam materialmente, e basta que ele retalhe tudo quanto se lhe põe diante, cavalos, canhões, infantes, ainda que a batalha se perca. Dizia que é um tipo natural daquele país, não por essa valentia fabulosa, mas porque é oficial de cavalaria e, além disso, poeta. É um Tirteu que anima o soldado com canções guerreiras, o cantor de que falei na primeira parte; é o espírito gaucho, civilizado e consagrado à liberdade. Infelizmente, não é um general quadrado, como o pedia Napoleão; o valor predomina sobre as outras qualidades do general na proporção de cem para uma. E, se não, vede o que faz em Tucumán: podendo, não reúne forças suficientes e, com um punhado de homens, apresenta batalha, embora o acompanhe o coronel Díaz Vélez, pouco menos valente que ele. Facundo trazia duzentos infantes e seus Colorados de cavalaria. La Madrid tem cinquenta infantes e alguns esquadrões de milícias. Começa o combate, arrola a cavalaria de Facundo, e o próprio Facundo, que não volta ao campo de batalha senão depois de tudo concluído. Fica a infantaria em coluna cerrada; La Madrid manda carregá-la, não é obedecido e carrega sozinho. Certo: ele sozinho atropela a massa de infantaria; derrubam-lhe o cavalo, ele se ergue, volta a carregar seu dono; mata, fere, golpeia tudo quanto está ao seu alcance, até que cavalo e cavaleiro caem transpassados de balas e baionetadas, com o que a vitória se decide pela infantaria. Ainda no chão lhe cravam nas costas a baioneta de um fuzil, disparam o tiro, e a bala e a baioneta o atravessam, assando-o ainda com o clarão da descarga. Facundo volta enfim para recuperar sua bandeira negra, que perdera, e encontra uma batalha ganha e La Madrid morto, bem morto. Sua roupa estava ali; sua espada, seu cavalo, nada falta, exceto seu cadáver, que não se pode reconhecer entre os muitos mutilados e nus que jazem no campo. O coronel Díaz Vélez, prisioneiro, diz que seu irmão tinha uma lançada numa perna; não há ali cadáver com ferida semelhante.
La Madrid, crivado de onze feridas, arrastara-se até uns matagais, onde seu assistente o encontrou delirando com a batalha e respondendo ao ruído de passos que se aproximavam: “Não me rendo!” Nunca até então se rendera o coronel La Madrid.
Eis a famosa ação do Tala, primeiro ensaio de Quiroga fora dos limites da província. Venceu nela o valente dos valentes e conserva sua espada como troféu da vitória. Deter-se-á aí? Mas vejamos a força que Rivadavia opôs ao coronel do regimento número 15, que transtornara um governo para equipar seu corpo. Facundo desfralda no Tala uma bandeira que não é argentina, que é de sua invenção. É um pano negro com uma caveira e ossos cruzados no centro. Esta é sua bandeira, que perdera no princípio do combate e que “vai recuperar — diz a seus soldados dispersos — ainda que seja na porta do inferno”. A morte, o espanto, o inferno, apresentam-se no pavilhão e na proclama do general dos Llanos. Vistes esse mesmo pano mortuário sobre o féretro dos mortos quando o sacerdote canta Portæ inferi?
Mas há ainda algo mais que revela desde então o espírito da força pastoril, árabe, tártara, que vai destruir as cidades. As cores argentinas são o celeste e o branco; o céu transparente de um dia sereno, e a luz nítida do disco do sol; a paz e a justiça para todos. De tanto odiar a tirania e a violência, nosso pavilhão e nossas armas excomungam o brasão e os troféus guerreiros. Duas mãos, em sinal de união, sustentam o barrete frígio do liberto; as cidades unidas, diz esse símbolo, sustentarão a liberdade adquirida; o sol começa a iluminar o teatro desse juramento, e a noite vai desaparecendo pouco a pouco. Os exércitos da República que levam a guerra a todas as partes para tornar efetivo aquele porvir de luz, e converter em dia a aurora que o escudo de armas anuncia, vestem azul-escuro e com guarnições diversas: vestem à europeia. Pois bem: no seio da República, do fundo de suas entranhas, levanta-se a cor vermelha, e faz-se veste do soldado, pavilhão do exército e, por fim, a cocarda nacional, que, sob pena de vida, todo argentino há de levar.
Sabeis o que é a cor vermelha? Eu tampouco o sei; mas vou reunir algumas reminiscências.
Tenho diante dos olhos um quadro das bandeiras de todas as nações do mundo. Só há uma europeia culta em que o vermelho predomine, não obstante a origem bárbara de seus pavilhões. Mas há outras vermelhas; leio: Argel, pavilhão vermelho com caveira e ossos; Túnis, pavilhão vermelho; Mogol, idem; Turquia, pavilhão vermelho com crescente; Marrocos, Japão, vermelho com a lâmina exterminadora; Sião, Surate etc., o mesmo.
Recordo que os viajantes que tentam penetrar no interior da África se proveem de pano vermelho para agradar aos príncipes negros. O rei de Elve, dizem os irmãos Lardner, levava um sobretudo espanhol de pano vermelho e calças da mesma cor.
Recordo que os presentes que o Governo do Chile manda aos caciques de Arauco consistem em mantas e roupas vermelhas, porque essa cor agrada muito aos selvagens.
A capa dos imperadores romanos que representavam o ditador era de púrpura, isto é, vermelha.
O manto real dos reis bárbaros da Europa foi sempre vermelho.
A Espanha foi o último país europeu que repudiou o vermelho, que trazia na capa escarlate.
Dom Carlos, na Espanha, o pretendente absoluto, iça uma bandeira vermelha.
O Regulamento Régio de Gênova[27], dispondo que os senadores usem toga purpúrea, vermelha, previne que assim se pratique particularmente “em execução de sentença criminal, a fim de incutir, com sua grave e decorosa presença, o terror e o espanto nos cativos”.
O verdugo em todos os Estados europeus vestia de vermelho até o século passado.
Artigas acrescenta ao pavilhão argentino uma faixa diagonal vermelha.
Os exércitos de Rosas vestem de vermelho.
Seu retrato é estampado numa fita vermelha.
Que vínculo misterioso liga todos estes fatos? É casualidade que Argel, Túnis, o Japão, Marrocos, Turquia, Sião, os africanos, os selvagens, os Neros romanos, os reis bárbaros, o terror e o espanto, o verdugo e Rosas estejam vestidos com uma cor hoje proscrita pelas sociedades cristãs e cultas? Não é o vermelho o símbolo que exprime violência, sangue e barbárie? E, se não, por que esse antagonismo?
A revolução da independência argentina simboliza-se em duas tiras celestes e uma branca, como se dissesse: justiça, paz, justiça!
A reação encabeçada por Facundo e aproveitada por Rosas simboliza-se numa fita vermelha que diz: terror, sangue, barbárie!
A espécie humana deu em todos os tempos esse significado à cor escarlate, vermelha, púrpura; ide estudar o Governo nos povos que ostentam essa cor e achareis Rosas e Facundo: o terror, a barbárie, o sangue correndo todos os dias. Em Marrocos, o Imperador tem a singular prerrogativa de matar ele mesmo os criminosos.
Preciso deter-me sobre este ponto. Toda civilização se exprime em trajes, e cada traje indica um sistema inteiro de ideias. Por que usamos hoje a barba inteira? Pelos estudos que se fizeram nestes tempos sobre a Idade Média; a direção impressa à literatura romântica se reflete na moda. Por que ela varia todos os dias? Pela liberdade do pensamento; escravizai-o e tereis vestimenta invariável; assim na Ásia, onde o homem vive sob governos como o de Rosas, veste desde os tempos de Abraão roupa talar.
Ainda há mais: cada civilização teve seu traje, e cada mudança nas ideias, cada revolução nas instituições, uma mudança no vestir. Um traje a civilização romana, outro a Idade Média; o fraque não começa na Europa senão depois do renascimento das ciências; a moda não a impõe ao mundo senão a nação mais civilizada; de fraque vestem todos os povos cristãos, e quando o sultão da Turquia, Abdul Medjid, quer introduzir a civilização europeia em seus Estados, depõe o turbante, o caftã e as bombachas para vestir fraque, calça e gravata.
Os argentinos conhecem a guerra obstinada que Facundo e Rosas fizeram ao fraque e à moda. No ano de 1840, um grupo de mazorqueiros rodeia, na escuridão da noite, um indivíduo que ia de levita pelas ruas de Buenos Aires; as facas estão a dois dedos de sua garganta. “Sou Simón Pereira”, exclama. “Senhor, quem anda vestido assim se expõe.” “Por isso mesmo me visto; quem, senão eu, anda de levita? Faço-o para que me reconheçam de longe.” Este senhor é primo e companheiro de negócios de dom Juan Manuel Rosas. Mas, para terminar as explicações que me proponho dar sobre a cor vermelha iniciada por Facundo e ilustrar com seus símbolos o caráter da guerra civil, devo referir aqui a história da fita vermelha que hoje já sai a ostentar-se lá fora. Em 1820 apareceram em Buenos Aires, com Rosas, os Colorados de las Conchas; a campanha mandava esse contingente. Rosas, aos vinte anos, reveste enfim a cidade de vermelho: casas, portas, papéis de parede, louças, tapeçarias, cortinados etc., etc. Por último, consagra essa cor oficialmente e a impõe como uma medida de Estado.
A história da fita vermelha é muito curiosa. A princípio foi uma divisa que adotaram os entusiastas; mandou-se depois que todos a levassem, para que provasse a uniformidade da opinião. Desejava-se obedecer, mas, ao mudar de roupa, esquecia-se. A polícia veio em auxílio da memória. Distribuíam-se mazorqueiros pelas ruas, e sobretudo às portas dos templos, e à saída das senhoras distribuíam-se sem misericórdia chibatadas com varas de touro. Mas ainda restava muito a arrumar. Levava alguém a fita negligentemente atada? Vergastadas! Era unitário. Levava-a pequena? Vergastadas! Era unitário. Não a levava? Degolá-lo por contumaz! Não pararam aí nem a solicitude do Governo nem a educação pública. Não bastava ser federal nem levar a fita; era preciso, além disso, ostentar sobre o coração o retrato do ilustre Restaurador, em sinal de amor intenso, e os letreiros: morram os selvagens imundos unitários[28]. Crer-se-ia que com isso estava terminada a obra de envilecer um povo culto e fazê-lo renunciar a toda dignidade pessoal? Ah! Ainda não estava bem disciplinado. Amanhecia uma manhã numa esquina de Buenos Aires uma figurona pintada em papel com uma fita flutuante de meia vara. No momento em que alguém a via, recuava apavorado, levando por toda parte o alarme, entrava na primeira loja e saía dali com uma fita de meia vara. Dez minutos depois toda a cidade se apresentava nas ruas, cada qual com sua fita flutuante de meia vara de comprimento. Aparecia outro dia outra figurona com ligeira alteração na fita: a mesma manobra.
Se alguma senhorita se esquecia do laço vermelho, a polícia lhe pregava um de graça na cabeça, com breu derretido! Assim se conseguiu uniformizar a opinião! Perguntai em toda a República Argentina se há alguém que não sustente e creia que é federal...! Aconteceu mil vezes que um vizinho saiu à porta de sua casa e, vendo varrida a parte fronteira da rua, no ato mandou varrer, seguiu-lhe o vizinho, e em meia hora ficou varrida toda a rua inteira, crendo-se que era ordem da polícia. Um pulpero iça uma bandeira para chamar a atenção; vê-o o vizinho e, temeroso de ser tachado de tardio pelo governador, iça a sua; içam-na os da frente, içam-na em toda a rua, passa a outras, e num instante Buenos Aires fica embandeirada. A polícia se alarma, indaga que notícia tão feliz se recebeu, que ela ignora, entretanto... E este era o povo que rendia 11.000 ingleses nas ruas e mandava depois cinco exércitos pelo continente americano à caça de espanhóis!
É que o terror é uma doença da alma que aflige as populações, como o cólera-morbo, a varíola, a escarlatina. Ninguém se livra, afinal, do contágio. E quando se trabalha dez anos consecutivos para inoculá-lo, nem mesmo os já vacinados resistem por fim. Não vos riais, pois, povos hispano-americanos, ao ver tanta degradação! Lembrai-vos de que sois espanhóis, e a Inquisição educou assim a Espanha! Trazemos esta doença no sangue. Cuidado, pois!
Voltemos a tomar o fio dos fatos. Facundo entrou triunfante em Tucumán e regressou a La Rioja poucos dias depois, sem cometer atos notáveis de violência e sem impor contribuições. É que a regularidade constitucional de Rivadavia formara uma consciência pública que não era possível arrastar de um só golpe.
Facundo regressa a La Rioja; mas, inimigo da Presidência que o comissionara para depor La Madrid, Quiroga não sabia dizer de modo fixo o motivo dessa oposição à Presidência, o que é muito natural. Ele mesmo não poderia haver-se dado conta disso. “Não sou federal — dizia sempre —, pois não sou tolo.” “Sabe o senhor — dizia certa vez a dom Dalmacio Vélez — por que fiz a guerra? Por isto!” E tirava uma onça de ouro. Mentia Facundo.
Outras vezes dizia: “Carril, governador de San Juan, fez-me um desaire, desatendendo minha recomendação por Carita, e por isso me lancei na oposição ao Congresso.” Mentia.
Seus inimigos diziam: “Tinha muitas ações na Casa da Moeda, e propuseram vendê-la ao Governo Nacional por 300.000 pesos. Rivadavia rejeitou esta proposta porque era um roubo escandaloso, e Facundo alistou-se desde então entre seus inimigos.” O fato é certo, mas não foi esse o motivo.
Crê-se que cedeu às sugestões de Bustos e Ibarra para opor-se, mas há um documento que comprova o contrário. Em carta que escrevia ao general La Madrid em 1832, dizia-lhe: “Quando fui convidado pelos muito nulos e baixos Bustos e Ibarra, não os considerando capazes de fazer oposição proveitosa ao déspota presidente dom Bernardino Rivadavia, desprezei-os; mas, havendo-me assegurado o ajudante de ordens do finado Bustos, coronel dom Manuel del Castillo, que o senhor estava de acordo neste negócio e era o mais interessado nele, não hesitei um momento em decidir-me a arrostar todo compromisso, contando unicamente com sua espada para esperar um desenlace feliz... Qual foi o meu logro...!”
Não era federal, nem como havia de sê-lo! Ora, é necessário ser tão ignorante como um caudilho de campanha para conhecer a forma de governo que mais convém à República? Quanto menos instrução tem um homem, tanto maior é sua capacidade para julgar as árduas questões da alta política? Pensadores como López, como Ibarra, como Facundo, eram os que, com seus estudos históricos, sociais, geográficos, filosóficos, legais, iam resolver o problema da conveniente organização de um Estado? Eh!... Deixemos essas torpezas a dom Juan Manuel Rosas, que sabe que, pregando aos homens um trapo vermelho no peito, as questões estão resolvidas. Deixemos de lado as palavras vãs com que, com tanta imprudência, se zombou dos incautos. Facundo voltou-se contra o Governo que o mandara a Tucumán pela mesma razão por que se voltara contra Aldao, que o mandara a La Rioja. Sentia-se forte e com vontade de agir; impelia-o a isso um instinto cego, indefinido, e ele obedecia a esse instinto; era o comandante de campanha, o gaucho mau, inimigo da justiça civil, da ordem civil, do homem decente, do sábio, do fraque, da cidade, em uma palavra. A destruição de tudo isso lhe fora encomendada do alto, e ele não podia abandonar sua missão.
Por esse tempo, uma questão singular veio complicar os negócios. Em Buenos Aires, porto de mar, residência de 16.000 estrangeiros, o Governo propôs conceder a esses estrangeiros a liberdade de cultos, e a parte mais ilustrada do clero sustentou e sancionou a lei; os conventos foram secularizados e os sacerdotes, assalariados. Em Buenos Aires esse assunto não fez barulho, porque eram pontos em que as opiniões estavam de acordo; as necessidades eram patentes. A questão da liberdade de cultos é, na América, uma questão de política e de economia. Quem diz liberdade de cultos, diz imigração europeia e povoamento. Tão pouca impressão causou em Buenos Aires que Rosas não se atreveu a tocar em nada do que se acordou então, e é preciso que seja um absurdo inconcebível aquilo que Rosas não tente.
Nas províncias, porém, esta foi uma questão de religião, de salvação e condenação eterna. Imaginai como Córdoba a receberia! Em Córdoba levantou-se uma inquisição. San Juan experimentou uma sublevação católica, pois assim se chama o partido para distinguir-se dos libertinos, seus inimigos. Sufocada essa revolução em San Juan, sabe-se um dia que Facundo está às portas da cidade com uma bandeira negra dividida por uma cruz sanguinolenta, rodeada por este lema: Religião ou morte!
Recorda-se o leitor de que copiei de um manuscrito que Facundo nunca se confessava, nem ouvia missa, nem rezava, e que ele mesmo dizia não acreditar em nada? Pois bem: o espírito de partido aconselhou a um célebre pregador chamá-lo de Enviado de Deus e induzir a multidão a seguir suas bandeiras. Quando esse mesmo sacerdote abriu os olhos e se separou da cruzada criminosa que pregara, Facundo dizia que de nada se arrependia mais do que de não tê-lo em suas mãos para dar-lhe seiscentos açoites.
Chegado a San Juan, os principais da cidade, os magistrados que não haviam fugido, os sacerdotes, comprazidos por aquele auxílio divino, saem a encontrá-lo e numa rua formam duas longas filas. Facundo passa sem olhá-los; seguem-no à distância, turbados, olhando-se uns aos outros na humilhação comum, até chegarem ao centro de um campo de alfafa, alojamento que o general pastor, este hicso moderno, prefere aos edifícios adornados da cidade. Uma negra que o servira em sua infância apresenta-se para ver seu Facundo; ele a senta ao seu lado, conversa afetuosamente com ela, enquanto os sacerdotes, os notáveis da cidade, estão de pé, sem que ninguém lhes dirija a palavra, sem que o chefe se digne despedi-los.
Os católicos devem ter ficado um pouco duvidosos da importância e idoneidade do auxílio que tão inesperadamente lhes vinha. Poucos dias depois, sabendo que o cura da Concepción era libertino, mandou trazê-lo com seus soldados, vexá-lo no trajeto, pôr-lhe uma barra de grilhões, ordenando-lhe que se preparasse para morrer. Porque hão de saber meus leitores chilenos que por então havia em San Juan sacerdotes libertinos, curas, clérigos, frades, que pertenciam ao partido da Presidência. Entre outros, o presbítero Centeno, muito conhecido em Santiago, foi, com outros seis, um dos que mais trabalharam na reforma eclesiástica. Mas era necessário fazer algo em favor da religião para justificar o lema da bandeira. Com louvável fim escreve uma cartinha a um sacerdote amigo seu, pedindo-lhe conselho sobre a resolução que tomou, diz, de fuzilar todas as autoridades, em virtude de não haverem decretado ainda a devolução das temporalidades.
O bom sacerdote, que não previra o que significa armar o crime em nome de Deus, teve ao menos escrúpulo quanto à forma em que se ia fazer reparação, e conseguiu que se lhes dirigisse um ofício pedindo-lhes ou ordenando-lhes que assim o fizessem.
Houve questão religiosa na República Argentina? Eu o negaria redondamente se não soubesse que quanto mais bárbaro e, portanto, mais religioso é um povo, tanto mais suscetível é de preocupar-se e fanatizar-se. Mas as massas não se moveram espontaneamente, e os que adotaram aquele lema, Facundo, López, Bustos etc., eram completamente indiferentes. Isto é capital. As guerras religiosas do século XV na Europa são mantidas de ambas as partes por crentes sinceros, exaltados, fanáticos e decididos até o martírio, sem miras políticas, sem ambição. Os puritanos liam a Bíblia no momento antes do combate, oravam e preparavam-se com jejuns e penitências. Sobretudo, o sinal pelo qual se conhece o espírito dos partidos é que realizam seus propósitos quando chegam a triunfar, ainda além de onde estavam assegurados antes da luta. Quando isso não sucede, há logro nas palavras. Depois de haver triunfado na República Argentina o partido que se intitula católico, que fez ele pela religião ou pelos interesses do sacerdócio?
O único, que eu saiba, foi expulsar os jesuítas e degolar quatro sacerdotes respeitáveis em Santos Lugares[29], depois de lhes esfolar vivos a tonsura e as mãos; pôr ao lado do Santíssimo Sacramento o retrato de Rosas e tirá-lo em procissão sob o pálio. Cometeu jamais profanações tão horríveis o partido libertino? O partido ultracatólico rejeitou jamais a cooperação do jesuitismo?
Mas já é demasiado deter-me sobre este ponto. Facundo, em San Juan, ocupou seu tempo em jogar, abandonando às autoridades o cuidado de reunir-lhe as somas de que necessitava para ressarcir-se dos gastos que lhe impunha a defesa da religião. Todo o tempo que ali permaneceu habitou uma tenda no centro de um campo de alfafa, e ostentou, porque era ostentação meditada, o chiripá. Desafio e insulto que fazia a uma cidade onde a maior parte dos cidadãos cavalgava em sela inglesa, e onde os trajes e gostos bárbaros da campanha eram detestados, porquanto é uma província exclusivamente agricultora.
Uma campanha a mais ainda sobre Tucumán contra o general La Madrid completou a estreia ou exibição deste novo emir dos pastores. O general La Madrid havia voltado ao governo de Tucumán sustentado pela província, e Facundo acreditou ter o dever de desalojá-lo. Nova expedição, nova batalha, nova vitória. Omito seus pormenores, porque neles não encontraremos senão pequenezas. Há, porém, um fato ilustrativo. La Madrid tinha na batalha do Rincón 110 homens de infantaria; quando a ação terminou, sessenta haviam morrido na linha e, exceto um, os cinquenta restantes estavam feridos. No dia seguinte, La Madrid apresenta-se de novo para combater, e Quiroga manda-lhe um de seus ajudantes, nu, dizer-lhe simplesmente que a ação principiaria pelos cinquenta prisioneiros que deixo indicados, com uma companhia de soldados apontando-lhes, e com essa intimação La Madrid abandonou toda tentativa de fazer qualquer resistência.
Em todas essas três expedições em que Facundo ensaia suas forças, nota-se ainda pouca efusão de sangue, poucas violações da moral. É verdade que se apodera em Tucumán de gados, couros, solas, e impõe grossas contribuições em espécies metálicas; mas ainda não há açoites aos cidadãos, não há ultrajes às senhoras; são os males da conquista, mas ainda sem seus horrores; o sistema pastoril não se desenvolve sem freio e com toda a ingenuidade que mostra mais tarde.
Que parte tinha o Governo legítimo de La Rioja nessas expedições? Oh! As formas ainda existem, mas o espírito estava todo no comandante de campanha. Blanco deixa o mando, farto de humilhações, e Agüero entra no Governo. Um dia Quiroga faz riscar seu cavalo à porta de sua casa e lhe diz: “Senhor governador: venho avisar-lhe que estou acampado a duas léguas com minha escolta.” Agüero renuncia. Trata-se de eleger novo governador, e a pedido dos vizinhos, ele se digna indicar-lhes Galván. Este o recebe, e à noite é assaltado por uma partida; foge, e Quiroga ri muito da aventura. A Junta de representantes compunha-se de homens que nem ler sabiam.
Necessita de dinheiro para a primeira expedição a Tucumán, e pede ao tesoureiro da Casa da Moeda 8.000 pesos por conta de suas ações, que não pagara; em Tucumán pede 25.000 pesos para pagar seus soldados, que nada recebem, e mais tarde passa a conta de 18.000 pesos a Dorrego, para que lhe abone os custos da expedição que fizera por ordem do governador de Buenos Aires. Dorrego se apressa a satisfazer tão justa demanda. Esta soma repartem entre ele e Moral, governador de La Rioja, que lhe sugeriu a ideia; seis anos depois dava em San Juan setecentos açoites no mesmo Moral, em castigo de sua ingratidão.
Durante o governo de Blanco, trava-se uma disputa numa partida de jogo. Facundo toma pelos cabelos seu contendor, sacode-o e quebra-lhe o pescoço. O cadáver foi enterrado e anotada a partida: “Morto de morte natural.” Ao sair para Tucumán, manda uma partida à casa de Zárate, proprietário pacífico, mas conhecido por seu valor e seu desprezo por Quiroga; aquele sai à porta, e afastando a mulher e as filhas, fuzilam-no, deixando à viúva o cuidado de enterrá-lo. De volta da expedição, encontra Gutiérrez, ex-governador de Catamarca e partidário do Congresso, e insiste para que vá viver em La Rioja, onde estará seguro. Passam ambos uma temporada na maior intimidade; mas um dia em que o viu nas corridas rodeado de gauchos amigos, prendem-no, dando-lhe uma hora para preparar-se para morrer. O espanto reina em La Rioja; Gutiérrez é um homem respeitável, que granjeou o afeto de todos. O presbítero doutor Colina, o cura Herrera, o padre provincial Tarrima, o padre Cernadas, guardião de San Francisco, e o padre prior de Santo Domingo apresentam-se a pedir-lhe que ao menos dê ao réu tempo para testar e confessar-se. “Já vejo — respondeu — que Gutiérrez tem aqui muitos partidários. A ver! Um ordenança! Leve estes homens à cadeia e que morram no lugar de Gutiérrez.” São levados, com efeito; dois põem-se a chorar aos gritos e a correr para salvar-se; a outro sucede algo pior que desmaiar; os outros são postos em capela. Ao ouvir a história, Facundo desata a rir e manda pô-los em liberdade.
Estas cenas com os sacerdotes são frequentes no Enviado de Deus. Em San Juan faz passear um negro vestido de clérigo; em Córdoba a ninguém deseja agarrar senão o doutor Castro Barros, com quem tem de ajustar uma conta; em Mendoza anda com um clérigo prisioneiro com sentença de morte, e este é sentado para ser fuzilado; em Atiles faz o mesmo com o cura de Alguia; em Tucumán com o prior de um convento. É verdade que a nenhum fuzila; isso estava reservado a Rosas, chefe também do partido católico, mas os vexa, humilha-os, ultraja-os, o que não impede que todos os velhos e as beatas dirijam suas preces ao céu para que dê a vitória às suas armas.
Mas a história de Gutiérrez não conclui aqui. Quinze dias depois recebe ordem de sair desterrado com escolta. Chegado a um alojamento, acende-se fogo para jantar, e Gutiérrez oferece-se para soprá-lo. O oficial descarrega-lhe um pau; sucedem-se outros, e os miolos saltam pelos arredores. Um chasque sai imediatamente, avisando ao governador Moral que, tendo querido fugir o réu... O oficial não sabia escrever, e entre as provisões de viagem havia trazido de La Rioja o ofício fechado.
Estes são os acontecimentos principais que ocorrem durante os primeiros ensaios de fusão da República feitos por Facundo; porque isto é um simples ensaio; ainda não chegou o momento da aliança de todas as forças pastoris, para que saia da luta a nova organização da República. Rosas já é grande na campanha de Buenos Aires, mas ainda não tem nome nem títulos; trabalha, porém; agita-a, subleva-a. A Constituição dada pelo Congresso é rejeitada por todos os povos em que os caudilhos têm influência. Em Santiago del Estero, o enviado apresenta-se em traje de etiqueta, e Ibarra o recebe em mangas de camisa e chiripá. Rivadavia renuncia, em razão de que a vontade dos povos está em oposição, “mas o vandalismo vos vai devorar!”, acrescenta em sua despedida. Fez bem em renunciar! Rivadavia tinha por missão apresentar-nos o constitucionalismo de Benjamin Constant com todas as suas palavras ocas, seus logros e seus ridículos. Rivadavia ignorava que, quando se trata da civilização e da liberdade de um povo, um Governo tem diante de Deus e diante das gerações vindouras árduos deveres a desempenhar, e que não há caridade nem compaixão em abandonar uma nação por trinta anos às devastações e à lâmina do primeiro que se apresente para despedaçá-la e degolá-la. Os povos em sua infância são crianças que nada preveem, e é preciso que os homens de alta previsão e de alta compreensão lhes sirvam de pai. O vandalismo nos devorou, com efeito, e é bem triste glória vaticiná-lo numa proclama e não fazer o menor esforço para impedi-lo.
Há um quarto elemento que chega: são os bárbaros, são hordas novas, que vêm lançar-se na sociedade antiga com uma completa frescura de costumes, de alma e de espírito; que nada fizeram, que estão prontas a tudo receber com toda a aptidão da ignorância mais dócil e mais ingênua.
Lherminier.
A Presidência caiu em meio aos assobios e vaias de seus adversários. Dorrego, o hábil chefe da oposição em Buenos Aires, é amigo dos Governos do interior, seus fautores e sustentadores na campanha parlamentar em que conseguiu triunfar. No exterior, a vitória parece haver-se divorciado da República, e embora suas armas não sofram desastres no Brasil, sente-se por toda parte a necessidade da paz. A oposição dos chefes do interior debilitara o exército, destruindo ou negando os contingentes que deveriam reforçá-lo. No interior reina uma tranquilidade aparente; mas o solo parece remexer-se, e rumores estranhos turvam a superfície quieta. A imprensa de Buenos Aires brilha com resplendores sinistros; a ameaça está no fundo dos artigos que diariamente oposição e Governo se lançam.
A administração Dorrego sente que o vazio começa a fazer-se ao seu redor; que o partido da cidade, que se denominou federal e o elevou, não tem elementos para sustentar-se com brilho depois da presidência. A administração Dorrego não resolvera nenhuma das questões que dividiam a República, mostrando, ao contrário, toda a impotência do federalismo.
Dorrego era portenho antes de tudo. Que lhe importava o interior? Ocupar-se de seus interesses teria sido manifestar-se unitário, isto é, nacional. Dorrego prometera aos caudilhos e povos tudo quanto podia afiançar a perpetuidade de uns e favorecer os interesses dos outros; elevado, porém, ao Governo, que nos importa, dizia lá em seus círculos, que os tiranetes despotizem esses povos? Que valem para nós 4.000 pesos anuais dados a López e 18.000 a Quiroga, para nós, que temos o porto e a Aduana que nos produz milhão e meio, que o fátuo Rivadavia queria converter em rendas nacionais? Porque não esqueçamos que o sistema de isolamento se traduz por uma frase curtíssima: cada um por si. Pôde Dorrego e seu partido prever que as províncias viriam um dia castigar Buenos Aires por lhes ter negado sua influência civilizadora, e que, à força de desprezar seu atraso e sua barbárie, esse atraso e essa barbárie haviam de penetrar nas ruas de Buenos Aires, estabelecer-se ali e assentar seus reais no forte?
Mas Dorrego poderia tê-lo visto, se ele ou os seus tivessem olhos melhores. As províncias estavam ali, às portas da cidade, esperando a ocasião de nela penetrar. Desde os tempos da Presidência, os decretos da autoridade civil encontravam uma barreira impenetrável nos arrabaldes exteriores da cidade. Dorrego empregara como instrumento de oposição essa resistência exterior, e quando seu partido triunfou condecorou o aliado de extramuros com o título de Comandante geral da Campanha. Que lógica de ferro é esta que faz da elevação a comandante de campanha degrau indispensável para um caudilho? Onde não existe esse andaime, como sucedia então em Buenos Aires, levanta-se expressamente, como se se quisesse, antes de meter o lobo no redil, expô-lo aos olhares de todos e elevá-lo nos escudos.
Dorrego, mais tarde, achou que o Comandante de Campanha, que estivera fazendo bambolear a Presidência e tão poderosamente contribuíra para derrubá-la, era uma alavanca aplicada constantemente ao Governo, e que, caído Rivadavia e posto Dorrego em seu lugar, a alavanca continuava seu trabalho de desquiciamento. Dorrego e Rosas estão em presença um do outro, observando-se e ameaçando-se. Todos os do círculo de Dorrego recordam sua frase favorita: “O gaucho velhaco!” “Que continue enredando — dizia —, e no dia menos pensado eu o fuzilo.” Assim diziam também os Ocampo quando sentiam sobre o ombro a robusta garra de Quiroga!
Indiferente aos povos do interior, fraco com seu elemento federal da cidade e já em luta com o poder da campanha que chamara em seu auxílio, Dorrego, que chegou ao Governo pela oposição parlamentar e pela polêmica, trata de atrair os unitários, a quem venceu. Mas os partidos não têm nem caridade nem previsão. Os unitários riem na sua cara; conspiram e passam a palavra: “Vacila — dizem —, deixemo-lo cair.” Os unitários não compreendiam que com Dorrego vinham refluindo para a cidade os que haviam querido fazer-se intermediários entre eles e a campanha, e que o monstro de que fugiam não buscava Dorrego, mas a cidade, as instituições civis, eles mesmos, que eram sua mais alta expressão.
Neste estado de coisas, concluída a paz no Brasil, desembarca a primeira divisão do exército comandado por Lavalle. Dorrego conhecia o espírito dos veteranos da Independência, que se viam cobertos de feridas, encanecendo sob o peso do morrião, e, entretanto, mal eram coronéis, majores, capitães, se tanto dois ou três haviam cingido a faixa de general, enquanto no seio da República, e sem jamais transpor as fronteiras, havia dezenas de caudilhos que em quatro anos se tinham elevado de gauchos maus a comandantes, de comandantes a generais, de generais a conquistadores de povos e, por fim, a soberanos absolutos deles. Para que buscar motivo ao ódio implacável que fervia sob as couraças dos veteranos? Que os aguardava depois que a nova ordem de coisas os impedira de fazer, como pretendiam, ondular seus penachos pelas ruas da capital do Império?
Em 1.º de dezembro amanheceram formados na praça da Victoria os corpos de linha desembarcados. O governador, Dorrego, tomara a campanha; os unitários enchiam as avenidas, fendendo o ar com seus vivas e seus gritos de triunfo. Alguns dias depois, setecentos couraceiros, comandados por oficiais-generais, saíam pela rua do Perú rumo à Pampa, para encontrar alguns milhares de gauchos, índios amigos e alguma força regular, encabeçados por Dorrego e Rosas. Um momento depois, o campo de Navarro estava cheio de cadáveres, e no dia seguinte um brioso oficial, que hoje está a serviço do Chile, entregava no Quartel-General Dorrego prisioneiro. Uma hora mais tarde, o cadáver de Dorrego jazia transpassado de balas. O chefe que ordenara a execução anunciava o fato à cidade nestes termos, cheios de abnegação e altivez:
“Participo ao Governo delegado que o coronel dom Manuel Dorrego acaba de ser fuzilado por minha ordem diante dos regimentos que compõem esta divisão.
”A História, senhor ministro, julgará imparcialmente se o senhor Dorrego devia ou não morrer, e se, ao sacrificá-lo à tranquilidade de um povo por ele enlutado, pude haver estado possuído por outro sentimento que não o do bem público.
”Queira o povo de Buenos Aires persuadir-se de que a morte do coronel Dorrego é o maior sacrifício que posso fazer em seu obséquio.
”Saúda o senhor ministro com toda consideração,
”Juan Lavalle.”
Fez mal Lavalle? Tantas vezes o disseram, que seria fastidioso acrescentar um sim em apoio dos que, depois de apalpadas as consequências, desempenharam a fácil tarefa de incriminar os motivos de onde procederam. Quando o mal existe, é porque está nas coisas, e ali somente se deve ir buscá-lo; se um homem o representa, fazendo desaparecer a personificação, ele se renova. César assassinado renasceu mais terrível em Otávio. Este sentir de Louis Blanc, expresso antes por Lherminier e outros mil, ensinado pela História tantas vezes, seria um anacronismo objetá-lo a nossos partidos educados até 1829 com as exageradas ideias de Mably, Raynal, Rousseau, sobre os déspotas, a tirania e tantas outras palavras que ainda vemos, quinze anos depois, formando o fundo das publicações da imprensa.
Lavalle não sabia, por então, que matando o corpo não se mata a alma, e que os personagens políticos trazem seu caráter e sua existência do fundo das ideias, interesses e fins do partido que representam.
Se Lavalle, em lugar de Dorrego, houvesse fuzilado Rosas, talvez teria poupado ao mundo um espantoso escândalo, à humanidade um opróbrio, e à República muito sangue e muitas lágrimas; mas, ainda fuzilando Rosas, a campanha não teria carecido de representantes, e não se teria feito mais que trocar um quadro histórico por outro. Mas o que hoje se afeta ignorar é que, não obstante a responsabilidade puramente pessoal que do ato Lavalle se atribui, a morte de Dorrego era consequência necessária das ideias então dominantes, e que, levando a cabo essa empresa, o soldado intrépido até desafiar o juízo da história não fazia mais que realizar o voto confessado e proclamado do cidadão.
Sem dúvida ninguém me atribuirá o desígnio de justificar o morto às expensas dos que sobrevivem. Lavalle fazia o que todos desejavam ter feito, salvo talvez as formas, o menos substancial sem dúvida em caso semelhante. Que impedira a proclamação da Constituição de 1826 senão a hostilidade contra ela de Ibarra, López, Bustos, Quiroga, Ortiz, os Aldao, cada um dominando uma província e alguns deles influindo sobre as demais? Logo, que coisa devia parecer mais lógica naquele tempo e para aqueles homens lógicos a priori por educação literária, senão aplainar o único obstáculo que, segundo eles, se apresentava à suspirada organização da República? Esses erros políticos, que pertencem a uma época mais que a um homem, são, contudo, muito dignos de consideração, porque deles depende a explicação de muitos fenômenos sociais. Lavalle, fuzilando Dorrego, como se propunha fuzilar Bustos, López, Facundo e os demais caudilhos, respondia a uma exigência de sua época, de seu partido.
Ainda em 1834 havia homens na França que criam que, fazendo desaparecer Luís Filipe, a República francesa voltaria a erguer-se gloriosa e grande como em tempos passados. Talvez também a morte de Dorrego tenha sido um desses fatos fatais, predestinados, que formam o nó do drama histórico e que, eliminados, o deixam incompleto, frio, absurdo. Havia muito incubava-se na República a guerra civil; Rivadavia a vira chegar, pálida, frenética, armada de tocha e punhais; Facundo, o caudilho mais jovem e empreendedor, passeara suas hordas pelas encostas dos Andes e encerrara-se, a contragosto, em sua guarida; Rosas, em Buenos Aires, tinha já seu trabalho maduro e em estado de pô-lo em exibição; era uma obra de dez anos realizada em derredor do fogão do gaucho, na pulpería, ao lado do cantor.
Dorrego estava sobrando para todos: para os unitários, que o menosprezavam; para os caudilhos, a quem era indiferente; para Rosas, enfim, que já estava cansado de aguardar e de surgir à sombra dos partidos da cidade; que queria governar depressa, incontinenti; numa palavra: pugnava por produzir-se aquele elemento que não era, porque não podia sê-lo, federal no sentido estrito da palavra; aquilo que se vinha remexendo e agitando desde Artigas até Facundo, terceiro elemento social, cheio de vigor e de força, impaciente por manifestar-se em toda a sua nudez, por medir-se com as cidades e a civilização europeia.
Se tirais da História a morte de Dorrego, teria Facundo perdido a força de expansão que sentia rebulir em sua alma? Rosas teria interrompido sua obra de personificação na campanha, em que estava atarefado sem descanso nem trégua desde muito antes de manifestar-se em 1820, ou teria cessado o movimento iniciado por Artigas e já incorporado à circulação do sangue da República? Não! O que Lavalle fez foi dar com a espada um corte no nó górdio em que viera enredar-se toda a sociabilidade argentina; dando uma sangria, quis evitar o câncer lento, a estagnação; pondo fogo ao pavio, fez que rebentasse a mina pelas mãos de unitários e federais, preparada havia muito tempo.
A partir desse momento, nada restava aos tímidos senão tapar os ouvidos e fechar os olhos. Os demais voam às armas por toda parte; o tropel dos cavalos faz estremecer a Pampa, e o canhão mostra sua negra boca à entrada das cidades.
É-me preciso deixar Buenos Aires para voltar ao fundo das demais províncias e ver o que nelas se prepara. Uma coisa devo notar de passagem, e é que López, vencido em vários encontros, solicitava em vão uma paz tolerável; que Rosas pensa seriamente em transferir-se para o Brasil[30]. Lavalle recusa toda transação e sucumbe. Não vedes o unitário inteiro nesse desdém pelo gaucho, nessa confiança no triunfo da cidade? Mas já o disse: a montonera foi sempre débil nos campos de batalha, porém terrível numa campanha longa. Se Lavalle tivesse adotado outra linha de conduta e conservado o porto em poder dos homens da cidade, que teria sucedido? O governo do sangue da Pampa teria tido lugar?
Facundo estava em seu elemento. Uma campanha devia abrir-se; os chasques se cruzam por toda parte; o isolamento feudal vai converter-se em confederação guerreira; tudo é posto em requisição para a próxima campanha, e não é que seja necessário ir até as margens do Prata para encontrar um bom campo de batalha, não; o general Paz, com oitocentos veteranos, veio a Córdoba, bateu e destroçou Bustos e apoderou-se da cidade que está a um passo dos Llanos e que já assediam e importunam com sua algazarra as montoneras da serra de Córdoba.
Facundo apressa seus preparativos; arde por chegar às mãos com um general manco, que não pode manejar uma lança nem fazer o sabre descrever círculos. Venceu La Madrid; que poderá fazer Paz! De Mendoza deve reunir-se a ele dom Félix Aldao com um regimento de auxiliares perfeitamente equipados de vermelho e disciplinados; e não estando ainda pronta uma força de setecentos homens de San Juan, Facundo dirige-se a Córdoba com 4.000 homens, ansiosos por medir suas armas com os couraceiros do número 2 e os altaneiros chefes de linha.
A batalha de La Tablada é tão conhecida que seus pormenores já não interessam. Na Revue des Deux Mondes encontra-se brilhantemente descrita; mas há algo que deve ser notado. Facundo acomete a cidade com todo o seu exército, e é rechaçado durante um dia e uma noite de tentativas de assalto por cem jovens caixeiros do comércio, trinta artesãos artilheiros, dezoito soldados atiradores, seis couraceiros enfermos, entrincheirados atrás de valas feitas às pressas e defendidos por apenas quatro peças de artilharia. Só quando anuncia seu desígnio de incendiar a formosa cidade consegue que lhe entreguem a praça pública, que é a única coisa que não está em seu poder. Sabendo que Paz se aproxima, deixa como inúteis a infantaria e a artilharia e marcha ao seu encontro com as forças de cavalaria, que eram, entretanto, de número triplo ao do exército inimigo. Ali foi o duro batalhar, ali as repetidas cargas de cavalaria; mas tudo inútil!
Aquelas enormes massas de cavaleiros que vão revolcar-se sobre os oitocentos veteranos têm de voltar atrás a cada minuto, e voltar a carregar para serem rechaçadas de novo. Em vão a terrível lança de Quiroga faz na retaguarda dos seus tanto estrago quanto o canhão e a espada de Ituzaingó fazem na frente. Inútil! Em vão remoinham os cavalos à frente das baionetas e na boca dos canhões. Inútil! São as ondas de um mar embravecido que vêm espatifar-se em vão contra a imóvel e áspera rocha; às vezes ela fica sepultada no torvelinho que o choque levanta ao seu redor; mas, um momento depois, suas cristas negras, imóveis, tranquilas, reaparecem burlando a raiva do elemento agitado. De quatrocentos auxiliares só restam sessenta; de seiscentos colorados não sobrevive um terço, e os demais corpos sem nome se desfizeram e converteram-se numa massa informe e indisciplinada que se dissipa pelos campos. Facundo voa à cidade, e ao amanhecer do dia seguinte estava como o tigre à espreita, com seus canhões e infantes; tudo, porém, terminou muito em breve, e mil e quinhentos cadáveres patentearam a raiva dos vencidos e a firmeza dos vencedores.
Sucederam nestes dias de sangue dois fatos que depois continuam a repetir-se. As tropas de Facundo mataram na cidade o major Tejedor, que levava na mão uma bandeira parlamentar; na batalha do segundo dia, um coronel de Paz fuzilou nove oficiais prisioneiros. Já veremos as consequências.
Na Tablada de Córdoba mediram-se as forças da campanha e da cidade sob suas mais altas inspirações, Facundo e Paz, dignas personificações das duas tendências que vão disputar o domínio da República. Facundo, ignorante, bárbaro, que levou por longos anos uma vida errante que só iluminam de vez em quando os reflexos sinistros do punhal que gira em torno de si; valente até a temeridade, dotado de forças hercúleas, gaucho de cavalo como o primeiro, dominando tudo pela violência e pelo terror, não conhece outro poder senão o da força brutal, não tem fé senão no cavalo; tudo espera do valor, da lança, do terrível ímpeto de suas cargas de cavalaria. Onde encontrareis na República Argentina um tipo mais acabado do ideal do gaucho mau? Credes que é torpeza deixar na cidade sua infantaria e artilharia? Não; é instinto, é gala de gaucho; a infantaria desonraria o triunfo cujos louros deve colher a cavalo.
Paz é, ao contrário, o filho legítimo da cidade, o representante mais cabal do poder dos povos civilizados. Lavalle, La Madrid e tantos outros são sempre argentinos, soldados de cavalaria, brilhantes como Murat, se se quiser; mas o instinto gaucho abre passagem por entre a couraça e as dragonas. Paz é militar à europeia: não crê no valor sozinho se este não se subordina à tática, à estratégia e à disciplina; mal sabe andar a cavalo; é, além disso, manco e não poderia manejar uma lança. A ostentação de forças numerosas o incomoda; poucos soldados, mas bem instruídos. Deixai-o formar um exército, esperai que vos diga: já está em condições, e concedei-lhe que escolha o terreno em que há de dar a batalha, e podeis então fiar-lhe a sorte da República. É o espírito guerreiro da Europa até na arma em que serviu; é artilheiro e, portanto, matemático, científico, calculador. Uma batalha é um problema que resolverá por equações até dar-vos a incógnita, que é a vitória.
O general Paz não é um gênio, como o artilheiro de Toulon, e alegro-me de que não o seja; a liberdade poucas vezes tem muito que agradecer aos gênios. É um militar hábil e um administrador honrado, que soube conservar as tradições europeias e civis, e que espera da ciência o que outros aguardam da força brutal; é, numa palavra, o representante legítimo das cidades, da civilização europeia, que estamos ameaçados de ver interrompida em nossa pátria. Pobre general Paz! Gloria-te em meio aos teus repetidos contratempos! Contigo andam os penates da República Argentina! Ainda o destino não decidiu entre ti e Rosas, entre a cidade e a pampa, entre a faixa celeste e a fita vermelha. Tendes a única qualidade de espírito que vence afinal a resistência da matéria bruta, a que fez o poder dos mártires. Tendes fé. Nunca duvidastes! A fé vos salvará e em ti salvará a civilização!
Algo deve haver de predestinado neste homem. Desprendido do seio de uma revolução mal aconselhada como a de 1.º de Dezembro, ele é o único que sabe justificá-la com a vitória; arrebatado da cabeça de seu exército pelo poder sublime do gaucho, anda de prisão em prisão dez anos, e Rosas mesmo não se atreve a matá-lo, como se um anjo tutelar velasse pela conservação de seus dias. Escapado como por milagre em meio a uma noite tempestuosa, as ondas agitadas do Prata deixam-no enfim tocar a margem oriental; rejeitado aqui, desconsiderado ali, entregam-lhe afinal as forças extenuadas de uma província que já viu sucumbir dois exércitos. Dessas migalhas que recolhe com paciência e prolixidade, forma seus meios de resistência, e quando os exércitos de Rosas triunfaram por toda parte e levaram o terror e a matança por todos os confins da República, o general manco, o general boleado, grita dos pântanos de Canguazú: a República ainda vive! Despojado de seus louros pela mão dos mesmos a quem salvou, e indignamente lançado da cabeça de seu exército, salva-se de entre seus inimigos em Entre Ríos, porque o céu desencadeia seus elementos para protegê-lo, e porque o gaucho do bosque, Montiel, não se atreve a matar o bom manco que não mata ninguém. Chegado a Montevidéu, sabe que Rivera foi derrotado, talvez porque ele não esteve ali para enredar o inimigo em suas próprias manobras. Toda a cidade, consternada, aglomera-se diante de sua humilde morada de fugitivo para pedir-lhe uma palavra de consolo, um vislumbre de esperança. “Se me dessem vinte dias, não tomam a praça”, é a única resposta que dá sem entusiasmo, mas com a segurança do matemático. Dá Oribe o que Paz pede, e três anos vão correndo desde aquele dia de consternação para Montevidéu.
Quando firmou bem a praça e habituou a guarnição improvisada a pelejar diariamente, como se isso fosse uma ocupação qualquer da vida, vai ao Brasil, detém-se na Corte mais tempo do que seus parciais desejariam, e quando Rosas esperava vê-lo sob a vigilância da polícia imperial, sabe que está em Corrientes disciplinando seis mil homens, que celebrou uma aliança com o Paraguai, e mais tarde chega a seus ouvidos que o Brasil convidou a França e a Inglaterra a tomar parte na luta; de modo que a questão entre a campanha pastoril e as cidades se converteu enfim em questão entre o manco matemático, o científico Paz, e o gaucho bárbaro Rosas; entre a pampa, de um lado, e Corrientes, o Paraguai, o Uruguai, o Brasil, a Inglaterra e a França, de outro.
O que mais honra este general é que os inimigos contra os quais combateu não lhe têm nem rancor nem medo. A Gaceta de Rosas, tão pródiga em calúnias e difamações, não acerta injuriá-lo com proveito, descobrindo a cada passo o respeito que inspira a seus detratores; chama-o manco boleado, castrado, porque sempre há de haver uma brutalidade e uma torpeza misturadas aos gritos sangrentos do caribe. Se se penetrasse no íntimo do coração dos que servem a Rosas, descobrir-se-ia a afeição que todos têm ao general Paz, e os antigos federais não esqueceram que era ele quem estava sempre protegendo-os contra o rancor dos antigos unitários. Quem sabe se a Providência, que tem em suas mãos a sorte dos Estados, quis guardar este homem, que tantas vezes escapou à destruição, para voltar a reconstituir a República sob o império das leis que permitem a liberdade sem a licença e que tornam inúteis o terror e as violências de que os estúpidos necessitam para mandar! Paz é provinciano, e como tal apresenta já uma garantia de que não sacrificaria as províncias a Buenos Aires e ao porto, como hoje faz Rosas, para ter milhões com que empobrecer e barbarizar os povos do interior; como os federais das cidades acusavam o Congresso de 1826.
O triunfo da Tablada abria uma nova época para a cidade de Córdoba, que até então, segundo a mensagem passada à Representação provincial pelo general Paz, “havia ocupado o último lugar entre os povos argentinos”; “recordai que foi — continua a mensagem — onde se cruzaram as medidas e se pôs obstáculo a tudo o que teve tendência a constituir a nação, ou esta mesma província, seja sob o sistema federal, seja sob o unitário”.
Córdoba, como todas as cidades argentinas, tinha seu elemento federal, sufocado até então pelo Governo absoluto e quietista, como o de Bustos. Desde a entrada de Paz, esse elemento oprimido manifesta-se à superfície, mostrando quanto se robustecera durante os nove anos daquele Governo espanhol.
Já pintei antes Córdoba, a antagonista de Buenos Aires em ideias; mas há uma circunstância que a recomenda poderosamente para o porvir. A ciência é o maior dos títulos para o cordobês; dois séculos de Universidade deixaram nas consciências esta preocupação civilizadora, que não existe tão profundamente arraigada nas outras províncias do interior; de modo que, mal mudassem a direção e a matéria dos estudos, pôde Córdoba contar já com maior número de sustentadores da civilização, que tem por causa e efeito o domínio e o cultivo da inteligência.
Esse respeito às luzes, esse valor tradicional concedido aos títulos universitários, desce em Córdoba até as classes inferiores da sociedade, e de outro modo não se pode explicar como as massas cívicas de Córdoba abraçaram a revolução civil que Paz trazia, com um ardor que não se desmentiu dez anos depois, e que preparou milhares de vítimas entre as classes artesã e proletária da cidade para a ordenada e fria raiva do mazorqueiro. Paz trazia consigo um intérprete para entender-se com as massas cordobesas da cidade: Barcala!, o coronel negro que tão gloriosamente se ilustrara no Brasil e que passeava de braço dado com os chefes do exército; Barcala, o liberto consagrado durante tantos anos a mostrar aos artesãos o bom caminho e a fazê-los amar uma revolução que não distinguia nem cor nem classe para condecorar o mérito; Barcala foi o encarregado de popularizar a mudança de ideias e miras operada na cidade, e conseguiu-o além do que se cria dever esperar. Os cívicos de Córdoba pertencem desde então à cidade, à ordem civil, à civilização.
A juventude cordobesa distinguiu-se na guerra atual pela abnegação e constância que mostrou, sendo infinito o número dos que sucumbiram nos campos de batalha, nas matanças da mazorca, e ainda maior o dos que sofrem os males da expatriação. Nos combates de San Juan ficaram as ruas semeadas desses doutores cordobeses, que os canhões varriam quando tentavam arrebatar o inimigo.
Por outra parte, o clero, que tanto fomentara a oposição ao Congresso e à Constituição, tivera tempo de sobra para medir o abismo a que conduziam a civilização, os defensores do culto exclusivo da classe de Facundo, López e demais, e não vacilou em prestar adesão decidida ao general Paz.
Assim, pois, os doutores como os jovens, o clero como as massas, apareceram desde logo unidos sob um só sentimento, dispostos a sustentar os princípios proclamados pela nova ordem de coisas. Paz pôde dedicar-se já a reorganizar a província e a enlaçar relações de amizade com as outras. Celebrou-se um tratado com López de Santa Fe, a quem dom Domingo de Oro induzia a aliar-se com o general Paz; Salta e Tucumán já o estavam antes da Tablada, ficando só as províncias ocidentais em estado de hostilidade.
Que procurais? Se tendes ciúme de ver uma reunião espantosa de males e horrores, vós a encontrastes.
Shakespeare.
Que fora de Facundo, entretanto? Na Tablada ele deixara tudo: armas, chefes, soldados, reputação; tudo, exceto a raiva e o valor. Moral, governador de La Rioja, surpreendido pela notícia de tamanho descalabro, aproveita-se de um ligeiro pretexto para sair da cidade, dirigindo-se a Los Pueblos, e de Sañogasta dirige um ofício a Quiroga, cuja chegada ali soube, oferecendo-lhe os recursos da província. Antes da expedição a Córdoba, as relações entre ambos os chefes da província, governador nominal e caudilho, o mordomo e o senhor, haviam aparecido esfriadas. Facundo não encontrara tanto armamento quanto resultava dos cômputos que podiam ser feitos somando o que existia na província em tal época, mais o trazido de Tucumán, de San Juan, de Catamarca etc. Outra circunstância singular agrava as suspeitas que pesam no ânimo de Quiroga contra o governador. Sañogasta é a casa senhorial dos Doria Dávila, inimigos de Facundo, e o governador, prevendo as consequências que o espírito suspicaz de Facundo deduzirá da data e do lugar do ofício, data-o em Uanchin, ponto distante quatro léguas. Sabe, porém, Quiroga que é de Sañogasta que Moral lhe escrevia, e toda dúvida fica esclarecida. Bárcena, um odioso instrumento de matança que ele adquiriu em Córdoba, e Fontanel saem com partidas a percorrer Los Pueblos e prender todos os vizinhos acomodados que encontrarem. A batida, contudo, não foi feliz; a caça farejou os lebréis e foge apavorada em todas as direções. As partidas voltaram com apenas onze vizinhos, que foram fuzilados no ato. Dom Inocencio Moral, tio do governador, com dois filhos, um de catorze anos de idade e outro de vinte; Ascueta, Gordillo, Cantos, chileno; Sotomayor, Barrios, outro Gordillo, Corro, transeunte de San Juan, e Pasos foram as vítimas daquela jornada. O último, dom Mariano Pasos, já experimentara em outra ocasião o ressentimento de Quiroga. Ao sair para uma de suas expedições, aquele dissera a um senhor Rincón, comerciante como ele, ao ver o desalinho e a desordem das tropas: “Que gente para ir pelejar!” Sabido isso por Quiroga, manda chamar ambos os aristarcos, pendura o primeiro num pilar das casas do Cabildo e manda dar-lhe duzentos açoites, enquanto o outro permanece com as calças tiradas para receber sua parte, da qual Quiroga lhe faz mercê. Mais tarde, este desgraçado foi governador de La Rioja e muito adicto ao general.
O governador Moral, sabendo o que o aguardava, fugiu, pois, da província, embora mais tarde recebesse setecentos açoites por ingrato; pois este mesmo Moral é o que participou dos 18.000 pesos arrancados a Dorrego.
Aquele Bárcena de que falei antes foi o encarregado de assassinar o comissário da Companhia inglesa de minas. Eu mesmo lhe ouvi os horríveis pormenores do assassinato, cometido em sua própria casa, afastando a mulher e os filhos para que deixassem passagem às balas e aos golpes de sabre. Esse mesmo Bárcena era o chefe da mazorca que acompanhou Orive a Córdoba, e que, num baile dado em celebração do triunfo sobre Lavalle, fazia rolar pelo salão as cabeças ensanguentadas de três jovens cujas famílias ali estavam. Porque se deve ter presente que o exército que veio a Córdoba em perseguição de Lavalle trazia uma companhia de mazorqueiros, que levavam no lado esquerdo a faca convexa, à maneira de uma pequena cimitarra, que Rosas mandou fazer expressamente nas cutelarias de Buenos Aires para degolar homens.
Que motivo teve Quiroga para essas atrozes execuções? Diz-se que em Mendoza disse a Oro que seu único objetivo fora aterrar. Conta-se que, continuando as matanças na campanha sobre infelizes camponeses, sobre quem por acaso passava por Atiles, acampamento geral, um dos Villafañes lhe disse com o acento da compaixão, do temor e da súplica: “Até quando, meu general?” “Não seja o senhor bárbaro — respondeu Quiroga —; como me refaço sem isto?” Eis aqui seu sistema inteiro: o terror sobre o cidadão para que abandone sua fortuna; o terror sobre o gaucho para que com seu braço sustente uma causa que já não é a sua; o terror supre a falta de atividade e trabalho para administrar, supre o entusiasmo, supre a estratégia, supre tudo. E não há que se iludir: o terror é um meio de governo que produz maiores resultados que o patriotismo e a espontaneidade. A Rússia o exercita desde os tempos de Ivan, e conquistou todos os povos bárbaros; os bandidos dos bosques obedecem ao chefe que tem em sua mão esta canga que doma as cervizes mais altivas. É verdade que degrada os homens, empobrece-os, tira-lhes toda elasticidade de ânimo; que um dia, enfim, arranca dos Estados o que eles poderiam dar em dez anos; mas que importa tudo isso ao Czar das Rússias, ao chefe de bandidos ou ao caudilho argentino?
Um bando de Facundo ordenou que todos os habitantes da cidade de La Rioja emigrassem para os Llanos, sob pena de vida, e essa ordem cumpriu-se ao pé da letra. O inimigo implacável da cidade temia não ter tempo suficiente para ir matando pouco a pouco, e dá-lhe o golpe de graça. Que motiva esta inútil emigração? Temia Quiroga? Oh, sim! Temia neste momento! Em Mendoza, os unitários, que se haviam apoderado do Governo, levantavam um exército; Tucumán e Salta estavam ao norte, e ao oriente Córdoba, a Tablada e Paz; estava, pois, cercado, e uma batida geral poderia, enfim, acuá-lo, o Tigre dos Llanos.
Facundo fizera afastar seus gados para a cordilheira, enquanto Villafañe acudia a Mendoza com forças em apoio dos Aldao, e ele aglomerava seus novos recrutas em Atiles. Estes terroristas têm também seus momentos de terror; Rosas também chorava como um menino e batia contra as muralhas quando soube da revolução de Chascomús, e onze enormes baús entravam em sua casa para recolher seus objetos, e embarcar uma hora antes de lhe chegar a notícia do triunfo de Álvarez. Mas, por Deus! Não assusteis nunca os terroristas! Ai dos povos quando o conflito passa! Então são as matanças de setembro e a exposição no mercado de pirâmides de cabeças humanas.
Ficavam em La Rioja, não obstante a ordem de Facundo, uma menina e um sacerdote: Severa e o padre Colina. A história de Severa Villafañe é um romance lastimoso, é um conto de fadas em que a mais bela princesa de seus tempos anda errante e fugitiva, disfarçada de pastora umas vezes, mendigando um asilo e um pedaço de pão outras, para escapar às ciladas de algum gigante espantoso, de algum sanguinário Barba Azul. Severa teve a desgraça de excitar a concupiscência do tirano, e não há quem lhe valha para livrar-se de seus ferozes galanteios. Não é só virtude o que a faz resistir à sedução: é repugnância invencível, belos instintos de mulher delicada que detesta os tipos da força brutal, porque teme que lhe maculem a beleza. Uma mulher bela trocará muitas vezes um pouco de desonra própria por um pouco da glória que rodeia um homem célebre, mas dessa glória nobre e alta, que para sobressair sobre os homens não necessita curvá-los nem envilecê-los, a fim de que em meio a tanto matagal rasteiro se possa alcançar a ver o arbusto espinhoso e descolorido. Não é outra a causa da fragilidade da piedosa Mme. Maintenon, a que se atribui a Mme. Roland, e tantas outras mulheres que fazem o sacrifício de sua reputação para associar-se a nomes esclarecidos. Severa resiste anos inteiros. Uma vez escapa de ser envenenada por seu tigre numa passa de figo; outra, o próprio Quiroga, despeitado, toma ópio para tirar a vida. Um dia escapa das mãos dos assistentes do general, que vão estendê-la de pés e mãos numa muralha para alarmar seu pudor; outro, Quiroga a surpreende no pátio de sua casa, agarra-a por um braço, banha-a em sangue e bofetadas, lança-a por terra e com o tacão da bota lhe quebra a cabeça. Deus meu! Não há quem favoreça essa pobre menina? Não tem parentes? Não tem amigos? Sim, tem! Pertence às primeiras famílias de La Rioja; o general Villafañe é seu tio; tem irmãos que presenciam esses ultrajes; há um cura que lhe fecha a porta quando ela vem esconder sua virtude atrás do santuário. Severa foge enfim para Catamarca e encerra-se num beaterio. Dois anos depois passava por ali Facundo, e manda que se abra o asilo e a superiora traga à sua presença as reclusas. Houve uma que deu um grito ao vê-lo e caiu exânime. Não é este um belo romance? Era Severa!
Mas vamos a Atiles, onde se prepara um exército para ir recobrar a reputação perdida na Tablada, porque não se trata senão de reputação de gaucho carregador. Dois unitários de San Juan caíram em seu poder: um jovem Castro y Calvo, chileno, e um Alejandro Carril. Quiroga pergunta a este: “Quanto dá por sua vida?” “Vinte e cinco mil pesos” — responde. “E o senhor, quanto dá?” — diz ao outro. “Eu só posso dar quatro mil; sou comerciante e nada mais possuo.” Conhece-se, com efeito, que é comerciante. Mandam trazer as somas de San Juan, e já há trinta mil pesos para a guerra, reunidos a tão pouco custo. Enquanto o dinheiro chega, Facundo os aloja sob um algarrobo; ocupa-os em fazer cartuchos, pagando-lhes dois reales diários por seu trabalho.
O Governo de San Juan toma conhecimento dos esforços que a família de Carril faz para mandar o resgate àquele Duguesclin que não achou ouro bastante para apreciar a si mesmo, e aproveita-se da descoberta. Governo de cidadãos, embora federal, não se atrevia a fuzilar cidadãos e se sente impotente para arrancar dinheiro dos unitários. O Governo intima ordem de sair para Atiles aos presos que povoam as cadeias; as mães e as esposas sabem o que significa Atiles, e umas primeiro, outras depois, conseguem reunir as somas pedidas para fazer voltar seus parentes do caminho que conduz à guarida do tigre. Assim, Quiroga governa San Juan apenas com seu nome terrorífico.
Quando os Aldao estão fortes em Mendoza e não deixaram em La Rioja um só homem, velho ou jovem, solteiro ou casado, em estado de levar armas, Facundo transporta-se a San Juan para estabelecer naquela população, então rica em unitários abastados, seu quartel-general. Chega e manda dar seiscentos açoites a um cidadão notável por sua influência, seus talentos e sua fortuna. Facundo anda em pessoa ao lado do canhão que leva a vítima moribunda pelas quatro esquinas da praça, porque Facundo é muito solícito nesta parte da administração; não é como Rosas, que do fundo de seu gabinete, onde está tomando mate, expede à mazorca as ordens que ela deve executar, para atribuir depois ao entusiasmo federal do pobre povo todas as atrocidades com que fez estremecer a humanidade. Não julgando ainda bastante este passo prévio a toda outra medida, Facundo manda trazer um velhinho coxo, a quem se acusa ou não se acusa de haver servido de baqueano a alguns prófugos, e o faz fuzilar no ato, sem confissão, sem permitir-lhe dizer uma só palavra, porque o Enviado de Deus nem sempre cuida que suas vítimas se confessem.
Preparada assim a opinião pública, não há sacrifícios que a cidade de San Juan não esteja pronta a fazer em defesa da federação; as contribuições se distribuem sem réplica, saem armas de debaixo da terra; Facundo compra fuzis e sabres de quem os apresenta. Os Aldao triunfam da incapacidade dos unitários, pela violação dos tratados do Pilar, e então Quiroga passa a Mendoza. Ali o terror era inútil; as matanças diárias ordenadas pelo frade, de que dei detalhes em sua biografia, tinham a cidade gelada como um cadáver; mas Facundo precisava confirmar ali o espanto que seu nome infundia por toda parte. Alguns jovens sanjuaninos caíram prisioneiros; estes ao menos lhe pertencem. A um deles manda fazer esta pergunta: quantos fuzis pode entregar dentro de quatro dias? O jovem responde que, se lhe derem tempo para mandar ao Chile procurá-los e à sua casa recolher fundos, verá o que pode fazer. Quiroga reitera a pergunta, pedindo que responda categoricamente. “Nenhum!” Um minuto depois levavam a enterrar o cadáver, e seis sanjuaninos mais o seguiam a curtos intervalos. A pergunta continua a ser feita de viva voz ou por escrito aos prisioneiros mendocinos, e as respostas são mais ou menos satisfatórias. Um réu de mais alto caráter se apresenta: o general Alvarado foi apreendido e Facundo o manda trazer à sua presença. “Sente-se, general — diz-lhe; em quantos dias poderá entregar-me 6.000 pesos por sua vida?” “Em nenhum, senhor; não tenho dinheiro.” “Eh!, mas o senhor tem amigos que não o deixarão fuzilar.” “Não tenho, senhor; eu era simples transeunte por esta província quando, forçado pelo voto público, assumi o governo.” “Para onde quer retirar-se?” — continua depois de um momento de silêncio. “Para onde V. Exa. ordenar.” “Diga, para onde quer ir?” “Repito que para onde me ordenarem.” “Que lhe parece San Juan?” “Bem, senhor.” “De quanto dinheiro necessita?” “Obrigado, senhor; não necessito.” Facundo dirige-se a uma escrivaninha, abre duas gavetas recheadas de ouro e, retirando-se, diz-lhe: “Tome, general, o que precisar.” “Obrigado, senhor, nada.” Uma hora depois, a carruagem do general Alvarado estava à porta de sua casa carregada com sua bagagem, e o general Villafañe, que devia acompanhá-lo a San Juan, onde à sua chegada lhe entregou cem onças de ouro da parte do general, suplicando-lhe que não se negasse a admiti-las.
Como se vê, a alma de Facundo não estava de todo fechada às nobres inspirações. Alvarado era um antigo soldado, um general grave e circunspecto, e pouco mal lhe causara. Mais tarde dizia dele: “Este general Alvarado é um bom militar, mas não entende nada desta guerra que fazemos nós.”
Em San Juan trouxeram-lhe um francês, Barreau, que escrevera sobre ele o que um francês pode escrever. Facundo pergunta-lhe se é o autor dos artigos que tanto o feriram, e, com a resposta afirmativa, “que espera o senhor agora?”, replica Quiroga. “Senhor, a morte.” “Tome estas onças e vá embora, com os diabos.”
Em Tucumán estava Quiroga estendido sobre um balcão. “Onde está o general?” — pergunta-lhe um andaluz que se avivara um pouco para sair com honra do lance. “Aí dentro; que deseja?” “Venho pagar quatrocentos pesos que me pôs de contribuição... Como não custa nada a esse animal!” “Conhece, patrão, o general?” “Nem quero conhecê-lo, o foragido!” “Passe adiante; tomemos um trago de cana.” Mais avançado estava esse original diálogo quando um ajudante se apresenta e, dirigindo-se a um dos interlocutores: “Meu general” — diz-lhe... “Meu general!...” — repete o andaluz abrindo um palmo de boca. “Pois o quê... vós sois o general?... Canário! Meu general — continua, pondo-se de joelhos —, sou um pobre-diabo, pulpero...; que quer V. S.!...; arruína-me..., mas o dinheiro está pronto...; vamos..., não há por que zangar-se!” Facundo solta a risada, levanta-o, tranquiliza-o e lhe entrega sua contribuição, tomando apenas duzentos pesos emprestados, que lhe devolve religiosamente mais tarde. Dois anos depois, um mendigo paralítico gritava-lhe em Buenos Aires: “Adeus, meu general; sou o andaluz de Tucumán; estou paralítico.” Facundo deu-lhe seis onças.
Esses traços provam a teoria que o drama moderno explorou com tanto brilho, a saber: que mesmo nos caracteres históricos mais negros há sempre uma centelha de virtude que ilumina por momentos e se oculta. Por outro lado, por que não há de fazer o bem aquele que não tem freio que contenha suas paixões? Esta é uma prerrogativa do despotismo como qualquer outra.
Mas voltemos a tomar o fio dos acontecimentos públicos. Depois de inaugurado o terror em Mendoza de modo tão solene, Facundo retira-se para o Retamo, aonde os Aldao levam a contribuição de 100.000 pesos que arrancaram aos unitários aterrados. Ali está a mesa de jogo que acompanha sempre Quiroga; ali acorrem os aficionados do partido; ali, enfim, passa-se a noite em claro à luz opaca das tochas. Em meio a tantos horrores e a tantos desastres, o ouro circula ali em torrentes, e Facundo ganha ao fim de quinze dias os 100.000 pesos da contribuição, os muitos milhares que guardam seus amigos federais e quanto se pode apostar a uma carta. A guerra, porém, pede erogações, e voltam a tosquiar as ovelhas já tosquiadas. Esta história das famosas jogatinas do Retamo, em que houve noite em que 130.000 pesos estavam sobre a mesa, é a história de toda a vida de Quiroga. “Joga-se muito, general — dizia-lhe um vizinho em sua última expedição a Tucumán.” “Eh!, isto é uma miséria! Em Mendoza e San Juan é que alguém podia divertir-se! Lá, sim, corria dinheiro! Ao frade ganhei uma noite 50.000 pesos; ao clérigo Lima, outra, 25.000; mas isto?... isto são pij...!”
Um ano se passa nesses preparativos de guerra e, enfim, em 1830 sai um novo e formidável exército para Córdoba, composto das divisões recrutadas em La Rioja, San Juan, Mendoza e San Luis. O general Paz, desejoso de evitar a efusão de sangue, embora estivesse seguro de acrescentar um novo louro aos que já cingiam suas têmporas, mandou o major Paunero, oficial cheio de prudência, energia e sagacidade, ao encontro de Quiroga, propondo-lhe não só a paz, mas uma aliança. Crê-se que Quiroga ia disposto a abraçar qualquer conjuntura de transação; mas as sugestões da comissão mediadora de Buenos Aires, que não trazia outro objetivo senão evitar toda transação, e o orgulho e a presença de Quiroga, que se via à cabeça de um novo exército mais poderoso e mais bem disciplinado que o primeiro, fizeram-no rejeitar as propostas pacíficas do modesto general Paz.
Facundo, desta vez, combinara algo que tinha visos de plano de campanha. Inteligências estabelecidas na Serra de Córdoba haviam sublevado a população pastoril; o general Villafañe aproximava-se pelo norte com uma divisão de Catamarca, enquanto Facundo caía pelo sul. Pouco esforço de penetração custou ao hábil Paz para penetrar os desígnios de Quiroga e deixá-los burlados. Uma noite, o exército desapareceu das imediações de Córdoba; ninguém podia dar conta de seu paradeiro; todos o tinham encontrado, embora em diversos lugares e à mesma hora.
Se alguma vez se realizou na América algo parecido às complicadas combinações estratégicas das campanhas de Bonaparte na Itália, foi desta vez, em que Paz fazia cruzar a Serra de Córdoba por quarenta divisões, de maneira que os prófugos de um combate fossem cair nas mãos de outro corpo postado para esse efeito em lugar preciso e inevitável. A montonera, aturdida, envolvida por todas as partes, com o exército à frente, aos flancos, à retaguarda, teve de deixar-se apanhar na rede que lhe fora estendida, e cujos fios se moviam como relógio desde a tenda do general.
Na véspera da batalha de Oncativo, ainda não haviam entrado em linha todas as divisões dessa maravilhosa campanha de quinze dias, na qual haviam operado combinadamente numa frente de cem léguas. Omito dar pormenor algum sobre aquela memorável batalha em que o general Paz, para dar valor ao seu triunfo, publicava no Boletim a morte de setenta dos seus, não obstante não ter perdido senão doze homens num combate em que se encontravam oito mil soldados e vinte peças de artilharia. Uma simples manobra derrotara o valente Quiroga, e tantos horrores, tantas lágrimas derramadas para formar aquele exército haviam terminado em dar a Facundo uma temporada de jogatinas e alguns milhares de prisioneiros inúteis a Paz.
Ricardo.—Um cavalo! Depressa, um cavalo... Meu reino por um cavalo!
Shakespeare.
Facundo, o gaucho mau dos Llanos, não volta a seus pagos desta vez; encaminha-se para Buenos Aires, e deve a essa direção imprevista de sua fuga salvar-se de cair nas mãos de seus perseguidores. Facundo viu que nada lhe resta a fazer no interior; não há desta vez tempo de martirizar e espremer os povos para que não deem recursos sem que o vencedor chegue por toda parte em seu auxílio.
Essa batalha de Oncativo, ou da Laguna Larga, era muito fecunda em resultados; por ela, Córdoba, Mendoza, San Juan, San Luis, La Rioja, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy ficavam livres da dominação dos caudilhos. A unidade da República, proposta por Rivadavia pelas vias parlamentares, começava a fazer-se efetiva desde Córdoba por meio das armas, e o general Paz, para esse efeito, reuniu um congresso de agentes daquelas províncias, para que acordassem o que mais conviesse a fim de dar-se instituições. Lavalle fora menos afortunado em Buenos Aires, e Rosas, que estava destinado a figurar papel tão sombrio e espantoso na história argentina, já começava a influir nos negócios públicos e governava a cidade. Ficava, pois, a República dividida em duas frações: uma no interior, que desejava fazer de Buenos Aires a capital da União; outra em Buenos Aires, que fingia não querer ser capital da República, a não ser que esta abjurasse a civilização europeia e a ordem civil.
Aquela batalha deixara a descoberto outro grande fato, a saber: que a montonera perdera sua força primitiva, e que os exércitos das cidades podiam medir-se com ela e destruí-la. Este é um fato fecundo na história argentina. À medida que o tempo passa, os bandos pastoris perdem sua espontaneidade primitiva. Facundo necessita já de terror para movê-los, e em batalha campal apresentam-se como espantados diante das tropas disciplinadas e dirigidas pelas máximas estratégicas que a arte europeia ensinou aos militares das cidades.
Em Buenos Aires, porém, o resultado é diverso: Lavalle, não obstante seu valor, que ostenta no Puente de Márquez e em toda parte; não obstante suas numerosas tropas de linha, sucumbe ao fim da campanha, encerrado no recinto da cidade pelos milhares de gauchos que Rosas e López aglomeraram; e por um tratado que tem enfim os efeitos de uma capitulação, desnuda-se da autoridade, e Rosas penetra em Buenos Aires. Por que é vencido Lavalle? Por nenhuma outra razão, a meu juízo, senão porque é o mais valente oficial de cavalaria que tem a República Argentina; é o general argentino e não o general europeu; as cargas de cavalaria fizeram sua fama romanesca.
Quando da derrota de Torata, ou Moquegua, não me lembro bem, Lavalle, protegendo a retirada do exército, dá quarenta cargas em dia e meio, até que não lhe restam vinte soldados para dar outras. Não me lembro se a cavalaria de Murat fez jamais prodígio igual. Mas vede as consequências funestas que traz esse fato para a República. Lavalle, em 1839, recordando que a montonera o venceu em 1830, abjura toda a sua educação guerreira à europeia e adota o sistema montonero. Equipa 4.000 cavalos e chega até as cercanias de Buenos Aires com seus brilhantes bandos, ao mesmo tempo que Rosas, o gaucho da Pampa, que o venceu em 1830, abjura por sua parte seus instintos montoneros, anula a cavalaria em seus exércitos e só confia o êxito da campanha à infantaria regrada e ao canhão.
Os papéis estão trocados: o gaucho toma a casaca; o militar da independência, o poncho; o primeiro triunfa; o segundo vai morrer transpassado por uma bala que de passagem lhe dispara a montonera. Severas lições, por certo! Se Lavalle tivesse feito a campanha de 1840 em sela inglesa e com paletó francês, hoje estaríamos às margens do Prata arrumando a navegação a vapor dos rios e distribuindo terras à imigração europeia. Paz é o primeiro general cidadão que triunfa do elemento pastoril, porque põe em exercício contra ele todos os recursos da arte militar europeia, dirigidos por uma cabeça matemática. A inteligência vence a matéria; a arte, o número.
Tão fecunda em resultados é a obra de Paz em Córdoba; tão alto levanta em dois anos a influência das cidades, que Facundo sente impossível reabilitar seu poder de caudilho, não obstante já o haver estendido por todo o litoral dos Andes, e só a culta, a europeia Buenos Aires pode servir de asilo à sua barbárie.
Os jornais de Córdoba daquela época transcreviam as notícias europeias, as sessões das Câmaras francesas, e os retratos de Casimir Périer, Lamartine, Chateaubriand serviam de modelos nas aulas de desenho; tal era o interesse que Córdoba manifestava pelo movimento europeu. Lede a Gaceta Mercantil, e podereis julgar o rumo semibárbaro que tomou desde então a imprensa de Buenos Aires.
Facundo foge para Buenos Aires, não sem antes fuzilar dois de seus oficiais, para manter a ordem nos que o acompanham. Sua teoria do terror não se desmente jamais: é seu talismã, seu paládio, seus penates. Abandonará tudo, menos essa arma favorita.
Chega a Buenos Aires, apresenta-se ao governo de Rosas, encontra-se nos salões com o general Guido, o mais cumprimentador e cerimonioso dos generais que fizeram sua carreira fazendo cortesias nas antecâmaras de palácio; dirige-lhe uma muito profunda a Quiroga: “Ora! Mostram-me os dentes — diz este —, como se eu fosse cachorro.” “Aí os senhores me mandaram uma comissão de doutores para me enredar com o general Paz (Cavia e Cernadas). Paz me bateu em regra.” Quiroga deplorou muitas vezes depois não ter dado ouvidos às propostas do major Paunero.
Facundo desaparece no torvelinho da grande cidade; mal se ouve falar de algumas ocorrências de jogo. O general Mansilla ameaça-o uma vez de dar-lhe com um castiçal, dizendo-lhe: “O quê, o senhor pensou que estava nas províncias?” Seu traje de gaucho provinciano chama a atenção; a dobra do poncho, sua barba inteira, que prometeu levar até que se lave a mancha da Tablada, fixa por um momento a atenção da elegante e europeia cidade; mas logo ninguém se ocupa dele.
Preparava-se então uma grande expedição sobre Córdoba. Seis mil homens de Buenos Aires e Santa Fe estavam alistando-se para a empresa; López era o general-em-chefe; Balcarce, Enrique Martínez e outros chefes iam sob suas ordens; já o elemento pastoril domina, mas ainda tem aliança com a cidade, com o partido federal: ainda há generais. Facundo encarrega-se de uma tentativa desesperada sobre La Rioja ou Mendoza, recebe para isso duzentos presidiários tirados de todas as cadeias, engaja mais sessenta homens no Retiro, reúne alguns de seus oficiais e dispõe-se a marchar.
Em Pavón estava Rosas reunindo suas cavalarias vermelhas; ali estava também López de Santa Fe. Facundo deteve-se em Pavón para pôr-se de acordo com os demais chefes. Os três mais famosos caudilhos estão reunidos na pampa: López, o discípulo e sucessor imediato de Artigas; Facundo, o bárbaro do interior, e Rosas, o lobezinho que ainda está sendo criado e que já está em vésperas de lançar-se a caçar por sua própria conta. Os clássicos os teriam comparado aos triúnviros Lépido, Marco Antônio e Otávio, que repartem o império, e a comparação seria exata até na vileza e crueldade do Otávio argentino.
Os três caudilhos fazem prova e ostentação de sua importância pessoal. Sabeis como? Montam a cavalo os três e saem todas as manhãs a gauchar pela Pampa; boleiam cavalos, apontam-nos às tocas das vizcachas, rolam, dão encontrões, correm carreiras. Qual é o maior homem? O melhor cavaleiro, Rosas, ele que triunfa enfim. Uma manhã vai convidar López à correria: “Não, companheiro — responde este —; de fato o senhor é muito bárbaro.” Rosas, com efeito, castigava-os todos os dias, deixava-os cheios de equimoses e contusões. Essas justas do arroio de Pavón tiveram celebridade fabulosa por toda a República, o que não deixou de contribuir para aplainar o caminho do poder ao campeão da jornada, o império AO MAIS CAVALEIRO.
Quiroga atravessa a Pampa com trezentos adictos, arrebatados em sua maioria ao braço da justiça, pelo mesmo caminho por que vinte anos antes, quando era apenas gaucho mau, fugira de Buenos Aires desertando das fileiras dos Arribeños.
Na Villa del Río Cuarto encontra uma resistência mais tenaz, e Facundo permanece três dias detido por umas valas que servem de parapeito à guarnição. Já se retirava, quando um domador se lhe apresenta e lhe revela que os sitiados não têm um cartucho. Quem é esse traidor? No ano de 1818, na tarde de 18 de março, o coronel Zapiola, chefe da cavalaria do exército chileno-argentino, quis fazer diante dos espanhóis uma exibição do poder da cavalaria dos patriotas numa formosa planície que está deste lado de Talca. Eram seis mil homens os que compunham aquela brilhante parada. Carregam, e como a força inimiga fosse muito maior, a linha se reconcentra, comprime-se, embaraça-se e se rompe, enfim; movem-se os espanhóis nesse momento, e a derrota se pronuncia naquela enorme massa de cavalaria. Zapiola é o último a voltar seu cavalo, e recebe a pouco trecho uma bala; teria caído em mãos do inimigo se um soldado de granadeiros a cavalo não desmontasse e o pusesse como uma pluma sobre sua montaria, dando nesta com o sabre para que mais depressa disparasse. Um retardatário que acerta passar, o granadeiro desmontado, prende-se à cauda do cavalo, detém-no na carreira, salta à garupa, e coronel e soldado se salvam.
Chamam-no de Boyero, e esse feito lhe abre a carreira das promoções. Em 1820 tirava-se um homem espetado por ambos os braços na lâmina de sua espada, e Lavalle o teve a seu lado como um entre tantos insignes valentes. Serviu a Facundo por longo tempo, emigrou para o Chile e de lá para Montevidéu em busca de aventuras guerreiras, onde morreu gloriosamente pelejando na defesa da praça, lavando-se da falta de Río Cuarto. Se o leitor se lembra do que eu disse do capataz de carretas, adivinhará o caráter, o valor e as forças do Boyero; um ressentimento com seus chefes, uma vingança pessoal o impulsiona àquele passo feio, e Facundo toma a Villa del Río Cuarto graças à sua revelação oportuna.
Na Villa del Río Quinto encontra o valente Pringles, aquele soldado da guerra da Independência que, cercado pelos espanhóis num desfiladeiro, lança-se ao mar com seu cavalo e, entre o ruído das ondas que se quebram contra a margem, faz ressoar o formidável grito: Viva a pátria!
O imortal Pringles, a quem o vice-rei Pezuela, cumulando-o de presentes, devolve ao seu exército, e para quem San Martín, em prêmio de tanto heroísmo, faz cunhar aquela singular medalha que tinha por lema: Honra e glória aos vencidos de Chancay!, Pringles morre às mãos dos presidiários de Quiroga, que manda envolver o cadáver em sua própria manta.
Alentado com esse triunfo inesperado, avança para San Luis, que mal lhe opõe resistência. Passada a travessia, o caminho divide-se em três. Qual deles tomará Quiroga? O da direita conduz aos Llanos, sua pátria, o teatro de suas façanhas, o berço de seu poder; ali não há forças superiores às suas, mas tampouco há recursos; o do meio leva a San Juan, onde há mil homens sob armas, mas incapazes de resistir a uma carga de cavalaria em que ele, Quiroga, vá à frente agitando sua terrível lança; o da esquerda, enfim, conduz a Mendoza, onde estão as verdadeiras forças de Cuyo às ordens do general Videla Castillo; há um batalhão de oitocentas praças, decidido, disciplinado, ao mando do coronel Barcala; um esquadrão de couraceiros em disciplina comandado pelo tenente-coronel Chenaut; milícia, enfim, e piquetes do número 2.º de caçadores e dos couraceiros da Guarda. Qual destes três caminhos tomará Quiroga? Só tem às suas ordens trezentos homens sem disciplina, e ele vem, além disso, enfermo e abatido... Facundo toma o caminho de Mendoza, chega, vê e vence, porque tal é a rapidez com que os acontecimentos se sucedem. Que ocorreu? Traição, covardia? Nada disso. Um plágio impertinente feito à estratégia europeia, um erro clássico de uma parte, e uma preocupação argentina, um erro romântico de outra, fizeram perder da maneira mais vergonhosa a batalha. Vede como.
Videla Castillo sabe oportunamente que Quiroga se aproxima e, não crendo, como nenhum general podia crer, que invadisse Mendoza, destaca para as Lagunas os piquetes que tem de tropas veteranas, que, com alguns outros destacamentos de San Juan, formam sob o mando do major Castro uma boa força de observação, capaz de resistir a um ataque e de forçar Quiroga a tomar o caminho dos Llanos. Até aqui não há erro. Mas Facundo dirige-se a Mendoza e o exército inteiro sai ao seu encontro.
No lugar chamado Chacón há um campo aberto que o exército em marcha deixa à sua retaguarda; mas, ouvindo-se a poucas quadras o tiroteio de uma força que vem batendo-se em retirada, o general Videla manda contramarchar a toda pressa para ocupar o campo aberto de Chacón. Duplo erro: primeiro, porque uma retirada à proximidade de um inimigo temível gela o ânimo do soldado bisoño, que não compreende bem a causa do movimento; segundo, e ainda maior, porque o campo mais quebrado e mais impraticável é melhor para bater Quiroga, que não traz senão um piquete de infantaria.
Imaginai o que faria Facundo num terreno intransitável contra seiscentos infantes, uma formidável bateria de artilharia e mil cavalos pela frente. Não é este o convite do urso à garça? Pois bem; todos os chefes são argentinos, gente de cavalo; não há glória verdadeira se não se conquista a golpes de sabre; antes de tudo é preciso campo aberto para as cargas de cavalaria; eis aqui o erro da estratégia argentina.
A linha forma-se em lugar conveniente. Facundo apresenta-se à vista num cavalo branco; o Boyero faz-se reconhecer e ameaça, dali, seus antigos companheiros de armas. Principia o combate e manda-se carregar a alguns esquadrões de milícia. Erro de argentinos iniciar a batalha com cargas de cavalaria; erro que fez perder a República em cem combates, porque o espírito da pampa está ali em todos os corações; pois, se levantardes um pouco as lapelas do fraque com que o argentino se disfarça, achareis sempre o gaucho mais ou menos civilizado, mas sempre o gaucho. Sobre esse erro nacional vem um plágio europeu. Na Europa, onde as grandes massas de tropas estão em coluna e o campo de batalha abraça aldeias e vilas diversas, as tropas de elite ficam nas reservas para acudir onde a necessidade as requeira. Na América, a batalha campal dá-se em geral em campo raso, as tropas são pouco numerosas, o áspero do combate é de curta duração; de maneira que sempre interessa iniciá-lo com vantagem. No caso presente, o menos conveniente era dar uma carga de cavalaria e, se se queria dá-la, devia-se lançar mão da melhor tropa para arrolar de uma vez os trezentos homens que constituíam a batalha e as reservas inimigas. Longe disso, segue-se a rotina, mandando milícias numerosas que avançam à frente; começam a olhar para Facundo; cada soldado teme encontrar-se com sua lança, e quando ouve o grito de à carga!, fica pregado no chão, retrocede; carregam-no por sua vez, retrocede e envolve as melhores tropas. Facundo passa ao largo rumo a Mendoza, sem cuidar de generais, infantaria e canhões que deixa à sua retaguarda. Eis a batalha de Chacón, que deixou flanqueado o exército de Córdoba, que estava a ponto de lançar-se sobre Buenos Aires. O êxito mais completo coroou a inconcebível audácia de Quiroga. Desalojá-lo de Mendoza já era inútil; o prestígio da vitória e o terror lhe dariam meios de resistência, ao passo que, pela derrota, ficavam desmoralizados seus inimigos; ele correria sobre San Juan, onde acharia recursos e armas, e se empenharia uma guerra interminável e sem êxito. Os chefes marcharam para Córdoba, e a infantaria, com os oficiais mendocinos, capitulou no dia seguinte. Os unitários de San Juan emigraram para Coquimbo em número de duzentos, e Quiroga ficou pacífico possuidor de Cuyo e La Rioja. Jamais haviam sofrido aqueles dois povos catástrofe igual, não tanto pelos males que diretamente fez Quiroga, mas pela desordem de todos os negócios que trouxe aquela emigração em massa da parte acomodada da sociedade.
Mas o mal foi maior sob o aspecto do retrocesso que experimentou o espírito de cidade, que é o que me interessa assinalar. Muitas vezes o disse, e desta vez devo repeti-lo: consultada a posição mediterrânea de Mendoza, era até então um povo eminentemente civilizado, rico em homens ilustrados e dotado de um espírito de empresa e de melhoria que não há em povo algum da República Argentina; era a Barcelona do interior. Esse espírito tomara todo o seu auge durante a administração de Videla Castillo. Construíram-se fortes ao sul que, além de afastar os limites da província, a deixaram para sempre assegurada contra as irrupções dos selvagens; empreendeu-se a dessecação dos pântanos imediatos; adornou-se a cidade; formaram-se Sociedades de agricultura, indústria, mineração e educação pública, dirigidas e secundadas todas por homens inteligentes, entusiastas e empreendedores; fomentou-se uma fábrica de tecidos de cânhamo e lã, que provia de vestes e lonas as tropas; formou-se uma maestranza, na qual se construíam espadas, sabres, couraças, lanças, baionetas e fuzis, sem que nestes entrasse mais que o cano de fabricação estrangeira; fundiram-se balas ocas de canhão e tipos de imprensa. Um francês, Charon, químico, dirigia estes últimos trabalhos, como também o ensaio dos metais da província. É impossível imaginar desenvolvimento mais rápido nem mais extenso de todas as forças civilizadoras de um povo. No Chile ou em Buenos Aires todas essas fabricações não chamariam muita atenção; mas numa província do interior, e apenas com o auxílio de artesãos do país, é um esforço prodigioso. A prensa gemia sob o peso de jornais e publicações periódicas em que o verso não se fazia esperar. Com as disposições que conheço nesse povo, em dez anos de um sistema semelhante teria ele se tornado um colosso; mas as pisadas dos cavalos de Facundo vieram logo pisotear esses rebentos vigorosos da civilização, e o frade Aldao fez passar o arado e semear de sangue o solo durante dez anos. Que havia de restar!
O movimento impresso então às ideias não se conteve, mesmo depois da ocupação de Quiroga; os membros da Sociedade de Mineração emigrados no Chile consagraram-se, desde sua chegada, ao estudo da química, da mineralogia e da metalurgia. Godoy Cruz, Correa, Villanueva, Doncel e muitos outros reuniram todos os livros que tratavam da matéria, recolheram de toda a América coleções de metais diversos, examinaram os arquivos chilenos para informar-se da história do mineral de Uspallata, e, à força de diligência, conseguiram entabular trabalhos ali, em que, com o auxílio da ciência adquirida, tiraram utilidade da escassa quantidade de metal útil que aquelas minas contêm, porque o mineral de Uspallata é um cadáver.
Dessa época data a nova exploração de minas em Mendoza, que hoje se está fazendo com vantagem. Os mineiros argentinos, não satisfeitos com esses resultados, espalharam-se pelo território do Chile, que lhes oferecia um rico anfiteatro para ensaiar sua ciência, e não é pouco o que fizeram em Copiapó e em outros pontos na exploração e beneficiamento e na introdução de novas máquinas e aparelhos. Godoy Cruz, desenganado das minas, dirigiu a outro rumo suas investigações, e com o cultivo da amoreira creu resolver o problema do porvir das províncias de San Juan e Mendoza, que consiste em achar uma produção que em pouco volume encerre muito valor.
A seda preenche esta condição imposta àqueles povos centrais pela imensa distância a que estão dos portos e pelo alto preço dos fretes. Godoy Cruz não se contentou em publicar em Santiago um folheto volumoso e completo sobre o cultivo da amoreira, a criação do bicho-da-seda e da cochonilha, mas, distribuindo-o gratuitamente naquelas províncias, esteve durante dez anos agitando sem descanso, propagando a amoreira, estimulando todos a dedicar-se ao seu cultivo, exagerando suas vantagens opimas, enquanto aqui mantinha relações com a Europa para instruir-se dos preços correntes, mandando amostras da seda que colhia, fazendo-se conhecedor prático de seus defeitos e perfeições, aprendendo e ensinando a fiar. Os frutos desta grande e patriótica obra corresponderam às esperanças do nobre artífice; até o ano passado já havia em Mendoza alguns milhões de amoreiras, e a seda, colhida por quintais, fora fiada, torcida, tingida e vendida à Europa, em Buenos Aires e Santiago, a cinco, seis e sete pesos a libra; porque a joiante de Mendoza não cede em brilho e finura à mais afamada da Espanha ou da Itália.
O pobre velho voltou enfim à sua pátria para deleitar-se no espetáculo de um povo inteiro consagrado a realizar a mais fecunda mudança de indústria, prometendo-se que a morte não lhe fechará os olhos antes de ver sair para Buenos Aires uma caravana de carretas carregadas, no fundo da América, com a preciosa produção que por tantos séculos fez a riqueza da China e que disputam hoje as fábricas de Lyon, Paris, Barcelona e de toda a Itália. Glória eterna ao espírito unitário, de cidade e de civilização! Mendoza, a seu impulso, antecipou-se a toda a América espanhola na exploração em grande dessa rica indústria![31]. Pedi ao espírito de Facundo e de Rosas uma só gota de interesse pelo bem público, de dedicação a algum objeto de utilidade; torcei-o e espremei-o, e ele só destilará sangue e crimes!
Detenho-me nesses pormenores porque, em meio a tantos horrores como os que estou condenado a descrever, é grato parar para contemplar as belas plantas que vimos pisoteadas pelo selvagem inculto das pampas; detenho-me com prazer, porque eles provarão aos que ainda duvidarem que a resistência a Rosas e a seu sistema, ainda que até aqui se tenha mostrado débil em seus meios, é somente a defesa da civilização europeia, a de seus resultados e formas, que deu durante quinze anos tanta abnegação, tanta constância aos que até aqui derramaram seu sangue ou provaram as tristezas do desterro.
Há ali um mundo novo que está a ponto de desenvolver-se, e que não espera mais para apresentar-se quão brilhante é senão que um general afortunado consiga afastar o pé de ferro que tem hoje oprimida a inteligência do povo argentino. A história, por outra parte, não há de tecer-se só com crimes e empapar-se em sangue; nem é demais trazer à vista dos povos extraviados as páginas quase apagadas das épocas passadas. Que ao menos desejem para seus filhos tempos melhores que os que eles alcançam; porque não importa que hoje o canibal de Buenos Aires se canse de derramar sangue e permita voltar a ver em seus lares, aos que já traz subjugados e anulados, a desgraça e o desterro.
Nada importa isso para o progresso de um povo. O mal que é preciso remover é o que nasce de um governo que treme à presença dos homens pensadores e ilustrados, e que para subsistir necessita afastá-los ou matá-los; nasce de um sistema que, reconcentrando em um só homem toda vontade e toda ação, o bem que ele não faz, porque não o concebe, não o pode ou não o quer, ninguém se sente disposto a fazê-lo por temor de atrair os olhares suspicazes do tirano, ou então porque onde não há liberdade de agir e pensar, o espírito público se extingue, e o egoísmo que se reconcentra em nós mesmos afoga todo sentimento de interesse pelos demais. Cada um por si, o açoite do verdugo para todos: eis o resumo da vida e governo dos povos escravizados.
Se o leitor se aborrece com estes raciocínios, contar-lhe-ei crimes espantosos. Facundo, dono de Mendoza, tocava, para prover-se de dinheiro e soldados, os recursos que já nos são bem conhecidos. Uma tarde cruzam a cidade em todas as direções partidas que estão carreando para um olival todos os oficiais que encontram entre os que haviam capitulado em Chacón; ninguém sabe o objetivo, nem eles temem por ora coisa alguma, fiados na fé do estipulado. Vários sacerdotes recebem, porém, ordem de apresentar-se igualmente; quando já há suficiente número de oficiais reunidos, manda-se aos sacerdotes confessá-los, o que, efetuado, forma-se a fila, e um por um começam a fuzilá-los sob a direção de Facundo, que indica aquele que parece conservar ainda a vida, e assinala com o dedo o lugar onde devem dar-lhe o tiro que há de ultimá-lo.
Concluída a matança, que dura uma hora porque se faz com lentidão e calma, Quiroga explica a alguns o motivo daquela terrível violação da fé dos tratados: “Os unitários — diz — mataram no Chile o general Villafañe, e ele usa de represálias.” A acusação é fundada, embora a satisfação seja um pouco grosseira. “Paz — dizia outra vez — fuzilou-me nove oficiais, eu lhe fuzilei noventa e seis; estamos quites.” Paz não era responsável por um ato que lamentou profundamente, e que fora motivado pela morte de um parlamentar seu. Mas o sistema de não dar quartel, seguido por Rosas com tanta pertinácia, e de violar todas as formas recebidas, pactos, tratados, capitulações, é efeito de causas que não dependem do caráter pessoal dos caudilhos. O direito das gentes, que suavizou os horrores da guerra, é resultado de séculos de civilização; o selvagem mata seu prisioneiro, não respeita convênio algum sempre que acha vantagem em violá-lo. Que freio conterá o selvagem argentino, que não conhece esse direito das gentes das cidades cultas? Onde terá adquirido a consciência do direito? Na Pampa? A morte de Villafañe ocorreu em território chileno. Seu matador já sofreu a pena de talião: olho por olho, dente por dente. A justiça humana ficou satisfeita; mas o caráter do protagonista daquele sangrento drama convém demasiado ao meu assunto para que me prive do prazer de introduzi-lo.
Entre os emigrados sanjuaninos que se dirigiam a Coquimbo ia um major do exército do general Paz, dotado desses caracteres originais que a vida argentina desenvolve. O major Navarro, de uma família distinta de San Juan, de formas diminutas e de corpo flexível e débil, era célebre no exército por seu temerário arrojo. À idade de dezoito anos montava guarda como alferes de milícias na noite em que, em 1820, sublevou-se em San Juan o número 1 dos Andes. Quatro companhias formam diante do quartel e intimam a rendição aos cívicos. Navarro fica sozinho na guarda, entreabre a porta e com seu florete defende a entrada; catorze feridas, entre golpes de sabre e baioneta, franqueiam-na; e o alferes, apertando com as mãos três baionetadas que recebera perto da virilha, com o outro braço cobrindo cinco que lhe haviam transpassado o peito, e afogando-se com o sangue que corre em torrentes da cabeça, dirige-se dali à sua casa, onde recupera a saúde e a vida depois de sete meses de uma cura desesperada e quase impossível.
Dado baixa pela dissolução dos cívicos, dedica-se ao comércio, mas ao comércio acompanhado de perigos e aventuras. A princípio introduz carregamentos por contrabando em Córdoba; depois trafica desde Córdoba com os índios, e por último casa-se com a filha de um cacique, vive santamente com ela, mistura-se às guerras selvagens, habitua-se a comer carne crua e beber o sangue na sangria dos cavalos, até que em quatro anos se faz um selvagem feito e direito. Sabe ali que a guerra do Brasil vai principiar e, deixando seus amados selvagens, assenta praça no exército em seu grau de alferes, e tão bom jeito dá e tantos golpes de sabre distribui que, ao fim da campanha, é capitão graduado de major e um dos prediletos de Lavalle, o provador de valentes. Em Puente Márquez deixa atônito o exército com suas façanhas, e depois de todas aquelas correrias, fica em Buenos Aires com os demais oficiais de Lavalle. Arbolito, Pancho, el Yato, Molina e outros bandidos da campanha eram os altos personagens que ostentavam seu valor por cafés e mesões. A animosidade contra os oficiais do exército era cada dia mais envenenada. No café da Comedia estavam alguns desses heróis da época e brindavam à morte do general Lavalle; Navarro, que os ouviu, aproxima-se, toma o copo de um deles, serve para ambos e diz: “Tome o senhor à saúde de Lavalle!” Desembainham as espadas e o deixam estendido. Era preciso salvar-se, ganhar a campanha e, por entre as partidas inimigas, chegar a Córdoba. Antes de tomar serviço, penetra terra adentro para visitar sua família, seu sogro, e sabe com pesar que sua cara-metade falecera. Despede-se dos seus, e dois de seus parentes, dois rapagões, um seu primo e o outro seu sobrinho, acompanham-no de volta ao exército.
Da ação de Chacón trazia um clarão de pólvora na têmpora que lhe arrancara todo o cabelo e embutira pólvora no rosto. Com tal aspecto e acompanhamento, e um assistente inglês tão gaucho e certeiro no laço e nas bolas como o patrão e os parentes, emigrava o jovem Navarro para Coquimbo; porque jovem era, e tão culto em sua linguagem e tão elegante em seus modos como o primeiro janota; o que não impedia que, quando via cair uma rês, viesse beber-lhe o sangue como um selvagem. Todos os dias queria voltar, e as instâncias de seus amigos mal bastavam para contê-lo. “Sou filho da pólvora — dizia com sua voz grave e sonora —: a guerra é meu elemento.” “A primeira gota de sangue que a guerra civil derramou — dizia outras vezes — saiu destas veias, e daqui há de sair a última.” “Não posso ir mais adiante — repetia, parando seu cavalo —; sinto falta sobre meus ombros das dragonas de general.” “Enfim — exclama outras vezes —: que dirão meus companheiros quando souberem que o major Navarro pisou o solo estrangeiro sem um esquadrão com lança em riste?”
No dia em que passaram a cordilheira houve uma cena patética. Era preciso depor as armas; não havia forma de fazer os índios conceberem que havia países onde não era permitido andar com a lança na mão. Navarro aproximou-se deles, falou-lhes na língua; foi-se animando pouco a pouco; duas grossas lágrimas correram de seus olhos, e os índios cravaram com mostras de angústia suas lanças no chão. Ainda depois de empreendida a marcha, voltaram seus cavalos e deram uma volta em torno delas, como se lhes dissessem um eterno adeus!
Com essas disposições de espírito passou o major Navarro ao Chile e alojou-se em Guanda, que está situado na boca da quebrada que conduz à Cordilheira. Ali soube que Villafañe voltava para reunir-se a Facundo e anunciou publicamente seu propósito de matá-lo.
Os emigrados que sabiam o que as palavras importavam na boca do major Navarro, depois de procurar em vão dissuadi-lo, afastaram-se do lugar da cena. Advertido Villafañe, pediu auxílio à autoridade, que lhe deu alguns milicianos, os quais o abandonaram desde que se informaram do que se tratava. Mas Villafañe ia perfeitamente armado e trazia, além disso, seis riojanos. Ao passar por Guanda, Navarro saiu ao seu encontro e, mediando entre ambos um arroio, anunciou-lhe em frases solenes e claras seu desígnio de matá-lo, com o que voltou tranquilo à casa em que então almoçava. Villafañe teve a indiscrição de alojar-se em Tilo, lugar distante apenas quatro léguas daquele em que o desafio ocorrera.
À noite, Navarro requer suas armas e uma comitiva de nove homens que o acompanham, e que deixa em lugar conveniente perto da casa de Tilo, avançando ele sozinho à claridade da lua. Quando penetrou no pátio aberto da casa, grita a Villafañe, que dormia com os seus no corredor: “Villafañe, levanta-te! Venho matar-te; quem tem inimigos não dorme.” Este toma sua lança, Navarro desmonta do cavalo, desembainha a espada, aproxima-se e o transpassa. Então dispara uma pistola, que era o sinal de avançar que dera à sua partida, a qual se lança sobre a comitiva do morto, mata-a ou dispersa-a. Mandam trazer os animais de Villafañe, carregam sua bagagem e marcham no lugar dele para a República Argentina, para incorporar-se ao exército. Extraviando caminhos, chegam ao Río Cuarto, onde se encontram com o coronel Echevarría perseguido pelos inimigos. Navarro voa em seu auxílio, e tendo caído morto o cavalo de seu amigo, insta-o a montar na sua garupa.
Este não consente; Navarro obstina-se em não fugir sem salvá-lo, e por fim desmonta de seu cavalo, mata-o e morre ao lado de seu amigo, sem que sua família pudesse descobrir tão triste fim senão depois de três anos, quando o mesmo que o ultimou contou a trágica história e desenterrou, para maior prova, os dois esqueletos dos dois infelizes amigos. Há em toda a vida deste malogrado jovem tal originalidade que sem dúvida vale a pena fazer uma digressão em favor de sua memória.
Durante a curta emigração do major Navarro, haviam ocorrido sucessos que mudavam completamente a face dos negócios públicos. A célebre captura do general Paz, arrebatado da cabeça de seu exército por um tiro de bolas, decidia a sorte da República, podendo-se dizer que ela não se constituiu naquela época, e as leis e as cidades não afiançaram seu domínio por acidente tão singular; porque Paz, com um exército de quatro mil e quinhentos homens perfeitamente disciplinados, e com um plano de operações sabiamente combinado, estava seguro de desbaratar o exército de Buenos Aires.
Os que o viram depois triunfar por toda parte julgarão que não havia muita presunção de sua parte em antecipações tão felizes. Poderíamos fazer coro aos moralistas que dão aos acontecimentos mais fortuitos o poder de transtornar a sorte dos impérios; mas se é fortuito acertar um tiro de bolas sobre um general inimigo, não o é que venha da parte dos que atacam as cidades, do gaucho da Pampa convertido em elemento político. Assim, pode-se dizer que a civilização foi boleada daquela vez.
Facundo, depois de vingar tão cruelmente seu general Villafañe, marchou a San Juan para preparar a expedição sobre Tucumán, para onde o exército de Córdoba se retirara depois da perda do general, o que fazia impossível todo propósito invasor. À sua chegada, todos os cidadãos federais, como em 1827, saíram a seu encontro; mas Facundo não gostava de recepções.
Manda uma partida sair adiante da rua em que estavam reunidos, deixa outra atrás, faz pôr guardas em todas as avenidas e, tomando ele por outro caminho, entra na cidade, deixando presos seus oficiosos hóspedes, que tiveram de passar o resto do dia e a noite inteira agrupados na rua, abrindo espaço entre as patas dos cavalos para cochilar um pouco. Quem ler isto se indignará com o ultraje afrontoso e insolente feito a seus próprios partidários, àqueles que com sua cooperação o elevaram. Eu não vejo nisso senão uma face histórica e característica da luta argentina. Facundo deixa de fingir-se federal como o entendiam os homens das cidades; é o inimigo de todos os que vestem fraque, é o elemento bárbaro que se apresenta em toda a sua nudez, e é preciso fazê-lo sentir aos iludidos que ainda se contam entre seus partidários.
Quando chegou à praça, faz deter no meio dela sua carruagem, manda cessar o repique dos sinos e lança à rua toda a mobília da casa que as autoridades prepararam para recebê-lo: tapetes, cortinados, espelhos, cadeiras, mesas, tudo se amontoa em confusa mistura na praça, e ele não desce senão quando se certifica de que não restam senão as paredes limpas, uma mesa pequena, uma única cadeira e uma cama. É um espartano, diria outro que não eu, que não vejo em todas essas miseráveis manobras senão a insolência brutal de um bárbaro que insulta as cidades, afetando desdenhar seus gozos, seu luxo e seus usos civilizados. Enquanto essa operação se efetua, chama um menino que por acaso passa perto de sua carruagem, pergunta-lhe o nome e, ao ouvir o sobrenome Rosa, diz-lhe: “Seu pai, dom Ignacio de la Rosa, foi um grande homem; ofereça à sua mãe os meus serviços.”
No dia seguinte amanhece na praça um banco de fuzilar, de seis varas de comprimento. Quem serão as vítimas? Os unitários fugiram em massa, até os tímidos que não são unitários! Facundo começa a distribuir contribuições às senhoras em defeito de seus maridos, pais ou irmãos ausentes, e nem por isso são menos satisfatórios os resultados. Omito a relação de todos os acontecimentos desse período, que não deixariam escutar os soluços e gritos das mulheres ameaçadas de ir ao banco e de ser açoitadas: dois ou três fuzilados, quatro ou cinco açoitados, uma ou outra senhora condenada a fazer comida aos soldados, e outras violências sem nome.
Mas houve um dia de terror glacial que não devo passar em silêncio. Era o momento de sair a expedição sobre Tucumán; as divisões começam a desfilar uma após outra; na praça estão os tropeiros carregando as bagagens; uma mula se espanta e entra no templo de Santa Ana. Facundo manda que a lacem na igreja; o arrieiro vai tomá-la com as mãos, e nesse momento um oficial que entra a cavalo por ordem de Quiroga laça mula e arrieiro e os tira à cincha, unidos, sofrendo o infeliz as pisadas, golpes e coices da besta.
Algo não está pronto naquele momento; Facundo faz comparecer as autoridades negligentes. Sua excelência o senhor governador e capitão-general da província recebe uma bofetada, o chefe de Polícia escapa correndo de receber uma lançada, e ambos ganham as ruas de seus ofícios para dar as ordens que omitiram. Parece-vos isto muita degradação? Não: assim são os povos; assim é o homem quando se perdeu toda consciência do direito, quando a força brutal se desencadeia. Que faz a criança quando seu pai, enfurecido, se vinga despedaçando-a a açoites? Chora e se submete, porque não há na terra apoio para seu direito. Assim fazem os governadores e os povos: choram e se submetem, porque a resistência é inútil, a dignidade uma provocação, e a morte recebida ficaria sem glória e sem vingadores.
Mais tarde, Facundo vê um de seus oficiais dar cintaradas em dois soldados que brigavam; chama-o, acomete-o com a lança; o oficial prende-se à haste para salvar a vida, lutam, e por fim o oficial a tira dele e a entrega respeitosamente; nova tentativa de transpassá-lo com ela; nova luta, nova vitória do oficial, que torna a entregá-la. Facundo então reprime sua raiva, chama auxílio, seis homens apoderam-se do atlético oficial, esticam-no numa janela, e bem amarrado de pés e mãos, Facundo o transpassa repetidas vezes com aquela lança que por duas vezes lhe fora devolvida, até que o oficial esgote a última agonia, até que recline a cabeça e o cadáver jaza hirto e sem movimento. As fúrias estão desencadeadas; o general Huidobro é ameaçado com a lança, embora tenha o valor de desembainhar sua espada e preparar-se para defender a vida.
E, apesar de tudo isso, Facundo não é cruel, não é sanguinário; é o bárbaro, nada mais, que não sabe conter suas paixões, e que, uma vez irritadas, não conhecem freio nem medida; é o terrorista que, à entrada de uma cidade, fuzila um e açoita outro, mas com economia, muitas vezes com discernimento; o fuzilado é um cego, um paralítico ou um sacristão; quando muito, o infeliz açoitado é um cidadão ilustre, um jovem das primeiras famílias. Suas brutalidades com as senhoras vêm de não ter consciência das delicadas atenções que a fraqueza merece; as humilhações afrontosas impostas aos cidadãos provêm de ser ele camponês grosseiro, e por isso gosta de maltratar e ferir no amor-próprio e no decoro aqueles que sabe que o desprezam. Não é outro o motivo que faz do terror um sistema de governo. Que teria feito Rosas sem ele numa sociedade como era antes a de Buenos Aires? Que outro meio de impor ao público ilustrado o respeito que a consciência nega ao que, de si, é abjeto e desprezível?
É inaudito o cúmulo de atrocidades que é preciso amontoar umas sobre outras para perverter um povo, e ninguém sabe os ardis, os estudos, as observações e a sagacidade que empregou dom Juan Manuel Rosas para submeter a cidade a essa influência mágica que transtorna em seis anos a consciência do justo e do bom, que quebranta enfim os corações mais esforçados e os dobra ao jugo. O terror de 1793 na França era um efeito, não um instrumento; Robespierre não guilhotinava nobres e sacerdotes para criar para si uma reputação nem elevar-se ele sobre os cadáveres que amontoava. Era aquela uma alma austera e severa que acreditara ser preciso amputar da França todos os seus membros aristocráticos para cimentar a revolução. “Nossos nomes — dizia Danton — descerão à posteridade execrados, mas teremos salvado a República.” O terror entre nós é uma invenção governativa para afogar toda consciência, todo espírito de cidade, e forçar enfim os homens a reconhecer como cabeça pensante o pé que lhes oprime a garganta; é uma desforra que toma o homem inepto armado de punhal para vingar-se do desprezo que sabe que sua nulidade inspira a um público que lhe é infinitamente superior. Por isso vimos em nossos dias repetirem-se as extravagâncias de Calígula, que se fazia adorar como Deus e associava ao império seu cavalo. Era que Calígula sabia que era ele o último dos romanos, os quais tinha, não obstante, sob seu pé. Facundo dava ares de inspirado, de adivinho, para suprir a incapacidade natural de influir sobre os ânimos. Rosas fazia-se adorar nos templos e puxar seu retrato pelas ruas num carro a que iam jungidos generais e senhoras, para criar o prestígio que sentia faltar-lhe. Mas Facundo é cruel só quando o sangue lhe subiu à cabeça e aos olhos, e vê tudo vermelho. Seus cálculos frios limitam-se a fuzilar um homem, a açoitar um cidadão; Rosas nunca se enfurece; calcula na quietude e no recolhimento de seu gabinete, e dali saem as ordens a seus sicários.
Marco da literatura e do pensamento político argentino, Facundo investiga a tensão entre civilização e barbárie a partir da figura de Juan Facundo Quiroga, das pampas, das cidades e das guerras civis do século XIX. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
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