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Capítulo 5 · Facundo

Presente e porvir; documentos e apêndice

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CAPÍTULO II

PRESENTE E PORVIR

Depois de ter sido conquistador, depois
de se haver desdobrado por inteiro, ele se esgota,
cumpriu o seu tempo, é conquistado
ele próprio: nesse dia deixa a cena
do mundo, porque então se tornou
inútil à humanidade.

Cousin.

O bloqueio da França durava já dois anos, e o Governo americano, animado pelo espírito americano, fazia frente à França, ao princípio europeu, às pretensões europeias. O bloqueio francês, entretanto, fora fecundo em resultados sociais para a República Argentina, e servia para manifestar, em toda a sua nudez, a situação dos espíritos e os novos elementos de luta que haveriam de acender a guerra encarniçada que só pode terminar com a queda daquele Governo monstruoso. O Governo pessoal de Rosas continuava seus estragos em Buenos Aires, sua fusão unitária no interior, ao passo que no exterior se apresentava fazendo frente gloriosamente às pretensões de uma potência europeia e reivindicando o poder americano contra toda tentativa de invasão. Rosas provou — dizia-se por toda a América, e ainda hoje se diz — que a Europa é demasiado fraca para conquistar um Estado americano que quer sustentar seus direitos.

Sem negar esta verdade inquestionável, creio que o que Rosas pôs em evidência foi a supina ignorância em que se vive na Europa acerca dos interesses europeus na América e dos verdadeiros meios de fazê-los prosperar sem detrimento da independência americana. A Rosas, além disso, deve a República Argentina, nestes últimos anos, haver enchido com seu nome, com suas lutas e com a discussão de seus interesses o mundo civilizado, e tê-la posto em contato mais imediato com a Europa, forçando seus sábios e seus políticos a se aplicarem ao estudo deste mundo transatlântico, chamado a desempenhar papel tão importante no mundo futuro.

Não digo que hoje estejam muito mais adiantados em conhecimentos, mas que já se acham em vias de experiência e que, por fim, a verdade há de ser conhecida. Considerado o bloqueio francês sob seu aspecto material, é um fato obscuro que não conduz a nenhum resultado histórico; Rosas cede de suas pretensões, a França deixa apodrecer seus navios nas águas do Prata: eis toda a história do bloqueio.

A aplicação do novo sistema de Rosas trouxera um resultado singular, a saber: que a população de Buenos Aires fugira e se reunira em Montevidéu. Ficavam, é verdade, na margem esquerda do Prata, as mulheres, os homens materiais, aqueles que pastam o seu pão sob a férula de qualquer tirano; os homens, enfim, para os quais o interesse da liberdade, da civilização e da dignidade da pátria vem depois do de comer ou dormir; mas toda aquela escassa porção de nossas sociedades e de todas as sociedades humanas, para a qual entra em alguma coisa, nos negócios da vida, viver sob um governo racional e preparar seus destinos futuros, achava-se reunida em Montevidéu, para onde, por outro lado, com o bloqueio e a falta de segurança individual, se havia transferido o comércio de Buenos Aires e as principais casas estrangeiras.

Achavam-se, pois, em Montevidéu os antigos unitários, com todo o pessoal da administração de Rivadavia, seus mantenedores, dezoito generais da República, seus escritores, os ex-congressistas etc.; estavam ali, além disso, os federais da cidade, emigrados de 1833 em diante; isto é, todas as notabilidades hostis à Constituição de 1826, expulsas por Rosas com o apelido de lomos negros. Vinham depois os fautores de Rosas, que não tinham podido ver sem horror a obra de suas mãos, ou que, sentindo aproximar-se deles a faca exterminadora, haviam, como Tallien e os termidorianos, tentado salvar suas vidas e a pátria destruindo aquilo mesmo que eles haviam criado.

Por último, chegara a reunir-se em Montevidéu um quarto elemento, que não era nem unitário, nem federal, nem ex-rosista, e que nenhuma afinidade tinha com aqueles, composto da nova geração que chegara à virilidade em meio à destruição da antiga ordem e à implantação da nova. Como Rosas teve tão grande cuidado e tanta perseverança em fazer crer ao mundo que seus inimigos são hoje os unitários do ano 26, creio oportuno entrar em alguns detalhes sobre esta última face das ideias que agitaram a República.

A numerosa juventude que o Colégio de Ciências Morais, fundado por Rivadavia, reunira de todas as províncias, aquela que a Universidade, o Seminário e os muitos estabelecimentos de educação que pululavam naquela cidade que teve um dia a candura de se chamar a Atenas americana haviam preparado para a vida pública, encontrava-se sem foro, sem Imprensa, sem tribuna, sem essa vida pública, sem teatro, enfim, em que ensaiar as forças de uma inteligência juvenil e cheia de atividade. Por outro lado, o contato imediato que a revolução da Independência, o comércio e a administração de Rivadavia, tão eminentemente europeia, haviam estabelecido com a Europa, lançara a juventude argentina ao estudo do movimento político e literário da Europa, e sobretudo da França.

O romantismo, o ecletismo, o socialismo, todos aqueles diversos sistemas de ideias tinham adeptos ardorosos, e o estudo das teorias sociais fazia-se à sombra do despotismo mais hostil a todo desenvolvimento de ideias. O doutor Alsina, dando aula na Universidade sobre legislação, depois de explicar o que era o despotismo, acrescentava esta frase final: «Em suma, senhores: querem os senhores ter uma ideia cabal do que é o despotismo? Aí têm o Governo de dom Juan Manuel Rosas com faculdades extraordinárias.» Uma chuva de aplausos sinistros e ameaçadores abafava a voz do ousado catedrático.

Afinal, essa juventude que se escondia com seus livros europeus para estudar em segredo, com seu Sismondi, seu Lherminier, seu Tocqueville, suas revistas Britânica, dos Dois Mundos, Enciclopédica, seu Jouffroi, seu Cousin, seu Guizot etc., etc., interroga-se, agita-se, comunica-se, e por fim associa-se irrefletidamente, sem saber ao certo para quê, levada por um impulso que crê puramente literário, como se as letras corressem perigo de perder-se naquele mundo bárbaro, ou como se a boa doutrina, perseguida à superfície, necessitasse esconder-se no asilo subterrâneo das catacumbas para sair dali compacta e robustecida, a lutar contra o poder.

O Salão Literário de Buenos Aires foi a primeira manifestação desse espírito novo. Algumas publicações periódicas, alguns opúsculos em que as doutrinas europeias apareciam ainda mal digeridas, foram seus primeiros ensaios. Até então nada de política, nada de partidos; ainda havia muitos jovens que, preocupados com as doutrinas históricas francesas, julgaram que Rosas, seu Governo, seu sistema original, sua reação contra a Europa eram uma manifestação nacional americana, uma civilização, enfim, com seus caracteres e formas peculiares. Não entrarei a apreciar nem a importância real desses estudos nem as fases incompletas, presunçosas e até ridículas que apresentava aquele movimento literário; eram ensaios de forças inexperientes e juvenis que não mereceriam lembrança se não fossem precursores de um movimento mais fecundo em resultados. Do seio do Salão Literário desprendeu-se um grupo de cabeças inteligentes que, associando-se secretamente, propunha-se formar um carbonarismo que deveria lançar em toda a República as bases de uma reação civilizada contra o Governo bárbaro que triunfara.

Tenho, por fortuna, a ata original dessa associação diante dos olhos, e posso, com satisfação, contar os nomes que a subscreveram. Os que os levam estão hoje disseminados pela Europa e pela América, exceto alguns que pagaram à pátria o seu tributo com uma morte gloriosa nos campos de batalha.

Quase todos os que sobrevivem são hoje literatos distintos, e se um dia os poderes intelectuais houverem de ter parte na direção dos negócios da República Argentina, muitos e muito completos instrumentos encontrará nesta plêiade escolhida, longamente preparada pelo talento, pelo estudo, pelas viagens, pela desgraça e pelo espetáculo dos erros e desacertos que presenciaram ou cometeram eles mesmos.

«Em nome de Deus — diz a ata —, da pátria, dos heróis e mártires da Independência Americana; em nome do sangue e das lágrimas inutilmente derramados em nossa guerra civil, todos e cada um dos membros da associação da jovem geração argentina:

»Crendo que todos os homens são iguais;

»Que todos são livres, que todos são irmãos, iguais em direitos e deveres;

»Livres no exercício de suas faculdades para o bem de todos;

»Irmãos para marchar à conquista daquele bem e ao pleno cumprimento dos destinos humanos;

»Crendo no progresso da humanidade; tendo fé no porvir;

»Convencidos de que a união constitui a força;

»Que não pode existir fraternidade nem união sem o vínculo dos princípios;

»E desejando consagrar seus esforços à liberdade e felicidade de sua pátria e à regeneração completa da sociedade argentina,

»1.º Juram concorrer com sua inteligência, seus bens e seus braços para a realização dos princípios formulados nas palavras simbólicas que formam as bases do pacto da aliança;

»2.º Juram não desistir da empresa, quaisquer que sejam os perigos que ameacem cada um dos membros sociais;

»3.º Juram sustentá-los a todo transe e usar de todos os meios que tenham em suas mãos para difundi-los e propagá-los; e

»4.º Juram fraternidade recíproca, estreita união e perpétuo silêncio sobre o que possa comprometer a existência da Associação.»

As palavras simbólicas, não obstante a obscuridade emblemática do título, eram apenas o credo político que o mundo cristão reconhece e confessa, com a única agregação da prescindência, por parte dos associados, das ideias e interesses que antes haviam dividido unitários e federais, com os quais podiam agora harmonizar-se, uma vez que a desgraça comum os unira no desterro.

Enquanto esses novos apóstolos da República e da civilização europeia se preparavam para pôr à prova seus juramentos, a perseguição de Rosas chegava já até eles, jovens sem antecedentes políticos, depois de haver passado por seus próprios partidários, pelos federais lomos negros e pelos antigos unitários. Foi-lhes preciso, pois, salvar com suas vidas as doutrinas que tão sensatamente haviam formulado, e Montevidéu viu chegar, uns após outros, centenas de jovens que abandonavam família, estudos e negócios para ir buscar na margem oriental do Prata um ponto de apoio para derrubar, se pudessem, aquele poder sombrio que se fazia de parapeito de cadáveres e tinha por vanguarda uma horda de assassinos legalmente constituída.

Precisei entrar nestas minúcias para caracterizar um grande movimento que se operava então em Montevidéu e que escandalizou a América, dando a Rosas uma poderosa arma moral para robustecer seu Governo e seu princípio americano. Falo da aliança dos inimigos de Rosas com os franceses que bloqueavam Buenos Aires, que Rosas lançou eternamente em rosto aos unitários como uma nódoa. Mas, em honra da verdade histórica e da justiça, devo declarar, já que a ocasião se apresenta, que os verdadeiros unitários, os homens que figuraram até 1829, não são responsáveis por aquela aliança; os que cometeram aquele delito de lesa-americanismo; os que se lançaram nos braços da França para salvar a civilização europeia, suas instituições, hábitos e ideias nas margens do Prata, foram os jovens; em uma palavra: fomos nós! Sei muito bem que, nos Estados americanos, Rosas encontra eco, mesmo entre homens liberais e eminentemente civilizados, sobre este delicado ponto, e que para muitos ainda é erro afrontoso haverem os argentinos se associado aos estrangeiros para derrubar um tirano. Mas cada um deve repousar em suas convicções e não descer a justificar-se daquilo em que crê firmemente e sustenta por palavra e obra. Assim, pois, direi, a despeito de quem quer que seja, que a glória de haver compreendido que havia aliança íntima entre os inimigos de Rosas e os poderes civilizados da Europa pertenceu inteira a nós.

Os unitários mais eminentes, como os americanos, como Rosas e seus satélites, estavam demasiado preocupados com essa ideia da nacionalidade, que é patrimônio do homem desde a tribo selvagem e que o faz olhar com horror para o estrangeiro.

Nos povos castelhanos esse sentimento chegou a converter-se em paixão brutal, capaz dos maiores e mais culpáveis excessos, capaz do suicídio. A juventude de Buenos Aires levava consigo esta ideia fecunda da fraternidade de interesses com a França e a Inglaterra; levava o amor aos povos europeus associado ao amor à civilização, às instituições e às letras que a Europa nos legara, e que Rosas destruía em nome da América, substituindo por outra veste a veste europeia, por outras leis as leis europeias, por outro governo o governo europeu.

Essa juventude, impregnada das ideias civilizadoras da literatura europeia, ia buscar nos europeus inimigos de Rosas seus antecessores, seus pais, seus modelos; o apoio contra a América tal como Rosas a apresentava: bárbara como a Ásia, despótica e sanguinária como a Turquia, perseguindo e desprezando a inteligência como o maometismo.

Se os resultados não corresponderam às suas expectativas, não foi culpa sua, nem os que lhes censuram aquela aliança podem tampouco vangloriar-se de haver acertado melhor; pois, se os franceses pactuaram por fim com o tirano, nem por isso intentaram algo contra a independência argentina, e se por um momento ocuparam a ilha de Martín García, chamaram logo um chefe argentino que dela se encarregasse. Os argentinos, antes de se associarem aos franceses, haviam exigido declarações públicas por parte dos bloqueadores de que respeitariam o território argentino, e as haviam obtido solenes.

Enquanto isso, a ideia que os unitários tanto combateram no princípio, e que chamavam de traição à pátria, generalizou-se, dominou-os e submeteu-os a eles mesmos, e hoje se espalha por toda a América e cria raízes nos ânimos.

Em Montevidéu, pois, associaram-se a França e a República Argentina europeia para derrubar o monstro do americanismo filho da Pampa; desgraçadamente, perderam-se dois anos em debates, e quando a aliança foi assinada, a questão do Oriente requereu as forças navais da França, e os aliados argentinos ficaram sós na brecha. Por outro lado, as preocupações unitárias impediram que se adotassem os verdadeiros meios militares e revolucionários para agir contra o tirano, indo os esforços tentados espatifar-se contra os elementos que se deixara formar mais poderosos.

M. Martigny, um dos poucos franceses que, tendo vivido longo tempo entre os americanos, sabia compreender seus interesses e os da França na América, francês de coração que deplorava todos os dias os extravios, preconceitos e erros desses mesmos argentinos que queria salvar, dizia dos antigos unitários: «são os emigrados franceses de 1789; nada esqueceram e nada aprenderam». E, de fato: vencidos em 1829 pela montonera, acreditavam que ainda a montonera era elemento de guerra e não queriam formar exército de linha; dominados então pelas campanhas pastoras, julgavam agora inútil apoderar-se de Buenos Aires; com preconceitos invencíveis contra os gaúchos, olhavam-nos ainda como seus inimigos naturais, parodiando, entretanto, sua tática guerreira, suas hordas de cavalaria e até sua vestimenta nos exércitos.

Uma revolução radical, entretanto, estivera operando-se na República, e tê-la compreendido a tempo teria bastado para salvá-la. Rosas, elevado pela campanha e mal assegurado no Governo, consagrara-se a tirar-lhe todo o poder. Pelo veneno, pela traição, pela faca, dera morte a todos os comandantes de campanha que haviam ajudado sua elevação, e substituíra-os por homens sem capacidade, sem reputação, armados, contudo, do poder de matar sem responsabilidade.

As atrocidades de que Buenos Aires era sangrento teatro haviam, por outro lado, feito fugir para a campanha uma imensa multidão de cidadãos que, misturando-se aos gaúchos, iam operando lentamente uma fusão radical entre os homens do campo e os da cidade; a desgraça comum os reunia; uns e outros execravam aquele monstro sedento de sangue e de crimes, ligando-os para sempre num voto comum. A campanha, pois, deixara de pertencer a Rosas, e seu poder, faltando-lhe aquela base e a da opinião pública, passara a apoiar-se numa horda de assassinos disciplinados e num exército de linha. Rosas, mais perspicaz que os unitários, apoderara-se da arma que eles gratuitamente abandonavam: a infantaria e o canhão. Desde 1835 disciplinava rigorosamente seus soldados, e a cada dia desmontava-se um esquadrão para engrossar os batalhões.

Nem por isso Rosas contava com o espírito de suas tropas, como não contava com a campanha nem com os cidadãos. As conspirações cruzavam diariamente seus fios, que vinham de diversos focos, e a unanimidade do desígnio tornava, pela própria exuberância dos meios, quase impossível levar algo a cabo. Por fim, a maior parte de seus chefes e todos os corpos de linha estavam comprometidos numa conjuração que encabeçava o jovem coronel Maza, o qual, tendo em suas mãos a sorte de Rosas durante quatro meses, perdia um tempo precioso em comunicar-se com Montevidéu e revelar seus planos.

Por fim sucedeu o que devia suceder: a conspiração foi descoberta, e Maza morreu levando consigo o segredo da cumplicidade da maior parte dos chefes que continuam hoje a serviço de Rosas. Mais tarde, não obstante esse revés, estalou a sublevação em massa da campanha, encabeçada pelo coronel Cramer, Castelli e centenas de fazendeiros pacíficos. Mas também esta revolução teve mau êxito, e setecentos gaúchos passaram pela angústia de abandonar sua pampa e seu parelheiro e embarcar para ir continuar em outra parte a guerra. Todos esses imensos elementos estavam em poder dos unitários, mas seus preconceitos não os deixavam aproveitá-los; pediam antes de tudo que aquelas forças novas, atuais, se subordinassem a nomes antigos e passados.

Não concebiam a revolução senão sob as ordens de Soler, Alvear, Lavalle ou outro de reputação, de glória clássica; e, enquanto isso, sucedia em Buenos Aires o que na França sucedera em 1830, a saber: todos os generais queriam a revolução, mas lhes faltavam coração e entranhas; estavam gastos, como esses centenares de generais franceses que, nos dias de julho, colheram os resultados do valor do povo, a quem não quiseram emprestar sua espada para triunfar. Faltaram-nos os jovens da Escola Politécnica para que encabeçassem uma cidade que só pedia uma voz de comando para sair às ruas e desbaratar a mazorca e desalojar o canibal. A mazorca, frustradas essas tentativas, encarregou-se da fácil tarefa de inundar as ruas de sangue e gelar o ânimo dos que sobreviviam à força de crimes.

O Governo francês, por fim, mandou M. Mackau terminar a todo transe o bloqueio, e com os conhecimentos de M. Mackau sobre as questões americanas assinou-se um tratado que deixava à mercê de Rosas o exército de Lavalle, que chegava naquele mesmo momento aos arredores de Buenos Aires, e estragava para a França as profundas simpatias dos argentinos por ela e dos franceses pelos argentinos; porque a fraternidade galo-argentina estava cimentada numa afeição profunda de povo a povo, e em tal comunidade de interesses e ideias que ainda hoje, depois dos desatinos da política francesa, não pôde, em três anos, despegar das muralhas de Montevidéu os heroicos estrangeiros que a elas se aferraram como ao último entrincheiramento que resta à civilização europeia nas margens do Prata. Talvez essa cegueira do Ministério tenha sido útil à República Argentina; era preciso que desencanto semelhante nos fizesse conhecer a França poder, a França governo, muito distinta dessa França ideal e bela, generosa e cosmopolita, que tanto sangue derramou pela liberdade, e que seus livros, seus filósofos, suas revistas nos faziam amar desde 1810.

A política que todos os seus publicistas, Considerant, Damiront e outros, traçam para o Governo francês, simpática ao progresso, à liberdade e à civilização, poderia ter sido posta em exercício no Rio da Prata sem que por isso bamboleasse o trono de Luís Filipe, que acreditaram cunhar com a escravidão da Itália, da Polônia e da Bélgica; e a França teria colhido em influências e simpatias o que não lhe deu seu pobre tratado Mackau, que afiançava um poder hostil por natureza aos interesses europeus, os quais não podem medrar na América senão à sombra de instituições civilizadoras e livres. Digo o mesmo com respeito à Inglaterra, cuja política no Rio da Prata faria suspeitar que tem o secreto desígnio de deixar enfraquecer-se, sob o despotismo de Rosas, aquele espírito que a rechaçou em 1807, para voltar a tentar fortuna quando uma guerra europeia ou outro grande movimento deixe a terra abandonada à pilhagem, e acrescentar esta possessão às concessões necessárias para firmar um tratado, como o definitivo de Viena, em que fez conceder-se Malta, o Cabo e outros territórios adquiridos por um golpe de mão. Porque, como seria possível conceber de outro modo, se a ignorância em que vive a Europa acerca da situação da América não o desculpasse; como seria possível conceber, digo, que a Inglaterra, tão solícita em formar mercados para suas manufaturas, tenha estado durante vinte anos vendo tranquilamente, se não coadjuvando em segredo, a aniquilação de todo princípio civilizador nas margens do Prata, e dando a mão para que se levante cada vez que o viu vacilar ao tiranete ignorante que pôs uma barra no rio para que a Europa não possa penetrar até o coração da América a retirar as riquezas que ele encerra e que nossa inabilidade desperdiça? Como tolerar o inimigo implacável dos estrangeiros que, com sua imigração à sombra de um Governo simpático aos europeus e protetor da segurança individual, teriam povoado nestes últimos vinte anos as costas de nossos imensos rios e realizado os mesmos prodígios que em menos tempo se consumaram nas margens do Mississippi? Quer a Inglaterra consumidores, qualquer que seja o Governo de um país? Mas o que hão de consumir 600.000 gaúchos, pobres, sem indústria, como sem necessidades, sob um Governo que, extinguindo os costumes e gostos europeus, diminui necessariamente o consumo de produtos europeus? Havemos de crer que a Inglaterra desconheça a tal ponto seus interesses na América? Quis ela pôr sua mão poderosa para que não se levante no sul da América um Estado como o que ela engendrou no norte? Que ilusão! Esse Estado se levantará a despeito dela, ainda que ceifem seus rebentos a cada ano, porque a grandeza do Estado está na pampa pastoril, nas produções tropicais do Norte e no grande sistema de rios navegáveis cuja aorta é o Prata. Por outro lado, nós, espanhóis, não somos nem navegantes nem industriosos, e a Europa nos proverá por longos séculos de seus artefatos em troca de nossas matérias-primas; ela e nós ganharemos no câmbio; a Europa nos porá o remo na mão e nos rebocará rio acima, até que tenhamos adquirido o gosto da navegação.

Repetiu-se por ordem de Rosas em todas as Imprensas europeias que ele é o único capaz de governar os povos semibárbaros da América. Não é tanto da América, tão ultrajada, que me lastimo, mas das pobres mãos que se deixaram guiar para estampar essas palavras. É muito curioso que só seja capaz de governar aquele que não pôde obter um dia de repouso, e que, depois de haver despedaçado, envilecido e ensanguentado sua pátria, descobre que, quando acreditava colher o triunfo de tantos crimes, está enredado com três Estados americanos: o Uruguai, o Paraguai e o Brasil, e que ainda lhe restam à retaguarda o Chile e a Bolívia, com os quais tem todas as exterioridades do estado de guerra; porque, por mais precauções que o Governo do Chile tome para não se indispor com o monstro, a malquerença está no modo de ser íntimo de ambos os povos, nas instituições que os regem e nas tendências diversas de sua política. Para saber o que Rosas pretenderá do Chile, basta tomar a Constituição do Estado; pois bem: ali está a guerra; entregai-lhe a Constituição, direta ou indiretamente, e a paz virá em seguida, isto é, estareis conquistados pelo Governo americano.

A Europa, que esteve dez anos afastando-se do contato com a República Argentina, vê-se hoje chamada pelo Brasil para que o proteja contra o mal-estar que lhe faz sofrer a proximidade de Rosas. Não acudirá a esse chamado? Acudirá mais tarde, não haja medo; acudirá quando a própria República sair do aturdimento em que a deixaram os milhares de assassinatos com que a amedrontaram, porque os assassinatos não constituem um Estado; acudirá quando o Uruguai e o Paraguai pedirem que se faça respeitar o tratado feito entre o leão e o cordeiro; acudirá quando metade da América do Sul se achar transtornada pelo desmantelamento que traz a subversão de todo princípio de moral e de justiça.

A República Argentina está hoje organizada numa máquina de guerra, que não pode deixar de agir sem anular o poder que absorveu todos os interesses sociais. Concluída no interior a guerra, já saiu ao exterior; o Uruguai não suspeitava há dez anos que tivesse de haver-se com Rosas; o Paraguai não o imaginava há cinco; o Brasil não o temia há dois; o Chile ainda não o suspeitava; a Bolívia o consideraria ridículo; mas isso virá pela natureza das coisas, porque isto não depende da vontade dos povos nem dos Governos, e sim das condições inerentes a toda face social. Os que esperam que o mesmo homem há de ser primeiro o açoite de seu povo e depois o reparador de seus males, o destruidor das instituições que trazem a sanção da humanidade civilizada e o organizador da sociedade, conhecem muito pouco a História. Deus não procede assim: um homem, uma época para cada face, para cada revolução, para cada progresso.

Não é meu ânimo traçar a história deste reinado do terror, que dura de 1832 a 1845, circunstância que o torna único na história do mundo. O detalhe de todos os seus espantosos excessos não entra no plano de meu trabalho. A história das desgraças humanas e dos extravios a que pode entregar-se um homem quando goza de poder sem freio engrossará, em Buenos Aires, de horríveis e raros dados. Só quis pintar a origem deste Governo e ligá-la aos antecedentes, caracteres, hábitos e acidentes nacionais que já desde 1810 vinham pugnando por abrir caminho e apoderar-se da sociedade. Quis, além disso, mostrar os resultados que trouxe e as consequências daquela espantosa subversão de todos os princípios em que repousam as sociedades humanas.

Há um vazio no Governo de Rosas que por ora não me é dado sondar, mas que a vertigem que enlouqueceu a sociedade ocultou até aqui. Rosas não administra; não governa no sentido oficial da palavra. Encerrado meses em sua casa, sem deixar-se ver por ninguém, ele sozinho dirige a guerra, as intrigas, a espionagem, a mazorca, todos os diversos mecanismos de sua tenebrosa política; tudo o que não é útil para a guerra, tudo o que não prejudica seus inimigos, não forma parte do Governo, não entra na administração.

Mas não se vá crer que Rosas não tenha conseguido fazer progredir a República que despedaça, não; é um grande e poderoso instrumento da Providência, que realiza tudo o que interessa ao porvir da pátria. Vede como. Existia antes dele e de Quiroga o espírito federal nas províncias, nas cidades, nos próprios federais e unitários; ele o extingue e organiza em proveito próprio o sistema unitário que Rivadavia queria em proveito de todos. Hoje todos esses caudilhos do interior, degradados, envilecidos, tremem de desagradá-lo e não respiram sem seu consentimento. A ideia dos unitários está realizada; só está sobrando o tirano; no dia em que um bom Governo se estabeleça, encontrará as resistências locais vencidas e tudo disposto para a união.

A guerra civil levou os portenhos ao interior, e os provincianos de umas províncias a outras. Os povos se conheceram, se estudaram e se aproximaram mais do que queria o tirano; daí vem seu cuidado em tirar-lhes os correios, violar a correspondência e vigiar a todos. A união é íntima.

Existiam antes duas sociedades diversas: as cidades e as campanhas; lançando-se as campanhas sobre as cidades, os gaúchos fizeram-se cidadãos e simpatizaram com a causa das cidades.

A montonera desapareceu com a despovoação de La Rioja, San Luis, Santa Fe e Entre Ríos, seus antigos focos, e hoje os gaúchos das três primeiras percorrem os llanos e a Pampa em apoio dos inimigos de Rosas. Rosas aborrece os estrangeiros? Os estrangeiros tomam parte em favor da civilização americana e, durante três anos, zombam em Montevidéu de seu poder e mostram a toda a República que Rosas não é invencível e que ainda se pode lutar contra ele. Corrientes volta a armar-se e, sob as ordens do mais hábil e mais europeu general que a República possui, prepara-se agora para principiar a luta em forma, porque todos os erros passados são outras tantas lições para o futuro. O que fez Corrientes farão, mais hoje, mais amanhã, todas as províncias, porque nelas vai a vida e o porvir.

Privou seus concidadãos de todos os direitos e despojou-os de toda garantia? Pois bem: não podendo fazer o mesmo com os estrangeiros, estes são os únicos que passeiam com segurança em Buenos Aires. Cada contrato que um filho do país precisa celebrar, celebra-o sob a firma de um estrangeiro, e não há sociedade, não há negócio em que os estrangeiros não tenham parte. De maneira que o direito e as garantias existem em Buenos Aires sob o mais horrível despotismo. «Que bom criado parece este irlandês!» — dizia a seu patrão um transeunte em Buenos Aires. «Sim — respondia aquele —; tomei-o por isso: porque estou seguro de não ser espiado por meus criados e porque ele me empresta sua firma para todos os meus contratos. Aqui só estes criados têm segura a vida e as propriedades.»

Os gaúchos, a plebe e os compadritos o elevaram? Pois ele os extinguirá: seus exércitos os devorarão. Hoje não há leiteiro, criado, padeiro, peão, trabalhador braçal nem cuidador de gado que não seja alemão, inglês, basco, italiano, espanhol, porque tal foi o consumo de homens que fez em dez anos; tanta carne humana necessita o americanismo, que por fim a população americana se esgota e vai toda enregimentar-se nos quadros que a metralha rareia desde que o sol nasce até que anoitece.

Há corpo diante de Montevidéu que hoje não conserva um soldado e apenas dois oficiais dos que o compuseram no princípio. A população argentina desaparece, e a estrangeira ocupa seu lugar em meio aos gritos da mazorca e da Gaceta: Morram os estrangeiros! Como a unidade se realiza gritando: Morram os unitários! Como a federação morreu gritando: Viva a federação!

Rosas não quer que se naveguem os rios? Pois bem: o Paraguai toma as armas para que se lhe permita navegá-los livremente; associa-se aos inimigos de Rosas, ao Uruguai, à Inglaterra e à França, que todos desejam que se deixe livre o trânsito para que se explorem as imensas riquezas do coração da América. A Bolívia se associará, queira ou não, a este movimento, e Santa Fe, Córdoba, Entre Ríos, Corrientes, Jujuy, Salta e Tucumán o secundarão desde que compreendam que todo o seu interesse, todo o seu engrandecimento futuro, depende de que esses rios, às margens dos quais hoje dormem em vez de viver, levem e tragam as riquezas do comércio que hoje só Rosas explora com o porto, cuja posse lhe dá milhões para empobrecer as províncias.

A questão da livre navegação dos rios que desembocam no Prata é hoje uma questão europeia, americana e argentina ao mesmo tempo, e Rosas tem nela guerra interior e exterior até que caia e os rios sejam navegados livremente. Assim, o que não se conseguiu pela importância que os unitários davam à navegação dos rios, consegue-se hoje pela torpeza do gaúcho da Pampa.

Rosas perseguiu a educação pública, hostilizou e fechou os colégios, a Universidade e expulsou os jesuítas? Não importa; centenas de alunos argentinos contam em seu seio os colégios da França, Chile, Brasil, América do Norte, Inglaterra e até Espanha. Eles voltarão logo a realizar em sua pátria as instituições que veem brilhar em todos esses Estados livres, e porão o ombro para derrubar o tirano semibárbaro. Tem ele uma antipatia mortal aos poderes europeus? Pois bem: os poderes europeus precisam estar bem armados, bem fortes no Rio da Prata, e enquanto o Chile e os demais Estados livres da América não têm senão um cônsul e um navio de guerra estrangeiro em suas costas, Buenos Aires tem de hospedar enviados de segunda ordem e esquadras estrangeiras, que estão à espreita de seus interesses e para conter os excessos do potro indômito e sem freio que está à frente do Estado.

Degola, castra, esquarteja seus inimigos para acabar de um só golpe e com uma batalha a guerra? Pois bem: já deu vinte batalhas, matou vinte mil homens, cobriu de sangue e de crimes espantosos toda a República; despovoou a campanha e a cidade para engrossar seus sicários, e ao fim de dez anos de triunfo sua posição precária é a mesma. Se seus exércitos não tomam Montevidéu, sucumbe; se a tomam, resta-lhe o general Paz com exércitos; resta-lhe o Paraguai virgem; resta-lhe o Império do Brasil; restam-lhe o Chile e a Bolívia, que por fim hão de estalar; resta-lhe a Europa, que há de enfreá-lo; restam-lhe, por último, dez anos de guerra, de despovoação e pobreza para a República — ou sucumbir: não há remédio. Triunfará? Mas seus adeptos terão perecido, e outra população e outros homens substituirão o vazio que eles deixarem. Voltarão os emigrados a colher os frutos de seu triunfo.

Acorrentou a Imprensa e pôs uma mordaça ao pensamento para que não discuta os interesses da pátria, para que não se ilustre e instrua, para que não revele os crimes horrendos que cometeu e que ninguém quer acreditar, de tão espantosos e inauditos? Insensato! Que foi que fizeste? Os gritos que queres abafar cortando a garganta, para que pela ferida escape a voz e não chegue aos lábios, ressoam hoje por toda a redondeza da terra. As Imprensas da Europa e da América chamam-te à porfia execrável Nero, tirano brutal. Todos os teus crimes foram contados; tuas vítimas encontram partidários e simpatias por toda parte, e gritos vingadores chegam até vossos ouvidos. Toda a Imprensa europeia discute hoje os interesses argentinos como se fossem os seus próprios, e o nome argentino anda, para tua desonra, na boca de todos os povos civilizados.

A discussão da Imprensa está hoje em toda parte, e para opor a verdade à tua infame Gaceta, há cem jornais que, de Paris e Londres, do Brasil e do Chile, de Montevidéu e da Bolívia, te combatem e publicam tuas maldades. Alcançaste a fama a que aspiravas, sem dúvida; mas, na miséria do desterro, na obscuridade da vida privada, teus proscritos não trocariam uma só hora de seus ócios por aquelas que te dá tua espantosa celebridade; pelas pontadas que de toda parte recebes; pelas censuras que fazes a ti mesmo por haver feito tanto mal inutilmente. O americanismo, o inimigo dos europeus, condenado a gritar em francês, em inglês e em castelhano: Morram os estrangeiros! Morram os unitários! Eh! És tu, miserável, que te sentes morrer e maldizes nos idiomas desses estrangeiros, e pela Imprensa, que é a arma desses unitários! Que Estado americano se viu condenado, como Rosas, a redigir em três idiomas suas desculpas oficiais para responder à Imprensa de todas as nações, americanas e europeias ao mesmo tempo? Mas até onde chegarão tuas infames diatribes sem que o execrável lema Morram os selvagens, asquerosos, imundos unitários! revele a mão sanguinária e imoral que as escreve?

De maneira que aquilo que teria sido uma discussão obscura e só interessante para a República Argentina, o é agora para toda a América e para a Europa. É uma questão do mundo cristão.

Rosas perseguiu os políticos, os escritores e os literatos? Pois vede o que sucedeu. As doutrinas políticas de que os unitários se haviam alimentado até 1829 eram incompletas e insuficientes para estabelecer o Governo e a liberdade; bastou que ele agitasse a Pampa para deitar abaixo seu edifício assentado sobre areia. Esta inexperiência e esta falta de ideias práticas foram remediadas por Rosas em todos os espíritos, com as lições cruéis e instrutivas que lhes dava seu espantoso despotismo; novas gerações se ergueram educadas naquela escola prática, que saberiam tapar as avenidas por onde um dia ameaçaria transbordar de novo o desenfreio dos gênios como o de Rosas; as palavras tirania, despotismo, tão desacreditadas na Imprensa pelo abuso que delas se faz, têm na República Argentina um sentido preciso, despertam no ânimo uma lembrança dolorosa; fariam sangrar, quando chegassem a pronunciar-se, todas as feridas que abriram em quinze anos de espantosa recordação.

Dia virá em que o nome de Rosas será um meio de fazer calar a criança que chora, de fazer tremer o viajante na escuridão da noite. Sua fita vermelha, com a qual hoje levou o terror e a ideia das matanças até o coração de seus vassalos, servirá mais tarde de curiosidade nacional que mostraremos aos que, de países remotos, visitarem nossas praias.

Os jovens estudiosos que Rosas perseguiu espalharam-se por toda a América, examinando os diversos costumes, penetrando na vida íntima dos povos, estudando seus governos e vendo as molas que em algumas partes mantêm a ordem sem detrimento da liberdade e do progresso, notando em outras os obstáculos que se opõem a uma boa organização. Uns viajaram pela Europa estudando o direito e o governo; outros residiram no Brasil; alguns na Bolívia, alguns no Chile, e outros, enfim, percorreram metade da Europa e metade da América, e trazem um imenso tesouro de conhecimentos práticos, de experiência e dados preciosos que um dia porão a serviço da pátria, quando esta reúna em seu seio esses milhares de proscritos que andam hoje disseminados pelo mundo, esperando que soe a hora da queda do Governo absurdo e insustentável que ainda não cede ao empuxo de tantas forças quantas hão de trazer necessariamente sua destruição. Porque, quanto à literatura, a República Argentina é hoje mil vezes mais rica do que jamais foi em escritores capazes de ilustrar um Estado americano.

Se restasse dúvida, com tudo o que expus, de que a luta atual da República Argentina é apenas de civilização e barbárie, bastaria prová-lo o fato de não se achar do lado de Rosas um só escritor, um só poeta dos muitos que possui aquela jovem nação. Montevidéu presenciou durante três anos consecutivos os torneios literários de 25 de maio, dia em que dezenas de poetas, inspirados pela paixão da pátria, disputaram um louro. Por que a poesia abandonou Rosas? Por que nem rapsódias produz hoje o solo de Buenos Aires, noutro tempo tão fecundo em cantares e rimas? Quatro ou cinco associações existem no estrangeiro de escritores que empreenderam compilar dados para escrever a história da República, tão cheia de acontecimentos, e é verdadeiramente assombroso o cúmulo de materiais que reuniram de todos os pontos da América: manuscritos, impressos, documentos, crônicas antigas, diários, viagens etc. A Europa se assombrará um dia quando tão ricos materiais virem a luz pública e forem engrossar a volumosa coleção da qual Angelis não publicou senão uma pequena parte.

Quantos resultados não vão, pois, colher esses povos argentinos desde o dia, já não remoto, em que o sangue derramado afogue o tirano! Quantas lições! Quanta experiência adquirida! Nossa educação política está consumada.

Todas as questões sociais, ventiladas; federação, unidade, liberdade de cultos, imigração, navegação dos rios, poderes políticos, liberdade, tirania, tudo se disse entre nós, tudo nos custou torrentes de sangue. O sentimento da autoridade está em todos os corações, ao mesmo tempo que a necessidade de conter a arbitrariedade dos poderes foi inculcada profundamente por Rosas com suas atrocidades. Agora não nos resta fazer senão o que ele não fez e reparar o que ele destruiu.

Porque ele, durante quinze anos, não tomou uma medida administrativa para favorecer o comércio interior e a indústria nascente de nossas províncias, os povos se entregarão com afinco a desenvolver seus meios de riqueza, suas vias de comunicação, e o novo Governo se consagrará a restabelecer os correios e assegurar os caminhos que a Natureza tem abertos por toda a extensão da República.

Porque em quinze anos não quis assegurar as fronteiras do Sul e do Norte por meio de uma linha de fortes, porque esse trabalho e esse bem feito à República não lhe dava vantagem alguma contra seus inimigos, o novo Governo situará o exército permanente ao Sul e assegurará territórios para estabelecer colônias militares que em cinquenta anos serão cidades e províncias florescentes.

Porque ele perseguiu o nome europeu e hostilizou a imigração de estrangeiros, o novo Governo estabelecerá grandes associações para introduzir população e distribuí-la em territórios férteis às margens dos imensos rios, e em vinte anos sucederá o que na América do Norte sucedeu em igual tempo: ergueram-se como por encanto cidades, províncias e Estados nos desertos em que pouco antes pastavam manadas de bisões selvagens; porque a República Argentina se acha hoje na situação do Senado romano que, por decreto, mandava levantar de uma só vez quinhentas cidades, e as cidades se levantavam à sua voz.

Porque ele pôs a nossos rios interiores uma barreira insuperável para que não sejam livremente navegados, o novo Governo fomentará de preferência a navegação fluvial; milhares de naves subirão os rios e irão extrair as riquezas que hoje não têm saída nem valor até a Bolívia e o Paraguai, enriquecendo em seu trânsito Jujuy, Tucumán, Salta, Corrientes, Entre Ríos e Santa Fe, que se tornarão ricas e formosas cidades, como Montevidéu ou como Buenos Aires. Porque ele malbaratou as pingues rendas do porto de Buenos Aires e gastou em quinze anos quarenta milhões de pesos fortes que ele produziu, para levar adiante suas loucuras, seus crimes e suas horríveis vinganças, o porto será declarado propriedade nacional, para que suas rendas sejam consagradas a promover o bem em toda a República, que tem direito a esse corpo do qual é tributária.

Porque ele destruiu os colégios e tirou as rendas das escolas, o novo Governo organizará a educação pública em toda a República com rendas adequadas e com ministério especial, como na Europa, como no Chile, na Bolívia e em todos os países civilizados; porque o saber é riqueza, e um povo que vegeta na ignorância é pobre e bárbaro, como o são os da costa da África, ou os selvagens de nossas Pampas.

Porque ele acorrentou a Imprensa, não permitindo que haja outros jornais além dos que destina a vomitar sangue, ameaças e mortes, o novo Governo estenderá por toda a República o benefício da Imprensa, e veremos pulular livros de instrução e publicações consagradas à indústria, à literatura, às artes e a todos os trabalhos da inteligência.

Porque ele perseguiu de morte todos os homens ilustrados, não admitindo para governar senão seu capricho, sua loucura e sua sede de sangue, o novo Governo se rodeará de todos os grandes homens que possui a República e que hoje andam espalhados por toda a terra, e com o concurso de todas as luzes de todos fará o bem de todos em geral. A inteligência, o talento e o saber serão chamados de novo a dirigir os destinos públicos como em todos os países civilizados.

Porque ele destruiu as garantias que, nos povos cristãos, asseguram a vida e a propriedade dos cidadãos, o novo Governo restabelecerá as formas representativas e assegurará para sempre os direitos que todo homem tem de não ser perturbado no livre exercício de suas faculdades intelectuais e de sua atividade.

Porque ele fez do crime, do assassinato, da castração e do degolamento um sistema de governo; porque ele desenvolveu todos os maus instintos da natureza humana para criar cúmplices e partidários, o novo Governo fará da Justiça, das formas recebidas nos povos civilizados, o meio de corrigir os delitos públicos, e trabalhará por estimular as paixões nobres e virtuosas que Deus pôs no coração do homem para sua felicidade na terra, fazendo delas o degrau para elevar-se e influir nos negócios públicos.

Porque ele profanou os altares pondo neles seu infame retrato; porque ele degolou sacerdotes, vexou-os ou os fez abandonar sua pátria, o novo Governo dará ao culto a dignidade que lhe corresponde e elevará a religião e seus ministros à altura necessária para moralizar os povos.

Porque ele gritou durante quinze anos morram os selvagens unitários, fazendo crer que um Governo tem o direito de matar os que não pensam como ele, marcando toda uma nação com um letreiro e uma fita para que se creia que aquele que leva a marca pensa como lhe mandam pensar a açoites, o novo Governo respeitará as opiniões diversas, porque as opiniões não são fatos nem delitos, e porque Deus nos deu uma razão que nos distingue das bestas, livre para julgar por nosso livre-arbítrio.

Porque ele esteve continuamente suscitando querelas aos Governos vizinhos e aos europeus; porque ele nos privou do comércio com o Chile, ensanguentou o Uruguai, malquistou-se com o Brasil, atraiu para si um bloqueio da França, os vexames da marinha norte-americana, as hostilidades da inglesa, e meteu-se num labirinto de guerras intermináveis e de reclamações que só acabarão com a despovoação da República e a morte de todos os seus partidários, o novo Governo, amigo dos Poderes europeus, simpático a todos os povos americanos, desatará de um golpe esse enredo de relações estrangeiras, e estabelecerá a tranquilidade no exterior e no interior, dando a cada um o seu direito e marchando pelas mesmas vias de conciliação e ordem em que marcham todos os povos cultos.

Tal é a obra que nos resta realizar na República Argentina. Pode ser que tantos bens não se obtenham de pronto, e que depois de uma subversão tão radical como a que Rosas operou ainda custe um ano ou mais de oscilações fazer a sociedade entrar em seus verdadeiros eixos. Mas, com a queda desse monstro, entraremos pelo menos no caminho que conduz a porvir tão belo, em vez de, sob seu funesto impulso, afastarmo-nos mais e mais a cada dia, e irmos a passos gigantescos retrocedendo à barbárie, à desmoralização e à pobreza. O Peru padece sem dúvida dos efeitos de suas convulsões intestinas; mas, afinal, seus filhos não saíram aos milhares, e por dezenas de anos, a vaguear pelos países vizinhos; não se levantou um monstro que se rodeie de cadáveres, sufoque toda espontaneidade e todo sentimento de virtude. O que a República Argentina necessita antes de tudo; o que Rosas jamais lhe dará, porque já não lhe é dado dar, é que a vida, a propriedade dos homens, não estejam pendentes de uma palavra imprudentemente pronunciada, de um capricho de quem manda. Dadas essas duas bases, segurança da vida e da propriedade, a forma de governo, a organização política do Estado, o tempo, os acontecimentos, as circunstâncias a darão. Mal há povo na América que tenha menos fé que o argentino num pacto escrito, numa Constituição. As ilusões já passaram; a constituição da República se fará sem sentir, de si mesma, sem que ninguém a tenha proposto. Unitária, federal, mista, ela há de sair dos fatos consumados.

Nem creio impossível que à queda de Rosas se suceda imediatamente a ordem. Por mais que à distância pareça, não é tão grande a desmoralização que Rosas engendrou; os crimes de que a República foi testemunha foram oficiais, mandados pelo Governo; ninguém foi castrado, degolado nem perseguido sem a ordem expressa de fazê-lo. Por outro lado, os povos agem sempre por reações; ao estado de inquietude e alarme em que Rosas os manteve durante quinze anos há de suceder-se necessariamente a calma; pelo mesmo motivo de tantos e tão horríveis crimes terem sido cometidos, o povo e o Governo fugirão de cometer um só, a fim de que as ominosas palavras mazorca!, Rosas!, não venham zumbir em seus ouvidos como outras tantas fúrias vingadoras; pelo mesmo motivo de as pretensões exageradas de liberdade que abrigam os unitários terem trazido resultados tão calamitosos, os políticos serão doravante prudentes em seus propósitos, os partidos medidos em suas exigências. Por outro lado, é desconhecer muito a natureza humana crer que os povos se tornam criminosos, e que os homens extraviados que assassinam quando há um tirano que os impele a isso sejam, no fundo, malvados. Tudo depende dos preconceitos que dominam em certos momentos, e o homem que hoje se cevou em sangue por fanatismo era ontem um devoto inocente, e será amanhã um bom cidadão, desde que desapareça a excitação que o induziu ao crime. Quando a nação francesa caiu em 1793 nas mãos daqueles implacáveis terroristas, mais de milhão e meio de franceses fartaram-se de sangue e delitos, e depois da queda de Robespierre e do Terror, apenas sessenta insignes malvados foi necessário sacrificar com ele para devolver a França a seus hábitos de mansidão e moral; e esses mesmos homens que tantos horrores haviam perpetrado foram depois cidadãos úteis e morais. Não digo nos partidários de Rosas: nos próprios mazorqueros há, sob as exterioridades do crime, virtudes que um dia deveriam ser premiadas. Milhares de vidas foram salvas pelos avisos que os mazorqueros davam secretamente às vítimas que a ordem recebida lhes mandava imolar.

Independentemente desses motivos gerais de moralidade que pertencem à espécie humana em todos os tempos e em todos os países, a República Argentina tem elementos de ordem de que carecem muitos países do mundo. Um dos inconvenientes que impedem aquietar os ânimos nos países convulsionados é a dificuldade de chamar a atenção pública para objetos novos que a tirem do círculo vicioso de ideias em que vive. A República Argentina tem, por fortuna, tanta riqueza a explorar, tanta novidade com que atrair os espíritos depois de um Governo como o de Rosas, que seria impossível turbar a tranquilidade necessária para ir aos novos fins.

Quando houver um Governo culto e ocupado dos interesses da nação, que empresas, que movimento industrial! Os povos pastores ocupados em propagar os merinos que produzem milhões e entretêm a toda hora do dia milhares de homens; as províncias de San Juan e Mendoza consagradas à criação do bicho-da-seda, que, com apoio e proteção do Governo, careceriam de braços em quatro anos para os trabalhos agrícolas e industriais que requer; as províncias do Norte entregues ao cultivo da cana-de-açúcar, do anil que se produz espontaneamente; as litorâneas dos rios com a navegação livre que daria movimento e vida à indústria do interior. Em meio a esse movimento, quem faz a guerra? Para conseguir o quê? A não ser que haja um Governo tão estúpido como o presente, que foge de todos esses interesses, e em vez de dar trabalho aos homens, leva-os aos exércitos para fazer guerra ao Uruguai, ao Paraguai, ao Brasil, a toda parte, enfim.

Mas o principal elemento de ordem e moralização com que a República Argentina conta hoje é a imigração europeia, que, por si mesma e a despeito da falta de segurança que lhe oferece, se aglomera dia a dia no Prata, e, se houvesse um Governo capaz de dirigir seu movimento, bastaria por si só para sanar em dez anos, não mais, todas as feridas que fizeram à pátria os bandidos, de Facundo a Rosas, que a dominaram. Da Europa emigram anualmente pelo menos meio milhão de homens que, possuindo uma indústria ou um ofício, saem a buscar fortuna e se fixam onde haja terra a possuir. Até o ano de 1840 esta imigração dirigia-se principalmente à América do Norte, que se cobriu de cidades magníficas e se encheu de uma imensa população por mercê da imigração. Tal foi às vezes a mania de emigrar, que populações inteiras da Alemanha se transportaram para a América do Norte com seus prefeitos, padres, mestres-escolas etc.

Mas por fim sucedeu que, nas cidades das costas, o aumento de população tornou a vida tão difícil como na Europa, e os emigrados encontraram ali o mal-estar e a miséria de que vinham fugindo.

Desde 1840 leem-se avisos nos jornais norte-americanos prevenindo os inconvenientes que encontram os emigrados, e os cônsules da América fazem publicar nos jornais da Alemanha, Suíça e Itália avisos iguais para que não emigrem mais. Em 1843, dois navios carregados de homens tiveram de regressar à Europa com sua carga, e em 1844 o Governo francês mandou para a Argélia 21.000 suíços que iam inutilmente à América do Norte.

Aquela corrente de emigrados que já não encontra vantagem no Norte começou a costejar a América. Alguns se dirigem ao Texas, outros ao México, cujas costas malsãs os rechaçam; o imenso litoral do Brasil não lhes oferece grandes vantagens por causa do trabalho dos negros escravos, que tira o valor da produção. Têm, pois, de recalar no Rio da Prata, cujo clima suave, fertilidade da terra e abundância de meios de subsistir os atraem e fixam.

Desde 1836 começaram a chegar a Montevidéu milhares de emigrados, e enquanto Rosas dispersava a população natural da República com suas atrocidades, Montevidéu se agigantava em um ano até tornar-se uma cidade florescente e rica, mais bela que Buenos Aires e mais cheia de movimento e comércio. Agora que Rosas levou a destruição a Montevidéu, porque esse gênio maldito não nasceu senão para destruir, os emigrados se aglomeram em Buenos Aires e ocupam o lugar da população que o monstro faz matar diariamente nos exércitos, e já no presente ano propôs à Sala alistar bascos para recompor seus quadros dizimados.

No dia, pois, em que um Governo novo dirigir a objetos de utilidade nacional os milhões que hoje se gastam em fazer guerras desastrosas e inúteis e em pagar criminosos; no dia em que por toda a Europa se saiba que o horrível monstro que hoje desola a República e grita diariamente morte aos estrangeiros desapareceu, nesse dia a imigração industriosa da Europa se dirigirá em massa ao Rio da Prata; o novo Governo se encarregará de distribuí-la pelas províncias; os engenheiros da República irão traçar em todos os pontos convenientes os planos das cidades e vilas que deverão construir para sua residência, e terras férteis lhes serão adjudicadas, e em dez anos ficarão todas as margens dos rios cobertas de cidades, e a República duplicará sua população com vizinhos ativos, morais e industriosos. Estas não são quimeras, pois basta querê-lo e que haja um Governo menos brutal que o presente para consegui-lo.

No ano de 1835 emigraram para a América do Norte 500.650 almas; por que não emigrariam para a República Argentina 100.000 por ano, se a horrível fama de Rosas não os amedrontasse? Pois bem: 100.000 por ano fariam, em dez anos, um milhão de europeus industriosos disseminados por toda a República, ensinando-nos a trabalhar, explorando novas riquezas e enriquecendo o país com suas propriedades; e com um milhão de homens civilizados a guerra civil é impossível, porque seriam menos os que se achariam em estado de desejá-la. A colônia escocesa que Rivadavia fundou ao sul de Buenos Aires prova-o até a evidência; sofreu com a guerra, mas jamais dela tomou parte, e nenhum gaúcho alemão abandonou seu trabalho, sua leiteria ou sua fábrica de queijos para ir correr pela Pampa.

Creio haver demonstrado que a revolução da República Argentina já está terminada, e que só a existência do execrável tirano que ela engendrou impede que hoje mesmo entre numa carreira ininterrupta de progressos que bem cedo lhe poderiam invejar alguns povos americanos. A luta das campanhas com as cidades acabou-se; o ódio a Rosas reuniu esses elementos; os antigos federais e os velhos unitários, como a nova geração, foram perseguidos por ele e se uniram.

Por último, suas próprias brutalidades e seu desenfreio levaram-no a comprometer a República numa guerra exterior em que o Paraguai, o Uruguai e o Brasil o fariam necessariamente sucumbir, se a própria Europa não se visse forçada a vir desmoronar esse andaime de cadáveres e sangue que o sustenta. Os que ainda abrigam preconceitos contra os estrangeiros podem responder a esta pergunta: quando um foragido, um furioso ou um louco frenético chegasse a apoderar-se do Governo de um povo, devem todos os demais Governos tolerar e deixar que destrua à vontade, que assassine sem piedade e que traga alvoroçadas por dez anos todas as nações vizinhas?

Mas o remédio não nos virá apenas do exterior. A Providência quis que, ao desenlaçar-se o drama sangrento de nossa revolução, o partido tantas vezes vencido, e um povo tão pisoteado, se achem com as armas na mão e em aptidão de fazer ouvir as queixas das vítimas. A heroica província de Corrientes tem hoje 6.000 veteranos que a esta hora terão entrado em campanha sob as ordens do vencedor da Tablada, Oncativo e Caaguazú, o baleado, o maneta Paz, como o chama Rosas. Quantas vezes esse furibundo, que tantos milhares de vítimas sacrificou inutilmente, terá mordido e ensanguentado os lábios de cólera ao recordar que o teve preso dez anos e não o matou, a esse mesmo maneta baleado que hoje se prepara para castigar seus crimes! A Providência terá querido dar-lhe esse suplício de condenado, fazendo-o carcereiro e guardião daquele que estava destinado do alto a vingar a República, a Humanidade e a Justiça.

Proteja Deus tuas armas, honrado general Paz! Se salvas a República, nunca houve glória como a tua! Se sucumbes, nenhuma maldição te seguirá ao túmulo! Os povos se associarão à tua causa, ou deplorarão mais tarde sua cegueira ou seu envilecimento!

APÊNDICE

INTRODUÇÃO AO APÊNDICE

Dividimos este Apêndice em duas partes: a primeira contém as Proclamações de Quiroga, sempre acrescentadas às edições anteriores, e a segunda contém os prefácios dessas edições e outras páginas de Sarmiento sobre sua obra.

R. R.

PARTE PRIMEIRA

DOCUMENTOS DE JUAN FACUNDO QUIROGA

I

As proclamações que levam a assinatura de Juan Facundo Quiroga têm tais caracteres de autenticidade que julgamos útil inseri-las aqui, como os únicos documentos escritos que restam daquele caudilho. Campeiam nelas a exageração e a ostentação da própria dor, ao par do não dissimulado desígnio de inspirar medo aos demais. A incorreção da linguagem, a incoerência das ideias e o emprego de vozes que significam outra coisa que não aquilo que ele se propõe expressar com elas, ou mostram a confusão ou o estado embrionário das ideias, revelam nestas proclamações a alma ainda rude, os instintos jactanciosos do homem do povo e a candura daquele que, não familiarizado com as letras, nem sequer suspeita que haja incapacidade de sua parte para emitir suas ideias por escrito.

Que significam, com efeito, «pressores e conquistadores da liberdade»; «nenhuma resolução é mais poderosa que a invocação da pátria»; «venho fazer-vos partícipes dos auspícios que vos estendem as províncias litorâneas»; «elevai fervorosos sacrifícios, ditai leis análogas ao povo»? Tudo isso é barbárie, confusão de ideias, incapacidade de desenvolver pensamentos por não conhecer o sentido das palavras. É, sem dúvida, ingênuo aquele «livre pelos princípios e por propensão, meu estado natural é a liberdade»; frase que seria uma manifestação da voluntariedade de seu espírito se tivesse sentido.

Nas gazetas de Buenos Aires registra-se um comunicado virulento, obra sua, escrito contra o Governo por haver ditado uma providência sobre fundos públicos que diminuía o interesse dos detentores, sendo ele um deles em alguns milhões. Mais tarde, melhor aconselhado, deu uma satisfação ao Governo por outro comunicado. Algumas cartas de Quiroga viram a luz pública; mas creio que, como suas proclamações, não merecem conservar-se senão como curiosidades e monumentos da época de barbárie.

A primeira dessas proclamações, sem data, pertence sem dúvida ao ano de 1829, quando, depois de se refazer da derrota da Tablada, veio a San Juan e a Mendoza. A segunda está datada de San Luis, de letra manuscrita, e ele a trazia impressa de Buenos Aires para ir espalhando-a pelos lugares de seu trânsito. A terceira precedeu a saída do exército destinado a combater o general La Madrid em Tucumán, e alude à recente morte de Villafañe.

Ao pé de um decreto da Junta de Representantes de Mendoza, em que se permitia circular na província papel-moeda de Buenos Aires, Facundo Quiroga fez publicar a seguinte pós-data, que tem todos os caracteres de suas anteriores proclamações: a jactância, o enredo da frase e seu prurido de aterrar.

«O Infra-assinado — diz —, à vista do projeto de lei que antecede, protesta pelo mais sagrado dos céus e da terra que o papel-moeda não circulará nas províncias do interior enquanto ele permanecer nelas, ou enquanto partidários de tão detestável praga passarem por seu cadáver; pois que, vendo a justiça de sua parte, não conhece perigo que o espante nem o faça desistir de buscá-la, como o fez por si só e à sua custa nos anos 26 e 27, contra todo o poder do presidente da República, dom Bernardino Rivadavia, quando quis ligar as províncias ao carro do despotismo por meio dos Bancos subalternos de papel-moeda, e com o santo fim de abrir vasto campo aos estrangeiros para que delas extraíssem o dinheiro metálico. — San Juan, 20 de setembro de 1833. — Juan Facundo Quiroga.»

II

PROCLAMAÇÃO

Povos da República: Destinado pelo general que vos deram os RR. Nacionais a servir de chefe da segunda divisão do Exército da Nação, nenhum sacrifício omiti para desempenhar tão alta confiança. Os inimigos das leis, os assassinos do encarregado do Poder nacional, os insurretos do Exército e seus vendidos sequazes nenhum meio omitem para envenenar os corações e prevenir os incautos que não me conhecem. A perfídia e a detração são a bandeira deles, enquanto a franqueza e o valor são a nossa divisa.

Argentinos: Juro-vos por minha espada que nenhuma outra aspiração me anima senão a da liberdade. A ninguém se oculta que minha fortuna é o patrimônio e o sustento dos bravos que comando, e o dia em que os povos houverem recuperado seus direitos será o mesmo de meu silêncio e meu retiro. Nada mais aspira um homem que não necessita nem cortejar o Poder nem aquele que manda. Livre por princípios e por propensão, meu estado natural é a liberdade; por ela derramarei meu sangue e mil vidas, e não existirá escravo onde as lanças de La Rioja se apresentarem.

Soldados sob meu comando: Aquele que quiser deixar minhas fileiras pode retirar-se e fazer uso de minha oferta, que vos faço pela terceira vez. Mas aquele que quiser enristar a lança contra os opressores e oprimidos [sic], fique a meu lado. Os inimigos já sabem o que ledes e tremem de vós.

Opressores e conquistadores da liberdade: Triunfareis acaso dos bravos riojanos, porque a fortuna é inconstante; mas ficará legada até o fim dos séculos a memória de mil heróis que não sabem receber feridas pelas costas.

Oprimidos: Os que desejais a liberdade ou uma morte honrosa, vinde misturar-vos com vossos compatriotas, com vossos amigos e com vosso camarada. — Juan Facundo Quiroga.

III

O GENERAL QUIROGA

AOS HABITANTES DAS PROVÍNCIAS INTERIORES DA REPÚBLICA ARGENTINA

Meus compatriotas: Nenhuma resolução é mais poderosa que a invocação da pátria, anunciando a seus filhos a ocasião de domar o orgulho dos opressores dos povos. Formara a decisão de não voltar a aparecer como homem público; mas meus princípios sufocaram tais propósitos. Tendes-me já em campanha para contribuir para que desapareçam esses seres funestos que ousadamente despedaçaram os vínculos entre o povo e as leis.

As províncias litorâneas, depois de um longo sofrimento de humilhações muito marcadas em obséquio da paz, e de haver perdido todas as esperanças de uma reconciliação fraternal e benéfica que consultasse a livre existência de todas, puseram em ação seus recursos para guardar suas liberdades e salvar as vossas. Fiéis e consequentes à amizade, juraram que as armas que empunharam não as deporão enquanto não deixarem salva a pátria, livres e em tranquilidade os povos oprimidos da República Argentina.

Os instantes de crise que assinalam o termo da existência dos pérfidos anarquistas de 1.º de dezembro, que vos submergiram nos males que vos esmagam, já se fazem sentir manifestamente.

Exércitos respeitáveis marcham em diferentes direções para combater e destruir em todos os pontos os anarquizadores. O excelentíssimo senhor governador de Santa Fe, brigadeiro dom Estanislao López, é o chefe que comanda as forças combinadas dos Governos litorâneos aliados em perpétua federação, e que já estão em campanha. Uma divisão deste exército, sob as ordens do general dom Felipe Ibarra, interna-se em Santiago para engrossar as forças que operam por essa parte, e o excelentíssimo senhor governador da província de Buenos Aires, general dom Juan Manuel de Rosas, acha-se situado nos confins de seu território pelo Norte com um forte exército de reserva. Enfim: tudo anuncia que já podeis contar-vos no número dos filhos da liberdade.

Estou, pois, em campanha, meus amigos, à frente de uma divisão do exército combinado e sob as ordens do excelentíssimo senhor general em chefe, para redimir-vos do cativeiro. Marcho para proteger-vos e não para oprimir-vos. Venho fazer-vos partícipes dos auspícios que vos estendem as províncias litorâneas para aliviar vossas desgraças, e para servir-vos de apoio contra a crueldade e perfídia de vossos opressores.

Não trato de surpreender-vos nem de chamar-vos em meu auxílio; o primeiro seria enganar-vos; o segundo, um insulto à decisão com que constantemente se mantiveram as províncias pela causa da liberdade. Esta verdade se acha plenamente comprovada no fato mesmo de haverdes formado três exércitos de homens puramente voluntários para sustentar os direitos dos povos, sem haver tido engajamento que vos halagasse, nem a mais remota esperança do miserável zelo do saque; a moral foi vosso guia, e vós a seguistes até a conclusão dos dois últimos exércitos, que foram tão desgraçados quanto feliz foi o primeiro. Se bem que vive vosso amigo. — San Luis, 22 de março de 1831. — Juan Facundo Quiroga.

IV

PROCLAMAÇÃO

O GENERAL DA DIVISÃO DOS ANDES A TODOS OS HABITANTES DAS PROVÍNCIAS DE CUYO

Ministros do santuário: Elevai ao Ser Supremo fervorosos sacrifícios, e pedi-lhe, com a efusão de vossos piedosos corações, que suspenda o açoite da guerra fratricida em que jaz a República Argentina.

Honoráveis RR. das legislaturas provinciais: A vós cabe o dever sagrado de ditar leis análogas e benéficas ao povo que vos honrou com tão alto cargo. A generosidade dos Governos litorâneos, desses pais da República, que sem reparar em sacrifícios vos puseram em plena liberdade para exercer vossas funções, não entre o estrondo das armas, mas no silêncio e repouso da mais perfeita tranquilidade.

Chefes militares: Respeitai e obedecei à autoridade civil; estai sempre em vigília para sustentá-la contra todo aquele que tente derrubá-la; este é vosso dever.

Cidadãos todos: Respeitai a religião de nossos pais e seus ministros, as leis que nos regem e as autoridades constituídas. Se assim fizerdes, sereis felizes e não tereis motivo de arrependimento.

A divisão auxiliar dos Andes retira-se de vosso território, não ao descanso de uma vida privada, mas para continuar suas tarefas contra os inimigos implacáveis da liberdade e das leis. Ela marchará de frente, pois não conhece perigo que a assuste; propôs-se dar liberdade às três províncias oprimidas no Norte ou deixar de existir. Ela vos deixa livres do poder militar dos assassinos de 1.º de dezembro, e nisso mesmo recebeu a mais grata recompensa por seus débeis esforços. Que as três províncias de Cuyo se mantenham em união indissolúvel e se sustentem mutuamente contra toda tentativa dos inimigos de sua liberdade é a aspiração e o mais ardente desejo daquele que vos fala.

Inimigos da liberdade nacional: Sabei que desde 23 de maio do presente ano, em que tive pleno conhecimento de que vossos partidários cometeram o mais horrendo, aleivoso e negro crime de assassinar o benemérito general dom José Benito Villafañe, desembainhei minha espada contra vós, protestei que a justiça ocuparia o lugar da misericórdia, convencido de que os delitos tolerados mil vezes sacrificaram mais vítimas que os suplícios executados a seu tempo.

☞ Tremei de cometer o mais leve atentado.
Tremei, se não respeitais as autoridades e as leis. E tremei, se não desistis desse louco empenho de cativar a liberdade dos povos, enquanto eu existir. — Juan Facundo Quiroga. — San Juan, 7 de setembro de 1831.

PARTE SEGUNDA

DOCUMENTOS DO AUTOR SOBRE O «FACUNDO»

I

CARTA AO PROFESSOR DOM MATÍAS CALLANDRELLI, AUTOR DE UM DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA CASTELHANA

Meu estimado senhor:

Tenho o gosto, para satisfazer seu pedido, de enviar-lhe um exemplar da Vida de Facundo Quiroga, reputado geralmente como o escrito mais peculiarmente meu.

Quanto à linguagem, reviu esta última edição o cultor habanero da língua Mantilla[40], achando pouco que corrigir em relação às anteriores, e, segundo disse, chamando-lhe a atenção a ocorrência frequente de locuções antiquadas, mas castiças, que atribuía a muita leitura de autores castelhanos antigos.

Não sendo esta a verdade, indiquei-lhe como causa que, havendo eu me criado numa província afastada e me formado sem estudos ordenados, a língua dos conquistadores devia ter-se conservado ali por mais tempo sem alterações sensíveis, o que eu corroborava com muitos fatos, e ele aceitava como plausível, assim como os ingleses insulares de hoje encontraram na América do Norte locuções que Johnson trazia e Webster não conserva em seu Dicionário.

A correção das provas de minhas Viagens foi feita por dom Juan M. Gutiérrez, da Academia da Língua; e dom Andrés Bello, igualmente acadêmico, que gostava muito de Recuerdos de provincia como linguagem e como recordações de costumes americanos, rejeitava por infundadas muitas das correções de Villergas, que se arvorava em purista e que encontrou em Havana a quem falar em matéria de língua castelhana; pois é hoje um fato conquistado que os melhores cultores modernos da língua são americanos, fato reconhecido pela própria Academia, talvez porque necessitem de mais estudos da língua os que vivem fora do centro que a vivifica, e estão mais influídos pelos elementos estrangeiros e estranhos à sua origem, que tendem a incorporar-se a ela.

É o mais breve que posso dizer-lhe para sua orientação no uso que queira fazer de meus escritos, agradecendo-lhe cordialmente seu bom desejo.

Tenho, com este motivo, o gosto de subscrever-me seu afeiçoadíssimo amigo

D. F. Sarmiento.

Buenos Aires, 12 de agosto de 1881.

II

JUAN FACUNDO QUIROGA

ADVERTÊNCIA DO AUTOR

Depois de terminada a publicação desta obra, recebi de vários amigos retificações de vários fatos nela referidos. Algumas inexatidões deviam necessariamente escapar num trabalho feito às pressas, longe do teatro dos acontecimentos, e sobre assunto de que nada se havia escrito até o presente; ao coordenar entre si sucessos que tiveram lugar em distintas e remotas províncias, e em épocas diversas, consultando uma testemunha ocular sobre um ponto, registrando manuscritos formados à ligeira, ou apelando às próprias reminiscências, não é estranho que de vez em quando o leitor argentino sinta falta de algo que conhece, ou discorde quanto a algum nome próprio, uma data, trocados ou postos fora de lugar.

Mas devo declarar que nos acontecimentos notáveis a que me refiro, e que servem de base às explicações que dou, há uma exatidão irrepreensível pela qual responderão os documentos públicos que sobre eles existem.

Talvez haja um momento em que, desembaraçado das preocupações que precipitaram a redação deste pequeno livro, eu volte a refundi-lo em novo plano, despindo-o de toda digressão acidental e apoiando-o em numerosos documentos oficiais, aos quais só faço agora uma ligeira referência.

1845

III

Não se matam as ideias.

Fortoul.

Aos homens se degola;
às ideias, não.

No fim do ano de 1840 eu saía de minha pátria, desterrado por piedade, maltratado, cheio de equimoses, pontadas e golpes recebidos no dia anterior em uma dessas bacanais sangrentas de soldadesca e mazorqueros. Ao passar pelos banhos de Zonda, sob as armas da pátria que em dias mais alegres eu havia pintado numa sala, escrevi com carvão estas palavras:

Não se matam as ideias.

O Governo, a quem se comunicou o fato, mandou uma comissão encarregada de decifrar o hieróglifo, que se dizia conter desabafos ignóbeis, insultos e ameaças. Ouvida a tradução, «E então! — disseram —, que significa isto?»...

Significava simplesmente que eu vinha ao Chile, onde a liberdade ainda brilhava, e que me propunha fazer projetar os raios das luzes de sua Imprensa até o outro lado dos Andes. Os que conhecem minha conduta no Chile sabem se cumpri aquele protesto.

IV

INTRODUÇÃO À EDIÇÃO DE 1845

Peço ao historiador o amor
da humanidade ou da liberdade; sua
justiça imparcial não deve ser impassível.
É preciso, ao contrário, que ele
deseje, que espere, que sofra,
ou seja feliz com aquilo que narra.

Villemain, Curso de Literatura.

Sombra terrível de Facundo, vou evocar-te, para que, sacudindo o ensanguentado pó que cobre tuas cinzas, te levantes a explicar-nos a vida secreta e as convulsões internas que dilaceram as entranhas de um povo nobre! Tu possuis o segredo: revela-no-lo! Dez anos ainda depois de tua trágica morte, o homem das cidades e o gaúcho dos llanos argentinos, ao tomar diversos caminhos no deserto, diziam: «Não!; não morreu! Vive ainda! Ele virá!» Certo! Facundo não morreu; está vivo nas tradições populares, na política e nas revoluções argentinas; em Rosas, seu herdeiro, seu complemento; sua alma passou a este outro molde mais acabado, mais perfeito; e o que nele era apenas instinto, iniciação, tendência, converteu-se em Rosas em sistema, efeito e fim. A natureza campestre, colonial e bárbara transformou-se, nesta metamorfose, em arte, em sistema e em política regular, capaz de apresentar-se à face do mundo como o modo de ser de um povo encarnado num homem que aspirou a tomar ares de gênio que domina os acontecimentos, os homens e as coisas. Facundo, provinciano, bárbaro, valente, audaz, foi substituído por Rosas, filho da culta Buenos Aires sem sê-lo ele; por Rosas, falso, coração gelado, espírito calculador, que faz o mal sem paixão e organiza lentamente o despotismo com toda a inteligência de um Maquiavel. Tirano sem rival hoje na terra, por que seus inimigos querem disputar-lhe o título de grande que lhe prodigalizam seus cortesãos? Sim; grande e muito grande é, para glória e vergonha de sua pátria, porque se encontrou milhares de seres degradados que se jungiram a seu carro para arrastá-lo por cima de cadáveres, também se acham aos milhares as almas generosas que, em quinze anos de luta sangrenta, não desesperaram de vencer o monstro que nos propõe o enigma da organização política da República. Um dia virá, enfim, que o resolva; e a Esfinge Argentina, metade mulher pelo que tem de covarde, metade tigre pelo que tem de sanguinário, morrerá a seus pés, dando à Tebas do Prata a elevada posição que lhe cabe entre as nações do Novo Mundo.

É necessário, contudo, para desatar este nó que a espada não pôde cortar, estudar prolixamente as voltas e reviravoltas dos fios que o formam, e buscar nos antecedentes nacionais, na fisionomia do solo, nos costumes e tradições populares, os pontos em que estão presos.

A República Argentina é hoje a seção hispano-americana que, em suas manifestações exteriores, chamou preferentemente a atenção das nações europeias, que não poucas vezes se viram envolvidas em seus extravios, ou atraídas, como por um sorvedouro, a aproximar-se do centro em que remoinham elementos tão contrários. A França esteve a ponto de ceder a essa atração, e não sem grandes esforços de remo e vela, não sem perder o leme, conseguiu afastar-se e manter-se à distância. Seus mais hábeis políticos não chegaram a compreender nada do que seus olhos viram ao lançar um olhar precipitado sobre o poder americano que desafiava a grande nação. Ao ver as lavas ardentes que se revolvem, se agitam, se chocam bramindo neste grande foco de luta intestina, os que se têm por mais avisados disseram: é um vulcão subalterno, sem nome, dos muitos que aparecem na América: logo se extinguirá; e voltaram para outra parte seus olhares, satisfeitos de haver dado uma solução tão fácil quanto exata aos fenômenos sociais que só viram em grupo e superficialmente. À América do Sul em geral, e à República Argentina sobretudo, fez falta um Tocqueville que, munido do conhecimento das teorias sociais, como o viajante científico de barômetros, octantes e bússolas, viesse penetrar no interior de nossa vida política, como em campo vastíssimo e ainda não explorado nem descrito pela ciência, e revelasse à Europa, à França, tão ávida de novas fases na vida das diversas porções da humanidade, este novo modo de ser que não tem antecedentes bem marcados e conhecidos.

Ter-se-ia então explicado o mistério da luta obstinada que despedaça aquela República; ter-se-iam classificado distintamente os elementos contrários, invencíveis, que se chocam; ter-se-ia atribuído sua parte à configuração do terreno e aos hábitos que ela engendra; sua parte às tradições espanholas e à consciência nacional, íntima, plebeia, que deixaram a Inquisição e o absolutismo hispânico; sua parte à influência das ideias opostas que transtornaram o mundo político; sua parte à barbárie indígena; sua parte à civilização europeia; sua parte, enfim, à democracia consagrada pela Revolução de 1810, à igualdade cujo dogma penetrou até as camadas inferiores da sociedade.

Este estudo, que nós ainda não estamos em condições de fazer, por nossa falta de instrução filosófica e histórica, feito por observadores competentes, teria revelado aos olhos atônitos da Europa um mundo novo em política, uma luta ingênua, franca e primitiva entre os últimos progressos do espírito humano e os rudimentos da vida selvagem, entre as cidades populosas e os bosques sombrios. Então se teria podido aclarar um pouco o problema da Espanha, essa retardatária da Europa que, lançada entre o Mediterrâneo e o Oceano, entre a Idade Média e o século XIX, unida à Europa culta por um amplo istmo e separada da África bárbara por um estreito angosto, está balançando entre duas forças opostas, ora levantando-se na balança dos povos livres, ora caindo na dos despotizados; ora ímpia, ora fanática; ora constitucionalista declarada, ora despótica impudente; amaldiçoando às vezes suas cadeias quebradas, ora cruzando os braços e pedindo aos gritos que lhe imponham o jugo, que parece ser sua condição e seu modo de existir. Ora! O problema da Espanha europeia não poderia resolver-se examinando minuciosamente a Espanha americana, como pela educação e hábitos dos filhos se rastreiam as ideias e a moralidade dos pais? Ora! Nada significa para a história nem para a filosofia esta eterna luta dos povos hispano-americanos, essa supina falta de capacidade política e industrial que os mantém inquietos e revolvendo-se sem norte fixo, sem objeto preciso, sem que saibam por que não podem conseguir um dia de repouso, nem que mão inimiga os lança e empurra no turbilhão fatal que os arrasta malgrado seu, sem que lhes seja dado subtrair-se à sua maléfica influência? Não valia a pena saber por que no Paraguai, terra desmontada pela mão sábia do jesuitismo, um sábio educado nas aulas da antiga Universidade de Córdoba abre uma nova página da história das aberrações do espírito humano, encerra um povo em seus limites de bosques primitivos, e, apagando as sendas que conduzem a esta China recôndita, oculta e esconde durante trinta anos sua presa nas profundezas do continente americano, sem lhe deixar lançar um só grito, até que, morto ele próprio pela idade e pela quieta fadiga de estar imóvel pisando um povo submisso, este possa enfim, com voz extenuada e apenas inteligível, dizer aos que vagueiam por suas imediações: vivo ainda!, mas quanto sofri!, quantum mutatus ab illo! Que transformação sofreu o Paraguai; que equimoses e chagas deixou o jugo sobre seu pescoço que não opunha resistência! Não merece estudo o espetáculo da República Argentina que, depois de vinte anos de convulsão interna, de ensaios de organização de todo gênero, produz por fim do fundo de suas entranhas, do íntimo de seu coração, o mesmo doutor Francia na pessoa de Rosas, porém maior, mais desenvolvido e mais hostil, se possível, às ideias, costumes e civilização dos povos europeus? Não se descobre nele o mesmo rancor contra o elemento estrangeiro, a mesma ideia da autoridade do Governo, a mesma insolência para desafiar a reprovação do mundo, com a mais sua originalidade selvagem, seu caráter friamente feroz e sua vontade incontrastável, até o sacrifício da pátria, como Sagunto e Numância; até abjurar o porvir e a posição de nação culta, como a Espanha de Filipe II e de Torquemada? É isto um capricho acidental, um desvio momentâneo causado pela aparição em cena de um gênio poderoso, assim como os planetas saem de sua órbita regular, atraídos pela aproximação de algum outro, mas sem se subtrair de todo à atração de seu centro de rotação, que logo assume a preponderância e os faz entrar na carreira ordinária? M. Guizot disse da tribuna francesa: «há na América dois partidos: o partido europeu e o partido americano; este é o mais forte»; e quando o avisam de que os franceses tomaram as armas em Montevidéu, e associaram seu porvir, sua vida e seu bem-estar ao triunfo do partido europeu civilizado, contenta-se em acrescentar: «Os franceses são muito intrometidos e comprometem sua nação com os demais governos.» Bendito seja Deus! M. Guizot, o historiador da civilização europeia, aquele que deslindou os elementos novos que modificaram a civilização romana, e que penetrou no emaranhado labirinto da Idade Média para mostrar como a nação francesa foi o cadinho em que se esteve elaborando, misturando e refundindo o espírito moderno; M. Guizot, ministro do rei da França, dá por toda solução a essa manifestação de simpatias profundas entre os franceses e os inimigos de Rosas: «são muito intrometidos os franceses!» Os outros povos americanos, que, indiferentes e impassíveis, olham esta luta e estas alianças de um partido argentino com todo elemento europeu que venha prestar-lhe apoio, exclamam por sua vez, cheios de indignação: «Estes argentinos são muito amigos dos europeus!» E o tirano da República Argentina encarrega-se oficiosamente de completar-lhes a frase, acrescentando: «traidores à causa americana!» Certo!, dizem todos; traidores!; esta é a palavra. Certo!, dizemos nós; traidores à causa americana, espanhola, absolutista, bárbara! Não ouvistes a palavra selvagem que anda esvoaçando sobre nossas cabeças?

Disso se trata: de ser ou não ser selvagem. Rosas, segundo isto, não é um fato isolado, uma aberração, uma monstruosidade. É, ao contrário, uma manifestação social; é a fórmula de uma maneira de ser de um povo. Para que vos obstinais em combatê-lo, pois, se ele é fatal, forçoso, natural e lógico? Meu Deus! Para que o combateis!... Acaso porque a empresa é árdua, por isso é absurda? Acaso porque o mau princípio triunfa se lhe há de abandonar resignadamente o terreno? Acaso a civilização e a liberdade são hoje fracas no mundo porque a Itália geme sob o peso de todos os despotismos, porque a Polônia anda errante sobre a terra mendigando um pouco de pão e um pouco de liberdade? Por que o combateis!... Acaso não estamos vivos nós, que depois de tantos desastres ainda sobrevivemos; ou perdemos a consciência do justo e do porvir da pátria porque perdemos algumas batalhas? Ora!, ficam também as ideias entre os despojos dos combates? Somos donos de fazer outra coisa que não aquilo que fazemos, nem mais nem menos como Rosas não pode deixar de ser o que é? Não há nada de providencial nestas lutas dos povos? Concedeu-se jamais o triunfo a quem não sabe perseverar? Por outro lado, havemos de abandonar um solo dos mais privilegiados da América às devastações da barbárie, manter cem rios navegáveis abandonados às aves aquáticas que estão em quieta posse de sulcá-los sozinhas desde ab initio?

Havemos de fechar voluntariamente a porta à imigração europeia que chama com golpes repetidos para povoar nossos desertos e fazer-nos, à sombra de nosso pavilhão, povo inumerável como as areias do mar? Havemos de deixar, ilusórios e vãos, os sonhos de desenvolvimento, de poder e de glória com que nos embalaram desde a infância os prognósticos que, com inveja, nos dirigem os que na Europa estudam as necessidades da humanidade? Depois da Europa, há outro mundo cristão civilizável e deserto além da América? Há na América muitos povos que estejam, como o argentino, chamados de pronto a receber a população europeia que transborda como o líquido num copo? Não quereis, enfim, que vamos invocar a ciência e a indústria em nosso auxílio, chamá-las com todas as nossas forças para que venham sentar-se no meio de nós, livre uma de toda trava posta ao pensamento, segura a outra de toda violência e de toda coação? Oh! Este porvir não se renuncia assim, sem mais! Não se renuncia porque um exército de 20.000 homens guarde a entrada da pátria; os soldados morrem nos combates, desertam ou mudam de bandeira. Não se renuncia porque a fortuna haja favorecido um tirano durante longos e pesados anos; a fortuna é cega, e no dia em que não acerte encontrar seu favorito entre a fumaça densa e a poeira sufocante dos combates, adeus, tirano! adeus, tirania! Não se renuncia porque todas as brutais e ignorantes tradições coloniais tenham podido mais, num momento de extravio, no ânimo de massas inexperientes; as convulsões políticas trazem também a experiência e a luz, e é lei da humanidade que os interesses novos, as ideias fecundas, o progresso, triunfem por fim das tradições envelhecidas, dos hábitos ignorantes e dos preconceitos estacionários. Não se renuncia porque num povo haja milhares de homens cândidos que tomam o bem pelo mal; egoístas que dele tiram proveito; indiferentes que o veem sem se interessar; tímidos que não se atrevem a combatê-lo; corrompidos, enfim, que, conhecendo-o, se entregam a ele por inclinação ao mal, por depravação; sempre houve nos povos tudo isso, e nunca o mal triunfou definitivamente. Não se renuncia porque os demais povos americanos não possam prestar-nos sua ajuda; porque os Governos não veem de longe senão o brilho do poder organizado, e não distinguem na obscuridade humilde e desamparada das revoluções os grandes elementos que estão forcejando para desenvolver-se; porque a oposição pretensamente liberal abjure de seus princípios, imponha silêncio à sua consciência e, para esmagar sob seu pé um inseto que incomoda, pise a nobre planta a que esse inseto se prendia. Não se renuncia porque os povos em massa nos deem as costas por causa de nossas misérias e nossas grandezas estarem demasiado longe de sua vista para que cheguem a comovê-los. Não!; não se renuncia a um porvir tão imenso, a uma missão tão elevada, por esse cúmulo de contradições e dificuldades. As dificuldades vencem-se; as contradições acabam à força de contradizê-las!

Desde o Chile, nada podemos dar aos que perseveram na luta sob todos os rigores das privações, e com a lâmina exterminadora que, como a espada de Dâmocles, pende a toda hora sobre suas cabeças. Nada!, exceto ideias, exceto consolos, exceto estímulos; arma nenhuma nos é dado levar aos combatentes, a não ser a que a Imprensa livre do Chile fornece a todos os homens livres. A Imprensa!, a Imprensa! Eis aqui, tirano, o inimigo que sufocaste entre nós. Eis aqui o velocino de ouro que tratamos de conquistar. Eis como a Imprensa da França, Inglaterra, Brasil, Montevidéu, Chile e Corrientes vai perturbar teu sono em meio ao silêncio sepulcral de tuas vítimas; eis que te viste compelido a roubar o dom de línguas para paliar o mal, dom que só foi dado para pregar o bem. Eis que desces a justificar-te, e que vais por todos os povos europeus e americanos mendigando uma pena venal e fratricida, para que por meio da Imprensa defenda aquele que a acorrentou! Por que não permites em tua pátria a discussão que manténs em todos os outros povos? Para que, pois, tantos milhares de vítimas sacrificadas pelo punhal; para que tantas batalhas, se ao cabo havias de concluir pela pacífica discussão da Imprensa?

Aquele que leu as páginas precedentes acreditará que é meu ânimo traçar um quadro apaixonado dos atos de barbárie que desonraram o nome de dom Juan Manuel Rosas. Que se tranquilizem os que abriguem esse temor. Ainda não se formou a última página desta biografia imoral; ainda não está cheia a medida; os dias de seu herói ainda não foram contados. Por outro lado, as paixões que ele subleva entre seus inimigos são ainda demasiado rancorosas para que eles próprios pudessem pôr fé em sua imparcialidade ou em sua justiça.

É de outro personagem que devo ocupar-me. Facundo Quiroga é o caudilho cujos feitos quero consignar no papel. Há dez anos que a terra pesa sobre suas cinzas, e muito cruel e envenenada haveria de mostrar-se a calúnia que fosse cavar os sepulcros em busca de vítimas. Quem lançou a bala oficial que deteve sua carreira? Partiu de Buenos Aires ou de Córdoba? A história explicará esse arcano. Facundo Quiroga é, porém, o tipo mais ingênuo do caráter da guerra civil da República Argentina; é a figura mais americana que a revolução apresenta. Facundo Quiroga enlaça e encadeia todos os elementos de desordem que, até antes de sua aparição, se agitavam isoladamente em cada província; ele faz da guerra local a guerra nacional argentina, e apresenta triunfante, ao fim de dez anos de trabalhos, devastação e combates, o resultado de que só soube aproveitar-se aquele que o assassinou. Julguei explicar a revolução argentina com a biografia de Juan Facundo Quiroga, porque creio que ele explica suficientemente uma das tendências, uma das duas fases diversas que lutam no seio daquela sociedade singular.

Evoquei, pois, minhas lembranças, e busquei para completá-las os detalhes que me puderam fornecer homens que o conheceram na infância, que foram seus partidários ou seus inimigos, que viram com os próprios olhos uns fatos, ouviram outros, e tiveram conhecimento exato de uma época ou de uma situação particular. Ainda espero mais dados além dos que possuo, que já são numerosos. Se algumas inexatidões me escapam, rogo aos que as advertirem que mas comuniquem; porque em Facundo Quiroga não vejo simplesmente um caudilho, mas uma manifestação da vida argentina tal como a fizeram a colonização e as peculiaridades do terreno, ao que creio necessário consagrar séria atenção, porque sem isso a vida e os feitos de Facundo Quiroga são vulgaridades que não mereceriam entrar senão episodicamente no domínio da história. Mas Facundo, em relação com a fisionomia da natureza grandiosamente selvagem que prevalece na imensa extensão da República Argentina; Facundo, expressão fiel de uma maneira de ser de um povo, de seus preconceitos e instintos; Facundo, enfim, sendo o que foi, não por um acidente de seu caráter, mas por antecedentes inevitáveis e alheios à sua vontade, é o personagem histórico mais singular, mais notável, que pode apresentar-se à contemplação dos homens que compreendem que um caudilho que encabeça um grande movimento social não é mais que o espelho em que se refletem, em dimensões colossais, as crenças, necessidades, preconceitos e hábitos de uma nação em dada época de sua história. Alexandre é a pintura, o reflexo da Grécia guerreira, literária, política e artística; da Grécia cética, filosófica e empreendedora, que se derrama sobre a Ásia para estender a esfera de sua ação civilizadora.

Por isso nos é necessário deter-nos nos detalhes da vida interior do povo argentino, para compreender seu ideal, sua personificação.

Sem esses antecedentes, ninguém compreenderá Facundo Quiroga, como ninguém, a meu juízo, compreendeu ainda o imortal Bolívar, pela incompetência dos biógrafos que traçaram o quadro de sua vida. Na Enciclopédia Nova li um brilhante trabalho sobre o general Bolívar, em que se faz àquele caudilho americano toda a justiça que merece por seus talentos e por seu gênio; mas nessa biografia, como em todas as outras que dele se escreveram, vi o general europeu, os marechais do Império, um Napoleão menos colossal; mas não vi o caudilho americano, o chefe de um levante das massas; vejo o arremedo da Europa, e nada que me revele a América.

A Colômbia tem llanos, vida pastoril, vida bárbara, americana pura, e daí partiu o grande Bolívar; daquele barro fez seu glorioso edifício. Como é, pois, que sua biografia o assemelha a qualquer general europeu de prendas esclarecidas? É que os preconceitos clássicos europeus do escritor desfiguram o herói, a quem tiram o poncho para apresentá-lo desde o primeiro dia com fraque, nem mais nem menos como os litógrafos de Buenos Aires pintaram Facundo com casaca de lapelas, julgando imprópria sua jaqueta, que nunca abandonou. Bem; fizeram um general, mas Facundo desaparece. A guerra de Bolívar podem estudá-la na França na dos chouans; Bolívar é um Charette de mais largas dimensões. Se os espanhóis houvessem penetrado na República Argentina no ano 11, talvez nosso Bolívar teria sido Artigas, se este caudilho tivesse sido, como aquele, tão prodigamente dotado pela natureza e pela educação.

A maneira de tratar a história de Bolívar dos escritores europeus e americanos convém a San Martín e a outros de sua classe. San Martín não foi caudilho popular; era realmente um general. Educara-se na Europa e chegou à América, onde o Governo era o revolucionário, e pôde formar à vontade o exército europeu, discipliná-lo e dar batalhas regulares, segundo as regras da ciência. Sua expedição sobre o Chile é uma conquista em regra, como a da Itália por Napoleão. Mas, se San Martín tivesse de encabeçar montoneras, ser vencido aqui para ir reunir um grupo de llaneros acolá, tê-lo-iam enforcado à segunda tentativa.

O drama de Bolívar compõe-se, pois, de outros elementos além dos que até hoje conhecemos; é preciso pôr antes as decorações e os trajes americanos, para mostrar em seguida o personagem. Bolívar é ainda um conto forjado sobre dados certos; Bolívar, o verdadeiro Bolívar, o mundo ainda não o conhece, e é muito provável que, quando o traduzirem a seu idioma natal, apareça ainda mais surpreendente e maior.

Razões desse gênero me moveram a dividir este trabalho precipitado em duas partes: uma, em que traço o terreno, a paisagem, o teatro sobre o qual vai representar-se a cena; outra, em que aparece o personagem, com seu traje, suas ideias, seu sistema de agir; de maneira que a primeira já vai revelando a segunda, sem necessidade de comentários nem explicações.

V

CARTA-PRÓLOGO DA EDIÇÃO DE 1851

Senhor dom Valentín Alsina:

Consagro-lhe, meu caro amigo, estas páginas que voltam a ver a luz pública, menos pelo que elas valem do que pelo empenho do senhor em diminuir com suas notas os muitos defeitos que afeavam a primeira edição. Ensaio e revelação para mim mesmo de minhas ideias, o Facundo padeceu dos defeitos de todo fruto da inspiração do momento, sem o auxílio de documentos à mão, e executado mal era concebido, longe do teatro dos sucessos e com propósitos de ação imediata e militante. Tal como era, meu pobre livreco teve a fortuna de encontrar naquela terra, fechada à verdade e à discussão, leitores apaixonados, e de mão em mão, deslizando furtivamente, guardado em algum secreto esconderijo, para fazer alto em suas peregrinações, empreender longas viagens, e exemplares às centenas chegarem, gastos e amarrotados de tão lidos, até Buenos Aires, às oficinas do pobre tirano, aos acampamentos do soldado e à cabana do gaúcho, até fazer-se ele próprio, nas conversas populares, um mito como seu herói.

Usei com parcimônia suas preciosas notas, guardando as mais substanciais para tempos melhores e trabalhos mais meditados, temeroso de que, ao retocar obra tão informe, desaparecessem sua fisionomia primitiva e a viçosa e voluntariosa audácia da concepção mal disciplinada.

Este livro, como tantos outros que a luta da liberdade fez nascer, irá bem cedo confundir-se no imenso farrago de materiais de cujo caos discordante sairá um dia, depurada de todo ressaibo, a história de nossa pátria, o drama mais fecundo em lições, mais rico em peripécias e mais vivaz que a dura e penosa transformação americana apresentou. Feliz de mim se, como desejo, puder um dia consagrar-me com êxito a tarefa tão grande! Lançaria então ao fogo, de boa vontade, quantas páginas precipitadas deixei escapar no combate em que o senhor e tantos outros valentes escritores colheram os mais frescos louros, ferindo de mais perto, e com armas mais bem temperadas, o poderoso tirano de nossa pátria.

Suprimi a introdução como inútil, e os dois últimos capítulos como ociosos hoje, recordando uma indicação sua em 1846, em Montevidéu, em que me insinuava que o livro estava terminado com a morte de Quiroga[41].

Tenho uma ambição literária, meu caro amigo, e a satisfazê-la consagro muitas vigílias, investigações prolixas e estudos meditados. Facundo morreu corporalmente em Barranca-Yaco; mas seu nome na História podia escapar e sobreviver alguns anos, sem castigo exemplar como merecia. A justiça da História já caiu sobre ele, e o repouso de seu túmulo guardam-no a supressão de seu nome e o desprezo dos povos. Seria agravar a História escrever a vida de Rosas, e humilhar nossa pátria recordá-la, depois de reabilitá-la, as degradações por que passou. Mas há outros povos e outros homens que não devem ficar sem humilhação e sem ser aleccionados. Oh! A França, tão justamente erguida por sua suficiência nas ciências históricas, políticas e sociais; a Inglaterra, tão contemplativa de seus interesses comerciais; aqueles políticos de todos os países, aqueles escritores que se prezam de entendidos, se um pobre narrador americano se apresentasse diante deles com um livro, para mostrar-lhes, como Deus mostra as coisas que chamamos evidentes, que se prostraram diante de um fantasma, que contemporizaram com uma sombra impotente, que acataram um monte de lixo, chamando à estupidez energia; à cegueira, talento; virtude à crápula; e intriga e diplomacia aos mais grosseiros ardis; se se pudesse fazer isso, como é possível fazê-lo, com unção nas palavras, com irrepreensível imparcialidade na jurisprudência dos fatos, com exposição lúcida e animada, com elevação de sentimentos e com conhecimento profundo dos interesses dos povos e pressentimento, fundado em dedução lógica, dos bens que sufocaram com seus erros e dos males que desenvolveram em nosso país e fizeram transbordar sobre outros... não sente o senhor que quem tal fizesse poderia apresentar-se na Europa com seu livro na mão e dizer à França e à Inglaterra, à Monarquia e à República, a Palmerston e a Guizot, a Luís Filipe e a Luís Napoleão, ao Times e à Presse: lede, miseráveis, e humilhai-vos! Eis aí vosso homem!, e tornar efetivo aquele ecce homo, tão mal assinalado pelos poderosos, ao desprezo e ao asco dos povos?

A história da tirania de Rosas é a mais solene, a mais sublime e a mais triste página da espécie humana, tanto para os povos que dela foram vítimas, como para as nações, Governos e políticos europeus ou americanos que foram atores no drama ou testemunhas interessadas.

Os fatos estão aí consignados, classificados, provados, documentados; falta-lhes, contudo, o fio que há de ligá-los em um só fato, o sopro de vida que há de fazê-los erguerem-se todos ao mesmo tempo à vista do espectador e convertê-los em quadro vivo, com primeiros planos palpáveis e lonjuras necessárias; falta-lhes o colorido que dão à paisagem os raios do sol da pátria; falta-lhes a evidência que traz a estatística que conta as cifras, que impõe silêncio aos fraseadores presunçosos e faz emudecer os poderosos impudentes. Falta-me, para tentá-lo, interrogar o solo e visitar os lugares da cena, ouvir as revelações dos cúmplices, os depoimentos das vítimas, as recordações dos anciãos, as doloridas narrativas das mães que veem com o coração; falta-me escutar o eco confuso do povo, que viu e não compreendeu, que foi verdugo e vítima, testemunha e ator; falta a maturidade do fato consumado e a passagem de uma época a outra, a mudança dos destinos da nação, para voltar com fruto os olhos para trás, fazendo da história exemplo e não vingança.

Imagine o senhor, meu caro amigo, se, cobiçando para mim esse tesouro, prestarei grande atenção aos defeitos e inexatidões da vida de Juan Facundo Quiroga nem de nada de quanto abandonei à publicidade. Há uma justiça exemplar a fazer e uma glória a adquirir como escritor argentino; fustigar o mundo e humilhar a soberba dos grandes da terra, chamem-se sábios ou governos. Se eu fosse rico, fundaria um prêmio Montyon para aquele que o conseguisse.

Envio-lhe, pois, o Facundo sem outras atenuações, e faça-o continuar a obra de reabilitação do justo e do digno que teve em mira ao princípio. Temos o que Deus concede aos que sofrem: anos pela frente e esperança; tenho eu um átomo daquilo que ao senhor e a Rosas, à virtude e ao crime, concede às vezes: perseverança. Perseveremos, amigo; morramos, o senhor aí, eu aqui; mas que nenhum ato, nenhuma palavra nossa revele que temos a consciência de nossa debilidade e de que nos ameaçam, para hoje ou para amanhã, tribulações e perigos.

Fica do senhor seu afeiçoadíssimo amigo,

Domingo F. Sarmiento.

Yungay, 7 de abril de 1851.

Facundo

Sinopse

Marco da literatura e do pensamento político argentino, Facundo investiga a tensão entre civilização e barbárie a partir da figura de Juan Facundo Quiroga, das pampas, das cidades e das guerras civis do século XIX. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.

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