Universo da obra
Universo da obra
*Telmo*, _chegando aopé de Magdalena que o não sentiu entrar_. A minha
senhora está a ler?...
*Magdalena*, _despertando_. Ah! sois vós, Telmo... Não, ja não leio: ha
pouca luz de dia ja; confundia-me a vista.--E é um bonito livro este! o
teu valido, aquelle nosso livro, Telmo.
*Telmo*, _deitando-lhe os olhos_. Oh, oh! Livro para damas--e para
cavalleiros... e para todos: um livro que serve para todos; como não ha
outro, tirante o respeito devido ao da Palavra de Deus! Mas esse não
tenho eu a consolação de ler, que não sei latim como meu senhor... quero
dizer, como o senhor Manuel de Sousa-Coutinho--que lá isso!... acabado
escholar é elle. E assim foi seu pae antes d'elle, que muito bem o
conheci: grande homem! Muitas lettras e de muito galante prática--e não
somenos as outras partes de cavalleiro: uma gravidade!... Ja não ha
d'aquella gente.--Mas, minha senhora, isto de a Palavra de Deus estar
assim n'outra lingua, n'uma lingua que a gente... que toda a gente não
intende!... confesso-vos que aquelle mercador inglez da rua-Nova, que
aqui vem ás vezes, tem-me ditto suas cousas que me quadram... E Deus me
perdoe! que eu creio que o homem é hereje d'esta seita nova d'Allemanha
ou d'Inglaterra. Será?
*Magdalena*. Olhae, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis
que desde o tempo que... que...
*Telmo*. Que ja lá vai, que era outro tempo.
*Magdalena*. Pois sim... (_suspira_) Eu era uma criança; pouco maior era
que Maria.
*Telmo*. Não, a senhora D. Maria ja é mais alta.
*Magdalena*. É verdade, tem crescido de mais, e derepente n'estes dois
mezes ultimos...
*Telmo*. Então! Tem treze annos feitos, é quasi uma senhora, está uma
senhora... (_áparte_) Uma senhora aquella... pobre menina!
*Magdalena*, _com as lagrymas nos olhos_. Es muito amigo d'ella, Telmo?
*Telmo*. Se sou! Um anjo como aquelle... uma viveza, um espirito!... e
então que coração!
*Magdalena*. Filha da minha alma! (_pausa:--mudando de tom_) Mas olha,
meu Telmo, tórno a dizer-t'o: eu não sei como heide fazer para te dar
conselhos. Conheci-te de tam criança, de quando casei a... a... a
primeira vez--costumei-me a olhar para ti com tal respeito: ja então
eras o que hoje es, o escudeiro valido, o familiar quasi parente, o
amigo velho e provado de teus amos.
*Telmo*, _internecido_. Não digaes mais, senhora, não me lembreis de
tudo o que eu era.
*Magdalena*, _quasi offendida_. Porquê? não es hoje o mesmo, ou mais
ainda, se é possivel? Quitaram-te alguma coisa da confiança, do
respeito--do amor e carinho a que estava costumado o aio fiel de meu
senhor D. João de Portugal, que Deus tenha em glória?
*Telmo*, _áparte_. Terá...
*Magdalena*. O amigo e camarada antigo de seu pae?
*Telmo*. Não, minha senhora, não, por certo.
*Magdalena*. Então?...
*Telmo*. Nada. Continuae, dizei, minha senhora.
*Magdalena*. Pois está bem.--Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não
queria dar-vos ordens... Mas, meu amigo, tu tomáste--e com muito gôsto
meu e de seu pae, um ascendente no espirito de Maria... tal que não
ouve, não cre, não sabe senão o que lhe dizes. Quasi que es tu a sua
donna, a sua aia de criação.--Parece-me... eu sei... não falles com ella
d'esse modo, n'essas coisas...
*Telmo*. O quê? No que me disse o inglez, sôbre a sagrada Escriptura que
elles lá teem em sua lingua, e que?...
*Magdalena*. Sim... n'isso decerto... e em tantas outras coisas tam
altas, tam fóra de sua edade, e muitas do seu sexo tambem, que aquella
criança está sempre a querer saber, a perguntar.--É a minha unica filha:
não tenho... nunca tivemos outra... e, além de tudo o mais, bem ves que
não é uma criança... muito... muito forte.
*Telmo*. É... delgadinha, é. Hade inrijar. É tê-la por aqui, fóra
d'aquelles ares apestados de Lisboa; e deixae, que se hade pôr outra.
*Magdalena*. Filha do meu coração!
*Telmo*. E do meu.--Pois não se lembra, minha senhora, que ao principio,
era uma criança que eu não podia...--é a verdade, não a podia ver: ja
sabereis porquê... mas vê-la, era ver... Deus me perdoe!... nem eu
sei...--E d'ahi começou-me a crescer, a olhar para mim com aquelles
olhos... a fazer-me taes meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de
formosura e de bondade, que--vêdes-me aqui agora que lhe quero mais do
que seu pae.
*Magdalena*, _surrindo_. Isso agora!...
*Telmo*. Do que vós.
*Magdalena*, _rindo_. Ora, meu Telmo!
*Telmo*. Mais, muito mais. E veremos: tenho ca uma coisa que me diz que
antes de muito se hade ver quem é que quer mais á nossa menina n'esta
casa.
*Magdalena*, _assustada_. Está bom; não entremos com os teus agouros e
prophecias do costume: são sempre de aterrar... Deixemo'-nos de
futuros...
*Telmo*. Deixemos, que não são bons.
*Magdalena*. E de passados tambem...
*Telmo*. Tambem.
*Magdalena*. E vamos ao que importa agora.--Maria tem uma
comprehensão...
*Telmo*. Comprehende tudo!
*Magdalena*. Mais do que convem.
*Telmo*. Ás vezes.
*Magdalena*. É preciso moderá-la.
*Telmo*. É o que eu faço.
*Magdalena*. Não lhe dizer...
*Telmo*. Não lhe digo nada que não possa, que não deva saber uma
donzella honesta e digna de melhor... de melhor.
*Magdalena*. Melhor quê?
*Telmo*. De nascer em melhor estado.--Quizestes ouvi-lo... está ditto.
*Magdalena*. Oh Telmo! Deus te perdoe o mal que me fazes. (_Desata a
chorar_.)
*Telmo*, _ajoelhando e beijando-lhe a mão_. Senhora... senhora D.
Magdalena, minha ama, minha senhora... castigae-me... mandae-me ja
castigar, mandae-me cortar ésta lingua pêrra que não toma insino.--Oh
senhora, senhora!... é vossa filha, é a filha do senhor Manuel de
Sousa-Coutinho, fidalgo de tanto primor, e de tam boa linhagem como os
que se teem por melhores n'este reino, em toda Hespanha... A senhora D.
Maria... a minha querida D. Maria é sangue de Vilhenas e de Sousas; não
precisa mais nada, mais nada, minha senhora, para ser... para ser...
*Magdalena*. Calae-vos, calae-vos, pelas dores de Jesus Christo, homem.
*Telmo*, _soluçando_. Minha ricca senhora!...
*Magdalena*, _inchuga os olhos, e toma uma attitude grave e firme_.
Levantae-vos, Telmo, e ouvi-me. (_Telmo levânta-se_) Ouvi-me com
attenção. É a primeira e será a última vez que vos fallo d'este modo e
em tal assumpto.--Vós fostes o aio e amigo de meu senhor... de meu
primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tinheis sido o
companheiro de trabalho e de glória de seu illustre pae, aquelle nobre
conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como
pae. Entrei depois n'essa familia de tanto respeito; achei-vos parte
d'ella, e quasi que vos tomei a mesma amizade que aos outros...
chegastes a alcançar um podêr no meu espirito, quasi maior...--decerto,
maior--que nenhum d'elles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes
adquirido na conversação dos homens e dos livros--porêm, mais que tudo,
o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais--me fizeram
ter-vos n'uma conta, deixar-vos tomar, intregar-vos eu mesma tal
auctoridade n'esta casa e sôbre minha pessoa... que outros poderão
estranhar...
*Telmo*. Emendae-o, senhora.
*Magdalena*. Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo.--Mas agora
deixae-me fallar.--Depois que fiquei so, depois d'aquella funesta
jornada de Africa que me deixou viuva, orphan e sem ninguem... sem
ninguem, e n'uma edade... com dezasette annos!--em vós, Telmo, em vós
so, achei o carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me
em logar de pae: e eu... salvo n'uma coisa!--tenho sido para vós,
tenho-vos obedecido como filha.
*Telmo*. Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos
apartastes dos meus conselhos...
*Magdalena*. Para essa houve podêr maior que as minhas fôrças... D. João
ficou n'aquella batalha com seu pae, com a flor da nossa gente. (_Signal
de impaciencia em Telmo_) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei
a sua memoria, como durante sette annos, incredula a tantas provas e
testimunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia,
por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de
Alarves ahi houve... Cabedaes e valimentos, tudo se impregou;
gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castella
tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da
Redempção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar n'aquellas
terras, a todos se incommendava o seguir a pista do mais leve indício
que podésse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquella notícia que logo
viera com as primeiras novas da batalha de Alcacer. Tudo foi inutil; e a
ninguem mais ficou resto de dúvida...
*Telmo*. Senão a mim.
*Magdalena*. Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom
Telmo! que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu...--E
então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício... Pois dizei-me em
consciencia, dizei-m'o de uma vez, claro e desinganado: a que se apéga
ésta vossa credulidade de sette... e hoje mais quatorze... vinte e um
annos?
*Telmo*, _gravemente_. Ás palavras, ás formaes palavras d'aquella carta
escripta na propria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge
que vo-la trouxe.--«Vivo ou morto»--resava ella--vivo ou morto... Não me
esqueceu uma lettra d'aquellas palavras; e eu sei que homem era meu amo
para as escrever em vão:--«Vivo ou morto, Magdalena, heide ver-vos pelo
menos ainda uma vez n'este mundo.»--Não era assim que dizia?
*Magdalena*, _aterrada_. Era.
*Telmo*. Vivo não veiu... inda mal!--E morto... a sua alma, a sua
figura...
*Magdalena*, _possuida de grande terror_. Jesus, homem!
*Telmo*. Não vos appareceu, decerto.
*Magdalena*. Não: credo!
*Telmo*, _mysterioso_. Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua
primeira visita, como de razão, seria para minha senhora. Mas não se ia
sem apparecer tambem ao seu aio velho.
*Magdalena*. Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoaes, e comtudo
as vossas palavras mettem-me um medo... Não me façaes mais desgraçada.
*Telmo*. Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que
amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre
todos?--Que o pobre de meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe
tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois... mas amor!
*Magdalena*. Não está em nós da-lo, nem quitá-lo, amigo.
*Telmo*. Assim é. Mas os ciumes que meu amo não teve nunca--bem sabeis
que têmpera d'alma era aquella--tenho-os eu... aqui está a verdade nua e
crua... tenho-os eu por elle: não posso, não posso ver... e desejo,
quero, forcejo por me acostumar... mas não posso. Manuel de Sousa... o
senhor Manuel de Sousa-Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom
portuguez... mas--mas não é, nunca hade ser, aquelle espelho de
cavallaria e gentilleza, aquella flor dos bons... Ah meu nobre amo, meu
sancto amo!
*Magdalena*. Pois sim, tereis razão... tendes razão, será tudo como
dizeis. Mas reflecti, que haveis cabedal de intelligencia para
muito:--eu resolvi-me por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do
apprazimento geral de nossas familias, da propria familia de meu
primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (_com
affectação_) seguros, em paz e felizes... ha quatorze annos. Temos ésta
filha, ésta querida Maria que é todo o gôsto e ância da nossa vida.
Abençoou-nos Deus na formosura, no ingenho, nos dotes admiraveis
d'aquelle anjo... E tu, tu, meu Telmo, que es tam seu, que chegas a
pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos...
*Telmo*. Não, não tenho!
*Magdalena*. Pois tens: melhor.--E es tu que andas, continuamente e
quasi por accinte, a sustentar essa chymera, a levantar esse phantasma,
cuja sombra, a mais remota, bastaria para innodoar a pureza d'aquella
innocente, para condemnar a eterna deshonra a mãe e a filha... (_Telmo
dá signaes de grande agitação_) Ora dize: ja pensastes bem no mal que
estás fazendo?--Eu bem sei que a ninguem n'este mundo, senão a mim,
fallas em taes coisas... fallas assim como hoje temos fallado... mas as
tuas palavras mysteriosas, as tuas allusões frequentes a esse desgraçado
rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quiz
acreditar que morrêsse, por quem ainda espera em sua leal
incredulidade!--esses continuos agouros em que andas sempre de uma
desgraça que está imminente sôbre a nossa familia... não ves que estás
excitando com tudo isso a curiosidade d'aquella criança, aguçando-lhe o
espirito--ja tam perspicaz!--a imaginar, a descobrir... quem sabe se a
accreditar n'essa prodigiosa desgraça em que tu mesmo... tu mesmo...
sim, não cres devéras? Não cres, mas achas não sei que doloroso prazer
em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, ve:
se um terror similhante chega a entrar n'aquella alma, quem lh'o hade
tirar nunca mais?... O que hade ser d'ella e de nós?--Não a perdes, não
a mattas... não me mattas a minha filha?
*Telmo*, _em grande agitação durante a falla precedente, fica pensativo
e aterrado: falla depois como para si_. É verdade que sim! A morte era
certa.--E não hade morrer: não, não, não, tres vezes não. (_Para
Magdalena_) Á fe de escudeiro honrado, senhora D. Magdalena, a minha
bôcca não se abre mais; e o meu espirito hade... hade fechar-se
tambem... (_Á parte_) Não é possivel, mas eu heide salvar o meu anjo do
ceu! (_Alto para Magdalena_) Está ditto, minha senhora.
*Magdalena*. Ora Deus t'o pague,--Hoje é o último dia de nossa vida que
se falla em tal.
*Telmo*. O último.
*Magdalena*. Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (_levantando-se_)
que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (_Telmo vae a sahir_) E
olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis...
*Telmo*. Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!... quatro passadas.
*Magdalena*. E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge-Coutinho, que me está
dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir
antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou
contente com a tardança. (_Chega á varanda, e olha para o rio_) O ar
está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!... quasi que não ha
vento, é uma viração que affaga... Oh e quantas faluas navegando tam
garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas--n'aquella tam
bonita--venha Manuel de Sousa.--Mas n'este tempo não ha que fiar no
Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui
o pontal de Cacilhas!--Que elle é tam bom mareante... Ora, um cavalleiro
de Malta! (_olha para o retratto com amor_) Não é isso o que me dá maior
cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares...
E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas,
d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character
inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.--Vai, vai a
Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.
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