Universo da obra
Universo da obra
O PRIOR DE BEMFICA, _o_ ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc.
MARIA, _que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa
alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos
soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os
olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a
elles.--Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se_.
*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (_Toma-os
pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena:
confusão geral_.)
*Magdalena*. Maria! minha filha!
*Manuel*. Filha, filha!... Oh, minha filha!... (_Abraçam-se ambos
n'ella_.)
*Maria*, _separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a
bôcca da scena_. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis
fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar,
e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?--(_Para os circumstantes_) Vós
quem sois, espectros fataes?... quereis-m'os tirar dos meus braços?...
Esta é a minha mãe, este é o meu pae... Que me importa a mim com o
outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os
vivos--que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?...
Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são
meus.--Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não
sois marido e mulher?... e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada
ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é...»--Mãe,
mãe, eu bem o sabia... nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto
aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não
deixar dormir... aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na
mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços
quando eu adormecia n'elles... que me fazia chorar quando meu pae ia
beijar-me no teu collo.--Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim... Pae,
dá ca um panno da tua mortalha... dá ca, eu quero morrer antes que elle
venha: (_incolhendo-se no hábito do pae_) quero-me esconder aqui, antes
que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na
tua--aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do
peccado!...» Não sou; dize, meu pae, não sou... dize a essa gente toda,
dize que não sou. (_Vai para Magdalena_) Pobre mãe! tu não podes...
coitada!... não tens ánimo...--nunca mentiste?... Pois mente agora para
salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.
*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!
*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?--Não querem. E eu heide morrer
assim... e elle vem ahi...
Texto original em PT preservado no Literunico para leitura comparada com a edição/tradução da Copa Literunico. Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/17591
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