Universo da obra
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MARIA, TELMO e MANUEL DE SOUSA
*Manuel*. Aquelle era D. João de Portugal, um honrado fidalgo, e um
valente cavalleiro.
*Maria*, _respondendo sem observar quem lhe falla_. Bem m'o dizia o
coração!
*Manuel*, _desimbuçando-se e tirando o chapeu com muito affecto_. Que te
dizia o coração, minha filha?
*Maria*, _reconhecendo-o_. Oh meu pae, meu querido pae! ja me não diz
mais nada o coração senão isto. (_Lânça-se-lhe nos braços e beija-o na
face muitas vezes_.)--Ainda bem que viestes.--Mas de dia!... não tendes
receio, não ha perigo ja?
*Manuel*. Perigo, pouco. Hontem á noite não pude vir; e hoje não tive
paciencia para aguardar todo o dia: vim bem coberto com ésta capa...
*Telmo*. Não ha perigo nenhum, meu senhor; podeis estar á vontade e sem
receio. Ésta madrugada muito cedo estive no convento, e sei pelo senhor
Frei Jorge que está, se póde dizer, tudo concluido.
*Manuel*. Pois ainda bem, Maria. E tua mãe, tua mãe, filha?
*Maria*. Desde hontem está outra...
*Manuel*, _em acção de partir_. Vamos a vê-la.
*Maria*, _retendo-o_. Não, que dorme ainda.
*Manuel*. Dorme? Oh, então melhor.--Sentêmo'-nos aqui filha, e
conversêmos. (_Toma-lhe as mãos; sentam-se_) Tens as mãos tam quentes!
(_Beija-a na testa_) E ésta testa, ésta testa!... escalda.--Se isto está
sempre a ferver! Valha-te Deus, Maria! Eu não quero que tu penses.
*Maria*. Então que heide eu fazer?
*Manuel*. Folgar, rir, brincar, tanger na harpa, correr nos campos,
apanhar as flores...--E Telmo que te não conte mais histórias, que te
não insine mais trovas e soláos. Poetas e trovadores padecem todos da
cabeça... e é um mal que se péga.
*Maria*. Então para que fazeis vós como elles?... eu bem sei que fazeis.
*Manuel*, _surrindo_. Se tu sabes tudo! Maria, minha Maria.
(_Amimando-a_) Mas não sabías ainda agora de quem era aquelle
retratto...
*Maria*. Sabía.
*Manuel*. Ah! você sabía e estava fingindo?
*Maria*, _gravemente_. Fingir não, meu pae. A verdade... é que eu sabía
de um saber ca de dentro; ninguem m'o tinha ditto; e eu queria ficar
certa.
*Manuel*. Então adivinhas, feiticeira. (_Beija-a na testa_)--Telmo, ide
ver se chamaes meu irmão: dizei-lhe que estou aqui.
Texto original em PT preservado no Literunico para leitura comparada com a edição/tradução da Copa Literunico. Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/17591
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