Universo da obra
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MANUEL DE SOUSA e MARIA
*Manuel*. Ora ouve ca, filha. Tu tens uma grande propensão para achar
maravilhas e mysterios nas coisas mais naturaes e singellas. E Deus
intregou tudo á nossa razão, menos os segredos de sua natureza
ineffavel, os de seu amor, e de sua justiça e misericordia para
comnosco. Esses são os pontos sublimes e incomprehensiveis da nossa fe!
Esses creem-se: tudo o mais examína-se.--Mas vamos: (_surrindo_) não
dirão que sou da Ordem dos Prégadores? Hade ser d'estas paredes, é
uncção da casa: que isto é quasi um convento aqui, Maria... Para frades
de San'Domingos não nos falta senão o hábito...
*Maria*. Que não faz o monge...
*Manuel*. Assim é, querida filha! Sem hábito, sem escapulario nem
corrêa, por baixo do setim e do velludo, o cilicio póde andar tam
appertado sôbre as carnes, o coração tam contricto no peito... a
morte--e a vida que vem depois d'ella--tam deante dos olhos sempre, como
na cella mais estreita e com o burel mais grosseiro cingido. Mas emfim,
chega-te aos bons... sempre é meio caminho andado. Eu estou
contentissimo de virmos para ésta casa--quasi que nem ja me pêza da
outra. Tenho aqui meu irmão Jorge e todos estes bons padres de
San'Domingos como de portas a dentro.--Ainda não viste d'aqui a egreja?
(_Levanta o reposteiro do fundo, e chegam ambos á tribuna_) É uma devota
capella ésta. E todo o templo tam grave! dá consolação vê-lo. Deus nos
deixe gosar em paz de tam boa visinhança. (_Tornam para o meio da
casa_.)
*Maria*, _que parou deante do retratto de D. João de Portugal, vólta-se
derepente para o pae_. Meu pae, este retratto é parecido?
*Manuel*. Muito; é raro ver tam perfeita similhança: o ar, os ademanes,
tudo. O pintor copiou fielmente quanto viu. Mas não podia ver, nem lhe
cabiam na télla, as nobres qualidades d'alma, a grandeza e valentia de
coração,--e a fortaleza d'aquella vontade serena mais indomavel, que
nunca foi vista mudar. Tua mãe ainda hoje estremece so de o ouvir
nomear; era um respeito... era quasi um temor sancto que lhe tinha.
*Maria*. E lá ficou n'aquella fatal batalha!...
*Manuel*. Ficou.--Tens muita pena, Maria?
*Maria*. Tenho.
*Manuel*. Mas se elle vivêsse... não existias tu agora, não te tinha eu
aqui nos meus braços.
*Maria*, _escondendo a cabeça no seio de seu pae_. Ai meu pae!
Texto original em PT preservado no Literunico para leitura comparada com a edição/tradução da Copa Literunico. Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/17591
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