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Frei Luiz de Sousa

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Frei Luiz de Sousa

Capítulo 6 · Frei Luiz de Sousa

SCENA IV

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SCENA IV

MAGDALENA, MARIA

*Maria*. Quereis vós saber, mãe, uma tristeza muito grande que eu
tenho?--A mãe ja não chora, não? ja se não infada commigo?

*Magdalena*. Não me infado comtigo nunca, filha; e nunca me affliges,
querida. O que tenho é o cuidado que me dás, é o receio de que...

*Maria*. Pois ahi está a minha tristeza: é esse cuidado em que vos vejo
andar sempre por minha causa. Eu não tenho nada; e tenho saude, olhae
que tenho muita saude.

*Magdalena*. Tens, filha... se Deus quizer, hasde ter; e hasde viver
muitos annos para consolação e amparo de teus paes que tanto te querem.

*Maria*. Pois olhae: passo noites inteiras em claro a lidar n'isto, e a
lembrar-me de quantas palavras vos tenho ouvido, e a meu pae... e a
recordar-me da mais pequena acção e gesto,--e a pensar em tudo, a ver se
descubro o que isto é--o porque tendo-me tanto amor... que, oh isso
nunca houve decerto filha querida como eu!...

*Magdalena*. Não, Maria.

*Maria*. Pois sim; tendo-me tanto amor, que nunca houve outro egual,
estaes sempre n'um sobresalto commigo?...

*Magdalena*. Pois se te estremecêmos?

*Maria*. Não é isso, não é isso: é que vos tenho lido nos olhos... Oh,
que eu leio nos olhos, leio, leio!... e nas estrêllas do ceu tambem--e
sei coisas...

*Magdalena*. Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? que desvarios!
Uma menina do teu juizo, temente a Deus... não te quero ouvir fallar
assim.--Ora vamos: anda ca, Maria, conta-me do teu jardim, das tuas
flores. Que flores tens tu agora? O que são éstas? (_pegando nas que
ella traz na mão_)

*Maria*, _abrindo a mão e deixando-as cahir no regaço da mãe_. Murchou
tudo... tudo estragado da calma... Éstas são papoulas que fazem dormir,
colhi-as para as metter debaixo do meu cabeçal ésta noite; quero-a
dormir de um somno, não quero sonhar, que me faz ver coisas... lindas ás
vezes, mas tam extraordinarias e confusas...

*Magdalena*. Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria,
imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos n'este mundo para velar e
trabalhar--com o pensamento sempre n'elle sim, mas sem nos extranharmos
a éstas coisas da vida que nos cercam, a éstas necessidades que nos
impõe o estado, a condicção em que nascêmos. Ves tu, Maria: tu es a
nossa unica filha, todas as esperanças de teu pae são em ti...

*Maria*. E não lh'as posso realizar, bem sei.--Mas que heide eu fazer?
eu estudo, leio...

*Magdalena*. Les demais, cânças-te, não te distraes como as outras
donzellas da tua edade, não es...

*Maria*. O que eu sou... só eu o sei, minha mãe... E não sei, não: não
sei nada, senão que o que devia ser não sou...--Oh! porque não havia de
eu ter um irmão que fosse um galhardo e valente mancebo, capaz de
commandar os terços de meu pae, de pegar n'uma lança d'aquellas com que
os nossos avós corriam a India, levando adeante de si Turcos e Gentios!
um bello moço que fosse o retratto proprio d'aquelle gentil cavalleiro
de Malta que alli está. (_Apontando para o retratto_) Como elle era
bonito meu pae! Como lhe ficava bem o preto!... e aquella cruz tam alva
em cima! Paraque deixou elle o hábito, minha mãe, porque não ficou
n'aquella sancta religião, a vogar em suas nobres galeras, por esses
máres, e a affugentar os infieis deante da bandeira da Cruz?

*Magdalena*. Oh filha, filha!... (_Mortificada_) porque não foi vontade
de Deus: tinha de ser d'outro modo.--Tomára eu agora que elle chegásse
de Lisboa! Comeffeito é muito tardar... valha-me Deus!

Frei Luiz de Sousa

Sinopse

Texto original em PT preservado no Literunico para leitura comparada com a edição/tradução da Copa Literunico. Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/17591

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