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Frei Luiz de Sousa

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Frei Luiz de Sousa

Capítulo 36 · Frei Luiz de Sousa

SCENA V

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SCENA V

TELMO _e o_ ROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*, _sobresaltado_. Que voz!--Ah! é o romeiro.--Que me não oiça
Deus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*, _áparte_. Já não sei pedir senão pela outra. (_Alto_) E que
pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe
peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

*Telmo*. Ésta voz... ésta voz!--Romeiro, quem es tu?

*Romeiro*, _tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos_.
Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

*Telmo*, _deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar_. Meu amo, meu
senhor... sois vós?--sois, sois.--D. João de Portugal, oh, sois vós,
senhor?

*Romeiro*. Teu filho ja não?

*Telmo*. Meu filho!... Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto... Só
estas barbas, este cabello não... Mais branco ja que o meu, senhor!

*Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de
âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que
veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da
Palestina e as aguas do Jordão.

*Telmo*. Por tam longe andastes?

*Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!--Mas não quiz Deus assim.

*Telmo*. Seja feita a sua vontade.

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Oh, senhor!

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (_Á parte_) Meu Deus! Parece-me
que menti...

*Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza
ella a mim?--Amigo, ouve... Tu es meu amigo?

*Telmo*. Não sou?

*Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de
conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!...--Mas tu
es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

*Telmo*. Senhor!

*Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha
última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca...

*Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?--Eu...

*Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não
quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas
tambem não posso--Deus me ouve--não posso criminar ninguem porque o
accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia
resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.

*Telmo*. Sois injusto.

*Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.--E é verdade isso? é verdade que
por toda a parte me procuraram, que por toda a parte... ella mandou
mensageiros, dinheiro?

*Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a
mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

*Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que
desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil
e grosseiro imbuste dos inimigos de... dos inimigos d'esse homem-que
ella ama... E que socegue, que seja feliz.--Telmo, adeus!

*Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim
villão que não sou?

*Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

*Telmo*, _em grande anciedade_. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade
do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João, meu senhor, meu amo,
meu filho, vós não sabeis...

*Romeiro*. O quê?

*Telmo*. Que ha aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu
também criei...

*Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

*Telmo*. Não m'o pergunteis.

*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!--Tiraram-me
tudo. (_Pausa_)--E teem um filho elles?...--Eu não...--E mais,
imagino... Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em
conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.--Telmo, vai fazer o que te
mandei.

*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

*Romeiro*. O que te ordena teu amo.--Telmo, dá-me um abraço.
(_Abraçam-se_) Adeus, adeus até...

*Telmo*. Até quando, senhor?

*Romeiro*. Até ao dia de juizo...

*Teimo*. Pois vós?...

*Romeiro*. Eu...--Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso
remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E
para quê?--D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que
elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle
amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle
ja não póde amar sem deshonra e vergonha!... Na hora em que ella
accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro
riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a
sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que
fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e
de impostor... dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao
meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a
memória d'elle que fique sem mancha.--Está em tuas mãos, Telmo,
intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde
ella approveitar ainda?

*Romeiro*. Porque não?

*Telmo*. Eu sei!--Talvez...

Frei Luiz de Sousa

Sinopse

Texto original em PT preservado no Literunico para leitura comparada com a edição/tradução da Copa Literunico. Fonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/17591

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