Leia agora
A Abadia do Pesadelo

Universo da obra

A Abadia do Pesadelo

Capítulo 3 · A Abadia do Pesadelo

Capítulo II

3 de 17 ≈ 6 min de leitura

Capítulo II

Pouco depois do desastroso fim da paixão de Scythrop pela senhorita Emily Girouette, o senhor Glowry viu-se, muito contra a vontade, envolvido num processo judicial, que o obrigou a dançar presença perante o Alto Tribunal de Chancelaria. Scythrop ficou sozinho na Abadia do Pesadelo. Era criança que se queimara, e temia o fogo dos olhos femininos. Vagueava pela vasta construção, ou ao longo do terraço-jardim, com "suas faculdades cogitativas imersas na cogibundidade da cogitação". O terraço terminava na torre sudoeste, que, como dissemos, estava arruinada e cheia de corujas. Ali Scythrop costumava tomar seu assento vespertino, sobre um fragmento caído de pedra musgosa, com as costas apoiadas na parede arruinada, uma espessa cobertura de hera, com uma coruja dentro, por cima da cabeça, e Os Sofrimentos do Jovem Werther na mão. Tivera algum gosto pela leitura de romances antes de ir para a universidade, onde, devemos confessar, em justiça a seu colégio, fora curado do amor à leitura em todas as suas formas; e a cura teria sido radical se a decepção amorosa e a solidão total não houvessem conspirado para provocar uma recaída. Começou a devorar romances e tragédias alemãs, e, por recomendação do senhor Flosky, a debruçar-se sobre pesados tomos de filosofia transcendental, que o reconciliavam ao trabalho de estudá-los por meio de seu jargão místico e de sua imagética necromântica. Na solidão congenial da Abadia do Pesadelo, as ideias enfermiças do romance metafísico e da metafísica romântica tiveram amplo tempo e espaço para germinar numa safra fértil de quimeras, que rapidamente brotaram em vegetação vigorosa e abundante.

Agora começou a ser atormentado pela mania de reformar o mundo.[2] Construiu muitos castelos no ar, e povoou-os de tribunais secretos e bandos de iluminados, que eram sempre os instrumentos imaginários de sua projetada regeneração da espécie humana. Como pretendia instituir uma república perfeita, investiu-se de soberania absoluta sobre esses místicos dispensadores da liberdade. Dormia com Mistérios Horrendos debaixo do travesseiro, e sonhava com veneráveis eleuterarcas e confederados espectrais reunindo-se em convenções da meia-noite dentro de cavernas subterrâneas. Passava manhãs inteiras no gabinete, imerso em sombria fantasia, rondando o quarto com seu gorro de dormir, que puxava sobre os olhos como um capuz, e envolvendo-se em seu robe listrado de chita como no manto de um conspirador.

"A ação", assim monologava ele, "é o resultado da opinião, e remodelar a opinião seria remodelar a sociedade. Conhecimento é poder; está nas mãos de poucos, que o empregam para extraviar os muitos, em proveito de seus próprios fins egoístas de engrandecimento e apropriação. E se estivesse nas mãos de poucos que o empregassem para conduzir os muitos? E se fosse universal, e a multidão fosse esclarecida? Não. Os muitos devem estar sempre em andadeiras; mas que tenham condutores sábios e honestos. Poucos para pensar, e muitos para agir: essa é a única base da sociedade perfeita. Assim pensavam os filósofos antigos: tinham suas doutrinas esotéricas e exotéricas. Assim pensa o sublime Kant, que profere seus oráculos em linguagem que ninguém, exceto os iniciados, pode compreender. Tais eram as ideias daquelas associações secretas de iluminados, que foram o terror da superstição e da tirania, e que, escolhendo cuidadosamente a sabedoria e o gênio no grande ermo da sociedade, como a abelha escolhe o mel entre as flores do espinheiro e da urtiga, uniam toda excelência humana numa cadeia que, se não tivesse sido prematuramente rompida, teria comandado a opinião e regenerado o mundo."

Scythrop passou a meditar sobre a possibilidade de reviver uma confederação de regeneradores. Para obter uma visão clara de suas próprias ideias, e para sentir o pulso da sabedoria e do gênio da época, escreveu e publicou um tratado, no qual seus sentidos foram cuidadosamente embrulhados no capuz monástico da tecnologia transcendental, mas recheados de insinuações sobre matéria profunda e perigosa, que ele imaginava lançariam a nação inteira em fermentação; e aguardou o resultado com expectativa terrível, como um mineiro que acendeu um rastilho aguarda a explosão de uma rocha. Contudo, escutou e nada ouviu; pois a explosão, se alguma se seguiu, não foi suficientemente alta para abalar uma só folha de hera nas torres da Abadia do Pesadelo; e alguns meses depois recebeu uma carta de seu livreiro, informando-o de que apenas sete exemplares haviam sido vendidos, e concluindo com um cortês pedido pelo saldo.

Scythrop não desesperou. "Sete exemplares", pensou ele, "foram vendidos. Sete é um número místico, e o presságio é bom. Que eu encontre os sete compradores dos meus sete exemplares, e eles serão os sete castiçais de ouro com os quais iluminarei o mundo."

Scythrop possuía certa porção de gênio mecânico, que seus projetos românticos tendiam a desenvolver. Construiu modelos de celas e recessos, painéis corrediços e passagens secretas, que teriam frustrado a habilidade da polícia parisiense. Aproveitou a ausência do pai para contrabandear para dentro da Abadia um carpinteiro mudo, e entre ambos deram realidade a um desses modelos na torre de Scythrop. Scythrop previa que um grande líder da regeneração humana estaria envolvido em dilemas terríveis, e decidiu, para benefício da humanidade em geral, adotar todas as precauções possíveis para a preservação de si mesmo.

Os criados, até mesmo as mulheres, haviam sido instruídos no silêncio. Uma profunda quietude reinava por toda a Abadia e em torno dela, exceto quando o fechamento ocasional de uma porta retinia em longas reverberações pelas galerias, ou quando o passo pesado do mordomo pensativo despertava os ecos ocos do salão. Scythrop rondava como o grande inquisidor, e os criados passavam por ele como familiares. Em suas meditações vespertinas no terraço, sob a hera da torre arruinada, os únicos sons que lhe chegavam ao ouvido eram o farfalhar do vento na hera, as vozes plaintivas dos coristas emplumados, as corujas, a batida ocasional do relógio da Abadia, e o baque monótono do mar em sua praia baixa e plana. Enquanto isso, bebia Madeira e tramava planos profundos para um conserto completo da estrutura cambaleante da natureza humana.

* * *

A Abadia do Pesadelo

Sinopse

Tradução brasileira de A Abadia do Pesadelo, sátira gótica e filosófica de Thomas Love Peacock sobre melancolia romântica, metafísica obscura e amores contrariados. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções.

A Abadia do Pesadelo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Abadia do Pesadelo

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Abadia do Pesadelo

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Abadia do Pesadelo Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir