Universo da obra
Universo da obra
A Abadia do Pesadelo, venerável mansão de família em estado pitoresquíssimo de semirruína, ficava agradavelmente situada numa faixa de terra seca entre o mar e os pântanos, à beira do condado de Lincoln, e tinha a honra de servir de residência a Christopher Glowry, Esquire. Esse cavalheiro era, por natureza, de temperamento atrabiliário, e muito atormentado por aqueles fantasmas da indigestão que vulgarmente se chamam demônios azuis. Fora enganado numa amizade de juventude; fora contrariado no amor; e oferecera a mão, por despeito, a uma dama que a aceitou por interesse e que, ao fazê-lo, rasgou violentamente os laços de uma afeição jovem e posta à prova. Sua vaidade se satisfez em tornar-se senhora de uma casa muito vasta, se não muito alegre; mas todas as fontes de sua simpatia estavam congeladas. Possuía riquezas, mas faltava-lhe aquilo que as enriquece: a partilha do afeto. Tudo quanto elas podiam comprar tornou-se indiferente para ela, porque aquilo que não podiam comprar, e que valia mais que elas mesmas, ela havia, por causa delas, lançado fora. Descobriu, quando já era tarde, que confundira os meios com o fim; que as riquezas, bem usadas, são instrumentos da felicidade, mas não são, em si, felicidade. Nessa ruína voluntária de seus afetos, achou-as sem valor como meios: haviam sido o fim ao qual imolara todas as suas afeições, e eram agora o único fim que lhe restava. Não confessava isso a si mesma como princípio de ação, mas tal princípio operava por meio de um autoengano inconsciente, e terminou em avareza inveterada. Ela punha nas coisas externas a culpa da desordem interna de seu espírito, e assim se tornou, aos poucos, uma ralhadora consumada. Muitas vezes fazia sua ronda diária por uma série de aposentos desertos, cada criatura da casa desaparecendo ao ranger de seu sapato, quanto mais ao som de sua voz, para a qual a natureza das coisas não oferece comparação; pois, assim como a voz da mulher, quando afinada pela doçura e pelo amor, supera todos os outros sons em harmonia, assim também os supera em discórdia quando esticada pela ira e pela impaciência até uma estridência antinatural.
O senhor Glowry costumava dizer que sua casa não passava de um canil espaçoso, pois todos nela levavam vida de cão. Decepcionado tanto no amor quanto na amizade, e tomando o saber humano por vaidade, chegara à conclusão de que havia apenas uma coisa boa no mundo, videlicet, um bom jantar; e sua parcimoniosa esposa raramente lhe permitia desfrutá-lo. Mas, certa manhã, como Sir Leoline em Christabel, "acordou e encontrou sua dama morta", e permaneceu viúvo muito consolado, com um único filhinho.
A esse filho único e herdeiro o senhor Glowry dera no batismo o nome de Scythrop, por causa de um antepassado materno que se enforcara num dia chuvoso, num acesso de taedium vitae, e fora elogiado pelo júri do legista na frase abrangente de felo de se; razão pela qual o senhor Glowry tinha sua memória em alta honra, e fez de seu crânio uma poncheira.
Quando Scythrop cresceu, foi enviado, como de costume, a um colégio interno, onde um pouco de saber lhe foi dolorosamente espancado para dentro da cabeça; dali foi para a universidade, onde esse saber lhe foi cuidadosamente retirado; e foi mandado para casa como uma espiga de milho bem malhada, sem nada na cabeça: tendo terminado sua educação para grande satisfação do diretor e dos membros de seu colégio, que, em testemunho de aprovação, o presentearam com uma espátula de prata para peixe, na qual seu nome figurava no alto de uma inscrição laudatória em algum dialeto semibárbaro de latim anglo-saxonizado.
Seus colegas de estudo, porém, que conduziam parelhas em tandem e ao acaso com grande perfeição, e eram conhecedores de boas estalagens, ensinaram-lhe a beber fundo antes da partida. Passara muito de seu tempo com esses espíritos escolhidos, e vira os raios da lâmpada da meia-noite estremecerem sobre muita fileira crescente de garrafas vazias. Passava as férias ora na Abadia do Pesadelo, ora em Londres, na casa de seu tio, o senhor Hilary, cavalheiro muito alegre e elástico, que se casara com a irmã do melancólico senhor Glowry. A companhia que frequentava sua casa era a mais jovial entre as joviais. Scythrop dançava com as damas e bebia com os cavalheiros, e foi declarado por ambos um rapaz encantador, muito prendado, e uma honra para a universidade.
Na casa do senhor Hilary, Scythrop viu pela primeira vez a bela senhorita Emily Girouette. Apaixonou-se; o que nada tem de novo. Foi bem recebido; o que nada tem de estranho. O senhor Glowry e o senhor Girouette tiveram uma reunião a respeito, e brigaram pelos termos do acordo; o que não é nem novo nem estranho. Os amantes foram arrancados um do outro, chorando e jurando constância eterna; e, três semanas depois desse acontecimento trágico, a dama foi conduzida ao altar, sorridente noiva, pelo honorável senhor Lackwit; o que não é nem estranho nem novo.
Scythrop recebeu essa notícia na Abadia do Pesadelo, e ficou meio transtornado com a ocasião. Era sua primeira decepção, e ela corroeu profundamente seu espírito sensível. Seu pai, para consolá-lo, leu-lhe um Comentário sobre o Eclesiastes que ele próprio compusera, e que demonstrava de maneira incontroversa que tudo é vaidade. Insistiu particularmente no texto: "Um homem entre mil encontrei, mas uma mulher entre todas essas não encontrei."
"Como poderia ele esperar encontrá-la", disse Scythrop, "quando as mil estavam trancadas em seu serralho? Sua experiência não constitui precedente para um estado livre de sociedade como aquele em que vivemos."
"Trancadas ou à solta", disse o senhor Glowry, "o resultado é o mesmo: suas mentes estão sempre trancadas, e a vaidade e o interesse guardam a chave. Falo com sentimento, Scythrop."
"Lamento por isso, senhor", disse Scythrop. "Mas como é que suas mentes estão trancadas? A culpa está em sua educação artificial, que as modela cuidadosamente em meras bonecas musicais, para serem postas à venda na grande loja de brinquedos da sociedade."
"Sem dúvida", disse o senhor Glowry, "a educação delas não é tão bem acabada quanto a sua foi; e sua ideia da boneca musical é boa. Eu mesmo comprei uma, mas ela estava diabolicamente desafinada. Seja qual for a causa, Scythrop, o efeito é certamente este: uma vale praticamente tanto quanto a outra, até onde se possa formar qualquer juízo delas antes do casamento. É só depois do casamento que mostram suas verdadeiras qualidades, como sei por amarga experiência. O casamento é, portanto, uma loteria, e quanto menos escolha e seleção um homem despender em seu bilhete, melhor; pois, se ele suportou considerável trabalho e despesa para obter um número feliz, e seu número feliz se revela um bilhete em branco, ele experimenta não uma simples, mas uma complexa decepção; a perda de trabalho e dinheiro sendo acrescentada à decepção de tirar um branco, que, constituindo simples e inteiramente o agravo daquele que escolheu seu bilhete ao acaso, é, por sua simplicidade, mais suportável." Esse raciocínio excelentíssimo foi desperdiçado em Scythrop, que se retirou para sua torre tão lúgubre e desconsolado quanto antes.
A torre que Scythrop habitava erguia-se no ângulo sudeste da Abadia; e, no lado sul, o pé da torre dava para um terraço chamado jardim, embora nele nada crescesse além de hera e algumas ervas anfíbias. A torre sudoeste, arruinada e cheia de corujas, poderia, com igual propriedade, ter sido chamada de aviário. Esse terraço ou jardim, ou terraço-jardim, ou jardim-terraço (o leitor pode nomeá-lo ad libitum), abrangia uma vista oblíqua do mar aberto e dava para uma longa faixa de costa plana, e para uma bela monotonia de pântanos e moinhos de vento.
O leitor julgará, pelo que dissemos, que esse edifício era uma espécie de abadia acastelada; e provavelmente lhe ocorrerá perguntar se teria sido uma das fortalezas da antiga igreja militante. Se era esse o caso, ou em que medida devia ao gosto dos antepassados do senhor Glowry quaisquer transmutações de seu estado original, são, infelizmente, circunstâncias fora do alcance de nosso conhecimento.
A torre noroeste continha os aposentos do senhor Glowry. O fosso em sua base, e os pântanos além dele, compunham toda a sua perspectiva. Esse fosso cercava a Abadia e estava em contato imediato com as muralhas por todos os lados, exceto ao sul.
A torre nordeste era destinada aos criados, que o senhor Glowry sempre escolhia por um de dois critérios: um rosto comprido ou um nome funesto. Seu mordomo era Raven; seu intendente era Crow; seu criado de quarto era Skellet. O senhor Glowry sustentava que o criado era de extração francesa, e que seu nome era Squelette. Seus cavalariços eram Mattocks e Graves. Em certa ocasião, necessitando de um lacaio, recebeu uma carta de uma pessoa que assinava Diggory Deathshead, e não perdeu tempo em assegurar essa aquisição; mas, quando Diggory chegou, o senhor Glowry ficou horrorizado ao ver um rosto redondo e corado, e um par de olhos risonhos. Deathshead estava sempre sorrindo; não com um sorriso espectral, mas com o riso de uma máscara cômica; e perturbava os ecos do salão com tanto riso profano que o senhor Glowry lhe deu dispensa. Diggory, entretanto, ficara tempo bastante para conquistar todas as criadas do velho cavalheiro, e deixou-lhe uma florescente colônia de jovens Deathsheads para fazer coro com as corujas, que antes haviam sido as coristas exclusivas da Abadia do Pesadelo.
O corpo principal do edifício era dividido em salas de aparato, aposentos espaçosos para banquetes, e numerosos quartos para visitantes que, contudo, eram poucos e raros.
Interesses de família obrigavam o senhor Glowry a receber visitas ocasionais do senhor e da senhora Hilary, que as faziam pelo mesmo motivo; e, como o cavalheiro animado, nessas ocasiões, encontrava poucos condutores para sua alegria exuberante, tornava-se semelhante a uma jarra elétrica de dupla carga, que muitas vezes explodia em algum acesso de alegria ultrajante, para acentuada perturbação dos nervos do senhor Glowry.
Outro visitante ocasional, muito mais ao gosto do senhor Glowry, era o senhor Flosky,[1] cavalheiro muito lacrimoso e mórbido, de alguma nota no mundo literário, mas em sua própria estima de muito mais mérito que nome. A parte de seu caráter que o recomendava ao senhor Glowry era seu finíssimo senso do sombrio e do lacrimoso. Ninguém sabia contar uma história lúgubre com tantas minúcias de infelicidade supererogatória. Ninguém sabia invocar um cabeça-esfolada-e-ossos-sangrentos com tantos acessórios e circunstâncias de medonhez. O mistério era seu elemento mental. Vivia no meio daquele mundo visionário em que nada é senão aquilo que não é. Sonhava de olhos abertos, e via fantasmas dançando em torno dele ao meio-dia. Fora, na juventude, entusiasta da liberdade, e saudara a aurora da Revolução Francesa como a promessa de um dia que baniria guerra e escravidão, e toda forma de vício e miséria, da face da terra. Porque tudo isso não foi feito, deduziu que nada fora feito; e dessa dedução, segundo seu sistema de lógica, tirou a conclusão de que se fizera pior que nada: que a derrubada das fortalezas feudais da tirania e da superstição era a maior calamidade que jamais sobreveio à humanidade; e que sua única esperança agora era juntar o entulho e reconstruí-lo sem nenhuma daquelas frestas por onde a luz havia originalmente entrado. Para qualificar-se como coadjutor nessa louvável tarefa, mergulhou na opacidade central da metafísica kantiana, e permaneceu perdu por vários anos em trevas transcendentais, até que a luz comum do senso comum se tornou intolerável a seus olhos. Chamava o sol de ignis fatuus; e exortava todos os que quisessem ouvir sua voz amigável, que eram mais ou menos tantos quantos chamavam "Deus salve o rei Ricardo", a abrigar-se de seu brilho ilusório no refúgio obscuro da Velha Filosofia. Essa palavra Velha tinha grandes encantos para ele. Os bons velhos tempos estavam sempre em seus lábios; querendo dizer os dias em que a teologia polêmica estava no auge, e prelados rivais batiam o tambor eclesiástico com vigor hercúleo, até que um encerrasse sua série de silogismos com a conclusão muito ortodoxa de assar o outro.
Mas o amigo mais caro do senhor Glowry, e seu hóspede mais bem-vindo, era o senhor Toobad, o milenarista maniqueu. O décimo segundo versículo do décimo segundo capítulo do Apocalipse estava sempre em sua boca: "Ai dos habitantes da terra e do mar! pois o diabo desceu até vós, cheio de grande ira, porque sabe que pouco tempo lhe resta." Sustentava que o domínio supremo do mundo fora, por sábios propósitos, entregue por algum tempo ao Princípio Maligno; e que este período preciso, comumente chamado de era esclarecida, era o ponto de sua plenitude de poder. Costumava acrescentar que, em breve, ele seria lançado abaixo, e uma alta e feliz ordem de coisas viria em seguida; mas nunca omitia a cláusula salvadora: "Não em nosso tempo"; palavras essas que eram sempre ecoadas em resposta lamentosa pelo simpático senhor Glowry.
Outro visitante, e muito frequente, era o reverendo senhor Larynx, vigário de Claydyke, aldeia a cerca de dez milhas de distância: um clérigo bonachão e acomodadiço, sempre obrigadissimamente pronto a aceitar um jantar e uma cama na casa de qualquer fidalgo rural aflito por companhia. Nada lhe caía mal: uma partida de bilhar, de xadrez, de damas, de gamão, de piquet ou de all-fours em um tête-à-tête; ou qualquer jogo de cartas, redondo, quadrado ou triangular, em uma reunião de qualquer número superior a dois. Até dançaria entre amigos, antes que uma dama, mesmo do lado errado dos trinta, ficasse sentada por falta de par. Para um passeio a cavalo, uma caminhada ou uma vela pela manhã; uma canção depois do jantar, uma história de fantasmas depois da ceia; uma garrafa de porto com o escudeiro, ou uma xícara de chá verde com sua senhora; para todas ou qualquer uma dessas coisas, ou para qualquer outra coisa que fosse agradável a qualquer outra pessoa, de modo compatível com a cor de sua batina, o reverendo senhor Larynx estava a todo momento igualmente pronto. Quando na Abadia do Pesadelo, condoía-se com o senhor Glowry; bebia Madeira com Scythrop; contava piadas com o senhor Hilary; conduzia a senhora Hilary ao piano, tomava conta de seu leque e de suas luvas, e virava suas partituras com surpreendente destreza; citava o Apocalipse com o senhor Toobad; e lamentava os bons velhos tempos das trevas feudais com o transcendental senhor Flosky.
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Tradução brasileira de A Abadia do Pesadelo, sátira gótica e filosófica de Thomas Love Peacock sobre melancolia romântica, metafísica obscura e amores contrariados. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções.
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