Universo da obra
Universo da obra
Se um autor célebre não tivesse proferido que nada existe na Natureza tão admirável como ver os homens capazes de espanto, poderia alguém, ao menos o que não fosse inteiramente falto de bom senso, deixar de admirar o poder que o prejuízo e o costume têm sobre o espírito humano? Era de esperar naturalmente que esses entes, feitos para dominar, como modestamente se qualificam, fossem ciosos de sua superioridade e muito empenhados em a conservar. Entretanto, excetuando-se a autoridade tirânica, que usurpam sobre nós, achar-se-á, que todos os seus esforços se reduzem a solicitar a mais baixa servidão.
Se a ambição deles fosse louvável e justa, seria de acordo consigo mesmo, e esta consequência os tornaria igualmente imperioso, em todas as ocasiões em que a autoridade é necessária para se sustentar. Se a força exterior do corpo fosse para eles um título suficiente para dominar sobre nós, que somos de uma constituição mais delicada, a superioridade da razão sobre a paixão deveria fazê-los envergonhar de submeter esta razão à paixão, aos prejuízos e a um costume sem fundamento. Se este sexo altivo quer fazer- nos acreditar que tem sobre nós um direito natural de superioridade, por que não nos prova o privilégio, que para isto recebeu a Natureza, servindo-se de sua razão para se convencerem?
Não ignoramos que temos razão; esta é a única prerrogativa que a Natureza nos concedeu para elevar-nos acima da esfera dos animais sensitivos;
esta mesma razão que nos faz sentir a superioridade que temos sobre eles, nos mostraria também a dos homens sobre nós, se pudéssemos descobrir neles o menor grau de senso acima do que temos; mas sem faltar a esta mesma razão, não poderíamos reconhecer-nos inferiores a criaturas, cujo bom senso de que fazem alarde, consiste em entregar-se cegamente às paixões, que lhes são comuns com os brutos. Se víssemos os homens sempre senhores em ter suas inclinações brutais perfeitamente subordinadas às suas faculdades racionais, poderíamos julgar que a Natureza os destinos para serem nossos senhores, tanto mais quanto não podemos lisonjear-nos de exercer um império tão completo sobre nós mesmas. Mas como poderíamos conceber uma tal ideia dos homens vendo-os tão ambiciosos de dominar, que não se podem satisfazer senão com uma autoridade absoluta, solicitar a escravidão a mais vil, prostituindo sua razão às suas paixões grosseiras, deixando cativar seu bom senso pelos prejuízos, e sacrificando a um costume pouco judicioso, a equidade, a verdade, e a honra? Quantas cousas há que estas criaturas soberanamente sábias, têm por verdades incontestáveis, sem poderem dar a razão de suas opiniões? Eis a causa: é porque se deixam levar por aparências;
para eles tudo que tem aparência de verdade, deve ser tal, porque o ponto de vista sob que descobrem as coisas, supre-lhes a convicção.
Quando falta a evidência em seus princípios, o erro supre a sua falta, e a sua consequência funda-se então em probabilidades. Em uma palavra, como eles supõem sem algumas razões, e raciocinam sem fundamento, consequentemente sustentariam com a mesma força a negativa do que afirmam, se o costume ou a impressão dos sentidos lhes determinasse da mesma maneira. Não há muito, que a crença dos Antípodas era olhada em Filosofia como uma heresia; a ignorância adornada com as prerrogativas do costume, e sustentada com aparência de razão, justifica a opinião contrária e os filósofos, os mais graves, estavam convencidos, ou pelo afetavam, de sorte que foi a maior das temeridades o empreender combate-los. Entretanto o fato tem sido provado tão incontestavelmente, que só o excesso de uma loucura, ou ignorância a mais caracterizada, pode fazer duvidar. A revolução constante dos tempos fez crer aos antigos Astrônomos, que todos os globos celestes giravam em torno da terra, e o costume, sempre imperioso, obrigou a maior parte dos aprendizes de nosso tempo a abraçar a mesma opinião.
Entretanto se se examinar com madureza essas fases, podem igualmente fazer-nos pensar que a Terra é um planeta que se move com os outros em roda do Sol.
Qual é pois a superioridade da razão, que têm os antigos acima dos modernos? Todos raciocinam sobre aparências: os primeiros dizem que, segundo as diferentes posições da Terra e do Sol, em um destes dois corpos há movimento, e como não sentem a agitação na terra, concluem que é o Sol que se move em torno deles, e não eles em torno do Sol. Os segundos, não percebendo o movimento da carroça em que estão, imaginam ser imóveis e que são as casas que passam por eles: ambos não julgam pois sobre os mesmos princípios? Sim, mas com a diferença que estes são menos obstinados que aqueles, e não é tão difícil tirá-los do erro e fazê-los tornar à verdade.
Da mesma sorte, os Selvagens que habitam os países desconhecidos das Índias e que são da mesma espécie que nos outros, faltos de conhecimento do mecanismo de um relógio, creem que os espíritos invisíveis estão dentro dele e fazem parar todas as suas molas. Nossos Secretários de Descartes não se envergonhavam de ter nele uma confiança religiosa, e crer que toda criação animal não é outra coisa que espécies diferentes de autômatos, ou monstros, que se movem por si mesmos, inda que se sabe muito bem, que seu mestre tinha sobeja sabedoria para não acreditar no seu próprio sistema, imaginando-o só para se divertir e embair os ignorantes. Os homens, que têm grande cuidado em apoderar-se dos trabalhos da religião, como de todos os outros, não seguem os preceitos da razão nesta matéria mais do que em outra qualquer, tanto mais se tem a ventura de nascer num país onde se reconhece a verdadeira religião; porque a que receberam com a educação é para eles a única boa e não têm outras provas de sua excelência e melhoria, senão que esta era a crença de seus antepassados. Além deste prejuízo eles se ligam fortemente a ela como a única verdadeira, e sem se darem ao trabalho de examinar ou compará-la, condenam todas as outras como errôneas. Eis aqui precisamente o caso em que se acha a maior parte dos homens: os Judeus, os Maometanos, os Pagãos, todos se conduzem da mesma maneira.
Nenhum país nos apraz tanto como o nosso; levamos este prejuízo tão longe, que pelo pouco que a honra e o interesse de nossa nação o exija, raras vezes fazemos justiça aos outros, inda mesmo que a razão esteja evidentemente do seu lado; é esta uma fraqueza a que os homens os mais sábios estão sujeitos. Além disto, tal é a fraqueza de ambos os sexos, que até os mesmos Estados são matéria de prejuízo. Um tolo de nossa profissão será sempre mais acolhido em nossa companhia que um sábio estrangeiro.
Até mesmo a diferença das moradas tem introduzido o temor e a confusão entre os homens, enganando a multidão e feito crer que esta desigualdade existe entre eles. Se nós quiséssemos dar ao trabalho de remontar à origem desta diversidade de erros populares, poderíamos dar outras causas senão o interesse e o costume? Entretanto, tal é o império que o costume o mais desarrazoavelmente introduzido, tem adquirido sobre o espírito dos homens, que seria menos difícil afastá-los dos sentimentos que têm abraçado sobre a evidência da razão e da verdade, do que tirá-los dos prejuízos inspirados pelo costume. Eu não teria jamais pretendido falar nisto, se não entrasse no detalhe de todas as noções absurdas em que o costume tem sepultado os homens. Ainda que seja um dos maiores absurdos a extrema diferença que eles constituem entre o seu e o nosso sexo, todavia não há erro popular mais antigo e mais universalmente acreditado.
Potlos supõe que os homens – quer sábios, quer ignorantes – sejam realmente superiores às mulheres e que a dependência em que nos conservam é o verdadeiro estado para que a Natureza nos destinou, de sorte que avançar uma doutrina contrária a um prejuízo tão inveterado, deve aparecer um paradoxo tal, como outrora, quando se afirmava que noutro hemisfério existiam homens que andavam com as cabeças diametralmente opostas às nossas; só um exame bem exato poderá fazer conhecer, que uma e outra cousa são conforme a verdade.
Porém, a que Juiz devemos recorrer? Que provas podem se admitir em um negócio tão delicado, que interesse a maior parte do gênero humano e em que se trata de decidir qual das duas partes é superior à outra? Não procuraremos outro testemunho que o da verdade mais simples e sem dissimulação; se os homens tiverem a generosidade de referir-se a ela, não temeremos o quanto possam alegar em seu favor. Esperamos todavia, por amor deles, que qualquer que seja sua disposição a nosso respeito, não ousarão recusar um testemunho tão imparcial, como incontestável. Mas quem fará este exame? Nós, interessadas na sua decisão, não podemos ser testemunhas nesta causa e muito menos Juízes; esta mesma razão impede a que os homens sejam admitidos a estas mesmas funções; entretanto, temos tanta confiança da justiça de nossa causa, que se os homens fossem maus justos e seus juízos menos corrompidos, nos sujeitaríamos voluntariamente a sua própria sentença. Mas no estado presente das cousas, somos obrigadas a procurar um Juiz menos prevenido.
Até hoje só se tem tratado superficialmente da diferença dos dois sexos. Todavia os homens arrastados pelo costume, prejuízo e interesse, sempre tiveram muita certeza em decidir a seu favor, porque a posse os colocava em estado de exercer a violência em lugar da justiça, e os homens de nosso tempo guiados por este exemplo, tomaram a mesma liberdade sem mais algum exame, em vez de (para julgar cordatamente se seu sexo recebeu da Natureza alguma preeminência real sobre o nosso) se terem despido inteiramente da parcialidade e interesse, e não se apoiarem sobre os “assim dizem”, em lugar da razão, principalmente sendo autores e ao mesmo tempo parte interessada.
Se um homem pudesse banir toda parcialidade e colocar-se por um pouco em estado de perfeita neutralidade, estaria ao alcance e reconheceria que, se acaso estimam-se as mulheres menos que os homens e concede-se mais excelência e superioridade a estes que àquelas, o prejuízo e a precipitação são as únicas causas.
Em uma palavra, se os homens fossem Filósofos (tomando esta palavra em seu rigor) descobririam facilmente que a Natureza constituiu uma perfeita igualdade entre os dois sexos. Mas como há poucos que sejam capazes de um pensar tão abstrato, nenhum direito têm mais que nós, de serem Juízes nesta matéria, e por consequência, necessitamos de recorrer a um Juiz menos parcial, incapaz de deixar-se prevenir por alguma das partes e por conseguinte irrecusável. Estas qualidades são visivelmente inerentes à razão bem apurada, pois que é uma faculdade pura e intelectual sem acepção por algum sexo e igualmente interessada no bem estar de toda espécie racional em geral, e em particular.
Eis o Juiz a quem entregamos a nossa causa; estamos prontas a aquiescer a sua decisão, qualquer, qualquer que seja: e se, sobre o testemunho da verdade, decidir que somos inferiores, nós nos submeteremos de bom grado a sua sentença; mas que acontecerá se depois de um maduro exame, sua decisão nos for favorável?
Toda autoridade que eles têm exercido sobre nós até o presente, não parecerá mais que uma usurpação violenta de sua parte, que não podem perfeitamente expiar, senão restituindo-nos ao estado de igualdade em que a Natureza nos colocou. Enquanto eles não chegarem a esse ponto de equidade, as pechas imaginárias com que eles têm oprimido o nosso sexo e que se alguma aplicação têm, não podem recair mais que sobre um pequeno número dentre nós, que não me proponho justificar, não passarão senão como pequenas sutilezas e cuja sombra querem fazer passar as suas.
Assim, para colocar este negócio em um ponto de vista mais claro, não será fora de propósito desenvolver nossas ideias sobretudo no que têm de confuso, separando o imaginário do real e o obscuro do evidente, o falso do verdadeiro, a suposição do fato, a verossimilhança da entidade, a prática da teoria, a opinião da persuasão, a dúvida da certeza, o interesse e o prejuízo da justiça e do juízo exato. Para isto examinemos, por ordem, quais são as ideias gerais que os homens concebem de nosso sexo, sobre que fundamento baseiam suas opiniões e quais são para nós e eles os efeitos do tratamento, que temos recebido, em consequência desta sua opinião. Examinei de passagem no curso deste pequeno livro, se há alguma diferença essencial entre os sexos que possa justificar o império que os homens arrogam sobre nós, quais são as causas e como se deve explicar a diferença aparente, que forma sua pretensão.
Se, depois de um exame judicioso, não aparecer outra diferença entre nós e eles mais, que a que sua tirania tem imaginado, ver-se-á o quanto eles são injustos, recusando-nos um poder, a prerrogativa a que temos tanto direito como eles; quanto são pouco generosos disputando-nos a igualdade de estima, que nos é devida e a pouca razão que têm de triunfar sobre o fundamento da posse em que estão de uma autoridade, que a violência e a usurpação têm depositado em suas mãos.
Justifiquem, pois, se podem, os procedimentos injustos, para não dizer a barbárie grosseira que exercem todos os dias sobre uma parte da criação, de onde depende a sua felicidade, e que nos é inseparavelmente ligada.
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