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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 3 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo I - Que caso os homens fazem das mulheres, e se é com justiça

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Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isto é admirável e mesmo um muçulmano não poderá avançar mais no meio de um serralho de escravas. Entretanto eu não posso considerar este raciocínio senão como grandes palavras, expressões ridículas e empoladas, que é mais fácil dizer do que provar. Os homens parecem concluir que todas as outras criaturas foram formadas para eles, ao mesmo tempo em que eles não foram criados senão quando tudo isto se achava disposto para seu uso. Eu não me proporia a fazer ver a futilidade deste raciocínio; mas concedendo que ele tenha alguma ponderação, estou certa que antes provará que os homens foram criados para o nosso uso do que nós para o deles.

É verdade que o emprego de nutrir as crianças nos pertence, assim como a eles unicamente pertence o de gera-los: se este último lhes dá algum direito à estima e respeito públicos, o primeiro nos deve merecer uma porção igual, pois que o concurso imediato dos dois sexos é tão essencialmente necessário à propagação da espécie humana, que um será absolutamente inútil sem o outro.

Que direito pois têm eles de nos desprezar e pretender uma superioridade sobre nós, por um exercício que eles partilham igualmente conosco? Todos sabem, nem se pode negar, que os homens olham com desprezo para o emprego de criar filhos e que é isto, às suas vistas, uma função baixa e desprezível; mas se consultassem a Natureza nesta parte, sentiriam sem que fosse preciso dizer-lhe, que não há no Estado Social um emprego que mereça mais honra, confiança e recompensa. Basta atender às vantagens que resultam ao gênero humano para convir-se nisto; eu não sei se até por esta razão unicamente, as mulheres não mereciam o primeiro lugar na sociedade civil.

Qual foi o fim para que os homens se reuniram em sociedade, senão para terem suas vidas mais seguras e pacificamente gozarem tudo que lhes apraz?

Todos aqueles, pois, que mais contribuem a esta vantagem pública, devem por isso obter maior porção de estima pública. Ora, as mulheres, encarregando-se generosamente e sem interesse, do cuidado de educar os homens na sua infância, são as que mais contribuem para esta vantagem, logo são elas que merecem um maior grau de estima e respeito públicos.

Partindo deste princípio é que se olham os príncipes como as primeiras pessoas do Estado. Nesta qualidade, ou grau de elevação, se lhes conferem as principais honras; porque supõe-se ao menos que eles se sobrecarregam de grandes cuidados, vigílias e inquietações, que exige a prosperidade do bem público. Da mesma sorte tributamos mais ou menos respeito àquelas pessoas que estão abaixo deles e que mais se lhes aproximam, porque as olhamos como pessoas mais úteis à sociedade, segundo partilham mais, ou menos, as fadigas do serviço público. É pela mesma razão que preferimos os Militares aos Literatos; porque os olhamos como um baluarte entre nós e nossos inimigos. Todos concordam em respeitar as pessoas à proporção de sua utilidade; eis pois a medida de seu merecimento. Ora, sendo esta regra aplicável a todas as circunstâncias da vida, por que não devem ter as mulheres, mais que todos, direito à estima pública, contribuindo mais, sem comparação, a seu bem estar?

Os homens podem absolutamente passar sem Príncipes, Generais, Soldados e Jurisconsultos, como antigamente, e ainda hoje passam os Selvagens; mas podem passar em amas na sua infância? E se por si são incapazes de exercer este importante emprego, não precisam indispensavelmente das mulheres? Em um Estado tranquilo e bem regido, a maior parte dos homens são inúteis em seus ofícios e inútil toda sua autoridade, mas as mulheres não deixarão jamais de ser necessárias enquanto existirem homens e estes tiverem filhos.

Para que servem os Juízes, os Magistrados e os Oficiais, que lhes são subordinados para administração da Justiça, senão para garantir a segurança e propriedade dos bens daqueles, que, se não fosse proibido, seriam capazes de fazer justiça a si mesmos mais exata e prontamente? Porém as mulheres, mais verdadeiramente úteis, se ocupam em lhes conservar a vida para gozarem desta propriedade. Estimam-se e recompensam-se os Soldados, porque combatem para defender os homens feitos, que são tão capazes, e mesmo mais que eles, de se defenderem. Com quanta maior razão não merece o nosso sexo essa estima e recompensa, trabalhando para defender os homens numa idade em que não sabem o que são, não podem distinguir os amigos dos inimigos, e nem têm outra defesa mais, que suas lágrimas?

Se os Príncipes e os Ministros, se sacrificam algumas vezes pelo bem público, a ambição é o único móvel, é para adquirir poder, riquezas e esplendor, que eles o fazem. Porém nossas almas mais generosas não atendem senão ao bem das crianças, que nutrimos e educamos, pois que todos os dias experimentamos que a recompensa que temos a esperar dessas criaturas desnaturadas, pelos trabalhos, cuidados, inquietações e infinitos embaraços, que nos causam e de que não se acha exemplo em todos os outros estados da sociedade civil, se reduz a maus tratamentos e a um desprezo repreensível para com o nosso sexo em geral. Tais são os generosos ofícios que lhes prestamos;

tal é a ingratidão com que nos recompensam.

Sem dúvida é preciso que os homens tenham a imaginação bem corrompida para olharem um exercício tão importante, como baixo e desprezível e para lhe recusar toda estima que na realidade merece. Com que liberalidade não se recompensa aquele que consegue domesticar um Tigre, um Elefante e outros semelhantes animais? E as mulheres que passam seus belos anos ocupadas em amansar o homem, este animal ainda feroz, não serão pagas senão com desprezo?

Se nos remontarmos à origem desta injusta parcialidade, encontraremos que a única e verdadeira causa do pouco reconhecimento, que se tem aos importantes serviços que as mulheres prestam aos homens, é que eles são comuns e ordinários. Entretanto, seja qual for a recompensa, o prazer que a generosidade de nosso sexo acha em preencher este ofício, basta para que nós o desempenhemos com toda ternura e sem vistas de interesse. Eu não pretendo queixar-me de não recebermos recompensa: seja-me somente permitido dizer, que por sermos mais capazes que os homens em desempenhar este cargo, não se segue que não possamos também desempenhar outro qualquer.

Na verdade os homens parecem aprovar isto tacitamente; mas com o seu desinteresse ordinário, pretendem restringir todos os outros talentos nossos na órbita singular da obediência, da servidão e da ocupação de satisfazer a nossos amos. Eles têm como uma razão geralmente aprovada o serem nossos amos; mas por que títulos? Eis uma pergunta a que não podem responder. Entretanto, este sentimento é tão comum entre eles, que todos desde o Príncipe até o Súdito, se acham possuídos dele. Já fui testemunha da cena divertida de um homem de baixa condição, pondo um sinal na testa da mulher para lhe fazer ver, unicamente, dizia ele, que era seu senhor.

Este argumento posto que de mau exemplo e indigno de um homem virtuoso, é talvez o melhor e mais forte que o seu sexo pode produzir em seu favor. Seja como for, ou a Natureza os tenha destinado a ser nossos senhores, ou não; ou suas ordens sejam ditadas ou não pela razão, nós acharíamos o jugo da obediência doce e suave, pois que obedecendo, não teríamos mais que submeter nossa vontade à razão, e obraríamos como seres inteligentes, tais quais nos conhecemos. Eis o que as mulheres estariam dispostas a fazer do que os homens em iguais circunstâncias, e que ninguém pode duvidar. Mas isto equivalia a nos colocarmos ao nível dos brutos, se cumpríssemos todas as suas vontades indistintamente; pois que só isto nos tornaria tão desprezíveis como esses seres injustos e extravagantes, que nos governassem.

Amos ou não, eles não têm mais que dois partidos a seguir para exercer sua imaginária autoridade: ou de continuar a regular suas ordens segundo suas paixões, sem escutar a razão; e então só as mulheres desarrazoadas lhes obedecerão, porque as sensatas não lhes darão esta prerrogativa; ou de fazer falar a razão por sua boca, e então todas as mulheres de bom senso consentirão nisto, convindo mesmo que os homens se persuadam, que é por uma pura obediência que nós condescendemos com as suas vontades. Se escolherem o último partido, nós lhes deixaremos a inocente liberdade de se sentirem senhores, enquanto que nos encantamos de ver tanta autoridade do lado da razão, que é a sua verdadeira base, reconheceremos que ambos os sexos têm direito de se regerem reciprocamente e alternativamente; porque se os homens têm bastante conhecimento para regular as ordens que derem às mulheres, sobre os preceitos da razão, também o terão para ceder a esses mesmos preceitos quando forem impostos pelas mulheres, sem que importe por que boca a razão se faça conhecer.

Se os homens concordam que a razão se serve tanto deles, como de nós, está claro que ela regerá igualmente tanto uns como a outros; mas o caso é bem diferente. Os homens não podendo negar que nós somos criaturas racionais, querem provar-nos a sua opinião absurda, e os tratamentos injustos que recebemos, por uma condescendência cega às suas vontades; eu espero, entretanto, que as mulheres de bom senso se empenharão em fazer conhecer que elas merecem um melhor tratamento e não se submeterão servilmente a um orgulho tão mal fundado. Se não é suficiente ter algumas atenções para com esses entes orgulhosos, é muito pouco ter com eles mais condescendência, do que temos pelas crianças; conservando-se uma certa decência, é preciso servi-los absolutamente.

Que personagens singulares! Não são eles bem dignos de tão alta preeminência! Exigir uma servidão a que eles mesmos não têm coragem de se submeter, de um sexo, que sua vaidade qualifica com o título de – vasos frágeis –, e querer que lhes sirvamos de ludíbrio, nós, a quem eles são obrigados a fazer a corte e atrair em seus laços com as submissões as mais humilhantes! Têm por ventura eles alguns títulos para justificar o direito com que reclamam os nossos serviços, que nós igualmente não tenhamos contra eles? Têm um protesto tão plausível para dominar sobre nós, como sobre aqueles Selvagens, que sua inocente segurança tem privado do poder de se oporem a suas violências e injustiças? Entretanto a maior parte de nosso sexo, assaz frágil para se deixar vencer pela piedade, por suas carícias e por seu desespero afetado, não tem encontrado o desejo de sua dissimulação, o engano de sua inocência e de seu bom coração? Quantas mulheres há, que depois de haverem confiado a sua liberdade a um esposo, encontram bem cedo o cordeiro transformado em Tigre, e então se acham no caso de invejar a sorte de um escravo sujeito a um tirano sem piedade?

Se a força do corpo, em que reconhecemos sua preeminência, é um pretexto suficiente para nos calcar aos pés, o Leão tem um direito bem fundado de preeminência sobre eles e esta espécie de bruto é mais generosa que a dos homens. Ainda que um pouco mais feroz e bravio, um Leão envergonha-se de empregar sua força quando há demasiada desproporção entre ele e seu adversário. Na verdade, eu convenho que deveríamos procurar satisfazê-los se houvesse alguma aparência de nos resultar proveito. Seria barbaridade deixar chorar um menino, podendo-se acalentá-lo com um brinquedo, porém, desgraçadamente, seria necessário estudar-se toda a vida para descobrir um meio de contentar essas grandes crianças, mais obstinadas que as outras.

Eu tenho ouvido dizer, e é um rifão antigo, que “o diabo é bom quando está satisfeito”. Se este rifão é como os outros, fundado sobre a experiência, prova que o diabo pode algumas vezes estar satisfeito: ou quereria que isto se pudesse aplicar também aos homens. Porém, tal é a constituição extravagante de sua natureza, que quanto mais se procura agradá-los, tanto menos se consegue; ou, se por acaso, se tira algum proveito, nunca é equivalente aos seus cuidados. Certamente o Céu criou as mulheres para um melhor fim, que para trabalhar em vão toda sua vida. Talvez se me objetará que não é trabalhar inutilmente, uma vez que com isto não fazem mais que preencher o seu tempo; que não tendo sido criadas senão para escravas dos homens, a nossa única obrigação é lhes ser submissas e lhes aprazer; que quando desprezamos outra qualquer coisa, não somos nisso responsáveis, pois que Deus não nos outorgou outros talentos. Mas, como já tenho dito, e farei ver mais adiante, isto reduz-se a ter como certeza o que ainda está em questão e supor o que deveria, porém que não pode ser provado. Entretanto, algumas pessoas há, mais condescendentes e judiciosas, que convencem que muitas mulheres são dotadas de espírito e conduta; mas ainda assim dizem, que essas dentre nós, que são mais recomendáveis por estes dois motivos, deixam escapar todavia alguma coisa de fraqueza do sexo. Discurso desprezível e cediço, que por si mesmo se acha destruído, e cuja extrema fraqueza parece condená-lo a um eterno esquecimento! Mas um engenhoso autor, não tendo coisa melhor a escrever, julgou interessante fazê-lo reviver em um dos seus escritos semanários, a fim de que este século não ignorasse que nos séculos precedentes houve insensatos entre os homens. Para nos dar um exemplo da sabedoria de seu sexo, ele nos diz que os mais prudentes dentre eles têm julgado não ser preciso conceder às mulheres as doçuras da liberdade, mas sim conservá-las toda sua vida em um estado de subordinação e dependência absoluta dos homens. A razão, que ele produz para sustentar esta tese tão extravagante, é que nós não somos capazes de nos governar a nós mesmas.

Se não são precisas, para sustentar uma asserção tão árdua, outras provas que a simples palavra de quem a propôs, basta ele pertencer ao sexo interessado para ser suspeito tudo quanto avança desta natureza; entretanto como a este respeito somos tão suspeitas como eles, nenhum proveito temos em negar o fato, salvo que é importante para os sexos a necessidade de o provar.

Sem dúvida, pessoa de uma sabedoria tão consumada, se nós quiséssemos acredita-las sob sua palavra, não teriam a afoiteza de avançar uma coisa com tanto descaramento, se não pudessem sustenta-la com as provas mais sólidas e convincentes.

Vejamos, pois, sobre que fundamentos eles baseiam as ideias extravagantes que fazem do nosso sexo e em que fazem consistir a verdade e a razão, para que possamos abraçar ou rejeitar sua opinião, com conhecimento de causa.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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