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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 8 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo VI - Se as mulheres são naturalmente próprias, ou não, para os empregos

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Eu não sei por que razão é mais admirável ver uma mulher com a lança na mão, do que com uma coroa sobre a cabeça; assistindo a um Conselho de Guerra do que a um Conselho de Estado? Por que não poderá ela aparecer na frente de um exército, assim como presidir a um Parlamento, ou comandar sobre o mar, assim como reinar sobre a terra? Quem poderia impedi-la de tomar o governo de uma armada com tanta firmeza e segurança, como o de uma Nação? Por que não poderia exercitar os seus soldados, pôr as suas tropas em ordem de batalha, dividir as suas forças em batalhões e esquadrões na terra e no mar? A arte militar não tem mistério particular que as mulheres não possam penetrar: uma mulher é tão capaz com um homem de se instruir por meio de um mapa dos bons e maus caminhos, dos rumos seguros ou perigosos e das posições próprias para um acampamento. Quem poderá impedi-la de se pôr a par de todos os estratagemas da guerra; da maneira de bater o inimigo, de retirar, meditar uma surpresa, formar emboscadas, fingir avançadas e retiradas, dar falsos ataques, sustentar os bons, animar os soldados e de ajuntar o exemplo à persuasão? A persuasão, a coragem e o exemplo são a alma da vitória. Ora, quando sua honra se interessa, as mulheres fazem ver tanta intrepidez e valor, quanta é para atacar ou defender uma praça. Não se acha diferença real na constituição interna e externa dos homens e das mulheres, senão pela parte dos membros destinados à geração. As diferenças que aí se encontram não são suficientes para concluir que um sexo seja naturalmente mais forte que o ouro e mais capaz de suportar as fadigas da guerra. Não há entre as mulheres diferentes graus de força, assim como entre os homens? Não se encontram fortes e fracos e ambos os sexos? Os homens educados na ociosidade e moleza e moleza são mais fracos que as mulheres; e estas, endurecidas pela necessidade são frequentemente mais forte do que eles. Basta ir a Chelsey para convencer-se que as mulheres podem melhor acostumar-se às fadigas de uma campanha, e suportar todo o horror da guerra, do que os homens os mais bravos.

O que tem contribuído muito a confirmar nos homens o prejuízo em que estão da fraqueza natural das mulheres, é o modo ordinário de falar, a que este erro vulgar tem dado lugar. Quando se pretende exprobar a um homem a falta de coragem, chama-se-lhe “afeminado”; quando se pretende exaltar a coragem de uma mulher, diz-se “é um homem”. Essas expressões, porém, e outras semelhantes, sendo puramente arbitrárias, e um puro cumprimento que eles fazem, não estabelecem a verdade é que a humanidade e doçura que formam o principal caráter de nosso sexo, nos fazem horrorizar pelos homicídios ilegítimos e preferir uma paz honrosa a uma guerra injusta. Eis porque (para ligar as ideias exatas a estas expressões) seria preciso dizer que um homem que possui nossas virtudes, é efeminado, para exaltar seu bom natural e sua equidade; e que uma mulher, que se degrada do caráter de seu sexo para abraçar a injustiça e a crueldade da natureza dos homens, é um homem, isto é, uma criatura que os vínculos os mais sagrados não podem ligar à observação dos tratados justos; e que a efusão do sangue não pode desviar da violência a mais cruel e injusta.

Diga-se pois o que quiser, a verdade é, como já tenho observado, que a força só não dá aos homens algumas superioridade sobre nós; se isto assim fosse os brutos deveriam ter a preeminência sobre eles, e entre aqueles, o mais forte deveria ser o mais elevado em dignidade. Não só vemos claramente que em geral os mais fortes são próprios para servir aos outros, mas até se observa, principalmente nos exercícios, que os mais robustos são sempre empregados fazer as faxinas, enquanto que os mais fracos sobem à brecha. De outra parte, observa-se que os homens mais fracos são quase sempre as melhores cabeças.

Os Filósofos os mais sábios, os Poetas os mais célebres e os Princípios os mais prudentes não têm sempre sido dotados de uma constituição física vigorosa.

Henrique era muito menos forte que João Falstaff, e Marlborough, teria talvez posto um exército em derrota com mais facilidade do que em levar a punhadas o ultimo de seus soldados. É, pois, inútil insistir tanto sobre a força do corpo como uma qualidade exigida para os empregos militares.

Na verdade se nos acusa a todas, sem exceção, de sermos covardes e incapazes de nos defender; de termos medo de nossa própria sombra, de nos atemorização com gritos de uma criança, aos latidos de um cão, ao buído do vento e a uma historia de visão etc. Mas será isto universalmente verdadeiro? Não existem homens faltos de coragem, como a mais fraca de nosso sexo? Além de que, não se sabe que as mulheres, as mais timoratas, têm necessariamente quase sempre virtude e sacrificam seus próprios temores à segurança de um marido, de um filho e de um irmão? Por muito fracas e medrosas que elas sejam, sofrem quase sempre mais corajosamente que os homens, as penas, as moléstia, as prisões e mesmo os terrores da morte.

O temor companheiro inseparável da virtude. As pessoas virtuosas são quase sempre tímidas; umas mais, outras menos.

A antipatia que elas têm a ofender e o conhecimento dos vícios que reinam no meio dos homens, bastam para as fazer temer a menor aparência de perigo. É esta uma paixão natural a todo mundo. Os Princípios temem a revolta dos seus vassalos, os Generais a surpresa de seus inimigos; o homem mesmo, que toma a espada para vingar um insulto, receia a vergonha que resulta; ele teme o seu inimigo e a severidade das leis. Mas o temor é sempre muito maior quando se conhece que não se pode resistir e não se deve repreender senão aqueles que têm a força na Mao par repelir os males que os ameaçam.

Um jurisconsulto, que tem passado toda sua vida em folhear Coke e Litleton, não pode ser tão injustamente arguido de falta de coragem por ter recusado o desafio que lhe faz um Oficial do Exército, como será arguido de fraca de um soldado que recusa sua fortuna na quadrilha contra a mulher de um Lorde. A maneira por que as mulheres são educadas as autoriza a toda sorte de temor; não lhe é permitido fazer os exercícios que põem os homens em estado de atacar e de ser defender. Elas se acham sem socorro expostas aos ultrajes de um sexo entregue aos transportes os mais brutais, vítimas do desprezo de uma gente bárbara, que se vale algumas vezes contra elas de sua superioridade de forças com mais raiva e crueldade, do que exercem os brutos uns para com os outros.

Pode-se pois imputar o nosso medo à falta de coragem? Será isto um defeito? Não será antes um resultado de nosso bom senso e não seria uma loucura e temeridade resistir a furiosa que não têm equidade para escutar a razão, não tendo nós o vigor necessário para os repelir por meio das armas?

Não se deve supor que todas as mulheres sejam faltas de força, coragem e conduta necessária para guiar um exército à vitória e que os homens somente tenham estas qualidades.

Muitas mulheres são intrépidas como os homens; e falando de mim, eu afrontaria mais facilmente, e com menos repugnância, o furor de uma armada vitoriosa, a que teria valor de resistir, do que a solicitar a benevolência de um Ministro corrompido, que com razão eu desprezaria.

Que precisão temos de ir procurar na Cytia as Amazonas para provar a coragem das mulheres? Para que ir à Itália procurar em Camila um exemplo de virtude guerreira? A mulher de Petus se apunhalou a si própria para animar seu marido que fraquejava, a seguir seu exemplo: teria ela temor de subir a uma trincheira? Uma mulher, que teve a coragem de arrancar o punhal de seu seio e apresentá-lo com firmeza a Pétus dizendo – fere, isto não faz mal –, não teria sido igualmente capaz de animar um exercito, com a persuasão e exemplo, em defesa do seu país? Felicite-se a França com sua Donzela de Orleans, e glorifiquem-se as outras nações de haverem produzido um grande numero de mulheres guerreiras; nós não precisamos sair da Inglaterra para acharmos heroínas, cujas ações tem imortalizado seus ilustres nomes. A quem deve a Inglaterra sua liberdade do jugo tirânico dos daneses?

Mas para não lembrarmos muitos outros exemplos de bravura em nosso sexo, contentamo-nos em citar Boadícia que opôs aos Romanos em defesa da sua Pátria, a mais vigorosa resistência, que esse grande império jamais viu.

Se seus esforços não tiveram os mesmos efeitos que as proezas de Alexandre, de Cesar, ou de Carlos da Suécia em seus dias felizes, ao menos sua coragem e conduta tem sido digna de se posta em paralelo com eles, para não dizer que os excedeu em bravura, prudência, e que suas intenções eram muito mais justas.

Julgo, pois, ter provado de uma maneira evidente, que não há ciência, empregos e dignidades, a que as mulheres não tenham tanto direito de pretender como os homens; pois que eles não podem alegar outra superioridade que a força do corpo, para justificar o cuidado que têm de arrogar a si toda autoridade nas mulheres, que possa privá-lo de seu direito, senão a que resulta da injusta opressão dos homens, que é fácil refutar.

Parece, entretanto, quanto aos empregos militares, ser por uma disposição da Providência, que o costume nos tem isentado. Assim como os marinheiros durante uma tempestade lançam ao mar as cargas, que mais impedem, e menos úteis ao navio, da mesma sorte é muito justo que os homens sejam expostos aos perigos e desgostos da guerra, enquanto que os ficamos em segurança em nossas casas.

Geralmente falando, eles não são próprios que a serem nossos defensores e nossas ternuras são as mais belas recompensas que podem desejar ou merecer, os mais bravo dentre eles, para os indenizar dos perigos que correram e dos trabalhos que empreenderam por nossa defesa, durante as guerras as mais dilatadas.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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