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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 5 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo III - Se os homens são mais próprios que as mulheres para governar

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Se fordes tão condizente que acrediteis no que dizem os homens, será preciso também conceder-lhes, como uma coisa decidida, que as mulheres são criaturas destituídas de bom senso e naturalmente incapazes de se conduzir. É uma ternura cruel, dizem eles, é uma condescendência mal-entendida a abandonar o belo sexo a sua própria conduta:

tanto ele é formado para aprazer e encantar, quanto mais importante é o desviá-lo dos perigos a que essa vantagem o expõe. O que prova bem que eles falam conforme o seu coração, é nos suporem muito fracas para nos deixar privar da nossa liberdade e de nossos legítimos direitos, por um raciocínio tão frívolo quanto improcedente; mas que prova têm eles apresentado, para convencer que não seríamos tão capazes de nos preservarmos dos perigos, como eles o são de nos guardar, se gozássemos das mesmas vantagens e poder?

Além de que, estamos por ventura mais seguras debaixo de sua direção, que da nossa própria? Não será manifestamente cair de Sylla em Carybde o recorrer à sua proteção contra os perigos? Apenas achar-se-ia em um milhão, uma de capacidade medíocre, que não quisesse ou pudesse governar-se melhor que a maior parte dos homens em iguais circunstâncias, se a fraude, a traição e a vil inveja desse sexo não nos roubasse os meios; enquanto que, em lugar de uma mulher, cujo entendimento e costumes se aperfeiçoam sem sua tutela, existem milhares que eles arrastam a uma ruína inevitável.

Isto é um fato incontestável; eu não preciso de provas para o fortificar e nem temo que eles revertam esta exprobração contra nós; porque concedendo-se que um pequeno número de homens passe mal com o governo das mulheres, este número é demasiadamente pequeno em comparação com os outros. Quando mesmo, felizmente, houvesse igualdade, seria preciso lançar sobre os homens a causa da má conduta das mulheres, pois que nos têm roubado as vantagens da educação, que nos teriam posto em estado de obrar melhor, da qual nós éramos tão capazes como eles e às quais tínhamos um direito igual ao seu.

Não se podem empregar as mesmas razões para justificar o mau governo dos homens, pois eles têm todas as vantagens necessárias para bem governarem; mas se, apesar disto passamos pior debaixo de seu governo que do nosso, a consequência é bem evidente: é porque falta-lhes ou a capacidade natural, ou probidade. Se eles escolhessem destas duas imputações a que melhor lhes conviesse, eu poderia então dizer, sem arriscar um juízo temerário, que ambas lhes são devidas. Se eles imaginam poder iludir a força desta verdade, dizendo que os homens a quem toca esta acusação não têm feito uso das vantagens de seu sexo em geral e que assim ela não tem lugar senão para aqueles que as não possuindo, enganam-se; isto não destrói de maneira alguma a verdade do que avancei, que a maior parte das mulheres se perde debaixo do seu governo, em vez de melhorar seu coração e aperfeiçoar seu espírito.

Portanto, já que não estamos mais seguras em sua guarda que na nossa, não há razão de pretender que devamos ser-lhes submissas. Mas parece que temos sido condenadas por um Juiz de sua própria escolha, um velho delirante, muito aferrado a seu próprio pensar para se deixar arrastar pelo de sua mulher. Catão, o sábio Catão, a quem a idade e os prejuízos não fizeram mais que obstinar no erro, quis antes morrer como um furioso, segundo seus próprios ditames, que viver como homem sensato, pela advertência de sua mulher. Esse Catão pronunciou a nossa sentença: é um Juiz tão desinteressado que não podemos recusá-lo. Vejamos pois o que disse esse Oráculo. “- Tratemos as mulheres como nossas iguais”, diz ele, “e elas se tornarão logo nossas senhoras”. Catão o disse, não preciso mais de prova.

Além disso, para obrigar os homens a provar com razão, seria reduzi-los ao silêncio; e o silêncio lhes seria tão insuportável, como a nós ouvi-los falar.

Mas suponhamos que Catão seja infalível em suas decisões, o que resulta daqui? Não têm as mulheres tanto direito de serem senhoras, como os homens? “Não”, diz Catão. Mas por quê? Porque não têm argumentos assaz convincentes que nos excite a curiosidade de ouvi-los por muito tempo.

“- Se nós tornarmos as mulheres nossas iguais”, diz ele, “elas exigirão logo como tributo o que hoje recebem como uma graça”. Mas, qual é a graça que se nos concede? A mesma a que temos pretensões tão justas, como elas?

Não têm as mulheres tanto direito, como os homens, às dignidades e ao poder? Se temos, o sábio Catão não o disse; e se não o temos sele devia ter a condescendência de nos convencer.

Porém, suponhamos que isto fosse uma graça como ele chama, os homens não tirariam a principal vantagem disto? A reserva particular ao nosso sexo prova bem que, sabendo-nos reprimir a nós mesmas, somos capazes de governar os outros. Além disso, a docilidade e ternura, que formam o nosso principal caráter, bastam para lhes persuadir de que nosso jugo não seria pesado. - “Mas não”, diz Catão, “devemos nos felicitar dessa docilidade e reserva que mostram em nossa presença: esta sobra de virtude nasce da necessidade em que as reduzimos de se contrafazerem”. Eis aqui, pois, Catão confessando que a sujeição em que seu orgulhoso sexo nos tem não é mais que o efeito da violência e do embuste. Ele assim disse para abonar e lisonjear o seu sexo, atribuindo-lhe todo o mérito.

Este cumprimento é bem coerente com a verdade desagradável que proferiu a seu pesar: é contra a sua vontade que ele reconhece em nós algum merecimento. Não, não temos senão sombra de virtude e não é mais que a violência e o engano quem pode obrigar-nos a contrafazer. Não é isto considerar seu sexo como uma multidão de loucos? Certamente não se poderia achar maior prova de loucura dos homens que o emprego que fazem da violência e do engano e a maneira porque se entregam a todos os trabalhos possíveis para as sustentar, sem outro fim mais do que fazer-nos obrar com dissimulação, quando muito pouco seria preciso para nos fazer ver uma luz mais natural. É impossível governar-se bem os súditos sem conhecer-se antes o que eles são na realidade, do que o que parecem ser.

Ora, não se pode jamais supor que os homens estejam neste caso, porque seus esforços tendem a constranger as mulheres a viver em uma perpétua dissimulação. Logo, ou todos os homens são inteiramente imbecis, segundo a confissão de Catão, ou este famoso oráculo é um ignorante e todos o devem reconhecer como tal. Eu não me proporia a falar tanto quanto tenho feito, se não estivesse convencida de que em geral os homens são bastante fracos para se deixarem persuadir por tão maus semi-pensadores e mercadores de sentença. Se isto em particular valesse a pena, poder-se-ia facilmente convencê-lo de ter errado grosseiramente em outras matérias, bem como nesta.

Portanto, quando ele chega a ter razão, é mister agradecer antes ao acaso, do que à sua própria sabedoria, porque os maiores doidos algumas vezes têm razão no seu obrar; e os muito parladores devem necessariamente, entre mil absurdos, dizer também alguma coisa boa, inda mesmo que pensem menos.

Tais são em geral as provas que se produz contra nós. Os homens não querem se dar ao trabalho de pensar; olham a razão como muito inferior a si e querem antes prostituir, que segui-la; eles têm adquirido toda reputação por uma certa gentileza de expressão, cujo exame não é a justiça que sustenta, mas sim suas cabeças, seus corações e seus rostos; eles quereriam antes, para me servir dos termos daquele Sábio, ver o bom senso em confusão, do que uma palavra mal-arranjada em seus discursos. Entretanto, há Sábios entre os homens cujas palavras são outros tantos oráculos divinos. Mas se vivêssemos em seu tempo e os ouvíssemos dizer mais absurdos, que coisas sensatas, os reputaríamos tão ignorantes, como os iludidos que os respeitam, e ainda, que algumas vezes admirássemos de ouvi-los falar razoavelmente, do que não admiramos agora em ler os seus adágios, todavia sempre pensaríamos que eram mais próprios a atrair a admiração, do que a merecê-la.

Tem-se tido grande cuidado em se nos transmitir somente as melhores de suas sentenças, das quais muitas nos parecem assaz fracas; mas se houvesse o mesmo cuidado em conservar-se o registro de todas as suas impertinências, quanto não perderiam dos aplausos que hoje se lhes tributa? Um incrédulo achando-se no Templo de Netuno, o Sacerdote quis provar-lhe sua divindade com os milagres, que aí se achavam pintados.

“..... É verdade”, diz o infiel, “que conservais os quadros dos que se salvaram, mas onde estão os dos que morreram afogados?” Mas nós nos ocupamos com inimigos muito mais formidáveis, isto é, os homens, que pretendem apoiar seus raciocínios sobre sólidos fundamentos e que se envergonhariam, dizem eles, de nos privar do poder, das dignidades, se não tivessem em seu favor as melhores razões.

É preciso portanto ouvi-las, antes de decidir se são ou não injustas.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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