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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

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Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo 4 · Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Capítulo II - Se as mulheres são inferiores ou não aos homens, quanto ao entendimento

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Em primeiro lugar, dizem eles, a maior parte do nosso sexo tem bons intervalos, não há dúvida, mas são de pouca duração; são relâmpagos passageiros de razão, que desvanecem-se rapidamente;

somos semelhantes à Lua, que obstante por si mesma, não brilha senão por uma luz emprestada; não temos mais que um falso resplendor mais próprio a surpreender a admiração do que a merecê-la; nós somos inimigas da reflexão; a maior parte de nós pensa senão por acaso, ou por arrebatamento, e não falta senão por uma rotina. Eis as graves acusações intentadas contra a maior parte das mulheres; mas concedendo-se de barato, que fosse verdadeiro o que eles objetam, não é incontestável que os mesmos argumentos podem reverter-se contra a principal parte dos homens? Entretanto, se quiséssemos concluir da mesma maneira, que é preciso conservá-los perpetuamente debaixo da nossa guarda, não triunfariam eles e não julgariam este raciocínio como uma prova da fraqueza de nosso espírito?

Qualquer experiência basta para mostrar que somos mais capazes de ter inspeção sobre os homens, do que eles sobre nós. Confiam-se as donzelas ao cuidado de uma mãe de família e elas ficam logo senhoras de uma casa, em idade em que os homens apenas se acham em estado de ouvir os preceitos de um mestre.

O único meio de arrancar um jovem da libertinagem e torná-lo à sociedade, é dar-lhe por guarda uma mulher capaz de reformá-lo com seu exemplo, moderar suas paixões pela prudência e desviá-lo de seus excessos por maneiras mais ativas. Os homens estão bem longe de provar o princípio com a prática; pois que pelo contrário, quando há alguma questão sobre seus interesses, quando sua prudência consumada não basta para domar os mais debochados dentre eles, todo seu recurso é submetê-los à nossa tutela. Assim pois os seus raciocínios se acham em contradição com a sua prática. Porém é o temor de nos tornar vaidosas, que os obriga a sustentar que não temos solidez, nem constância, e que estamos bem, longe de ter a profundeza de juízo que eles modestamente atribuem a si. Donde concluem com tanta sabedoria, que tem sido necessário que a Providência Divina e seu senso superior concorram igualmente para nos apartar das ciências, governos e cargos públicos. É por uma indagação exata e sem prejuízo que se pode ver se este argumento tem alguma solidez.

Para reconhecer, pois, se as mulheres são menos capazes que os homens para as ciências, é preciso atender qual é o princípio que conduz a este conhecimento; se ele não existe nas mulheres, ou se existe num grau menos perfeito, não se faz necessário mais provas para demonstrar que os homens têm razão. Porém, se ele é perfeito em um como em outro sexo, então deve-se supor os homens invejosos e pode-se dizer, sem temeridade, que a única razão porque nos fecham o caminho às ciências é temerem que nós as levemos a maior perfeição que eles. Todos sabem que a diferença dos sexos só é relativa ao corpo e não existe mais que nas partes propagadoras da espécie humana; porém, a alma que não concorre senão por sua união com o corpo, obra em tudo da mesma maneira sem atenção ao sexo. Nenhuma diferença existe entre a alma de um tolo e de um homem de espírito, ou de um ignorante e de um sábio, ou a de um menino de quatro anos e um homem de quarenta. Ora, como esta diferença não é maior entre as almas dos homens e das mulheres, não se pode dizer que o corpo constitui alguma diferença real nas almas. Toda sua diferença, pois, vem da educação, do exercício e da impressão dos objetos externos, que nos cercam nas diversas circunstâncias da vida.

O Criador observa a mesma ordem ao unir as almas das mulheres e dos homens a seus corpos respectivos. Os mesmos sentimento, as mesmas paixões, as mesmas proporções firmam esta união em uns e outros; e a alma obrando da mesma maneira, em ambos os sexos, é por consequência capaz das mesmas funções.

Para tornar este raciocínio mais convincente não é preciso mais que examinar a estrutura da cabeça, a sede das ciências e a parte onde a alma se faz melhor perceber. Todas as indagações da anatomia não têm ainda podido descobrir a menor diferença nesta parte entre os homens e as mulheres: nosso cérebro é perfeitamente ao deles, nós recebemos as impressões dos sentidos como eles; formamos e conservamos as ideias pela imaginação e memória, da mesma maneira que eles; temos os mesmos órgãos e os aplicamos aos mesmos usos que eles; ouvimos pelos ouvidos, vemos pelos olhos e gostamos do prazer também como eles. Enfim, não se pode imaginar a diferença entre nossos órgãos e os deles, salvo que os nossos são muito mais delicados e, por consequência, mais próprios a corresponder às intenções para que foram formados.

Observa-se geralmente, mesmo entre os homens, que os mais grosseiros e mais pesados são de ordinário estúpidos e que, ao contrário, os mais delicados são os mais espirituosos. A razão é óbvia: a alma encerrada no corpo tem precisão de seus órgãos em todas as suas operações; por conseguinte, está mais ou menos em liberdade de exercer suas funções, conforme seus órgãos sejam mais livres ou mais embaraçados. Ora, não é preciso muito trabalho para provar que nossos órgãos são muitos mais finos e delicados que os dos homens: nisto todo mundo convém; por consequência, se nós gozamos as mesmas facilidades e se nos permite, como a eles, entregar- nos ao estudo, não se pode duvidar que nós avançássemos pelo menos em igual passo, nas ciências e em todos os conhecimentos úteis.

Não pode ser, portanto, senão uma inveja baixa e indigna, que os induz a privar-nos das vantagens a que temos de um direito tão natural, como eles. O pretexto que eles alegam é que o estudo e as ciências nos tornariam altivas e viciosas; mas este pretexto é tão desprezível e extravagante e bem digno do seu modo de obrar. Não, só o falso saber e os conhecimentos superficiais são os que produzem tão mau efeito; porque o verdadeiro e sólido conhecimento não pode tornar as mulheres, assim como os homens, senão mais submissas e mais virtuosas. É preciso confessar que se um conhecimento superficial tem tornado vaidosa algumas mulheres, tem igualmente feito insuportáveis muitos homens; mas isto não é razão para se recusar o sólido saber nem a uns, nem a outros. Deve-se pois procurar com todo empenho aperfeiçoar as disposições que se lhes conhece para as ciências, fazer conceber o gosto para elas e ensinar-se-lhes a fundo; é preciso seguir a opinião de um dos melhores autores, que é aplicável a todas as ciências, também como à poesia.

“Pouco vale sábio ser, sem ser profundo;

Ou as letras deixai, ou ir-lhe ao fundo:

Não vos levem vontades caprichosas De Hypocrene às margens perigosas;

Seus vapores sutis toldam a mente, Cobre a razão quem bebe na corrente.” Pope, Ensaio sobre a crítica Julga-se, comumente, que os homens não precisam de conhecimento para serem virtuosos; este prejuízo só pode nascer de pessoas, cujo espírito e conduta não é regular; tem-se concluído falsamente, que as ciências são não só inúteis para a virtude, mas até prejudiciais. Entretanto, não será difícil provar que o conhecimento de nós mesmas e de outras muitas coisas é absolutamente necessário para aumentar-nos a persuasão de nossas obrigações morais. Com efeito, a principal razão que se apresenta de que tantas pessoas se deixam arrastar pelo vício e pelo desleixo com tanta precipitação, ou de que praticam a virtude com tanta indolência, é porque não se conhecem bem a si mesmos, nem aos objetos que os tocam. Ora, como pretender que eles dissipem esta ignorância, senão pelo estudo e ciência? Se tem havido algumas pessoas de nosso sexo tão deslumbradas de seu saber, que se possuem de vaidade, esta falta em si mesma é desculpável; é porque para aprenderem a ser humildes, não beberam no rio corrente da sabedoria, e só se demoraram em sua superfície.

Além de que, a raridade desta vantagem em nosso sexo e as dificuldades que essas mulheres têm encontrado a vencer para alcança-la, fazem a apologia da vaidade, que elas ajuntam ao seu mérito. Aconteceu-lhes o mesmo que a um homem de não-nada, que seu mérito e indústria têm elevado a uma dignidade muito acima da esfera de seus iguais: sobem-lhe à cabeça algumas fumaradas; além de que, se isto é uma falta, como não se pode duvidar, é falta em que laboram os homens todos os dias. Concedendo-se que os homens, ou as mulheres, se tornem culpáveis, não se deve fazer recair a culpa sobre as ciências, que [a isto] deram lugar.

A verdadeira causa deste defeito vem de que aqueles que são versados em qualquer ciência se reputam possuidores de uma coisa, que é um mistério para a maior parte do mundo. Mas seja como for, é mais provável que a vaidade dos homens sábios exceda a das mulheres sábias, como é fácil ver- se pelos títulos faustosos que arrogam a si. Se se admitisse às mulheres uma partilha igual das ciências e das vantagens que trazem, ou que delas derivam, elas seriam menos sujeitas à vaidade que esses conhecimentos costumam ocasionar.

É um grande absurdo pretender que as ciências são inúteis às mulheres, pela razão de que elas são excluídas dos cargos públicos, único fim a que os homens se aplicam. A virtude e a felicidade são tão indispensáveis na vida privada, como na pública, e a ciência é um meio necessário para se alcançar uma e outra.

É por ela que se consegue a exatidão do pensamento, a pureza da expressão, a justeza das ações; sem ela não se pode jamais ter um verdadeiro conhecimento de si mesmo; é ela que nos põe em estado de distinguir o bem do mal, o verdadeiro do falso, é ela que nos torna capazes de regular nossas paixões, mostrando-nos que a verdadeira felicidade e virtude consiste em restringir nossos desejos, do que em aumentar o que possuímos. Além disto, seja-me permitido notar o círculo vicioso em que esse desprezível modo de pensar tem colocado os homens sem o perceberem. Por que a ciência nos é inútil? Porque somos excluídas dos cargos públicos; e por que somos excluídas dos cargos públicos? Porque não temos ciência.

Eles bem conhecem a injustiça que nos fazem; e este conhecimento os reduz ao recurso de disfarçar a má fé à custa de sua própria razão. Porém deixemos falar uma vez a verdade: por que se interessam tanto em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

O mesmo sórdido interesse que os instiga a invadir todo poder e dignidade, os determina a privar-nos desse conhecimento, que nos tornaria suas competidoras. Como a Natureza parece haver destinado os homens a ser nossos subalternos, eu lhes perdoaria voluntariamente a usurpação, pela qual nos têm tirado das mãos o embaraço dos empregos públicos, se sua injustiça ficasse satisfeita e parasse nisto, mas como um abismo cava outro e os vícios sempre andam juntos, eles não se satisfazem somente com a usurpação de toda autoridade, têm mesmo a ousadia de sustentar que ela lhes pertence de direito, pois, a Natureza nos formou para ser-lhes perpetuamente sujeitas, por falta de habilidade necessária para partilhar com eles do governo e cargos públicos. Para refutar este extravagante modo de pensar, será preciso destruir os fundamentos sobre que está baseado.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens

Sinopse

Leia gratuitamente Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de Nísia Floresta, obra pioneira do pensamento feminista no Brasil em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir do fac-símile da Biblioteca Nacional, com cotejo em edição moderna, preservando a estrutura autoral em dedicatória, introdução, capítulos e conclusão para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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